quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Cabo Polônio

Cabo Polônio, no Uruguai.

Minha vontade de conhecer o Uruguai é recente. Começou depois que li sobre o atual presidente, Pepe Mujica, e me encantei com suas ideias de viver simples e sem consumismo.
Comecei a pesquisar sobre o país e fui descobrindo várias riquezas e, sem dúvida nenhuma, a mais pitoresca descoberta foi Cabo Polônio. A pequena vila fica no departamento de Rocha, a cerca de 250km de Montevideo e é um Parque Nacional, rodeado por dunas e protegido por leis ambientais, o que permite sua natureza ainda estar praticamente intocada (apesar do meu estranhamento de observar construções na beira da praia). O acesso ao pequeno vilarejo é feito de duas maneiras: de caminhão, que sai com horários fixos da entrada principal do parque (localizado no km 264 da ruta 10), ou à pé, a partir de Valizas, um pequeno vilarejo, com acesso fácil também pela  ruta 10, numa caminhada de 8 a 12km por entre as dunas. Com o roteiro apertado, escolhemos o caminho mais rápido e fácil: o caminhão. Chegamos em Cabo Polônio em baixa temporada, o que tornou mais difícil conseguirmos acomodação e até mesmo alimentação, pois a maioria das coisas por lá funcionam apenas no verão. O lado bom foi podermos desfrutar as praias, pequenas ruas de areia e o famoso farol de maneira quase particular. Foi nosso primeiro (e único) dia de Sol, no Uruguai e nos encantamos com a rusticidade e preservação do vilarejo.
A origem do nome do povoado veio de uma embarcação, cujo nome era Nossa Senhora do Rosário e que naufragou ali, em 1753. O capitão do navio chamava-se Don Joseph Pollony, que após sofrer influência do castellano virou Polônio. Segundo os nativos, essa região era palco de ataques de piratas, pela localização geográfica, que propicia naufrágios.
Segue relato do dia agradabilíssimo que passamos lá.

Rumo à Cabo Polônio

Nosso vôo decolaria às 22h e, como trabalhamos normalmente nesse dia, foi uma correria conseguir chegar a tempo no aeroporto, incluindo pegar o metrô Sé no horário de pico, sentindo na pele o que a maioria dos paulistanos passa diariamente: a sensação de virar uma sardinha em lata. Fiquei grata por não precisar passar ali todos os dias e me compadeci de quem  precisa. É uma desumanidade.
Pra completar a saga rumo ao aeroporto, o ônibus que pegamos pra chegar em Guarulhos, teve que desviar de uma batida e lá foi o Thiago ajudar o motorista, pendurado pra fora da porta, gritando: "vem! pode vir!" até ele conseguir tirar o ônibus dali.
Apesar da confusão, chegamos a tempo pro check-in e embarcamos sem dificuldades.
Chegamos em Montevideo já de madrugada e havíamos reservado um carro na Budget, cujo funcionário, Nicolás, era de uma simpatia única e nos deu várias dicas. Ficamos quase uma hora conversando com ele e só então seguimos viagem, por volta das 2h da manhã. Nossa ideia era dormir em alguma cidadezinha no caminho pra Cabo Polônio, pois queríamos pegar o caminhão das 10h30 na manhã seguinte rumo ao vilarejo. Dirigimos até uma cidade chamada Atlântida e lá comemos nosso primeiro chivito (um lanche de bife com batata-frita, tradicional do país) e dormimos dentro do carro, na garagem do dono do restaurante, que gentilmente nos cedeu espaço. O plano era acordar cedo e seguir viagem, mas acabamos dormindo até as 8h e foi uma correria. O Thiago acelerou pra valer na estrada, a famosa ruta 9 (que cruza o país e chega até o Chuí).
Chegamos na entrada do parque em cima da hora e ainda tínhamos que separar as mochilas com o que precisaríamos pra passar a noite. O caminhão nos esperou e os turistas que estavam lá dentro nem quiseram muito papo conosco; deviam estar bravos com o atraso.

O caminho até Cabo Polônio é entre as dunas e me lembrou muito a chegada em Jericoacoara. No fim, o caminhão literalmente entra no mar e aquilo me causou muita estranheza. Pude reparar que os conceitos de preservação ambiental são mais flexíveis, no Uruguai e mesmo num Parque Nacional algumas coisas anti-ecológicas são permitidas. Observei também postes de energia e estranhei, pois havia lido que não tinha energia elétrica na vila. Mais tarde, descobri que a luz só chega num local: o suntuoso farol de Cabo Polônio. As casinhas continuam sem energia, usando velas e lanternas. As pousadas e os moradores mais abastados possuem geradores, ou painéis solares.
Cabo Polônio, no Uruguai.
"Estrada" para Cabo Polônio

Chegando no paraíso

A chegada foi mais tensa do que imaginamos, pois não havíamos reservado hospedagem e tudo parecia fechado. Caminhando pela vila, passamos em frente a uma casa e vimos uma movimentação de duas senhoras levando malas para dentro. Pensei: "pronto! São turistas chegando e iremos ficar na mesma pousada que elas". Na verdade, eram funcionárias (ou donas, não sei bem) da hospedaria chamada La Perla e acabavam de chegar após uma temporada em que o local tinha ficado fechado. Conversamos com elas e quase imploramos para ficar lá. Elas estavam preocupadas, pois teriam que arrumar a casa, que tinha passado muito tempo fechada. No fim, as convencemos e tivemos que esperar até elas conseguirem limpar nosso quarto. O resto da pousada estava bem suja e elas passaram o dia TODO limpando e arrumando tudo. Fiquei com dó das duas, até porque já eram idosas.

Entrei no quarto e me surpreendi: ele era praticamente dentro do mar. Delicioso, mas pouco ecológico, na minha opinião. Mas, sem dúvida, dormir ouvindo o barulinho das ondas (e da chuva que caiu à noite) foi inesquecivelmente delicioso.
Cabo Polônio, no Uruguai.
Vista do nosso quarto


Cabo Polônio, no Uruguai.
Construções na beira da praia
Deixamos as malas na hospedaria e fomos caminhar pela vila. Eu estava curiosa para ver os leões-marinhos e conhecer o farol. Partimos da pousada pelas pedras e no caminho já começou o espetáculo: pássaros voavam sobre nossas cabeças e assoviavam alto, o que com o barulho das ondas dava uma sensação deliciosa de paz.
Cabo Polônio, no Uruguai.
Caminho para o farol
A caminhada não demorou e logo tivemos a companhia de um simpático cãozinho, que logo batizamos de Chivito e que nos acompanhou até o farol. Vimos também as ilhas (conjunto de pedras bem próximas à costa), onde habitam colônias de leões-marinho, sendo aqui a maior concentração desses animais no mundo.
Cabo Polônio, no Uruguai.
Nosso companheiro, Chivito, e o farol ao fundo
Quando já estávamos bem perto do farol, subimos as pedras e, então, conseguimos ver os leões-marinhos. Eram muitos. Cem, ou talvez mais que isso. Alguns, nadavam no mar, outros estavam deitados preguiçosamente nas pedras. Eles são muito simpáticos, mas emitem um som meio amendrontador. Eles estavam bem próximos de nós, mas existe uma cerca que impede o acesso direto até eles. Ainda bem.
Leões-marinhos em Cabo Polônio, no Uruguai.
Leões-marinhos (alguns nadando, ao fundo)
Cabo Polônio, no Uruguai.
Preguicinha marinha
Ficamos um bom tempo ali e a fome bateu. Resolvemos voltar por dentro da cidade pra conhecer as casas, mas não foi uma boa ideia: o Thiago estava descalço (na correria pra pegar o caminhão, ele esqueceu de pegar chinelos) e no caminho havia uma verdadeira plantação de carrapichos. Ele dava um passo e o pé ficava todo picado por aquela desgraça. A solução foi a gente ir dividindo o meu chinelo: eu andava uns passos, parava em lugar seguro e jogava a sandália pra ele. Andamos assim uns bons metros até voltarmos para a ruazinha principal da cidade, que era de terra e sem carrapichos. Um perrengue.
Cabo Polônio, no Uruguai.
Patos descansando (no pneu?) e o farol, ao fundo
Cabo Polônio, no Uruguai.
Cabo Polônio

Estávamos praticamente em jejum e saímos procurando restaurante. Estavam, basicamente, todos fechados. Fomos perguntando aos nativos se havia alguma coisa aberta e, finalmente, descobrimos um lugar. Chegando lá, fomos recebidos pela Carina e comemos um pescado, que não estava dos melhores (quase cru), mas pelo menos conseguimos matar a fome.

Após o almoço, caminhamos um pouco pela praia e depois fizemos nossa cesta. Depois de uma noite no carro, merecíamos um sono tranquilo.

Cabo Polônio, no Uruguai.
Caminhada pela praia
No fim da tarde, acordamos e seguimos para o farol. Eu havia lido que subindo os seus tantos degraus, tínhamos uma visão bem bacana, principalmente no pôr do Sol.
Fizemos a mesma caminhada da manhã e rapidamente chegamos, passando novamente pelos leões-marinhos. O farol de Cabo Polônio foi construído em 1886, tendo 26 metros de altura e um alcance luminoso de 17 milhas náuticas. Sua rotação dura dozes segundos (sim, nós cronometramos) e esse tempo foi tema de uma música do famosa cantor uruguaio, Jorge Drexler. Um trechinho da letra diz:

"Un faro quieto nada sería
guía, mientras no deje de girar
no es la luz que importa en verdad
son los 12 segundos de obscuridad. "


Durante a noite, na escuridão de Cabo Polônio, conseguimos vislumbrar toda a potência do farol, que é a única fonte de iluminação do vilarejo... a cada 12 segundos.

Farol de Cabo Polônio, no Uruguai.
Farol de Cabo Polônio
Subimos todos os andares e, finalmente, alcançamos  topo. A vista é, de fato, sensacional. E pra nossa surpresa e alegria avistamos uma enorme baleia, que estava bem em frente ao farol. Antes de iniciar a subida, o Thiago tinha visto uma coisa estranha na água e chegou a dizer que era uma baleia, mas eu não acreditei. De cima do farol, não tivemos dúvidas: era uma baleia. E das grandes. Foi emocionante.

Baleia em Cabo Polônio, no Uruguai.
Baleia nas águas frias de Cabo Polônio
Só depois de namorarmos bastante tempo a baleia, conseguimos dar uma volta completa no farol e apreciar a  deslumbrante paisagem da região. Lá de cima conseguimos visualizar bem as duas praias (norte e sul) que quase se encontram. Aliás, segundo os nativos, Cabo Polônio era uma ilha e as dunas fizeram a junção com o continente. Pesquisei e não encontrei nenhuma informação que comprove isso, mas vendo a proximidade das duas prais dá, sim, pra acreditar que ali já foi um lugar isolado do continente.

Cabo Polônio, no Uruguai.
À esquerda: praia sul e à direita: praia norte (unidas apenas por uma faixa de areia)

Cabo Polônio, no Uruguai.
Praia norte

Cabo Polônio, no Uruguai.
Praia sul
Não ficamos até o fim do dia lá em cima, porque o tempo começou a virar e um vento gelado praticamente nos expulsou. Já era a prévia dos dias que enfrentaríamos a seguir: chuva, vento e frio.

Voltamos para a pousada apreciando paisagens lindas com as luzes róseas do fim do dia.
Pôr do Sol no Farol de Cabo Polônio, no Uruguai.
Pôr do Sol no Farol

Cabo Polônio, no Uruguai.
Caminho de volta
Cabo Polônio, no Uruguai.

Cabo Polônio, no Uruguai.

Chegamos na pousada já escurecendo e o gerador ainda não estava ligado. Não tive coragem de tomar banho frio e decidi esperar o gerador pra ganhar uma água quentinha.
De banho tomado, saímos pra procurar algo pra comer. Na saída, fomos alertados pelas duas solícitas senhoras da hospedaria que levássemos lanterna. E, de fato, precisamos dela. O lugarejo fica absolutamente no escuro à noite e a única iluminação artificial é a do farol. O céu estava nublado e não avistamos muitas estrelas.
Sabíamos que o restaurante do almoço estaria aberto, mas a lembrança do peixe (quase) cru não animou muito. Andamos e encontramos um lugar esquisitíssimo com luzes azúis e um som alto, que parecia ser de um documentário sobre baleias. Entramos e na porta havia uma placa: Cuidado! Cachorro bravo! Ficamos receosos de entrar, mas seguimos em frente, quando ouvimos latidos e saímos correndo. O dono (ou morador- porque não descobrimos se o lugar era um bar, ou uma casa) veio nos receber e o Thiago perguntou da onde vinha o som. Ele explicou que era mesmo de um documentário que ele assistia de um celular e amplificava numa caixa de som. A energia vinha de painel solar. O rapaz parecia estar bem doidão e nos chamou pra comer lá, mas achamos melhor procurar outro pouso.
Encontramos um lugar, onde um senhor de meia idade estava acendendo uma fogueira e haviam velas no balcão. Pensamos em ficar lá, mas a fogueira era com plástico (e não com madeira) e aquela fumaça preta começou a vir em cima de nós. Além disso, achamos que aquele sujeito também era meio estranho e de poucas palavras. Na verdade, achei efetivamente que os moradores do Cabo eram estranhos: ao mesmo tempo solícitos, mas de pouca conversa e meio ariscos.
Vimos, então, que o restaurante do almoço estava abrindo pro jantar e decidimos ir lá. Foi nossa salvação. Dessa vez, fomos atendidos pelo marido da Carina, o Joaquim, extremamente simpático e bom de papo. Ele é  de uma cidade próxima a Punta Del Este e vivi em Cabo Polônio há um ano, cozinhando e curtindo a vida. E, alegria pra nós, ele cozinhava muito melhor que a esposa. Comemos muito bem e bebemos vinhos uruguaios deliciosos de uma vinícola familiar. Passamos uma noite muito agradável ali, iluminados apenas pela luz de velas, pois Joaquim não tinha nem gerador, nem placa solar.
Saímos do restaurante e já observamos a mudança de clima: caía uma chuvinha fina e o vento havia piorado. Voltamos pra pousada e o gerador já estava desligado. Fomos dormir com o barulinho do mar e de madrugada fomos acordados pelo temporal que caía lá fora: era a chegada da Tormenta de Santa Rosa, que nos acompanharia por todos os outros dias da viagem.

A chuvosa Despedida de Cabo Polônio

O dia amanheceu chuvoso. Chuvinha fina, mas contínua. Aproveitamos pra dormir até mais tarde, pois o caminhão que nos levaria de volta só chegaria às 11h. Decidimos aproveitar uma estiada da chuva pra sairmos da pousada e ficamos esperando o caminhão, durante cerca de quarenta minutos, numa barraquinha. Foram momentos de aflição, pois o frio e o vento eram intensos e fomos colocando cada vez mais agasalhos sem conseguir esquentar. Finalmente, o caminhão chegou e éramos os únicos passageiros. Pedimos pra ir na frente, protegidos da chuva e aproveitamos para conversar com o simpático motorista, que trabalha na região há trinta anos e viu muita coisa mudar ali. Segundo ele, há alguns anos atrás os principais turistas que frequentavam o Cabo Polônio eram os argentinos; com a crise econômica, eles pararam de ir e hoje são mais os brasileiros que vão até lá.
Depois de vinte minutos, chegamos à entrada do parque e seguimos viagem para conhecer mais do norte do Uruguai, deixando pra trás a rusticidade e peculiaridade desse lugar tão escondido e misterioso, que é Cabo Polônio.

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6 comentários:

  1. Li vários posts e adorei o blog.
    Parabéns pelos relatos, que, além de agradáveis, são informativos e me fizeram querer conhecer vários locais que desconhecia.

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    1. Muito obrigada, Paula! Fico mesmo feliz de você ter gostado. A ideia é mesmo compartilhar desses momentos inesquecíveis que passamos, quando viajamos! :)

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  2. Ana, caí aqui buscando infos sobre Cabo Polônio :) As fotos estão maravilhosas e estou ansiosíssima pra ir ;) Adorei as dicas em geral!

    Beijos!

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    1. QUe ótimo, Camila! Espero que o post tenha sido útil. Você vai adorar Cabo Polônio! :)
      Boa viagem e depois me conte como foi!

      Bjos

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  3. Inspirado aqui tb, acabo q voltar de lá, que lugar incrível !! distinto de todo!!!

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    1. Lugar mágico, né? Preciso voltar com mais calma!
      Vai fazer relato? :)

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