sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Turismo cívico em Brasília

Turismo cívico em Brasília

Conhecer Brasília, em meios aos protestos que brotaram no país, em junho de 2013, foi mais do que visitar uma cidade (apesar que viajar pra mim nunca é  conhecer mais uma cidade). Conhecer Brasília, naquele momento histórico, foi mergulhar na rotina no centro político do país e tentar entender como nossos representantes reagiam ao que acontecia nas ruas, quando manifestações pululavam de todos os cantos do Brasil, com pautas diversas e nada uniformes.

Brasília e o junho de 2013


O que parecia ser apenas mais um movimento de estudantes ingênuos e idealistas tentando conseguir o passe livre em São Paulo, acabou criando força quando viu-se a truculência (nada democrática) que a Polícia Militar coibiu a passeata do dia 13 de junho, atirando balas de borracha e gás lacrimogênio pra todos os lados, até mesmo em jornalistas. Os grandes canais midiáticos que antes chamavam os manifestantes de baderneiros, passaram a chamá-lo de ativistas e milhares de pessoas foram às ruas em todo país na histórica segunda-feira do dia 17 de junho, quando até mesmo o Congresso Nacional foi invadido. Nesse momento, já se observavam pautas dissonantes e certa influência anti-partidária, que culminou na queima das bandeiras de partidos, na quinta-feira 20 de junho.
Viajamos em meio a esse tumulto, quando pressionada pelas ruas, a presidente Dilma Roussef fazia declarações favoráveis a Reforma Política e ao investimento em saúde (com a contratação de médicos cubanos) e em educação (onde prometeu investir 100% dos royalties do petróleo). O Congresso Nacional, por sua vez, passava por uma semana movimentada, votando PECs que estavam na fila fazia tempo, como a famosa PEC 37 que regulamenta a atividade do Ministério Público e da Polícia Federal.


Na verdade, fui pra Brasília na mala do Thiago e de um querido amigo, o Renato, que passaram a semana lá, num evento de trabalho. Eles foram antes de mim e eu me juntei ao grupo no fim da semana.
Cheguei em Brasília já no fim da tarde e passei rápido no hotel só pra deixar a mala e fui caminhar pela cidade. Queria aproveitar o resto do dia e andei até a esplanada dos ministérios, que ficava próximo ao hotel que estávamos, o Hotel Vila Planalto. Apesar da curta distância, foi uma caminhada complicada, porque definitivamente Brasília não foi feita para pedestres: precisei atravessar uma pista de alta velocidade (onde não havia faixa de pedestre, ou passarela) e no caminho simplesmente não haviam calçadas. Tive que andar pelo gramado mesmo. Aliás, muitos gramados. Brasília parece uma cidade universitária ampliada, cheia espaços verdes, por todos os lados.

Congresso Nacional

Depois de uma meia hora de caminhada, finalmente surgiu à minha frente o Congresso Nacional. Cheguei pela lateral, onde o teto do prédio encontra literalmente com a rua, já que a construção foi feita numa ladeira. Dias antes, o Congresso havia sido invadido por manifestantes, num dia histórico e meu pensamento ao ver a proximidade do teto com a rua foi: "ah, mas que fácil é invadir o Congresso Nacional". Eu mesma quase invadi, sem querer, tentando fotografar. Claro que isso não diminui o significado e a importância do ato simbólico da apropriação do prédio pelo povo, já que ali é sua casa. 
Turismo cívico em Brasília
Acesso ao teto do Congresso Nacional


Aliás, me chamou a atenção o fácil acesso ao Congresso Nacional. Mesmo a sua entrada é toda aberta. Não há muros, nem grandes esquemas de segurança e facilmente consegui entrar dentro do prédio e cheguei na recepção sem problema algum. Fui até a recepção e me informei sobre a visita guiada. Uma educada atendente me informou que as visitas estavam suspensas nas últimas semanas, devido às manifestações. Perguntei se era comum as visitas serem suspensas. Segue nosso breve diálogo:

- Sim. Geralmente as terças e quartas nós suspendemos.
- Porque? Perguntei eu, ingenuamente.
- Porque é quando tem as atividades dos parlamentares.
- Ué? Mas e nos outros dias, eles não trabalham?
(Kri...kri...kri..) Fez-se um silêncio sepulcral e não obtive resposta.

O Congresso Nacional é a sede do Poder Legislativo brasileiro, sendo constituído de duas Casas: o Senado Federal e a Câmara dos Deputados. O prédio do Senado é o da esquerda, com teto em côncavo e a Câmara é o da direita com teto em convexo. A ideia do Niemeyer era de que o teto voltada para fora significaria a abertura que a Câmara deveria ter às demandas da população, já que eles são representantes diretos do povo e o Senado com o teto voltado pra dentro significaria a necessidade de reflexão dos parlamentares ali situados. O prédio é magnífico e, de fato, é uma obra-prima. Incrível como o Niemeyer conseguiu passar essa ideia de que ali é mesmo a Casa do Povo, pois me senti absolutamente à vontade, livre para andar e circular pelo prédio e pelas redondezas. Um convite à democracia. Imaginava um lugar cheio de guardas e portões e me deparei com algo absolutamente aberto e acessível. Esse Niemeyer era mesmo um sujeito visionário.
Turismo cívico em Brasília
Congresso Nacional

Ao lado do Congresso, estão dois prédios importantes (e magníficos): o Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, que fora depredado por manifestantes dias antes e estava com suas janelas ainda quebradas; e o Palácio da Justiça, sede do Ministério da Justiça, um prédio lindo com fontes de água que jorram das marquises para o chão.
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Itamaraty

À frente do Congresso Nacional está a esplanada dos ministérios, mas nesse dia eu não fui para aqueles lados. Decidi caminhar para parte de trás do Congresso e cheguei num dos locais mais importantes da capital federal.

Praça dos Três Poderes

A Praça dos Três Poderes é um grande área aberta e, ao contrário das praças convencionais, não tem árvores. Ali ficam os três principais prédios públicos brasileiros: o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto.

O STF é a sede do poder judiciário, sendo ali presididas sessões plenárias com o seu atual ex-presidente, o Ministro Joaquim Barbosa, sendo o primeiro negro a ocupar tal cargo. Ele  vem sendo alvo de elogios por parte da direita, com o boato de que ele seria convidado a candidatar-se a Presidência da República pelo recém-criado Partido Militar Brasileiro.
Turismo cívico em Brasília
Supremo Tribunal Federal
Do outro lado da praça, encontra-se o Palácio do Planalto, sede do poder executivo e onde trabalha a Presidente da República. O prédio parece pequeno, mas ele tem subsolos e anexos, sendo o local de assinatura de leis e tratados, além de posses de ministros e diplomatas. De frente para a praça fica uma rampa, que é aquela famosa usada nas cerimônias de posse dos presidentes da república.
Em frente ao Palácio, encontra-se a escultura Os Candangos, de Bruno Giorgi, construída em homenagem aos vinte mil trabalhadores que construíram Brasília.
Turismo cívico em Brasília
Palácio do Planalto e Os candangos

Turismo cívico em Brasília
Rampa do Palácio do Planalto
O dia já estava terminando e pude constatar a fama que Brasília tem de ser o céu mais azul do Brasil. De fato, a cidade tem um céu lindo e o fim da tarde é recheado de diferentes tons de rosa, laranja e amarelo, que deixam a vista ainda mais bonita.
Turismo cívico em Brasília
Pôr do Sol, no Congresso Nacional
Voltei para o hotel satisfeita com a primeira tarde na cidade e me preparei para sair com o Thiago, pois iríamos comemorar nosso primeiro aniversário de namoro, junto com nosso parceirão de viagem (e da vida), o Renato. O forró era na Apcef, um clube às margens do Lago Paranoá. O lugar é lindo e o forró era ao ar livre com vista pro lago e pra uma lua amarelinha e linda. Tão linda que quando eu vi até me assustei. Foi um jeito incrível de comemorar.


No dia seguinte, os meninos ainda tinham programação de trabalho e eu passaria o dia sozinha.
Havíamos programado de alugar um carro e eu fui logo cedo buscá-lo. Fui com o motorista do hotel e ele se perdeu completamente para chegar na locadora, que ficava no setor hoteleiro. O bom foi que pude apreciar a parte mais moderna da cidade, cheia de prédios novos. Com o carro em mãos, comecei a rodar pela cidade e achei uma delícia dirigir naquele trânsito organizado e praticamente sem cruzamentos.

A Torre de TV de Brasília

Passei pela Torre de TV e resolvi parar para conhecer, afinal todos dizem que de lá se tem a melhor vista da esplanada dos ministérios. 
Turismo cívico em Brasília
Torre de TV
Parei o carro num amplo e gratuito estacionamento e subi o elevador. Fiquei encantada com o treinamento dos funcionários (ascensorista, guarda, etc). Todos muito solícitos e conhecem a cidade (e sua história) muito  bem. Aliás, senti isso em todos que moram em Brasília. Muitos vieram do norte e nordeste e participaram da história do lugar, desde sua inauguração.

A vista do alto da torre é, de fato, incrível. Ela fica exatamente no centro do plano piloto e de lá conseguimos avistar toda a cidade: em frente, a esplanada dos ministérios e o Congresso Nacional, nas asas os setores hoteleiros, residenciais, comerciais, etc. De lá, vemos também o Estádio Nacional Mané Garrincha, recém reformado para servir de palco para a estréia da Copa das Confederações, o parque da cidade (segundo maior do país), o setor de mansões, o memorial JK, além de várias cidades satélites.
Turismo cívico em Brasília
Vista da esplanada dos ministérios

Turismo cívico em Brasília

Turismo cívico em Brasília
Estádio Mané Garrincha
Saí de lá rumo ao memorial do JK, localizado na parte de trás do avião. É onde encontra-se o mausoléu com o corpo do ex-presidente, idealizador e fundador da cidade. É um projeto do Niemeyer, inaugurado em 1981.
Turismo cívico em Brasília
Memorial JK

Turismo cívico em Brasília

Na hora do almoço, recebi o telefone do Thiago, me convidando pra almoçarmos juntos. Aproveitei esse tempo livre, para levá-los nos lugares mais importantes da cidade, que eles ainda não tinham tido tempo de conhecer (Congresso Nacional, Praça dos Três Poderes e torre de TV). Almoçamos na praça de alimentação da torre de TV, que tem barraquinhas de comidas típicas de quase todos os estados.

Brasília para além da Esplanada dos Ministérios

Depois do almoço, deixei-os de volta e aproveitei para conhecer o Palácio da Alvorada, que era do lado do evento, que eles estavam participando. O palácio é a moradia oficial da presidência da república e fica numa área mais afastada do burburinho da esplanada dos ministérios.
Turismo cívico em Brasília
Palácio da Alvorada
Saí de lá e decidi ir até a Torre de TV digital, o último projeto desenvolvido por Oscar Niemeyer e inaugurada em abril de 2012. A torre fica numa cidade satélite, chamada Sobradinho. Fica há cerca de 30km de Brasília, mas acabei demorando muito pra chegar,  porque meu GPS me levou pro lugar errado.
A torre fica no alto de um morro e ainda tem 170m de altura. Ou seja, de lá vemos a cidade inteira do alto e ainda os arredores. A antena foi projetada no formato de uma flor do cerrado com seus dois mirantes correspondendo as folhas. O lugar é lindo e o visual é de tirar o fôlego.
Tive bastante sorte, pois o mirante não costuma abrir durante a semana e só estava aberto, devido à Copa das Confederações. Não peguei fila para subir e pude aproveitar o lugar com tranquilidade, mas uma funcionária me disse que nos fins de semana é costume ter filas enormes com espera de até quatro horas para a subida.
Turismo cívico em Brasília
Torre de TV digital

Turismo cívico em Brasília
Vista da torre

Turismo cívico em Brasília
Esplanada dos ministérios
Saí de lá já no fim da tarde e, dessa vez, voltei rápido, pois segui as orientações dos funcionários da torre, ao invés de seguir o GPS. 
No caminho, passei por cima da barragem do rio Paranoá, que possibilitou a formação artificialmente do Lago Paranoá. E fiz questão de passar pela Ponte JK, uma das poucas obras no Distrito Federal que não é do Niemeyer. O projeto da ponte é do arquiteto Alexandre Chan e foi inaugurada em 2002, tendo recebido diversos prêmios já em 2003 e é considerada até hoje uma das pontes mais bonitas do mundo.
Achei-a, e fato, incrível e é até difícil entender como os três arcos se entrecruzam, indo de um lado pra outro da ponte. É uma pena que não tenha um mirante que possamos parar para apreciá-la. Acabei parando no acostamento e não consegui fazer uma foto muito boa, infelizmente.
Turismo cívico em Brasília
Ponte JK

A Catedral Metropolitana

O dia já estava no fim, mas eu ainda tinha um destino: a Catedral Metropolitana, na esplanada dos ministérios. Cheguei lá no pôr do Sol e o céu estava, mais uma vez, incrível.
Turismo cívico em Brasília
Fim de tarde na esplanada dos ministérios
A catedral é deslumbrante. É mais um projeto do Niemeyer e foi inaugurada em 1970. Por fora, ela parece pequena, pois boa parte de sua estrutura é no subsolo e apenas sua cúpula aparece pelo lado externo. Tem paredes de vidros transparentes que deixa entrar a luz natural. Seu interior é de uma simplicidade encantadora.
Turismo cívico em Brasília
Catedral Metropolitana

Turismo cívico em Brasília

Turismo cívico em Brasília


Quando saí de lá, já era noite e eu precisava buscar os meninos para pegarmos a estrada, rumo à Chapada dos Veadeiros, onde passaríamos o fim de semana.

Conhecer Brasília foi surpreendente no sentido de ver que há mais vida do que apenas a política. A cidade respira política, mas também respira outros ares e achei isso atraente. É uma daquelas cidades que entram na minha lista de cidades que eu moraria, algum dia na vida.

Mais fotos:

Turismo cívico em Brasília
Manifestação?!

Turismo cívico em Brasília
Esplanada dos ministérios

Turismo cívico em Brasília
Céu de Brasília

2 comentários:

  1. Amei sua descrição de minha cidade.
    Estou amando seu blog.
    Eu a descobri porque estou pesquisando sobre Foz. Quando vi que você havia feito um post sobre Brasília, quis logo ver sua impressão.
    Você escreve muito bem.

    "Céu de Brasíla, traço do Arquiteto,
    Gosto tanto dela assim..."

    Obirgada,
    Fabíola Neves

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  2. Muito obrigada, Fabíola!
    Eu me apaixonei por Brasília. Como disse no post, moraria aí sem pensar duas vezes!
    Você vai qdo pra Foz?

    Bjos

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