segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Montevideo em dias de Tormenta de Santa Rosa

Montevideo, capital do Uruguai
Rio de la Plata
Montevideo é uma cidade curiosa. É capital do país, sede do Mercosul, apresenta o maior índice de qualidade de vida e desenvolvimento humano da América Latina, perdendo apenas pro Chile quanto ao índice de países menos corruptos do continente. Seu atual ex-presidente, Pepe Mujica, famoso pelos hábitos de vida auteros, colocou o Uruguai na crista dos debates mundiais ao legalizar o aborto e ao regulamentar o uso da maconha (que passara a ser comercializado pelo Estado). Foi também o primeiro pais sul-americano a legalizar a união gay, assim como a adoção por parte de casais homossexuais. Em 2009, os estudantes uruguaios do ensino primário foram os primeiros no mundo a receber um laptop com internet grátis para ajudar nos estudos.
Mas, ao mesmo tempo, Montevideo respira ares de interior, com uma calma e tranquilidade inacreditáveis para quem vem, como eu, de uma metrópole como São Paulo. Com uma população de apenas dois milhões de habitantes, sendo a grande maioria de idosos, a correria das grandes cidades parece que ainda não chegou por aqui.
Em nossos dias no Uruguai, fomos presenteados com a Tormenta de Santa Rosa, uma famosa frente fria, que todos os anos acontece no fim de agosto, mas que esse ano atrasou e resolveu nos recepcionar. Passamos dias gelados, chuvosos e com ventanias assustadoras. Nada que nos impedisse de fazer nossas peripécias pela cidade e arredores.

Bienvenidos à Montevideo

Após passarmos por várias cidades entre Cabo Polônio e o Chuí, depois de um dia inteiro de viagem, chegamos já de madrugada, num frio congelante e mortos de cansados. Havíamos feito reserva num hostel e estávamos tranquilos achando que teríamos uma caminha quente nos esperando, mas ledo engano. Os simpáticos atendentes do hostel, após procurarem nossos emails, nos informaram que havíamos reservado apenas para o dia seguinte e naquela noite não haviam mais vagas. Maravilha! Eles cordialmente nos ajudaram a achar algum lugar e depois de ligarmos pra vários locais (a cidade estava cheia naquele fim de semana, devido a um tipo de festa do peão, popular no país), encontramos um hostel pra pernoitar. Chegamos lá e o lugar era tenebroso: barulhento, velho e sujo. Uma atendente acelerada e louca nos acomodou num quarto de seis pessoas (mas que, pelo menos, ficamos sozinhos). 
Saímos pra jantar e ainda teríamos que devolver o carro, já que o aluguel venceria às duas da manhã. Nossa primeira refeção em Montevideo, claro, foi recheada de carne e vinho, mas o clima não estava dos melhores, pelo cansaço e estresse do fim do dia.
Após a janta, fiquei no Hostel e o Thi foi entregar o carro, no aeroporto. Haveria um último ônibus para ele voltar pra cidade à uma da manhã, mas ele acabou perdendo essa condução e teve que pagar um táxi pra voltar. Acabou saindo o preço de mais uma diária do carro. Nossa primeira noite montevideana não foi das mais tranquilas. E as emoções só estavam começando.

Pelas ruas de Punta Carretas

No dia seguinte, acordamos e já arrumamos nossas coisas para seguir sair daquele hostel horrível. Depois de um rápido café-da-manhã, seguimos pro nosso hostel original, o Puerto Verde. Decidimos ir caminhando e seria uma agradável caminhada por ruas arborizadas e pelos bonitos casarões do bairro de Punta Carretas, não fosse o frio e vento de cortar a alma.

Punta carretas, bairro de Montevideo, capital do Uruguai
Ruas de Punta Carretas
Passamos por uma feirinha local e aproveitamos pra comprar luvas e segunda pele e mesmo mais agasalhados estava difícil suportar o vento cortante. A temperatura não estava tao baixa. Talvez, uns dez graus, mas o vento fazia a sensação térmica despencar.
Chegamos e nos instalamos no novo hostel, numa simpática casa de Punta Carretas, um dos bairros mais nobres da cidade. Colocamos mais agasalhos pra enfrentar a ventania e logo partimos pra passear.
Pegamos um ônibus para Ciudad Vieja e não tivemos dificuldades com o transporte público (apesar de ainda não haver metro em Montevideo). No caminho, um senhor muito bem vestido com um sobretudo e chapéu ao imponente estilo Carlos Gardel foi cantando alguns clássicos da música rio-platense.

Mercado del Puerto de Montevideo


Decidimos seguir ate o Mercado del Puerto, pois a fome já começava a bater. Incrível como o frio nos faz gastar mais energia. Aliás, eu entendi o motivo dos uruguaios serem magros, apesar de comerem tanta carne e gordura: o frio acelera o metabolismo daquela gente, sem sombra de dúvidas.
O Mercado del Puerto é uma construção de 1865, toda em estrutura metálica, desconhecida na América da época e que seria mundialmente reconhecida apenas em 1869 com a construção da Torre Eiffel. Inicialmente, o mercado servia como provedor de carnes, frutas e legumes para as ricas famílias que passavam a morar nas cercanias do mercado. Na atualidade, é um imenso galpão onde reúnem-se inúmeros restaurantes com um cardápio em comum: a parrillada, prato típico do país. A carne bovina é famosa nos pampas uruguaios e chega-se mesmo a dizer que, naquele país, há mais cabeças de gado do que de gente.

Andamos pelos corredores aromáticos do mercado, sentindo o cheirinho da carne e aproveitando o quentinho das brasas, que ficam expostas ao público. Escolhemos um restaurante, que parecia mais arrumadinho e ficamos esperando vagar lugar no balcão (o couvert do balcão é mais barato do sentando nas mesas). Quando sentamos, não gostamos do atendimento e decidimos mudar pro restaurante em frente: o Estancia del Puerto, mais simples, porém com um excelente atendimento e preços mais justos, além da comida deliciosa. Comemos a parrilla e o Thi pediu morcillas (um tipo de linguica)e tomamos a medio y medio, um frisante criado no mercado del puerto com uma mistura de uvas uruguaias. Achei doce demais (ainda mais pra acompanhar a refeição), mas valeu pra experimentar.

Mercado do Porto, no Montevideo, capital do Uruguai
Almoço no Mercado del Puerto

A charmosa Ciudad Vieja

Saímos do mercado e seguimos para conhecer a Ciudad Vieja. Caminhamos pela famosa Avenida 18 de julio com seus prédios históricos e suntuosos. Essa é a principal rua de Montevideo e tem esse nome em homenagem a primeira constituição do país, datada de 18 de julho de 1830. No caminho, passamos pela fonte de los condados, onde amantes de várias gerações prendem ali cadeados com seus nomes gravados e juram união eterna. Eu e o Thi não tínhamos cadeados e perdemos essa chance de selar nosso amor.

Fonte dos cadeados, em Montevideo, capital do Uruguai
Fonte de los Condados


Plaza Independencia, no Montevideo, capital do Uruguai

Caminhamos mais e chegamos na Plaza Independencia, a mais famosa praça do país, projetada em 1837 e que durante a ditadura uruguaia passou a abrigar o mausoléu do herói nacional, Jose Artigas. 
Artigas viveu entre 1764 e 1850 e participou ativamente de diversas guerras e insurreições contra os invasores uruguaios (Inglaterra, Portugal, Espanha e mesmo Brasil) lutando pela independência do país, que não viu concretizar, pois morreu exilado no Paraguai, apos a derrota de sua guerrilha.


Plaza Independencia, em Montevideo, capital do Uruguai
Plaza Independencia
Mausoléu de Jose Artigas na Plaza Independencia, em Montevideo, capital do Uruguai
Mausoléu de Jose Artigas
A praça é bem arborizada e em cima do Mausoléu uma enorme estátua emoldura o lugar. Em frente, fica a Puerta da Ciudadela, que era a porta da cidade, quando ela era fortificada. A fortaleza que protegia Montevideo dos ataques de invasores portugueses e ingleses e dos próprios indígenas insurrectos foi demolida na primeira metade do século XIX e sua entrada foi a única ruína que restou.

Puerta de la Ciudadela, em Montevideo, capital do Uruguai
Puerta de La Ciudadela
Bem próximo às ruínas da ciudadela fica o Teatro Solis, o mais tradicional do país, inaugurado em 1856. Seu nome homenageia um dos navegadores espanhóis que participou da primeira expedição ao Rio de La Plata, Juan Diaz Solis. O prédio foi projetada representando a ópera Ernani, de Verdi.

Teatro Solis, em Montevideo, capital do Uruguai
Teatro Solis
Resolvemos entrar no teatro, menos pra conhecê-lo e mais pra nos aquecermos, pois o frio já estava nas nossas entranhas. Seu interior é bem moderno e elegante. Sentamos no café e tomamos um chocolate quente, que rapidamente esfriou, mesmo naquele ambiente aquecido.

Apesar de não termos caminhado muito, o frio havia nos desgastado sobremaneira. Meu corpo estava exaurido. Era como se eu tivesse corrido uma maratona, sentia mesmo um cansaço físico. Resolvemos voltar pro hostel e demorou bastante até que conseguíssemos nos aquecer debaixo das cobertas.

Dormimos até o início da noite e aproveitamos o quentinho da lareira no hall do hostel para nos aquecermos e socializarmos com o pessoal. Lá conhecemos o Marcos, um arquiteto uruguaio, que está em Montevideo concluindo sua formação acadêmica e mora no hostel. Conversamos bastante nos dias que estivemos lá e foi excelente ver a avaliação de um nativo sobre a política e a economia do país. Marcos votou na Frente Ampla (partido de centro-esquerda que reúne vários partidos políticos, o qual o atual ex-presidente, Mujica, faz parte), porém ele ressaltou vários problemas que o país enfrenta e que, segundo ele, o Mujica deixou de lado: os altos preços do país (a gasolina uruguaia é uma das mais caras do mundo), a falta de uma indústria nacional, que faz o país depender quase que exclusivamente das exportações, a falta de empregos, fazendo com que muitos jovens emigrem para outros países, como Brasil e Argentina. Conversamos também sobre as dificuldades na saúde pública, que passa por dificuldades maiores que o Brasil, fazendo com que os uruguaios dependendo quase que exclusivamente de seguros de saúde, que também não dão conta das necessidades da população. Fomos ao Uruguai na época do lançamento do Programa Mais Médicos, com incentivos para que brasileiros e estrangeiros fossem trabalhar nos rincões mais afastados do país e muitos médicos uruguaios se inscreveram no programa, deixando o governo uruguaio preocupado com essa debandada de seus médicos.

Depois dessa agradável conversa e com um novo olhar sobre o país, a fome apertou e nos despedimos do Marcos pra ir jantar. Resolvemos experimentar um prato famoso no Uruguai: o chivito, uma espécie de hambúrguer, feito com bife. Fomos num restaurante chamado Chivito Lo de Pepe, que havíamos recebido ótimas indicações. Na ida, já fomos com a chuva, que persistiria pelos demais dias da viagem (e ainda pioraria) e pegamos um táxi pra fugir do frio. O lugar é simples e barato, além de ter um chivito delicioso. Só o atendimento que não foi dos melhores, mas nada que atrapalhasse nosso apetite.
Aliás, isso foi algo que nos decepcionou um pouco no Uruguai: havíamos escutado que o povo era muito solícito e educado, mas não tivemos essa impressão. Pelo contrário, achei um povo meio bruto. Não são mal educados, mas são broncos.

Enfim, fomos dormimos com a calefação do hostel quebrada e nos enchemos de cobertas pra nos aquecer. Lá fora, o vento uivava e ouvíamos a chuva caindo cada vez mais forte.

City-tour em Montevideo

Acordamos e um dilúvio caía lá fora. Confesso que me bateu um desânimo, afinal havíamos escolhido vir em setembro, justamente pra não pegar tanto frio, mas já estávamos lá e resolvemos aproveitar do jeito que dava. O Thiago deu a ideia de alugarmos outro carro, assim ficariam mais fáceis os deslocamentos na chuva. Saímos do hostel e usamos um guarda-chuva comprado na véspera. Com poucos passos, o guarda-chuva já havia quebrado: o vento era muito forte e não tinha como nos protegermos. Chegamos na agência da Budget ensopados e ainda com mais frio. Pra piorar parece que todos os turistas pensaram o mesmo que nós e já não haviam mais carros disponíveis para locação. Era domingo e as outras agências estavam fechadas. Nessa hora, senti vontade de chorar e pensei em desistir da viagem. O Thi teve mais presença de espírito e fez uma reserva pro dia seguinte. Pelo menos um dia de passeio estava garantido.

Fomos pro shopping Punta Carretas (bem em frente à Budget) e tentamos pensar no que fazer aquele dia. Era domingo, dia da famosa feira de Tristán Navarro e que todos falavam que não podíamos perder. Decidimos pegar um táxi até lá pra ver como seria. Infelizmente, estava vazia. Quase não haviam barracas e parece que todos estavam em suas casas, fugindo do frio daquele dia. A chuva deu uma trégua e conseguimos caminhar um pouco pela feira, mas logo voltou e não tinha mais condições de ficarmos ali.

Feira de Tristán Navarro, em Montevideo, capital do Uruguai
Feira de Tristán Navarro

Foi quando o Thi teve uma ideia que salvou (ou tornou menos pior) o nosso dia: fazer o city tour da cidade. Havíamos visto o anúncio no hostel e havíamos tirado uma foto dos pontos de parada. Na verdade, a ideia era saber os pontos mais turísticos da cidade pra conhecer de transporte público mesmo, mas a chuva e o frio acabaram nos conduzindo ao city tour, afinal seria uma maneira de conhecer a cidade protegidos do tempo. Está longe de ser nosso tipo de viagem preferido, mas naquela condição era o que nos restava.
Decidimos começar do Mercado Del Puerto e aproveitamos pra comer algo por lá, antes de embarcarmos no ônibus. O restaurante da véspera estava fechado, então sentamos num outro. Explicamos que estávamos com pressa e que comeríamos algo rápido. Pedimos apenas uma provoleta e uma morcilla, mas a conta foi absurdamente alta. Depois, nos demos conta de que o valor do cobierto e dos 10% do garçon tinham saído mais caro do que a própria comida. Uma furada.

E tem mais: fomos pro ponto de embarque e descobrimos que o horário de nossa programação (fotografada no hostel) estava desatualizado e ainda teríamos meia hora para a próxima saída. Poderíamos ter almoçado com calma e sem termos sido roubados. Enfim...

Finalmente, embarcamos no city tour e a chuva nos acompanhou durante todo o trajeto. Poderíamos descer em qualquer dos pontos e subir quantas vezes quiséssemos, mas com aquele clima, fomos deixando passar todos os pontos e conhecemos a cidade toda sem sair do ônibus. Um lugar que me pareceu lindo e espero conhecer com bom tempo, um dia foi o Prado, o maior parque público da cidade. O passeio durou cerca de uma hora e descemos no Shopping Punta Carretas, do lado do nosso hostel. Passamos no mercado, compramos vinhos (o Thi queria experimentar o Tannat, uva típica do Uruguai), queijos e alfajores. Fomos pro hostel e de lá não saímos mais. Ficamos bebendo e conversando com o Marcos e ainda conhecemos uma moça da República Dominicana, que estava no Uruguai trabalhando e aguardando seu visto pra ir trabalhar no Chile. Conhecemos um outro rapaz também dominicano, na mesma situação (mas ele aguardava o visto pra Argentina). Fiquei pensando que nós, brasileiros, ainda somos bem vistos eu vários países, se comparados aos nossos nascidos da América Central, ou África.

Fomos dormir mais aquecidos pelo álcool do que pela calefação do hostel. E esperançosos de que o dia seguinte fosse mais proveitoso com a possibilidade de passearmos com nosso próprio carro.

O dia que invadimos a Casa do Mujica

Acordamos e seguimos direto pra agência da Budget. Nosso carro, dessa vez, nos esperava já reservado na véspera. Seguimos direto pra um dos lugares que eu mais queria conhecer em Montevideo: a casa do Mujica.
Havíamos pesquisado e sabíamos que ele tinha um pequeno rancho, numa área rural na periferia de Montevideo. Descobrimos o bairro, depois da rua (Calle Colorado), criamos coragem e fomos. O lugar fica bem distante do centro e andamos uns bons 15km até chegar lá. As ruas do bairro são de terra batida e passamos por várias plantações até encontrarmos uma viatura policial, bem em frente à casa dele. Fomos abordados por dois simpáticos policiais e uma simpática cadelinha, que nos informaram que aquela era uma área de segurança nacional e não poderíamos ficar aqui. Perguntaram se éramos jornalistas e disseram que eu não poderia fotografar. Eu, claro, fiz umas fotinhas escondida dos policiais. Fiquei encantada com a simplicidade do lugar e com a coerência no discurso do presidente, que se mantém fiel aos princípios de simplicidade, mesmo no cargo mais alto de seu país. Para Mujica, ter liberdade é precisar de pouco para viver, já que quanto mais posses, mais tempo perdemos tendo que administrá-las. É por essas (e por outras) que eu sou fã do Mujica.

Rancho do Mujica, em Montevideo, capital do Uruguai
Foto (escondida) no rancho do Mujica

2 comentários:

  1. Oi viajantes!
    Pena pelo mau tempo nessa capital que, como enfatizou no texto, tem ares de interior. Impossível não reparar e se intrigar pela quantidade de pessoas, de todos os tipos, segurando a cuia do chimarrão numa mão e a garrafa térmica sob o mesmo braço. Não largam os itens por nada...
    Comi muito e bem nessa cidade humana, dotada de muitas áreas de lazer prestigiadas pela população.
    Belos relatos,
    Augusto.
    http://viajantesustentavel.blogspot.com.br/

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  2. Eu costumo dizer que não tem tempo ruim, quando estamos viajando, mas nossos dias em Montevideo quase me fizeram mudar de ideia de tanto perrengue que passamos... rs
    Depois que alugamos um carro, as coisas melhoraram, pois tínhamos como fugir da chuva e do vento frio. Foi assim que conseguimos visitar a casa do Mujica, uma chácara na periferia da cidade, que nem asfalto tinha. Sou uma fã incondicional do Pepe e estou triste que ele sairá do governo esse ano. Torço pra que o candidato atual da Frente Ampla, Tabaré Vásquez, vença por lá, mas parece que ele enfrenta alguma resistência.

    Mais uma vez, agradeço a visita, Augusto. Apareça sempre! ;)
    Abraços,
    Ana

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