sábado, 20 de abril de 2013

Cusco, a cidade dos Incas

Nativas do Peru, em Cusco, nas ruínas do antigo Império Inca

Fizemos essa viagem num roteiro apertado e corrido de apenas nove dias, mas posso dizer sem pensar duas vezes: foi uma  das melhores viagens que já fiz na vida! O relato que se segue são das nossas lembranças da época, já passados cinco meses daquela aventura, pois apenas depois da minha experiência no Peru, comecei a fazer anotações, durante as viagens.
Provavelmente, esse relato será dividido em vários postagens, pois tenho muita coisa pra contar!


No aeroporto de Cusco, conhecemos um grupo de gaúchos que fariam a trilha para Macchu Picchu e logo fizemos amizade. Já trocamos algumas informações e combinamos dividir o táxi até nossos hostels, que ficavam próximos. Havíamos feito reserva pra um hostel indicado por um amigo e chegando lá, descobrimos que nossa reserva estava errada e já não haviam mais quartos para casal. Apesar da confusão, o staff foi extremamente atencioso e nos pagou um táxi até outro hostel, onde eles já haviam se certificado da disponibilidade de um quarto semelhante ao que reserváramos. Essa mudança inesperada de hostel não nos prejudicou em nada e, muito pelo contrário, foi uma grata surpresa a qualidade e o atendimento do Ecopackers, nosso novo hostel. Posso dizer com tranquilidade que foi o melhor hostel que já me hospedei. No nosso quarto tinha até banheira! Sem falar do Lomo Saltado que foi o MELHOR que comemos em todo Peru. E ainda tivemos mais uma surpresa: nossos amigos gaúchos também estavam hospedados lá! Isso foi comemorado com Pisco Sour, cortesia do bar do hostel, além de algumas cervejas.

Os primeiros passos em Cusco: Plaza de Armas


Cusco fica a 3400m de altitude e nós sabíamos que precisávamos nos habituar ao ar rarefeito antes de tentar agir como atletas. Decidimos, então, usar esse primeiro dia para uma “leve” caminhada pela Plaza de Armas. Confesso que o cansaço me surpreendeu. Com poucos metros de caminhada já estava com falta de ar e parecendo que tinha corrido uma maratona. Precisei sentar e logo achamos uma senhora vendendo um saquinho com folhas de coca e ali mesmo fomos introduzidos à cultura local de mascá-las. O gosto é amargo e ruim e deixa o palato dormente, mas o fato é que funciona e confesso que passei os primeiros dias no Peru a base da folha de coca. Dá uma energia enorme e bastava mascar algumas folhinhas pra me sentir descansada pra mais um pouquinho de caminhada.  Além da coca, beber água também me ajudou muito. Não cheguei a sentir dor de cabeça, nem ânsia de vômito, mas cansava com qualquer esforço. Só consegui me acostumar mesmo depois de uns quatro dias, a partir de então já não sentia mais o efeito da altitude.

A Plaza de Armas me encantou de imediato! Uma praça simpática e acolhedora, onde os  cusquenhos se reúnem para passar o tempo e conversar. Ao redor da praça, a arquitetura é típica colonial, dominada pela enorme Catedral, onde entramos e  fizemos uma agradável visita guiada. O lugar é magnífico. Nós nos encantamos com o sincretismo religioso dos Incas e do Catolicismo, expressada principalmente pela Escuela Cusqueña de arte que uniu, em suas pinturas, elementos das duas culturas. O ponto alto da catedral é a pintura da Sagrada Família, onde os apóstolos são pintados com feições incas e Judas é retratado como o conquistador espanhol Francisco Pizarro, que tomou Cusco das mãos dos incas. 

Plaza de Armas de Cusco, no Peru.
Plaza de Armas de Cusco. À esquerda: catedral e à direita: igreja da Companhia de Jesus

Plaza de Armas de Cusco, no Peru
Plaza de Armas de Cusco
Aliás, esse sincretismo religioso marcou toda nossa viagem pelo país, tanto na arte, quanto na arquitetura, quanto no vestuário dos peruanos.

Nativas Inca e Católica, em Cusco no Peru.
Sincretismo da culturas inca e católica

Fiquei encantada com as roupas, principalmente das mulheres. Em Cusco (diferente do que acontece em cidades maiores, como Arequipa), as pessoas ainda usam roupas típicas: mulheres com  várias saias longas sobrepostas (pois lá as gordinhas são mais valorizadas que as magrinhas), cabelos repartidos ao meio em duas longas tranças até o fim do cabelo, onde ambas são amarradas juntas.  Esse vestuário iria me encantar ainda mais na feira de Pisac de domingo, onde os locais vestem suas melhores (e mais coloridas) roupas.
A única coisa que me incomodou foi uma certa “exploração” por parte dos turistas que gostam do exotismo desses trajes, o que gerou uma cultura local de pedir a famosa propinita para tirar fotos dos locais. Algumas mulheres levam suas crianças com trajes de gala para as ruas, sabendo que os turistas vão querer fotografá-las. Isso me incomodou um pouco  e cheguei a me indispor com uma moça que veio me pedir dinheiro após eu ter fotografado (ingenuamente) sua filhinha, enquanto ela brincava. Eu me neguei a pagar e apaguei a foto. Aprendi a lição e só voltei a fotografar os locais, em Pisac e lá dei a propina com gosto, ao ver a pobreza daquela gente.

San Blas, o bairro boêmio de Cusco

Saímos da Catedral e continuamos nossa caminhada, pela parte alta da cidade, o bairro de San Blas. Um lugar pitoresco, cheio de vida e de lugarezinhos aconchegantes. De lá, conseguimos ver o pôr do Sol, bem perto da Igreja de San Blas e voltamos, já esbaforidos de cansaço, ao hostel.

San Blas, bairro de Cusco, no Peru.
San Blas

Pôr do Sol em San Blas, bairro de Cusco, no Peru
Igreja de San Blas

Nessa primeira noite, dormimos cedo, não mais que 20h, em parte pela diferença de fuso e em (grande) parte pelo cansaço imposto pela altitude. Sono dos justos!

Ruínas incas ao redor de Cusco

Às cinco da manhã, já estávamos acordados e prontos pra conhecer as ruínas incas nos arredores de Cusco. Decidimos tomar um táxi até a ruína mais distante, Tambomachay e de lá caminhamos pela estrada, passando pelas diversas construções incas do caminho, terminando na mais importante delas: Sacsayhuamán. Esse é o trajeto inverso ao que os turistas geralmente percorrem, mas a ideia era fazer a caminhada em descida e assim cansar menos, afinal a altitude ainda estava nos judiando. Além disso, começaríamos pela ruína mais “simples” e terminaríamos com chave de ouro com a principal da cidade. A ideia era boa na teoria, mas acabamos cansando bastante durante o trajeto e confesso que não consegui aproveitar tanto Sacsayhuamán como eu gostaria, pois já não tinha mais fôlego pra nada, quando chegamos lá, mesmo assim o lugar me deixou arrepiada.

Chegamos em Tambomachay por volta das 7h e éramos os únicos por lá. São ruínas mais simples, entre fontes que pareciam ser usadas para cerimônias de adoração inca. Uma curta caminhada e já havíamos conhecido todo o sítio.

Tambomachay, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru.
Tambomachay
Logo ao lado está Puca Pucara, uma pequena fortaleza inca no meio de um campo encantador. A luz do começo da manhã deixou o lugar ainda mais mágico e passamos um bom tempo lá apreciando a arquitetura delicada e, ao mesmo tempo, robusta dos incas.

Puca Pucara, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Puca Pucara 
De lá, partimos para Q`enko e pegamos uma “carona” com um coletivo local bem baratinho (e fedido), que nos deixou bem em frente à ruína. Q`enko é praticamente um parque, onde os cusquenhos costumam ir nos fins-de-semana para aproveitar  os grandes campos de grama, fazendo piqueniques e jogando futebol. Fomos no domingo e vimos vários grupos desses. As ruínas, em si, me chamaram a atenção pro que ainda iríamos ver várias vezes no Peru: a genialidade dos incas na arte de entalhar as pedras presentes em cada local para fazer “brotar” da pedra rústica sua elaborada arquitetura. Nitidamente, em Q`enko eles fizeram isso! Existe uma enorme pedra, que já devia estar lá antes deles chegarem, em que  foram sendo talhados (sem faca e com as próprias pedras) os corredores e salas por entre as pedras até conseguirem construir o anfiteatro que funcionava lá.  Ainda não é uma arquitetura tão simétrica e elaborada, como vemos em Sacsayhuamán, ou Qoricancha, mas foi uma boa introdução para entender seu método de engenharia e arquitetura.

Q'enko, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Q`enko
Depois de passar um bom tempo tentando entender a lógica da construção, seguimos rumo ao que todos consideram a mais grandiosa ruína inca de Cusco: Sacsayhuamán. Fomos caminhando pelos bosques ao longo do caminho, cheio de árvores, grupos fazendo piqueniques e, pela primeira vez, vimos as famosas lhamas e alpacas (confesso que não consegui muito perceber a diferença de uma pra outra). Ao vê-las, cheguei a dar pulos de alegria, me sentindo cada vez mais no Peru do meu imaginário!

Bosque entre ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru.
Bosque entre Qùenko e Sacsayhuamán

Entre ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Lhama, ou alpaca? Eis a questão!

Essa pequena caminhada já foi suficiente pra me deixar extenuada. Chegamos em Sacsayamán pelo lado oposto ao da entrada e teríamos que descer uma encosta para entrar. Fomos andando pelas ruínas e várias vezes, sentávamos pra descansar. O cansaço e o sol de quase meio-dia, de fato, abalou nossa energia, mas nada que as folhinhas de coca não resolvessem.

Entre ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Pára um pouquinho, descansa um  pouquinho e masca uma folhinha de coca!
O tamanho daquele lugar me impressionou e nos arrependemos de não ter contratado um dos guias que estavam na entrada. Apesar de estarmos com nosso guia de bolso e já termos lido bastante, Sacsayamán tem tantos detalhes que valeria a pena uma visita guiada.
Logo na entrada, quase fomos atropelados por lhamas desgovernadas que estavam sendo pastoradas por um rapaz.  Foi uma divertida recepção e que, particularmente, me deu frio na barriga, pois as danadas passaram por nós a toda velocidade e eram muitas! 

Lhamas nas ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Lhamas desgovernadas
Seguimos,então,  por uma das trilhas que nos levaram a parte de trás da ruínas com uma bela vista panorâmica de Cusco. De lá, conseguimos ver a Plaza de Armas, onde estava sendo realizado o desfile cívico de domingo.

Desfile cívico em Cusco, no Peru.
Desfile cívico de domingo,em Cusco

Seguimos para o outro lado e após subidas e descidas intermináveis chegamos ao principal local da fortaleza: os muros em zigue-zague, construídas com pedras enormes (algumas bem maiores  que um homem alto), milimetricamente talhadas e dispostas numa simetria impressionante. Inicialmente, os incas projetaram Cusco, a capital do seu  império andino, no formato de um puma e sua cabeça era justamente Sacsayhuamán e esse gigantesco muro em zigue-zague representavam seus afiados dentes. A fortaleza era tão eficiente, que foi o último local invadido pelos espanhóis, na época da colonização peruana.

Sacsayhuamán, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Muro em zigue-zague, na fortaleza de Sacsayhuamán

Chegamos ao fim do passeio com a sensação que ainda faltava muita coisa pra ver; aliás o Peru nos causa essa impressão a todo momento. É tanta engenhosidade, tantos detalhes em cada lugar que fica difícil conhecer tudo de uma vez só. Demos por terminado nosso passeio mais pela exaustão física do que pela exaustão mental, pois a vontade era conhecer mais daquele lugar mágico.

Pegamos um táxi de volta ainda com o gostinho de quero-mais e fomos almoçar numa das famosas quintas  de Cusco, a Quinta Eulalia, a mais antiga da  cidade, num agradável jardim e com uma comida gostosa. Ali, experimentamos pela primeira vez a cerveja local, a Cusquenha, e vimos o porquinho da índia,o cuy, mas não tivemos coragem de comer. Ele vem inteiro com cabeça e tudo. Bem esquisito!

Depois de um longo e necessário descanso, seguimos para o famoso Templo do Sol, o Qoricancha e o Convento de Santo Domingo, construído em cima das ruínas do antigo templo após a invasão espanhola. Mais um exemplo do sincretismo e, dessa vez, da soberba européia, que construiu sua igreja em cima do que restou do mais suntuoso templo inca. Sabiam muito bem os espanhóis que a estrutura inca era mais resistente aos frequentes abalos sísmicos da região. E foi o que aconteceu: um forte terremoto, em 1956, fez com que o convento desmoronasse, mas a sua base (de pedras incas) manteve-se intacta e é o que visitamos até hoje. Do Templo do Sol inca foram roubados todos os ornamentos de ouro existentes em seu interior e levados para a Europa e não se sabe mais onde estão. Devem ter sido derretidos e virado jóias e peças da nobreza européia, muito provavelmente.

Em Qoricancha é possível ver um dos maiores exemplos da perfeição da arquitetura inca: um conjunto de janelas perfeitamente simétricas de tal maneira que olhando pela primeira janela é possível vislumbrar o lado de fora da última. para um povo que fazia contas com nós de corda tamanha precisão é impressionante.

Qoricacha, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Janelas simetricamente dispostas, em Qoricancha
Qoricancha, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Jardins do Qoricancha

Saímos de lá já no fim da tarde e fomos pro hostel nos organizar. Naquela noite, partiríamos rumo à Puno e precisávamos ir pra rodoviária compras as passagens do ônibus. Chegamos com antecedência e conseguimos comprar as passagens com relativo sossego, apesar do caos reinante na rodoviária, que estava lotada de nativos com grandes sacos coloridos amarrados nas costas e funcionários gritando nomes de destinos desconhecidos para nós. Aproveitamos o tempo livre pra jantar e fomos numa polleria indicada pelos funcionários do nosso hostel, que já tinham nos alertado que não era um local dos mais turísticos, o que, de fato, nos agradou. Entramos e fizemos nosso pedido não sem passar por certa dificuldade pra entender e nos fazermos entender pelo tímido garçom do local. Enfim, chegou nosso frango e o rapaz esqueceu os talheres, pedimos e ele trouxe apenas garfos!! Eu e o Thiago nos entreolhamos e foi impossível não cair na gargalhada. Olhamos em volta e percebemos que todos comiam desfiando o frango com o garfo e segurando com a mão mesmo pra apoiar. Em Roma, faça como os romanos. E comemos sem reclamar.

Durante o jantar, havíamos deixado nossas malas na recepção da empresa do ônibus e a funcionária nos garantiu que daí elas seriam despachadas. Minha intuição me mandou averiguar se, de fato, as malas seriam levadas e não deu outra: o motorista riu, quando perguntamos da mala e disse:

   - Cada um traz sua bagagem!

Fomos correndo até a recepção pra conseguir pegar tudo e despachar a tempo.
Já com nossas  bagagens seguras, nos aconchegamos dentro do ônibus e nos preparamos pras oito horas de viagem que teríamos pela frente até Puno. E, de fato, nos surpreendemos com o conforto dos ônibus de viagem, em todo Peru: todos com muita qualidade e conforto. Essa viagem foi feita com a Viação Tranzela e achamos o ônibus mais confortável de todos que pegamos no Peru, até mais que a  famosa (e cara) Cruz del Sul. Apesar de não ter sido uma noite perfeita de sono, conseguimos descansar e o caminho até Puno passou rápido.




Mais fotos:


Nativos descam na Plaza de Armas de Cusco no Peru
Plaza de Armas de Cusco


Plaza de Armas de Cusco
Plaza de Armas de Cusco

Sacsayhuamán, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Sacsayhuamán

Puca Pucara, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Puca Pucara

Tambomachay, ruínas do antigo Império Inca, em Cusco no Peru
Detalhe das pedras sobrepostas (sem argamassa), em Tambomachay

Sacsayhuamán
Encaixe das pedras mais elaboradas e polidas, em Sacsayhumán (observe a diferença da foto anterior)


Mais sobre o Peru:

4 comentários:

  1. Fantástico o relato!

    Para uma viagem curta, vocês tiveram ótimo aproveitamento de tempo. Lerei todos os posts com prazer.

    Obrigado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que gostou, Rafa! Conseguimos aproveitar mais o tempo viajando à noite e dormindo em onibus. Foi cansativo, mas valeu a pena!

      Excluir
  2. Estou indo para o Peru em Setembro e estou perdida com os gastos com alimentação. Me ajuda?!

    ResponderExcluir
  3. Giovanna, não gastei muito com alimentação. Comi bem e com preços justos (uns R$50 por pessoa/ por dia). Em Cusco, vale MUITO a pena comer no Hostel Ecopakers, caso vc se hospede com eles. O melhor Lomo Saltado que comi no Peru foi lá.Em Machu Picchu, aconselho levar lanche pra passar o dia, porque a única lanchonete que tem lá é absurdamente cara. Em Arequipa, recomendo o Cevillano, que não é tão barato, mas vale a pena. QUalquer coisa, é só perguntar! ;)
    Abraços

    ResponderExcluir