sexta-feira, 26 de julho de 2013

Rota das Emoções: São Luis e arredores

Centro histórico de São Luis, na Rota das Emoções

Foram apenas três dias pra ver a família, descansar e passear. Acabamos optando pela primeira opção na maior parte do tempo e nossos dias na capital maranhense não foram muito turísticos.
São Luis aumentou minha repugnância pela família Sarney, que fui sentindo durante toda a nossa passagem pelo Maranhão. O Estado mais pobre do país é cheio de riquezas, mas é oprimido e sucateado há décadas por essa família, que domina tudo, inclusive as ideias dos maranhenses. Ruas absolutamente esburacadas, casarões antigos abandonados e trânsito desorganizado ficam evidentes logo na chegada à cidade. O encanto fica com os simpáticos moradores, que ainda mantém o hábito de frequentar as calçadas no fim da tarde, com longas conversas com os vizinhos, além da beleza natural da ilha, sem falar nos encantos dos casarões e das manifestações populares, como o bumba-meu-boi e o tambor de crioula.

Depois de acordar as 4h da manhã, caminhar quase 30km pelos Lençóis Maranhenses e ainda chacoalhar por quase três horas num pau-de-arara desconfortável na estrada entre Santo Amaro e Sangue, ainda teríamos mais um trecho, dessa vez, em estrada asfaltada e de van. A mesma estrada que vai até Barreirinhas, passa por sangue e foi essa que pegamos. Estrada razoável, mas que a imprudência do nosso motorista fez parecer que estávamos em eminência de um acidente a qualquer momento.
Chegamos em  São Luis já à noite e fomos surpreendidos por um trânsito de fazer qualquer paulistano pensar que mora no paraíso. Tudo parado. Infelizmente, pelo que descobri, o trânsito da cidade tem ficado cada dia pior, pelo crescimento desordenado da região.
O bom foi que a van nos deixou em frente de casa e eu não conseguia pensar outra coisa que não dormir. Foi a noite de sono mais bem merecida da minha vida. Não tenho dúvidas.

Centro histórico de São Luis

Dormi mais de doze horas consecutivas. E ainda acordei cansada.
Passamos a maior parte do dia com a família e no fim da tarde seguimos para o centro histórico. No caminho, passamos pela Avenida Litorânea que passa por quase toda a orla e conheci as principais praias da cidade. Bonitas e com o porto bem próximos, o que faz com que os enormes navios componham a vista. Passamos também pela lagoa da Jansen, uma das partes mais modernas da cidade com prédios altos e envidraçados.
Atravessando a ponte São Francisco, que passa por cima do Rio Anil, vi um espetáculo: o Sol enorme se pondo no horizonte, próximo a Alcântara. Não conseguimos parar para fotografar e fomos para a Avenida Beira-Mar, para nos informarmos sobre a travessia para Alcântara, que era nosso plano (frustrado, aliás) para o dia seguinte. Ali estava um céu de fim de tarde lindo e irresistível de fotografar, bem de frente à Alcântara.
Pôr do Sol em São Luis, na Rota das Emoções
Fim de tarde na baía de São marcos
Dali, seguimos pelas ruas do centro histórico e me encantou a parte restaurada cheia de casarões antigos e ruas de paralelepípedo. Os casarões são datados do período colonial e cerca de mil casas são tombadas pelo IPHAN. A característica principal dos casarões deste lugar são os azulejos, muitos datados do século XVIII e vindos direto de Portugal. A justificativa pra o uso da cerâmica era de servir para proteger os moradores do calor quase infernal da cidade. 

Centro histórico de São Luis, na Rota das Emoções
Centro histórico


Centro histórico de São Luis, na Rota das Emoções



Nesse dia, passeamos apenas pela região do centro histórico que tem casarões restaurados e onde se encontram a maior concentração de bares e restaurantes. No dia seguinte, passaríamos pela parte mais abandonada.
Caminhamos pelas ruas e nos chamou a atenção a música que vinha de uma ruazinha bem estreita e meio afastada. Entramos ali e descobrimos que era a Companhia Circense Teatro de Bonecos. Não sei, ao certo, se eles fazem circo, mas o lugar tem um astral incrível, uma decoração diferente e disponibilizavam mesinhas na rua mesmo, onde tocava uma música da melhor qualidade (reggaes maranhenses, músicas do bumba-meu-boi e do Papete, além de sambinhas e forrós). No fim da noite, ainda haveria tambor de crioula, mas não conseguimos resistir ao cansaço que ainda sentíamos e, infelizmente, não vi a apresentação
.
Fomos dormir pra tentar acordar cedo no dia seguinte. Mas quem disse que conseguimos?

São José do Ribamar e Raposa

Acordamos tarde e perdemos a balsa para Alcântara. Para não perder o dia, decidimos conhecer algumas cidades próximas a São Luis. Começamos o dia indo para São José do Ribamar, distante cerca de 30km da capital e ainda dentro da ilha de São Luis. Fizemos uma visita rápida pelo monumento ao santo padroeiro da cidade, bem na beira da praia com uma bela vista da cidade. Não ficamos muito tempo e seguimos para a cidade de Raposa, uma pequena e calma colônia de pescadores, com casas feitas de palafita, que evita inundações na maré alta. Gostei muito do povoado e queria ter feito o passeio de barco pelas redondezas da região, mas chegamos tarde e já não havia mais transporte. Almoçamos num restaurante (também de palafita) bem agradável e com música boa, chamado Restaurante Pôr do Sol. A comida não era excelente, mas o clima do lugar compensou.
Praia da Raposa, na ilha de São Luis, na Rota das Emoções
Vista do restaurante Pôr do Sol

De volta ao Centro Histórico de São Luis

Voltamos pra São Luis e retornamos para o centro histórico. A ideia era ver mais casarões e encontrar o DJ que estava tocando na véspera na Cia. de Bonecos, pois combinamos de pegar com ele dois CDs das músicas do evento. Estacionamos o carro e, coincidentemente, eu o vi passar na rua transversal. Corremos e o alcançamos, economizando o tempo, que caminharíamos até o ponto de encontro. Vantagens de cidade pequena.
Dali, fomos até o Museu do Sarney, envolto em inúmeras denúncias de corrupção, desde a sua fundação, que supostamente seria com o intuito de montar um acervo do período em que Sarney foi presidente da República (entre 1985/1990). Ali era o antigo Convento das Mercês, um suntuoso prédio do século XVII, tombada pelo IPHAN em 1974. Hoje funciona basicamente com presentes ganhos pelo ex-presidente.

Saindo de lá, seguimos numa caminhada pela parte do centro histórico que não está restaurada e é triste ver sobrados magníficos caindo aos pedaços, sem seus azulejos originais, com paredes mofadas e muitas vezes até sem telhado. Nesse momento, entendi o motivo do IPHAN estar querendo tirar de São Luis o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, pois há tanta descaso, que os deslumbrantes casarões se descaracterizaram a ponto de estarem sendo usados até como estacionamentos. Alguns desses casarios são cortiços com muitos moradores, que enchem as ruas no fim da tarde, o que dá mais vida a região.
Centro histórico de São Luis, na Rota das Emoções
Casarão abandonado, no Centro Histórico

Centro histórico de São Luis, na Rota das Emoções
Azulejo português degradado
O passeio terminou com um Pôr do Sol magistral, no Palácio dos Leões, sede do governo do Estado, com vista para a baia de São Marcos.
Pôr do Sol em São Luis, na Rota das Emoções
Por do Sol, na bacia de São Marcos

De lá, fomos ao lugar que mais me encantou em São Luis: o Bar do Leo. Distante do centro, dentro de um mercado municipal, o bar é um dos mais autênticos que eu já conheci. Seu Leo, o dono, tem uma coleção gigantesca de discos de vinil, que ficam dispostos nas paredes, assim como os antigos instrumentos musicais, que se espalham ao longo do corredor onde estão dispostas as mesas. É o próprio Seu Leo que escolhe o repertório da vitrola (principalmente sambinha das antigas) e é terminantemente proibido música ao vivo. Artistas maranhenses, como Zeca Baleiro, já tentaram tocar lá, sem sucesso. O lugar é um pedaço único da cidade.
Bar do Leo, em São Luis, na Rota das Emoções
Bar do Leo


Bebemos algumas cervejinhas e fomos dormir felizes.

O dia seguinte seria nosso último dia de viagem e optamos por passar o dia com a família sem nenhum passeio turístico. 

Voltamos pra casa inteiramente modificados com tudo que vivenciamos nesses dias. A natureza deslumbrante que nos espantava a todo instante, as pessoas encantadoras e admiráveis, que nos ensinaram mais do que muitos anos de escola, as tristezas e angústias de uma pobreza digna e até mesmo a indignação das injustiças sofridas por esse povo doce nos transformaram em pessoas diferentes (melhores, talvez) do que éramos antes de começar essa jornada.

Mais fotos:

Praia da Raposa, na baía de São Luis, na Rota das Emoções
Motel, na raposa

Centro histórico de São Luis, na Rota das Emoções
Vista do Palácio dos Leões


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