sábado, 28 de setembro de 2013

Chuí, uma fronteira esquisita

Rua que faz fronteira entre Brasil e Uruguai

Saímos de Cabo Polônio e seguimos, de carro, pela ruta 9 no sentido norte. Nosso objetivo era chegar no Chuy, a cidade uruguaia que faz fronteira com o Brasil. Lá, deixaríamos o carro, já que nosso contrato de aluguel com a Budget não nos permitia atravessar a fronteira do Uruguai com o automóvel, mas nada impedia que atravessássemos a pé pra cidade mais austral do Brasil, o Chuí. Daí, pra conhecer o Oiapoque seria um pulo, obviamente. Pelo menos, em nossos sonhos.
Aproveitamos o caminho pra conhecer alguns pontos e praias, mas não sem nos acompanhar uma chuva e frio incessante, que quase não nos deixou sair do carro. Era a famosa Tormenta de Santa Rosa, que acontece todo ano, mas nesse veio atrasada e chegou junto com a gente no Uruguai.

Entre Cabo Polônio e o Chuí

Nossa primeira parada foi em Valizas, cidade vizinha a Cabo Polônio, separados por um imenso mar de dunas. É bem pequenino, mas com mais estrutura que sua vizinha. As ruas não são asfaltadas e tudo transborda tranquilidade: poucas pessoas na rua e crianças brincando na praia. Fiquei com vontade de voltar ali pra conhecer melhor o pequeno lugar e ainda fazer a caminhada pelas dunas para Cabo Polônio.
Em Valizas, há um rio que separa o município do Parque Nacional de Cabo Polônio. Não conseguimos chegar lá, por causa da chuva, mas chegamos próximo.

Valizas
Nossa próxima parada foi na Punta del Diablo, uma cidade já bem mais estrutura e, pra minha surpresa, muito charmosa: casas transadas, restaurantes  bacanas. Não tem (ainda bem) a ostentação de Punta del Leste, mas é menos selvagem que Valizas, ou Cabo Polônio. Procuramos algum lugar pra almoçar lá, mas não encontramos nenhum aberto. Parece que toda estrutura é mesmo só pra alta estação. As praias dali são extensas e agitadas (não sei se sempre, ou se pela bendita frente fria que assolou o Uruguai nesses dias).

Encarando um ventinho gelado, em Punta del Diablo

Nem os surfistas encararam o frio

Casas charmosas na orla de Punta del Diablo

Seguimos pela ruta 9 e chegamos no Parque Nacional de Santa Teresa, que é enorme e encantador. Tanto que dedicarei um post só pra ele.

Saímos do Parque famintos e pedimos uma indicação de restaurante a um funcionário, que nos indicou o Restaurante de la Ruta, obviamente na própria Rua 9, em Coronilla. Sentimos que já estávamos perto mesmo do Brasil, quando fomos recebidos pelo português perfeito da simpática dona do restaurante. Durante o almoço, uma passeata era feita pelos estudantes da cidade, que  haviam perdido suas férias da primavera, após o governo ter obrigado os professores de repor as aulas perdidas, durante uma greve em Montevideo. Essa era a questão: a greve foi em Montevideo e não em Coronilla e eles haviam tido aulas normais, durante a tal grave na capital. A bandeira dizia: "Montevideo não é o interior." Justo.

Enfim, o Chuy

Seguimos, então, pra última parada do dia: Chuy.  Durante o caminho, descobrimos que os preços da gasolina no Uruguai eram estratosféricos. Na rádio do carro, a oposição ao governo do Mujica usava isso como argumento contra seu mandato. Foi quando descobrimos que muitos uruguaios atravessam a fronteira pra abastecer no Chuí, cidade brasileira com preços do combustível mais acessíveis. Ficamos pensando se faríamos o mesmo, ou não. Pegamos dicas de postos próximos à fronteira e deixamos pra decidir na hora.

Enfim, chegamos na cidade do Chuy, passamos a aduana e seguimos por ruazinhas simples, mas organizadas. Queríamos chegar logo na fronteira e o Thiago foi cortando o caminho, seguindo as dicas que tínhamos sobre o posto de gasolina. Quando, finalmente, chegamos na fronteira, não chegou a ser uma surpresa, mas foi uma decepção: apenas uma rua separa os dois países, sendo o lado brasileiro bem mais desorganizado e feio. No nosso lado, a rua chama Av. Uruguai e no lado uruguaio, chama Av. Brasil. No lado tupiniquim, as ruas são de barro, em alguns trechos: uma vergonha.
Rua asfaltada no Chuy e de barro no Chuí
Atravessar a rua é mais simples do que imaginamos e havia um posto logo ali, do outro lado da rua. Atravessamos e meu coração disparou: pela primeira vez na vida, estava ilegal no meu próprio país. Chegamos no posto e logo abastecemos. O engraçado foi a placa que havia no posto, que o Thiago quis posar do lado: Welcome to United States. Depois de algumas risadas, saímos dali cheios de medo e, ufa, voltamos pro Uruguai são e salvos e com o tanque cheio.
Posto de gasolina, no Chuí, ou nos EUA?!
Era hora de zarpar. Precisávamos chegar em Montevideo ainda aquele dia, já com uma reserva supostamente feita. Pegamos a ruta 9 no sentido oposto à vinda e dirigimos, dessa vez, sem nenhuma parada. A pergunta que não queria calar era: E Punta del Leste? A praia mais famosa e badalada do Uruguai não entrou, de propósito, no nosso roteiro, mas com carro alugado e sem hora pra chegar, podíamos dar uma passadinha lá, nem que fosse pra falar mal, afinal era caminho mesmo.

Chegamos em Punta já à noite e com o intuito de apenas dar uma volta pela cidade. É bonita, mas nada que não tenhamos igual aqui no Guarujá, ou Floripa: muita ostentação e esnobismo. O mais legal foi ver o monumento do afogado. Mais uma voltinha pela cidade e pé na estrada de novo.

O louco e o afogado
Depois de dirigir o dia todo, chegamos, finalmente, em Montevideo, cansados e famintos. Seguimos direto pro hostel que tínhamos certeza de que uma reserva nos esperava. Chegando lá, um funcionário simpático nos atendeu e nos deu a notícia: nossa reserva era apenas pro dia seguinte. Havíamos reservado uma estadia a menos. Naquela noite, não haviam vagas disponíveis. Já eram mais de 22h, sob chuva, frio e vento e não tínhamos onde ficar. Inacreditável. O rapaz do hostel ainda nos ajudou ligando pra outros hostels, mas todos estavam lotados. Parece que havia um evento na cidade, uma espécie de festa do peão, que só terminaria no domingo e a cidade estava movimentada.
Depois de algumas ligações, conseguimos um lugar e seguimos pra lá. Era um hostel horroroso, sujo e barulhento. Mas quentinho, pelo menos. Jantamos meio estressados e nem consegui curtir muito a famosa carne uruguaia.
O Thi ainda teria que levar o carro no aeroporto, pois nosso aluguel acabava naquela madrugada. Eu fiquei no hostel. O último ônibus saía do aeroporto à uma da manhã, rumo ao centro da cidade e ele precisava pegá-lo. Só que naquela série interminável de zicas, ele perdeu o tal ônibus. Teve que pegar um táxi, que custou quase uma diária a mais do carro alugado. O coitado chegou no hostel já quase três da manhã. Fim de uma noite sofrida. E era só o começo do azar...


Mais do Uruguai

2 comentários: