segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Uma ode ao Cerrado na Chapada dos Veadeiros

O Cerrado na Chapada dos Veadeiros

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros fica no cerrado  brasileiro, numa área que ocupa 65.614 hectares, abrangendo três cidades: Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante e Colinas do Sul. A região foi área de garimpo de cristal, que durou até a formação do Parque Nacional, em 1961. Foi com o garimpo que nasceu a adorável vila de São Jorge, atualmente distrito de Alto Paraíso e que hoje tem 250 moradores, mas que na época da garimpagem chegou a ter três mil habitantes.
São Jorge foi nosso ponto de apoio para conhecer a chapada, que apresenta muitas atrações além do próprio parque nacional, já que atualmente tem no turismo sua principal atividade econômica. Com forte influência mística, a pequena vila é povoada de ex-garimpeiros, hippies, intelectuais e pessoas que procuram entender e aproveitar a energia incrível daquele lugar, que aliás é cortado pelo paralelo 14, o mesmo que corta Machu Picchu. Seria essa a explicação pra toda essa aura de magia e misticismo?
Não sei, mas posso afirmar que nos rápidos dois dias que passamos lá, fomos arrebatados pelas belezas do lugar e pela encanto dos moradores e mesmo pela simpatia fortuita dos turistas doidões que encontramos no caminho.

A viagem para a Chapada dos Veadeiros

Alugamos um carro em Brasília e partimos rumo à chapada já no fim do dia. A saída da cidade estava bem engarrafada, afinal era sexta-feira e muitas pessoas que trabalham em Brasília moram nas cidades satélites ao redor da capital. Entrando em Goiás, o trânsito melhorou e conseguimos viajar com tranquilidade, numa estrada de pista única, mas asfaltada e bem conservada, com exceção apenas de alguns trechos mais esburacados. O Renato, que estava de motorista, gostou tanto da estrada que chegou a 160km/h, o que me deixou suficientemente nervosa a ponto de não conseguir relaxar  durante toda a viagem.
São 220km até Alto Paraíso e de lá mais 34km até São Jorge. Essa estradinha é asfaltada até bem próximo da vila, mas depois o asfalto acaba e a estrada de terra não é ruim. No meio do caminho, paramos o carro e descemos. Desligamos os faróis e o que vimos foi um espetáculo: céu deslumbrante e infinito. O horizonte piscava de tantas estrelas. Foi incrível.
Chegamos em São Jorge já de madrugada e tínhamos reserva na Pousada Águas de Março, simples, mas simpática. Ficamos num quarto triplo (eu, Thiago e Renato) e o chalé tinha dois andares. Eu e o Thi ficamos no segundo andar e quando caminhávamos no assoalho de madeira, o Renato via o teto em cima dele balançar. No começo foi estranho, mas depois nos acostumamos.

Chapada dos Veadeiros: a Trilha dos Saltos 

Não conseguimos acordar tão cedo, como gostaríamos e já começamos a trilha quase às 11h. Como só teríamos dois dias na cidade e as opções de trilhas e cachoeiras em São Jorge são quase infinitas, optamos por focar nossos passeios dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, deixando as outras atrações para próximas visitas, que espero ansiosamente que ocorram em breve.
Chegamos na sede do ICMBio e antes de começar a trilha, assistimos um vídeo de qualidade duvidosa sobre a história do lugar e com algumas orientações gerais sobre segurança e proteção ambiental. Os meninos se divertiram com a voz bizarra do narrador, que tentava imitar o Cid Moreira em tom de filme de terror, em  frases como: "Não execute saltos nas cachoeiras. Essa atitude pode ser FA-TAAAL." Era mais hilário do que, de fato, elucidante.
Até janeiro desse ano, era obrigatório fazer as trilhas com guias credenciados, porém essa obrigatoriedade foi suspensa, o que gerou algumas críticas, já que muitos moradores tinham nesse trabalho sua única fonte de renda, já que os garimpos da região foram desativados, após a criação da área de preservação ambiental. Assim como observamos em outros Parques Nacionais, como nos Lençóis Maranhenses, observamos esse embate entre a preservação ambiental e os meios de subsistência das populações locais, que se sentem prejudicadas pelas leis, que muitas vezes são impostas sem serem devidamente discutidas com as comunidades que ali residem.
Os meninos não quiseram contratar guia e nossa programação era fazer duas trilhas: o das Cânions no primeiro dia (9,5km ida e volta)e a dos Saltos no segundo dia (9km ida e volta). As duas trilhas começam no mesmo ponto de partida e deveríamos seguir as setas (de cores diferentes) para uma e outra, porém, nos distraímos logo no começo e perdemos uma entrada, o que fez com que seguíssemos o caminho para carros autorizados e acabamos sendo obrigados a fazer a Trilha dos Saltos, que era mais próxima dessa rota errada. Isso nos rendeu alguns quilômetros a mais de caminhada, num Sol escaldante e acabamos fazendo o percurso no sentido inverso ao que as pessoas geralmente fazem: chegamos primeiro nas corredeiras e depois os saltos.
No caminho, tivemos contato com a flora tipicamente do cerrado: árvores baixas com galhos retorcidos com vastos campos de  gramíneas. Fomos no inverno, época seca e a vegetação estava mais amarelada e não vimos tantas flores.
Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Trilha com vegetação tipicamente de cerrado

Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Galhos secos e retorcidos
Após cerca de uma hora de caminhada tranquila, apenas desconfortável pelo Sol quente, chegamos nas Corredeiras. O lugar é lindo, mas estava lotado e um grupo tinha até montado um gazebo nas pedras e as crianças brincavam na água com bóias e afins. Optamos por caminhar pelo rio para nos afastarmos do agito e achamos uma área mais tranquila, mas o banho não era tão bom, pois as pedras ali tinham muito (muito mesmo) limo.
Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Corredeiras

Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros

Depois de nos refrescarmos, seguimos viagem rumo aos saltos. No caminho, encontramos várias pessoas fazendo o percurso no sentido oposto ao nosso, já que nós estávamos errados na trilha.
Para chegarmos aos saltos, precisamos descer um barranco e essa é a única parte realmente difícil da trilha. Chegamos num mirante, onde se tem a visão do Rio Preto e logo adiante o Salto do Rio Preto, uma cachoeira de 120m de altura fantástica.
Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Mirante

Trilha para o Salto Preto pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Salto do Rio Preto
Seguimos caminho e logo chegamos no Salto do Garimpão, uma cachoeira de 80m, onde é possível tomar banho numa água estupidamente gelada.
Salto do Garimpão, na Chapada dos Veadeiros
Salto do Garimpão
Passamos um bom tempo ali e depois levantamos acampamento e, dessa vez, seguimos a trilha correta, passando pelos antigos garimpos de extração de cristal, que aliás ainda são abundantes na região.

Terminamos a trilha e fomos assistir o pôr do Sol no Abismo, bem perto da sede da parque . Ali tem uma espécie de portal com uma pedra pendurada. Pesquisei na internet e descobri que ali é um lugar onde místicos se reúnem para meditar. Aos poucos, o mirante foi enchendo de gente e na hora do pôr do Sol, estava lotado. Foi um belo espetáculo.
Pôr do Sol no Abismo, com vista para o Cerrado da Chapada dos Veadeiros
Pôr do Sol no Abismo

Pôr do Sol no Abismo com vista para o Cerrado na Chapada dos Veadeiros

Saímos de lá famintos e seguimos para a vila a procura de comida. Paramos num restaurante de comida caseira (que eu esqueci o nome), simples e com preço justo.
De lá, eu fui tomar banho e os meninos foram tomar uma cerveja e comer crepe. Já de banho tomado, encontrei com os dois e quando já estávamos quase voltando pra pousada, começamos a ouvir um sambinha gostoso que vinha da mercearia em frente de onde estávamos. Usei a desculpa de que precisava comprar uma tesourinha de unha e entramos lá. Um grupo de coroas tocava na varanda da mercearia, seguindo o violeiro de meia-idade. Sentamos na mureta e fomos ficando, ficando, pedimos uma cerveja e pronto, logo estávamos cantando e dançando com eles. Mais pessoas chegavam e até o Marcos, dono da pousada que estávamos, chegou com seu triângulo e fez todas as músicas parecerem forró. De repente, nos vimos em meio a um grupo de hippies, turistas e até um bebum indigente. Descobri que a mercearia era do Seu Claro, ex-garimpeiro e um dos fundadores da vila de São Jorge. Perguntei pra ele até que horas ficaria aberto o estabelecimento e ele disse:
- Até eu sentir sono.
Justo.
Ficamos lá um bom tempo e nossos simpáticos músicos lembraram que tinham marcado de tocar numa das pousadas, ali naquela mesma rua e já estavam duas horas atrasados. Fomos todos juntos para o lugar, cantando e dançando no caminho e chegando lá uma fogueira gostosa nos esperava. Lá vi uma estrela cadente e me senti mesmo num lugar mágico, onde todos são  bem-vindos e se tratam como velhos conhecidos.
Dormi com uma sensação deliciosa de conforto e aconchego, como se fizesse parte desde sempre daquele lugar.

Chapada dos Veadeiros: Trilha dos Cânions

Incrivelmente, conseguimos acordar mais cedo do que na véspera e chegamos no parque mais sagazes para não nos perdermos na trilha. Apesar de mais  extensa (são quase 10km somando ida e volta), achei essa trilha mais fácil do que a dos Saltos, pois o percurso é feito quase todo sem desnível no relevo. Passamos pelo meio do parque e atravessamos alguns rios e passamos por cima de várias  pedras. Foi bem agradável.
Trilha dos Cânions pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Trilha dos Cânions

Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros

A trilha do Cânion I estava fechada para visitação, pois estava em período reprodutivo de uma ave típica da região. Seguimos em direção ao Cânion II e quando menos esperamos, estávamos andando por cima de pedras e começamos a ouvir um barulinho de água, ao fundo. Enfim, chegáramos ao Cânion II. A altura dá um certo medo e a água passava por entre o cânion um tanto raivosa, fazendo curvas e chegando a um poço logo à frente.
Trilha dos cânions pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Cânion II

Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Altura

Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros

Ficamos lá apreciando aquela beleza e depois seguimos para o poço, onde conseguimos tomar um banho gelado e gostoso. O Renato não seguiu a orientação do locutor Cid Moreira e realizou saltos, que, ainda bem, não foram fatais. Tinha bastante gente ali e, pra mim, foi o banho mais gostoso da viagem.
Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Poço ao lado do cânion

Uma coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de peixes ali. É só jogar qualquer coisa que todos nadam em direção, achando que é comida. Nitidamente, é um desbalanço ambiental, provavelmente, porque os turistas devem achar bonitinho alimentar os bichos. Triste.
Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Proporção de peixes maior do  que o normal
Ainda tínhamos um destino mais: a Cachoeira das Carioquinhas, cujo nome ainda não consegui entender a origem. Precisamos descer umas pedras e achei essa parte meio tensa, porque sou baixinha e em vários momentos tinha que me agarrar nas pedras para alcançar um ponto e minha perna simplesmente não chegava. Na subida, inclusive, bati a cabeça numa das pedras e passei a semana seguinte com um galo ridículo.
A cachoeira estava cheia e muitas pessoas subiam até lá em cima, nem sei como. Um grupo de amigos foi ao topo da cachoeira, subindo pela água e confesso que fiquei vendo a hora que eles cairiam lá de cima. Nessas horas, me sinto uma velha, pois morro de medo de acidentes e nunca me arrisco muito nessas aventuras.
Trilha pelo Cerrado na Chapada dos Veadeiros
Cachoeira das Carioquinhas
Terminamos a trilha e voltamos para a vila, pois ainda precisávamos arrumar as malas, já que o check-out na pousada seria as 15h.

O Vale da Lua

Malas no carro, ainda queríamos conhecer mais um lugar: o Vale da Lua. O vale fica numa propriedade particular, próximo à estrada entre São Jorge e Alto Paraíso e para entrar lá, os proprietários cobram uma taxa (não me lembro exatamente o valor, mas acho que era R$6,00). Deixamos o carro na frente da curta trilha e descemos até chegar nas formações rochosas que formam o lugar. No caminho, a trilha é tipicamente de cerrado, com um visual bonito da Serra da Boa Vista.
Trilha pelo Cerrado para o Vale da Lua na Chapada dos Veadeiros
Trilha para o Vale da Lua
Chegando no lugar, a paisagem muda subitamente. As pedras tem uma coloração azulada e formatos esquisitíssimos, parecendo mesmo que estamos na lua, devido aos buracos nas rochas. Estranho é que essas características são num trecho pequeno e ao redor, as rochas são normais. Ali, passa o Rio São Miguel e, pelo que entendi, é o rio que faz essas escavações nas pedras, mas como fomos no período de seca, o rio não estava cheio.
Vale da Lua no Cerrado da Chapada dos Veadeiros
Rio São Miguel


Vale da Lua no Cerrado da Chapada dos Veadeiros
Na saída, nos desencontramos do Renato, que ia ligeiro nas pedras e desapareceu. O danado parecia  um lagarto. Só nos reencontramos no fim da trilha, já no carro e eu toda apreensiva achando que ele tinha despencado de alguma pedra.

O Rancho do Waldomiro

Seguimos viagem e estávamos morrendo de fome. O plano era parar em Alto Paraíso pra comer e ver a final da Copa das Confederações, mas lembrei do Rancho do Waldomiro, que fica no pé do morro da baleia e é tradicional na região. Decidimos parar lá e a ideia era comer rapidinho, mas nosso ritmo paulistano não teve espaço para tranquilidade e boa prosa do seu Waldomiro. Pedimos a matula, carro-chefe da casa, que é um prato com carnes variadas e misturadas, BEM pesado. Tão pesado que passei mal no dia seguinte. Mas vale pena conhecer o prato e, principalmente, conversar com Seu Waldomiro, que viu passar pela estrada em frente ao seu rancho toda a história de Alto Paraíso. Ele conta detalhadamente cada carro que passou ali, cada  garimpeiro que ele conheceu e também os problemas que os nativos tiveram quando o IBAMA criou o Parque nacional, acabando com os garimpos, o que deixou muita gente sem emprego. Falou também do problema com as queimadas, que antes eram feitas pelo próprios nativos, em períodos específicos do ano, quando eles conseguiam controlar, mas que agora a queimada é proibida e nos períodos de seca, qualquer faísca gera fogo, que fica descontrolado. Enfim, questões complicadas, mas que, sem dúvida, nos faz pensar que é necessário conversar com a população local antes de se efetivar qualquer estratégia de política pública, nem que seja para esclarecer suas dúvidas e crendices. Ficamos lá um bom par de horas, comendo os doces caseiros (de frutas típicas do cerrado) e tomando os licores da casa.

Fomos embora, quando o jogo do Brasil já estava no segundo tempo, mas chegamos em Alto Paraíso ainda a tempo de ver a vitória da seleção em casa, mesmo com os protestos nos arredores do Maracanã, com dura repressão da Polícia Militar. Era hora de voltar a encarar a realidade.A nossa e a de nosso país.

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