quinta-feira, 4 de julho de 2013

Os Pequenos (e lindos) Lençóis Maranhenses

Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves


Num município de pouco mais de 15 mil habitantes e que há apenas um ano atrás não possuía nenhum acesso por estrada asfaltada, Paulino Neves (ou Rio Novo, como é chamado pelos nativos) surpreende pela sua exuberância natural, principalmente por suas dunas e lagoas, que são chamadas de Pequenos Lençóis Maranhenses. Dizer que é pequeno parece diminuir a magnitude daquele lugar, que é de uma beleza ímpar, apesar de ser realmente bem menor que os (Grandes) Lençóis Maranhenses. Suas dunas ficam a rápidos quinze minutos de caminhada do centro da cidade e suas lagoas são deliciosamente cristalinas.
Além das  belezas naturais, nos surpreendeu a triste realidade local: corrupção, riscos ecológicos e crescimento preocupante. Problemas que observamos em vários locais do nordeste, mas que aqui ficaram ainda mais evidentes, principalmente pelas conversas com Seu Nazareno, nosso anfitrião e uma lenda viva de Rio Novo.

Paulino Neves


Saímos de Tutóia já no fim da manhã num dos inúmeros carros que fazem o trecho até Paulino Neves. A estrada é toda asfaltada e boa, afinal de contas foi construída há apenas um ano. Antes do asfalto, o acesso pra Paulino Neves era apenas de estrada de terra, ou melhor, de areia fofa.
Não tínhamos reservado hospedagem e nosso motorista nos sugeriu numa pousada bem simples (e ruim): a Pousada Palomas. Depois, andando pela cidade, achamos a casa do Seu Nazareno (que eu já havia lido a respeito e sabia que recebia turistas) e com uma rápida conversa decidimos nos hospedar com ele. Seu Nazareno é extremamente envolvido nas questões políticas, ecológicas, sociais e turísticas de Paulino Neves e conversar com ele foi, sem dúvida, uma das experiências mais interessantes de toda nossa viagem.


Nativo de Paulino Neves
Seu Nazareno e seu camarão gigante
A nossa maior preocupação em Paulino Neves era como sairíamos de lá, pois precisávamos chegar em Caburé no dia seguinte e não há estrada (por enquanto) ligando esse trecho. São cerca de 30km de praia deserta. Chegamos a pensar em ir a pé, mas desistimos, já que ainda teríamos a caminhada de 68km pelos Lençois Maranhenses, nos próximos dias. Decidimos, então, contratar um transporte tracionado e fomos à caça de alguém na cidade que pudesse nos levar por um preço justo. Andamos, conversamos, negociamos e o mínimo que conseguimos foi o preço de R$130 com um rapaz que foi indicado pelo Seu Nazareno. Caro, mas não tínhamos outra opção.

Depois de instalados e decidido o transporte para Caburé, fomos conhecer mais tranquilamente o vilarejo, que é cortado pelo Rio Novo. Esse nome foi dado, pois ele é novo mesmo, com pouco menos de cem anos de existência, tendo surgido após o rompimento de uma lagoa. Segundo a história de Seu Nazareno, o rio foi formado na trilha de uma serpente que fugiu da seca e foi pro mar e nessa época, os moradores ouviam barulho de tambores e pessoas dançando durante a noite; no dia seguinte, milagrosamente aparecia mais água no local. Até que as águas chegaram no mar e o rio nunca mais secou.

Uma ponte caindo aos pedaços atravessa o rio e une os dois lados da cidade e por ela já não passam mais caminhões, devido às condições precárias de manutenção. Mais um dos inúmeros exemplos de descaso das autoridades locais. O rio é delicioso pra banho e, apesar da proximidade com a cidade, ainda é limpo.  Passamos um bom tempo lá apreciando a vista e observando o movimento.

Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves
Rio Novo


Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves
Banho de rio
Depois do passeio, fomos almoçar no restaurante do Seu Ivaldo. Uma comidinha caseira, boa e barata (R$10 o prato bem servido) e o dono muito simpático e bom de prosa.
Depois de um demorado almoço com direito a pegar na mão os peixes do aquário de Seu Ivaldo, voltamos pra casa do Seu Nazareno. A ideia era descansar, mas descobrimos que ele tinha um modem de internet, que não estava funcionando e o Thiago se ofereceu pra consertar. Ele não parou até conseguir resolver o problema e quando terminou já eram quase 16h, mais que na hora de irmos até a grande atração da cidade: os Pequenos Lençóis Maranhenses.

Os pequenos Lençóis Maranhenses


Uma caminhada rápida nos leva até a entrada das dunas. Passamos por um trecho habitado e com casas simples e quase fomos devorados por um cachorro, que fazia guarda de sua casa, só que no meio da rua. O Thiago teve que chutá-lo mesmo, pois ele não desistia de nos morder. Depois que saímos de frente da casa, ele ficou mais calmo e, ainda  bem, não veio atrás de nós. Foi tenso na hora, mas depois demos risada da situação.

O início das dunas é abrupto: andamos entre casas com árvores verdinhas e de repente, entramos numa área quase de deserto só com areia e água. A imagem é inesquecível. Caminhamos sem rumo e passamos por algumas lagoas. O lugar é tão grande que ficamos sem saber pra onde andar e decidimos seguir duas moças que subiam uma duna.
Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves
Pequenos Lençóis Maranhenses

Chegamos no alto de uma das dunas e me arrepiei de tão lindo que era a paisagem: o mar, ao fundo, separado das dunas por um campo, onde pastavam tranquilamente alguns bois. Do outro lado das dunas, observamos quase uma oásis: uma lagoa cheia de árvores em volta. Ali reproduzem-se várias espécies de aves e costumava ser dormitório de guarás, mas o avanço das dunas mudou a paisagem e afastou dali as famosas aves vermelhas.
Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves
Pasto ao lado das dunas (onde será construída a usina eólica) e, ao fundo, o mar

Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves
Quase um oásis, entre as dunas

Caminhamos no alto de uma duna, que parece ser a mais alta e a maior da região. De repente, nos deparamos com os bois que atravessavam as dunas em direção a lagoa. Por uns segundos, nós e eles ficamos cara-a-cara e bateu um temor deles nos atacarem. Fomos andando devagar e conseguimos passar por eles. Depois, olhamos pra trás e estava todo o rebanho atravessando. Deviam ser quase uns cem bois.
Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves
Cara-a-cara com a boiada

Depois de passado o susto, procuramos um lugarzinho estratégico pra ver o pôr-do-sol e que maravilha: um dos mais bonitos da viagem.
Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves
Pôr do Sol nos Pequenos Lençóis Maranhenses

Pôr do Sol nos Pequenos Lençóis Maranhenses
Pôr do Sol nos Pequenos Lençóis Maranhenses


Voltamos pra cidade e comemos novamente no Seu Ivaldo. Conversa vai, conversa vem e a notícia: está sendo construído uma usina eólica, no pasto ao lado das dunas. Aquele mesmo pasto, onde estavam os bois que vimos. Num primeiro momento, não achei ruim, afinal energia eólica é limpa, mas fiquei triste pela questão estética, afinal não é bonito ter um monte de cataventos naquele lugar ainda intocado. Mas a pior notícia ainda estava por vir: uma estrada está sendo construída NO MEIO DAS DUNAS entre Barreirinhas e PaulinoNeves, para a passagem das gigantescas torres da usina. Meu coração chegou a disparar. Depois de tudo que ouvi em Tatajuba sobre a importância da preservação ambiental, achei inconcebível aquilo. Saímos de lá ainda em choque e fomos conversar com Seu Nazareno. Descobrimos que ele apóia a iniciativa e ainda aluga uma casa para a empresa que está responsável pela obra. O antigo morador da cidade ponderou sobre questões várias, inclusive sobre os problemas causados pela movimentação das dunas (como o fim do dormitório dos guarás, que foi engolido por elas), o soterramento de casas, etc e nos fez pensar sobre o outro lado da questão ambiental. Falou também da corrupção do atual prefeito e chegou a nos mostrar o orçamento municipal com valores de poços artesianos em áreas carentes, no valor de mais de R$100mil (que já seria um valor superfaturado) e que sequer foram construídos; mostrou também os gastos com aluguel de carros mais caros que o próprio carro, etc. Ficamos até de madrugada conversando e eu dormi com o coração apertado. As questões sociais, políticas, econômicas e até ecológicas no nordeste (e, principalmente, no Maranhão) são mais complicadas do que imaginamos.

Entre Paulino Neves e Caburé

Saímos de Paulino Neves cedo e pegamos a estrada, ou melhor, a areia. Nosso habilidoso motorista passou por atoleiros, deu volta pra não passar nas dunas, desviou de lagoas e teve trabalho pra guiar o carro até chegarmos na praia. Andamos todo o trajeto, quase 30km, sem encontrar uma pessoa sequer, mas vimos algumas cabanas de pescadores (que usam-nas durante a semana e voltam pras suas casas no domingo) e uma casa, onde mora uma família com dois filhos, completamente isolados do resto do mundo. 
Entre Paulino Neves e Caburé
"Placa" que sinaliza a entrada para Paulino Neves

Passamos por uma tartaruga morta sendo disputada por urubus famintos. Vimos gaviões. E, apesar de toda aquela beleza selvagem, vimos também lixo trazido pela maré. E não era pouco. Triste.
Entre Paulino Neves e Caburé
Tartaruga sendo disputada por urubus

Chegamos em Caburé em menos de uma hora e o Rio Preguiças se descortinou para nós. Foi quando me dei conta que havia, enfim, chegado nos Lençóis maranhenses. Nossa aventura estava apenas começando.

Mais fotos:

Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves

Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves

Pequenos Lençóis Maranhenses, em Paulino Neves

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