sábado, 11 de maio de 2013

Niterói: muito mais que um sorriso bonito

MAC (Museu de Arte Contemporânea) de Niterói
MAC- Museu de Arte Contemporânea

O jeito mais eficiente de irritar um niteroiense é dizer-lhe: a única coisa boa de Niterói é a sua vista para o Rio de Janeiro. Ele provavelmente dará uma lista de lugares, atrações e motivos para se conhecer a cidade sorriso, sem nem olhar pro outro lado da Baía de Guanabara. É claro que a vista pro Rio é imperdível com ângulos incríveis para o Pão de Açúcar, Cristo Redentor, Morro da Urca, etc. Mas Niterói é bem mais que isso.

Nós, niteroienses, aprendemos desde muito cedo a história do índio que ajudou os portugueses a expulsar os franceses da Baía de Guanabara, na época da colonização. Como recompensa, o tal índio Araribóia ganhou novas terras, já que as suas haviam sido invadidas pelos portugueses. Deu a sua nova tribo o nome Niterói, que significa "água escondida", em Tupi. Na verdade, essa foi uma ardilosa estratégia do então governador Estácio de Sá para manter seguro as duas margens da baía, evitando assim novas invasões. E assim, nasceu Niterói, que chegou a ser capital do então Estado da Guanabara, no período em que o Rio era capital federal.

Bem-vindo à Niterói...

Saindo do Rio, existem duas maneiras de se chegar a cidade: pela famosa Ponte Rio-Niterói e pelas históricas barcas. Construída no mandato do Presidente Costa e Silva, num exemplo daquelas obras megalomaníacas dos militares, na época da ditadura, a Ponte RioxNiterói percorre 13km de extensão que cortam de forma exuberante a Baía de Guanabara. A ponte é hoje a principal porta de entrada pra quem vai de carro à Niterói e é também onde os niteroienses passam um precioso tempo, em congestionamentos enormes no trajeto pro trabalho, já que Niterói ainda é uma cidade-dormitório, com a maioria dos seus habitantes trabalhando no Rio.
Ponte Rio X Niterói
A monumental ponte RioxNiterói
A outra possibilidade de se chegar é pelas barcas, com embarque nos centros das duas cidades e mais recentemente um catamarã que faz a travessia do Rio até Charitas, um bairro mais residencial e turístico de Niterói. O passeio feito nas calmas águas da Baía são uma opção gostosa, exceto nos horários do rush, quando o povo está se deslocando entre casa e trabalho e as lanchas lotam.
Barcas entre Rio de Janeiro e Niterói
Barcas que fazem a  travessia entre Rio e Niterói
Chegando em Niterói não há como não notar: sim, a famosa vista para o Rio parece nos perseguir. Grande parte do caminho pelo orla é feita ao lado de cartões postais, como Pão de Açucar e Cristo Redentor.

Parque da Cidade, a melhor vista do Rio de janeiro a partir de Niterói
Rio de Janeiro observado de um dos diversos pontos da orla de Niterói
Depois de um tempo, nos acostumamos com aquelas montanhas ao fundo e a vista pro Rio vira só mais um (magnífico) detalhe, que compõe o que ainda está por vir. Os atrativos da cidades podem ser divididos em dois: as praias de dentro da Baía de Guanabara (impróprias para o banho, mas com paisagens deslumbrantes) e a região oceânica com praias deslumbrantes e menos urbanas.

Niterói, Oscar Niemeyer e a Baía de Guanabara

Niterói é a segunda cidade com maior concentração de projetos arquitetônicos do Oscar Niemeyer, só perdendo para Brasília, obviamente, já que esta foi inteiramente projetada por ele. O Caminho Niemeyer percorre um trecho de cerca de 3km do centro da cidade até o bairro de Charitas, onde inúmeras obras do arquiteto estão dispostas com funcionalidades diferentes: museus, teatros, praças e a estação hidroviária.  O mais famoso e exuberante de todos é o MAC- Museu de Arte Contemporânea, cartão-postal da cidade e considerado uma das obras-primas da arquitetura moderna. Com uma localização privilegiada, no mirante da Boa Viagem, o MAC chama a atenção por sua forma exótica, mas ao mesmo tempo, harmoniza-se perfeitamente com a paisagem, como se fizesse parte dela, desde sempre. Uma explicação para essa integração é o fato de que a angulação da parede do museu é exatamente a mesma do Pão de Açúcar de tal forma que ambas formam duas linhas paralelas.
MAC de Niterói
MAC e Pão de Açucar,ao fundo, ambos em linhas paralelas

MAC de Niterói
Detalhe da parede do MAC em linha paralela ao Pão de Açucar
Um passeio pela Praia da Boa Viagem faz jus ao seu nome. É aqui o ponto mais estreito da Baía de Guanabara e onde há maior proximidade entre Rio e Niterói. Sempre me questionei do motivo da ponte não ter sido construída aqui, mas é claro que por motivos econômicos era melhor que a ponte unisse os dois centros e não dois lugares pouco movimentados. Ainda bem, porque podemos usufruir ainda hoje de um tranquilo passeio, observando a movimentação dos pescadores da região.
Próximo a costa, há uma ilha e lá em cima, a antiga Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. É possível atravessar a ponte e seguir até a ilha.

Boa Viagem em Niterói.
Ilha da Boa Viagem
Seguindo o caminho pela orla, a próxima praia é a de Icaraí, uma das mais movimentadas da cidade com inúmeras pessoas caminhando no calçadão e fazendo esportes na areia. O banho de mar em todas as praias da Baía de Guanabara são proibidos, mas sempre tem um  "corajoso" que entra naquela água (tristemente) suja. Aqui está o antigo cartão-postal da cidade (antes do MAC roubar seu posto), a pedra do índio e de itapuca.

O caminho continua pela Estrada Fróes até chegar em São Francisco, o bairro boêmio da cidade. Aqui a rua da praia é lotada de bares e restaurantes e ferve durante as noites. Do outro lado da calçada, em pequenas vans adaptadas, estão os carrinhos de cachorro-quente, uma das mais melhores lembranças da minha adolescência. É surpreendentemente delicioso comer sentada nos desconfortáveis banquinhos de plástico, tomando uma brisa e vendo a paisagem.
Entre São Francisco e Charitas, há uma pequena capelinha, uma das mais charmosas e delicadas que conheço e também  com uma vista deslumbrante pra baía.

Itaipu, em Niterói.

A próxima praia é Charitas e aqui é onde está a estação hidroviária do Niemeyer, onde acaba o Caminho Niemeyer, mas não as atrações da cidade.

A opção é continuar até a colônia de pescador de Jurujuba, um lugar charmoso e agradável com vários restaurantes que vendem peixe fresco, na beira da praia.

Seguindo por um caminho sinuoso e apertado (apesar de ser mão dupla) chegamos as Praias de Adão e Eva, pequeninas e lindas, consideradas as duas primeiras praias da baía. Dali há um caminho costeando o mar até chegar num dos pontos turísticos mais interessantes de Niterói: a Fortaleza de Santa Cruz. Construída na época da invasão francesa (os mesmos franceses que Araribóia ajudou a expulsar), a fortaleza era o principal ponto de proteção da baía de Guanabara, na época da colonização. De lá, eles tinham uma ampla visão da entrada da  baía, de tal modo que qualquer navio que se aproximasse era avistado e a potente bateria de canhões do forte poderia abatê-lo, caso fosse considerado inimigo.
Durante a ditadura, a fortaleza foi usada como local de tortura e prisão de dissidentes políticos.
Cresci ouvindo minha mãe contar de um tio (de criação) que foi torturado aqui, sendo deixado numa cela bem próxima ao mar, que enchia de água, quando a maré subia. Sua sorte é que era alto. Verdade, ou mentira? Não duvido de nenhuma das duas possibilidades.

Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói
Fortaleza de Santa Cruz e a entrada da Baía de Guanabara
Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói
Uma das celas (sem janela e com porta dupla) em que os prisioneiros ficavam em total escuridão

Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói
Detalhe da bateria de canhões

Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói
Entradas para a bateria de canhõe com Pão de açúcar, ao fundo

Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói
Um dos pontos de observação da entrada da Baía de Guanabara

No caminha de volta da Fortaleza, atrás da praia de Charitas, está o Parque da Cidade, onde podemos ver o pôr do Sol mais bonito da cidade. A subida é íngreme e o acesso é difícil, mas vale o esforço: o lugar é fantástico. Dali, partem alguns praticantes de asa-delta, numa pista que dá pra Baía de Guanabara e outra que dá pra região Oceânica. Já passei muitas tardes curtindo esse visual e nunca enjoei.

Vista do Parque da Cidade de Niterói
Vista do Parque da Cidade com o Cristo Redentor à esquerda e a ponte RioXNiterói à direita

Vista do Parque da Cidade de Niterói
Pôr do Sol no  Parque da Cidade

Vista do Parque da Cidade de Niterói
Parque da Cidade

A Região Oceânica de Niterói

Agora sim, posso falar do que mais gosto em Niterói: a Região Oceânica. Morei aqui por mais de dez anos e vivi tantas coisas nessas praias, que só de lembrar já me emociono. Vou fazer o relato em ordem crescente do meu interesse, ou seja, vou começar com a que gosto menos e terminar com a minha favorita.

A primeira praia é a de Piratininga. Confesso que é uma praia que não curto tanto. O mar é um tanto agitado e fica muito cheia nos fins-de-semana. O que, de fato, eu gosto aqui é um mirante que fica entre Piratininga e Camboinhas. Esse mirante fica bem em cima da Praia do Sossego, que aliás eu nunca fui, mas dizem que é linda. O acesso a Praia do Sossego é só por caminhada, o que deixa a praia mais deserta e rústica ainda. Escrevendo esse diário me dei conta que preciso fazer essa trilha com urgência.

Praia do Sossego, em Niterói
Mirante com vista para a Praia do Sossego (bem pequena à esquerda)
Continuando a trilha do mirante, tem um acesso para Camboinhas. Apesar desse não ser o caminho mais fácil pra chegar, eu gosto muito pelo visual lá de cima.
Camboinhas é uma praia como muitas do Rio: quiosques na beira do mar, bastante movimento e gente bonita. Tem a característica de não dar acesso à ônibus, o que faz com que seja uma praia mais elitizada.

Praia de Camboinhas, em Niterói
Vista Panorâmica da Praia de Camboinhas com a Pedra da Gávea e o Morro dos Irmãos, ao fundo
A próxima praia é uma das minhas queridinhas: Itaipu. Uma colônia de pescadores simples e rústica com uma praia de águas calmas e transparentes (quando vazia), um visual incrível pro Rio e um por do Sol de tirar o fôlego. Isso sem contar com o peixinho frito, acabado de sair do barco do pescador e a cervejinha gelada no ponto. É o paraíso! Mas Itaipu tem um problema: aqui é o ponto final de todos os ônibus que vão pra Região Oceânica e o fácil acesso traz uma multidão de gente, nos finais de semana. Portanto, o paraíso só funciona de segunda a sexta.

Praia de Itaipu, em Niterói
Praia de Itaipu 


Praia de Itaipu, em Niterói
Águas calmas, peixinho frito pescado na hora e esse visual pro Rio

Praia de Itaipu, em Niterói
Colônia de pescadores de Itaipu

A última praia e a minha preferida é Itacoatiara. Encravada entre duas montanhas, Itacoatiara mantém sua rusticidade e isolamento, quase como um santuário ecológico. No canto direito, uma pedra enorme divide a prainha (com mar manso e frequentado pelas crianças) do praião (com mar forte e frequentado pelos surfistas). Itacoatiara é deslumbrante. Nunca vou me esquecer da experiência de vê-la em alto-mar, numa ocasião que passeava de barco com uma amiga, há muitos anos atrás. Naquela ocasião, tive a impressão que ela está destacada do resto da costa, pelo fato de estar circundada por montanhas. Foi sensacional!
Itacoatiara faz parte da minha história. Aqui vivi bons e maus momentos, todos inesquecivelmente meus, que fazem parte do que sou.

Praia de Itacoatiara, em Niterói
Itacoatiara com a Pedra do Elefante, ao fundo
Praia de Itacoatiara, em Niterói
Prainha
Essa é a Niterói dos meus olhos. A cidade que nasci e me ensinou a fazer como as ondas, que vão e vem ao sabor da maré e nunca ficam paradas num lugar só.




Mais fotos:
Praia de Itacoatiara, em Niterói
Itacoatiara

Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói
Farol da Fortaleza de Santa Cruz

Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói
Fortaleza de Santa Cruz

Praia de Itaipu, em Niterói
Praia de Itaipu

Praia de Itaipu, em Niterói
Praia de Itaipu

Terminal das Barcas


Mais sobre o Rio de Janeiro:

4 comentários:

  1. Tive meio dia para conhecer Niterói, confesso que amei a Nikiti. Mas não deu tempo de fazer muita coisa. Mas já vou anotar algumas dicas sua para a próxima vez!

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  2. Ei, Deivson! Que alegria você por aqui!
    Então... a maioria das pessoas vai à Nikiti num bate-e-volta a partir do Rio. É válido, claro, mas Niterói tem muuuuuita coisa bacana que merece, pelo menos, uns dois dias inteiros.
    Minha dica principal é em relação às praias: se hospede na região oceânica, onde ficam as melhores praias da cidade (mesmo se comparado às do Rio). Itacoatiara é a minha preferida da vida e Itaipu é a mais autêntica e com o pôr do Sol mais lindo (só fuja dos finais de semana, porque ela LOTA). O Parque da Cidade também é outro lugar imperdível com uma vista linda demais da conta tanto da Baía de Guanabara, quanto da Região Oceânica.
    Qdo vc for, me avisa, que se eu estiver por lá, fazemos um city-tour nos meus lugares secretos! ;)

    Bjos e boas festas, querido! :)

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  3. Eliana, adorei essa mostra de Niteroi. Lugares lindos!

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    1. Alzir Pri, Niterói é um charme só, né? Eu me orgulho de ter nascido nessa terra. Obrigada pela visita ao blog!
      Abraços e boas festas,
      Ana

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