domingo, 16 de junho de 2013

Encantos do litoral do Piauí: Cajueiro da Praia

Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções

O Piauí tem um litoral pequeno, com pouco mais de 60km de extensão e nele encontram-se apenas quatro munícipios (Cajueiro da Praia, Luis Correa, Ilha Grande e Parnaíba). A despeito do tamanho, apresenta um rico patrimônio ambiental com praias lindas e bem conservadas. Pra mim, foi uma grata surpresa a intensa preocupação ambiental, na região. Em Cajueiro da Praia, vimos cartazes informativos sobre a proibição de carros na areia, assim como sobre a proibição de construções em áreas de restinga. Sem falar no trabalho belíssimo da ICMbio com o Projeto Peixe-boi, que visa a proteção de uma população de cerca de vinte integrantes dessa espécie que vivem no estuário do Rio Timonha.
Em Cajueiro da Praia, fomos recebidos por um povo hospitaleiro e solícito, que ainda vivi com uma tranquilidade difícil de ver nas  grandes cidades. Muitas conversas agradáveis e visuais deslumbrantes, fizeram com que mudássemos nosso roteiro, que inicialmente previa uma rápida passagem na cidade. Acabamos ficando quase dois dias lá e ainda foi pouco pra conhecer todas as riquezas da região.

Saímos de Camocim com a van do Junior e descemos no meio da estrada, num posto de gasolina, no município de Camorupim, já no Piauí.
Dali, esperaríamos outro coletivo da empresa Rosana que nos deixaria em Cajueiro da Praia. Essa foi uma logística que tivemos que estudar bem, pois haviam poucas informações disponíveis sobre o deslocamento nesse trecho. Ainda bem, deu tudo certo e esperamos menos de 30 minutos até que o ônibus passasse.
É ainda comum nas pequenas cidades do nordeste que os ônibus, vans e paus-de-arara busquem e levem cada passageiro em sua casa, fazendo com que as viagens aconteçam com longas paradas e sem nenhuma pressa. Usamos desse recurso e pedimos para que o motorista nos deixasse próximo à ICMBio, afinal nosso principal objetivo era ver os famosos peixes-boi de Cajueiro.

ICMBio de Cajueiro da Praia

Sabíamos que havia um trabalho de observação dos bichos todas as segundas, quartas e sextas, feita pelos instrutores do projeto e nossa ideia era participar desse momento.
A sede da ICMBio fica numa casa bem próxima à praia e lá fomos recebidos pelo Vitor, segurança do local. Na verdade, o Vitor é muito mais que um segurança; é um entusiasta do projeto e conhece tudo sobre o trabalho de preservação ambiental, na região. Tivemos uma longa conversa com ele e descobrimos que maio é a época reprodutiva dos peixes-boi e eles ficavam pra dentro do Rio Timonha e não  estavam sendo vistos nos postos de observação do projeto, que ficam mais próximos ao mar.
Vitor nos contou que, nessa época, alguns biólogos contratam barqueiros para os levarem até dentro do rio, assim eles conseguem estudar o comportamento reprodutivo dos animais. Além disso, nesse período, fica mais fácil de observá-los, já que ficam agitados, batendo as nadadeiras na água e fazendo malabarismos para chamar a atenção das fêmeas. Fiquei animada com a ideia e decidimos procurar um barqueiro para nos levar também, afinal não somos biólogos, mas somos curiosos. O Thi foi na moto do Marcinho, um dos instrutores, na casa do seu Biel, conhecido barqueiro da região e deixou acertado o passeio para a manhã seguinte. Pronto! Estava decidido que ficaríamos mais um dia lá e teríamos, então, o resto da tarde para curtir a cidade e as praias de Cajueiro.
Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Cajueiro da Praia

Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções

Como não tínhamos planejado dormir na cidade, tivemos que buscar informações de hospedagem e caminhamos (num calor dos infernos) para descobrir alguma pousada. Bom, não foi difícil achar, afinal a cidade é bem pequenina e só haviam duas opções. Optamos pela Pousada Takavi, que tinha o diferencial com opções de refeição, afinal não vimos restaurantes pela cidade (depois, descobrimos que há apenas um, distante do centrinho). E foi uma ótima escolha. Seu Badu e Dona Ana, donos da pousada, nos receberam muito bem. Éramos os únicos hóspedes e nos sentimos em casa, inclusive fizemos as refeições juntos, já que ali é a casa deles. Tivemos agradáveis conversas sobre qualidade de vida e a tranquilidade das pequenas cidades, que nos fizeram repensar algumas prioridades pessoais. Seu Badu nasceu em Cajueiro, mas passou mais de trinta anos trabalhando no Pará e voltou pra sua terra natal depois de se aposentar. Hoje, não troca seu sossego naquele recanto por nada. Eu o compreendo.

Marcamos o jantar com Dona Ana às 19h, mas ainda era cedo e a fome estava apertando. Fomos, então, na padaria em frente à pousada na esperança de comer algo por ali, mas eles não faziam lanche. Conversamos com o atendente e pedimos só uma manteiguinha pra passar no pão e estava feito: nosso grande almoço do dia. Comemos no escuro, pois a padaria estava sem energia. O padeiro, que é de Parnaíba e está apenas a três meses morando em Cajueiro, nos contou que a falta de energia é frequente na região e isso tem  atrapalhado seus negócio. Mais  tarde, descobrimos que naquele dia, o problema tinha sido com uma casa que  fez uma instalação elétrica errada (gato será?), o que levou ao curto-circuito de toda a rede. Apesar desse problema, o novo morador estava feliz com seu negócio e com a qualidade de vida na cidade. Chegou a nos dizer que não quer mais saber de voltar pra Parnaíba.

A Barra Grande, a filha famosa de Cajueiro da Praia

Depois do almoço, tivemos a ideia de ir até Barra Grande, que vem recebendo intenso investimento turístico, principalmente de estrangeiros. Conversamos com vários moradores de Cajueiro que nos falaram muito mal de lá, dizendo que era caro e cheio e insistentemente nos lembravam que Barra Grande faz parte do município de Cajueiro da Praia. O problema era como chegar lá. Apesar da pouca distância (13km em estrada asfaltada) não há transporte direto entre as duas praias. Conversamos com seu Badu e ele rapidamente agilizou dois rapazes para nos levarem de moto. No caminho, passamos pela comunidade da Barrinha, simples e charmosa, cheia de casas com flores no jardim.

Chegamos em Barra Grande já na hora do Pôr do Sol e logo me dei conta de que a má propaganda feita pelo povo de Cajueiro era um pouco exagerada. Vimos muitos nativos e poucos turistas. E algumas barracas na praia. Claro que o tempo que ficamos lá não foi suficiente para avaliar a situação a fundo, mas me pareceu que Barra Grande (ainda) está longe de ser um lugar tão hostil aos nativos, como se tornou Jericoacoara.
Lá vimos um pôr do sol fantástico.

Pôr do Sol na Barra Grande, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Pôr do Sol, na Barra Grande

Pôr do Sol na Barra Grande, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções

Voltamos pra Cajueiro já à noite e depois do banho, fomos jantar com nossos anfitriões. A prosa rendeu tanto, que perdemos a noção da hora e quando nos demos conta, fomos correndo pra cama, já que na manhã seguinte, a alvorada seria às 5h da manhã rumo ao peixe-boi.
Dormimos sozinhos no andar superior da pousada e de porta aberta pra ventilar o quarto. Achei aquilo uma maravilha.

Rio Timonha, seu Biel e os peixe-boi 

Seu cacau acordou ainda no escuro para não perdermos o horário. Quanta gentileza nesse povo amigo. Fomos caminhando até o encontro do Seu Biel, nosso barqueiro. A chegada no Rio Timonha foi magnífica. O Sol nascia bem nas margens do Rio e mesmo com o tempo meio encoberto, foi lindo ver o dia clareando ali.
Rio Timonha, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Sol nascendo no  Rio Timonha

Seu Biel queria seguir na direção da foz do rio, mas falamos pra ele sobre o que o pessoal do ICMBio nos dissera na véspera sobre os peixes-boi estarem mais pra dentro. Encontramos com a canoa dos instrutores do projeto e eles nos confirmaram a informação. Seu Biel achou estranho, mas seguiu a orientação. Navegamos por alguns quilômetros no rio e a paisagem era espetacular. Passamos por várias canoas de pescadores e por currais de pesca, mas nada de peixe-boi.

Rio Timonha, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Um dos inúmeros currais

Depois de uma hora navegando pelo rio sem nem sinal dos animais, Seu  Biel insistiu para que voltássemos para a foz. Ele havia avistado vários peixes-boi na véspera, próximo a desembocadura do rio e tinha certeza que eles estariam lá. Aceitamos a sugestão e partimos naquela direção. Quando chegamos, perguntamos a alguns pescadores e eles disseram que tinham os visto, mais cedo, indo na direção do mar. Ou seja, se tivéssemos aceitado a sugestão do Seu Biel, desde o princípio, teríamos visto os bichanos. Essa foi uma das muitas lições que tivemos na viagem: nunca desmereça a sabedoria de um pescador. Na maioria das  vezes, eles conhecem mais a natureza que qualquer biólogo catedrático.
Na volta, conversamos mais com nosso sábio barqueiro e ele falou tanta coisa sobre os manguezais e o rio e nos mostrou aonde ficam escondidos os filhotinhos de tantas espécies de animais diferentes que me deu vontade de passar o dia ali conversando com ele.
Nativo do Piauí no Rio Timonha, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Seu Biel e sua canoa

Depois do passeio, Seu Biel nos chamou para tomar um café em sua casa e nos mostrou com orgulho sua plantação de milho e de alguns legumes que utiliza para subsistência de sua família. Ali, ele tem também vacas (de onde tira seu próprio leite), galinhas e porcos. Seu Biel nos contou, que tentou morar na cidade grande por um tempo e não conseguiu. Sentia-se preso e sem liberdade. Ali na sua terra, ele tem praticamente tudo que precisa, com a liberdade da natureza e de não trabalhar pra ninguém. Sua casa é simples, bem pobre mesmo. Queria ter fotografado, mas fiquei receosa de contrangê-lo e a sua esposa, que se mostrou muito tímida e retraída. Optei por deixar apenas na memória as lembranças daquela família humilde, mas cheia de dignidade.

Voltamos pra pousada para o café-da-manhã com Seu Badu e Dona Ana. Mais prosas e, de  repente, já era quase na hora de pegarmos o ônibus para Parnaíba, que Seu Badu já ajeitou para que o motorista nos pegasse lá. Despedidas saudosas (e que se repetiram inúmeras vezes ao longo dessa viagem pelo nordeste) e seguimos rumo à Parnaíba.



Mais fotos:

Pôr do Sol na Barra Grande, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Barra Grande

Barra Grande, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Barra Grande

Barra Grande, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Barra Grande

Rio Timonha, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Amanhecer no Rio Timonha

Rio Timonha, em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções
Posto de observação da ICMBio

Nativo em Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções

Cajueiro da Praia, na Rota das Emoções


10 comentários:

  1. Estarei fazendo a Rota das Emoções em março/2014. As dicas estão sendo muito úteis, estou "anotando" tudo.
    Parabéns pelo Site. Fotos e dicas maravilhosas.
    Abraços.


    http://dilbertrj.blogspot.com.br/

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  2. Olá, Luiz Fernando. Essa foi uma das melhores viagens que já fiz. Tenho certeza que você vai curtir demais. Cajueiro da Praia foi uma descoberta incrível e ainda é um lugar bem pouco turístico.
    Se precisar de algo, é só chamar! ;)

    Abraços

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  3. Olá Ana, lindo relato, maravilhosas fotos. Irei agora em dezembro, época seca, mas acredito q ainda assim será lindo. Você comentou sobre o transporte entre Camocim e Cajueiro; vcs fretaram a van ou conseguiram dividir com mais gente? se importariam em dizer qto pagaram na época?

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  4. Oi, Letícia. Na verdade, fizemos todo o transporte pela Rota das Emoções de transporte público (exceto no trecho entre Paulino Neves e Caburé, quando contratamos um buggy). O trecho entre Camocim e Cajueiro fizemos em dois meios: pegamos a Van do Leo, um transporte de linha que faz o trecho entre Camocim e Parnaíba diariamente (a van sai de um "terminal" de ônibus, numa praça de Camocim). Acho que pagamos R$15 nesse trecho. Daí, descemos no meio da estrada, num posto de gasolina, em Camorupim. Nesse posto de gasolina, pegamos um ônibus da empresa Rosana que nos deixou em Cajueiro. Esse foi uns R$3,00. Apesar de parecer complicado, foi bem tranquilo fazer essa baldeação e não tivemos dificuldades. Claro que não é tão confortável, mas é bem possível.
    Deve ter como contratar um transporte particular, mas imagino que deva ficar bem mais caro, até porque Camocim e Cajueiro não são cidades que recebem muitos turistas.
    Se precisar de mais alguma informação, fique à vontade em perguntar!
    Abraços

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    1. Sou piauiense e sei como é complicado viajar de transporte público. Fiquei feliz ao seguir que foi tranquilo, pretendo semana que vem fazer esse trajeto Parnaíba - Camocim. Obrigada pelas informações riquíssimas!!

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    2. Sua terra é boa demais, Emanoele! Boa viagem e depois vem aqui nos contar como foi! :)

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  5. Moro em Teresina há cinco anos. .e ainda não conheço. . Mas irei em breve. Parabéns pelo blog.

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    1. Vale muito à pena, Marcel! Você vai gostar! :)
      Que bom que gostou do blog! Fico mesmo muito feliz! Volte mais vezes!
      Beijos

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  6. Olá Ana, tudo bem? Ótimo relato! Obrigada pelas dicas preciosas! Você chegou a fazer a rota Cajueiro da Praia - Luis Correia de transporte público? Como fez? E Parnaíba a Teresina? Abs, Ana Carolina.

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    1. Não fui pra Luis Correia, nem Teresina, infelizmente! :(
      Mas Parnaíba e Teresina são as duas maiores cidades do Piauí, então o transporte entre elas é fácil!
      Abraços

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