terça-feira, 4 de junho de 2013

A linda e convalescente Jericoacoara

Pôr do Sol na Pedra Furada, em Jericoacoara

Conhecer Jericoacoara era um sonho antigo. Tudo que eu lia e ouvia sobre aquele lugar me encantava e me motivava ainda mais pra viagem. A beleza, de fato, não me decepcionou. É verdadeiramente esplêndido o pôr do Sol no mar, assim como na pedra furada. Andar pelas ruas de areia é uma delícia. Sem falar na animação do centrinho à noite. Entretanto, me surpreendi ao conhecer a realidade dos moradores e me preocupou o rumo que a vila tem seguido.
Jericoacoara tornou-se um dos destinos turísticos mais badalados do mundo. A antiga colônia de pescadores de vinte anos atrás já não existe mais. Jeri foi invadida por empresários do mundo inteiro e hoje se mantém com uma única atividade econômica: o turismo.
Mas nem sempre foi assim. Localizada dentro de um mar de dunas e com acesso difícil, manteve-se desde sua fundação (no século XVII) praticamente isolada do resto do mundo, sendo frequentada apenas por pescadores e alguns poucos aventureiros. Isso mudou na década de 80, quando foi redescoberta e tornou-se alvo de intensa especulação imobiliária e investimento turístico, tornando-se a Jeri que conhecemos hoje.
Todo esse movimento trouxe fama ao vilarejo, mas infelizmente não trouxe desenvolvimento para a população local. O uso de drogas aumentou consideravelmente entre os nativos e muitos pescadores tiveram suas vidas destruídas pela dependência do crack, que chega sem dificuldades à região. Além disso, os antigos moradores foram praticamente expulsos da vila, já que ficou caro demais viver ali e os que não migraram pra outros locais mais tranquilos (como a praia do Mangue Seco, por exemplo), hoje moram em "favelas", na periferia do vilarejo.
Apesar disso, Jeri ainda consegue ser encantadora e sua beleza faz valer a pena todo o esforço para chegar até lá. Para manter viva essa áurea mágica só nos resta investir em um turismo mais sustentável e que respeite as realidades locais para levar progresso e não a destruição de lugares, como esse.


Dia 16/5/13: Pedra Furada

Para chegar a Jeri, contratamos o serviço da Agência Enseada (a mesma que usamos para ir à Águas Belas), que nos pegou na casa do meu pai, em Fortaleza e nos levou até a pousada em Jeri. Foi barato e prático, apesar de não muito confortável. A estrada é a Ce-085 e, mais uma vez, constatamos que ela é mesmo muito ruim: esburacada, mal sinalizada, sem postos de gasolina, ou estrutura de restaurante. O ônibus fez uma parada rápida numa lanchonete, no meio do caminho e praticamente estacionamos no acostamento da estrada, pois não havia onde parar carros.
O ônibus só vai até Jijoca. Entre Jijoca e Jeri, o transporte é feito de pau-de-arara. Naquele momento, foi uma aventura atravessar o Parque Nacional de Jericoacoara, entre as dunas e achei que aquilo seria o máximo de adrenalina que iríamos encarar. Ao longo da viagem, entretanto, descobri que esse trecho é até bem tranquilo comparado com outros que fizemos cheios de atoleiros e areia fofa (entre Paulino Neves e Caburé, por exemplo, ou entre Santo Amaro e Sangue- o pior de todos).
Estrada em Jijoca e Jericoacoara
"Estrada" entre Jijoca e Jeri

Chegamos em Jeri na hora do almoço e como não tínhamos nenhuma pousada reservada, aceitamos a sugestão do guia da agência. Fomos pra lá e levamos um susto, quando abrimos a porta do quarto: mosquitos (ou muriçocas, como eles chamam) pareciam ter criado ninho lá dentro. Não tinha condição nenhuma de ficarmos ali e mudamos para outra pousada: a Pedra Furada. E gostamos bastante.
Fomos almoçar e descobrimos um pequeno restaurante, do lado da pousada, com comida boa e barata (R$10 o prato bem servido!). O restaurante chamava-se Nativas e, coisa rara na vila, era de fato, de nativos, já que atualmente a maioria dos restaurantes de Jeri são de gringos, ou de paulistas. Ali, tinha muita mosca. Pensei que pudesse ser do restaurante, mas depois percebi que Jeri está infestada de moscas por toda parte. É só comer, ou beber algo que elas aparecem. Sem dúvida, foi aqui o lugar que mais elas nos incomodaram. Nas outras cidades, tinham moscas, mas não em tamanha quantidade. Não sei se pela falta de vento (que só sopra entre agosto e janeiro), ou  pelo crescimento do vilarejo mesmo, mas o fato é que elas nos chamaram a atenção.

Depois do almoço, seguimos para o ponto mais famoso da cidade: a pedra furada. Para chegar lá fizemos uma caminhada de uns 40 minutos, descendo um morro que eles chamam de serrote. É tranquilo chegar, mas como não conhecíamos o caminho, seguimos o Lagartixa, figura conhecida na vila, que todos os dias, próximo ao horário do pôr do Sol, pega seu isopor com água, cerveja e refrigerante e conduz a turistada até a pedra. Claro que para os que sentem sede no caminho, ele vende seus produtos e ganha seu trocado. Justo.
O caminho já é um passeio. É possível avistar a praia de Jericoacoara e a famosa duna do pôr do sol de um lado e o serrote do outro.

Duna do Pôr do Sol, em Jericoacoara
Praia de Jeri e duna do pôr do Sol, vista do serrote


A caminhada termina com ela: a pedra furada. Chegamos já com o sol bem baixo, próximo de se por e com a luz do fim do dia, ela fica ainda mais bonita. Infelizmente, estava lotada de gente, mesmo sendo baixa temporada. Mas lugar muito turístico é assim mesmo, não tem jeito. Ficamos um pouco afastados pra fugir da confusão e conseguimos curtir melhor o visual. Queria ter curtido mais a pedra, mas a concorrência era grande e vi que o povo estava até estressado pra conseguir tirar fotos. Nessas horas, me dou conta do quão melhor é conhecer lugares ainda pouco explorados do ponto de vista turístico, como a Vila Nova de Tatajuba, que conheceríamos nos próximos dias.
Saí com a sensação que poderia ter aproveitado melhor, se estivesse mais vazio. Poderíamos ter chegado mais cedo, se soubéssemos que o caminho era fácil. Mas mesmo assim me encantei com o lugar e acho que valeu a pena.


Pôr do Sol na Pedra Furada de Jericoacoara
Pedra Furada

O caminho de volta é um pouco mais cansativo, pela subida do serrote, que é bem íngreme, mas nada impossível.

Voltamos já no escuro e curtimos um céu bem bonito, antes de chegar na vila.
À noite, saímos pra comer e achei os preços dos restaurantes muito caros e me decepcionei por não  haver nenhum forró, no período que estaríamos lá. Parece que os forrós são as quartas e sábados apenas.
Depois do jantar, fomos numa das inúmeras barraquinhas que vendem drinks, no fim da rua principal. Conhecemos a Amanda, dona da barraca e nativa de Jeri, que nos falou sobre os problemas que os antigos moradores estão vivendo, principalmente com as drogas e a violência crescente na vila. Ela nos contou que no último ano, quatro traficantes foram mortos na região. Ainda é pouco se comparado às grandes cidades, mas considerando um vilarejo, onde moram menos de vinte mil pessoas (somando Jijoca e Jeri) é preocupante.
Ficamos um bom tempo conversando com a Amanda e tomando caipirinha. Nossas favoritas foram a de umbu-cajá e kiwi com gengibre. As duas deliciosas.
Saímos de lá um pouco tontos e, ideia de bêbado, resolvemos ir pra praia no escuro. Andamos pela areia e, de repente, levamos um tombo. Sem enxergar direito e sem conhecer a praia, acabamos pisando numa parte da areia que era lodosa e obviamente que com a ajudinha do nosso teor etílico elevado, escorregamos e caímos. Não desistimos da empreitada e seguimos bravamente até o mar, onde nos limpamos e nos deparamos com um céu fenomenal: a lua quarto crescente amarelinha, quase encostando no mar e muitas estrelas. Pena que eu não estava com a máquina fotográfica. Ficamos por lá vendo aquele espetáculo e por volta da meia noite, a lua se pôs no mar e, só então, fomos dormir.

17/05/13: Lagoa azul e do paraíso

Jeri tem algumas opções de passeios de buggy e acabou virando padrão fazê-los através de agências de turismo, para conhecer os locais próximos à vila. Acabamos fazendo isso com a mesma Agência Enseada (que nos trouxe para Jeri), mas hoje teria feito diferente: iria chegar em Jijoca, ir de moto-táxi direto para lagoa do paraíso (que é bem próxima da cidade) e só depois iria pra Jeri. Assim, teria economizado a grana que gastamos de buggy e teria mais liberdade de ficar o tempo que quisesse na lagoa. Perderíamos a lagoa azul, mas não achei essencial conhecê-la. 
De qualquer forma, o passeio no buggy foi interessante e valeu a pena. Dividimos o carro com um casal soteropolitano simpatissíssimo, Juliana e Nicolas, que foram ótimas companhias e tornaram-se nossos amigos rapidamente. Saímos por volta das 9h de Jeri e seguimos pela praia, passando por alguns pontos (não sei se são os mais interessantes, mas todos os buggueiros paravam nos mesmos locais). A primeira parada foi numa tal "árvore da preguiça", cujos galhos foram retorcidos e seu tronco tombou pela ação do vento.
Árvore da Preguiça, em Jericoacoara
Árvore da preguiça
Seguimos o passeio e chegamos a praia do preá e nem posso dizer que a conhecemos, pois paramos tão rápido, que só serviu mesmo pra tirar uma foto pra recordação e nada mais.

Praia do Preá, em Jericoacoara
Praia do Preá
Finalmente, chegamos a lagoa azul, localizada no município de Cruz. O buggy pára próximo, mas precisamos atravessar a lagoa para chegar no restaurante do lugar. Eles deixam mesas e cadeiras dentro da água e sentados ali vemos pequenos peixinhos se aproximando de nós de tão cristalina é a água. 
Lagoa em Jericoacoara
Água cristalina e peixinhos a vista

Pena que (mais uma vez) o lugar estava lotado e tivemos que caminhar pela lagoa pra fugir da muvuca. 
Lagoa Azul, em Jericoacoara
Lagoa Azul
Em seguida, partimos para a lagoa do paraíso. O buggueiro nos levou pra uma barraca agradável, pouco movimentada, mas cara e com uma comida razoável. 
De fato, a lagoa do paraíso é paradisíaca: águas transparentes, redes dentro da lagoa e um ventinho gostoso e constante. Está localizada no município de Jijoca e no período de chuvas une-se a lagoa azul, formando uma única lagoa. Ficamos um bom tempo lá e foi uma delícia.

Lagoa do Paraíso, em Jericoacoara
Lagoa do Paraíso


Voltamos para Jeri por volta das 15h e fomos direto pra praia. O calor estava escaldante e descobrimos um bar bem na frente da praia, que estava fechado, mas tinha umas espreguiçadeiras embaixo de uma árvore com uma sombrinha sedutora. Deitamos lá e demos um cochilo gostoso até umas 16h, quando fomos em direção à famosa duna do pôr do Sol.
Duna do Pôr do Sol, em Jericoacoara
Praia de Jeri e duna do pôr do Sol
Subimos a duna e lá de cima tivemos um bom panorama da região, entretanto, resolvemos descer e tomar um banho de mar e lá ficamos até o Sol se pôr.
O pôr do Sol em Jeri é algo indescritível. Ele se põe no mar, exatamente no horizonte. Coisa rara de acontecer, no Brasil. 
Pôr do Sol em Jericoacoara
Pôr do Sol em Jericoacoara
Quando o Sol desaparece no horizonte é aquela alegria: todos batem palmas e descem as dunas correndo, rolando, cantando. É divertido. Na volta da vila, um grupo jogava capoeira e ficaram ali até ficar completamente escuro. Achei que fossem cobrar, mas parece que fazem por prazer mesmo. Não pediram nada.
À noite, encontramos nossos amigos de Salvador e jantamos juntos. Muito agradável.

Dia 17/5/13: Lagoa da Torta e Tatajuba

Esse passeio é tradicionalmente feito por quem visita Jeri, mas no nosso roteiro, separamos o passeio de Tatajuba dos de Jeri. Fizemos isso, principalmente por um motivo: em Tatajuba nos hospedamos com a Rede Tucum, um projeto de turismo comunitário. E essa foi uma experiência tão especial para nós, que vou deixar para contar num post separado.


Mais fotos:

Pedra Furada de Jericoacoara
Pedra Furada

Pôr do Sol na Pedra Furada de Jericoacoara

Pedra Furada de Jericoacoara

Lagoa Azul de Jericoacoara
De buggy para a lagoa azul

Lagoa Azul, em Jericoacoara
Lagoa Azul


Praia de Jericoacoara e duna do pôr do Sol
Praia de Jericoacoara e duna do pôr do Sol, à esquerda

Do alto da duna do pôr do Sol em Jericoacoara
Vista da duna do por do Sol


Jericoacoara
Praia de Jeri


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