quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Entre a Praia do Forte e Imbassaí

 "Você já foi a Bahia, nega?
Não?
Então, vá!"
(Dorival Caymmi)
Praia do Forte na Bahia

A Praia do Forte é atualmente um dos destinos turísticos mais badalados do Brasil. Há alguns anos atrás, o pequeno vilarejo, pertencente ao município de Mata de São João era apenas uma pequena vila de pescadores, cujos únicos turistas eram aventureiros em busca de lugares inusitados. Tudo mudou na década de 80, quando a região foi descoberta pelo grande público, após a instalação de um Ecoresort, tornando-se, então, point de todos os tipos de viajantes.
Ao contrário do que observamos em Jericoacoara, onde a população local foi praticamente expulsa da região e a preservação ambiental tem perdido espaço pro turismo predatório, a Praia do Forte tem conseguido manter (parte) de suas características originais e passeamos pelas ruas, observando casas de nativos bem no centrinho da cidade, dividindo espaço com pousadas e restaurantes. Além disso, o Projeto Tamar mantém intensa atividade educativa e fortalece a ideia da preservação ambiental, além de oferecer empregos aos jovens da região e à pescadores (hoje chamados de tartarugueiros, pois conseguem saber onde há ovos de tartarugas apenas seguindo o rastro delase que antes caçavam as tartarugas para sobreviver. Verdadeiramente, nos encantamos com a beleza do lugar, que tenta conciliar turismo e preservação ambiental de maneira sustentável.
Aproveitamos o ensejo para também conhecer Imbassaí, praia mais ao norte e menos turística (porém não menos cheia). Isso tudo após uma estadia agradabilíssima na casa de amigos queridos, em Itacimirim, praia lindíssima ao sul da Praia do Forte (e há mesmo quem diga que é mais bonita que a irmã mais famosa - e eu não discordo).

Imbassaí


Saímos de Itacimirim no começo da manhã e ganhamos uma bela carona dos nossos anfitriões, July e Nicolas até o Hostel Praia do Forte. Já no check-in, recebemos uma fitinha (como a do Bonfim) para amarrar no pulso e que nos dava direito a entrar de graça no Projeto Tamar e no Projeto Jubarte e ainda nos oferecia descontos em vários restaurantes da cidade. Uma maravilha.
Mas nosso plano não era ficar na Praia do Forte aquele dia: queríamos conhecer a ainda pouco falada Imbassaí, mais ao norte da Praia do Forte. Saímos a procura de informações de como chegar lá à pé e todos nos desaconselhavam, dizendo que era longe e perigoso. Decidimos, então, pegar uma van até a entrada da vila (que também pertence à Mata de São João) e ainda caminhamos cerca de 2km até a praia, tendo que atravessar o Rio Imbassaí por uma ponte simples e mal conservada. O rio é lindo e parece ser o ponto mais importante da vida, na vila.
Ali, nitidamente há menos estrutura de turismo e precisamos caminhar um bom tempo numa areia escura e quente, que queimou meus pés e me deixou com a sola descascando por algumas semanas. Mas nada que atrapalhasse o passeio, ainda bem.

Rio Imbassaí, na Bahia
Atravessando o Rio Imbassaí

Chegando próximo à praia, fomos recebidos por vários rapazes que tentavam nos convencer a entrar nos diversos restaurantes da região. Era a prévia do que viria a seguir, pois ao chegar nas margens do rio, já nas areias da praia, levamos um susto com a quantidade de gente que estava ali, todos sentados em barracas dentro do rio e numa barulheira ensurdecedora.
Confesso que foi um banho de água fria ver aquela multidão, pois achava que Imbassaí era uma praia pouco frequentada. Ledo engano. Tentamos fugir daquela muvuca, seguindo a margem do rio, que faz um belo caminho cheio de curvas nas areias da praia antes de chegar ao mar e aos poucos, a multidão foi diminuindo, apesar de termos companhia ao longo de todo caminho até a desembocadura do rio.

Imbassaí na Bahia
Seguindo as margens do Rio Imbassaí, na direção do mar

Depois de alguns metros de caminhada, chegamos no ponto que o rio encontra o mar e é bem bonito ver as piscinas que se formam nas curvas do rio.

Rio IMbassaí encontrando o mar
Finalmente, o rio encontra o mar

Procuramos algum lugar para descansar, que não tivesse tanta gente aglomerada, afinal nós somos declaradamente avessos à lugares muito cheios. Acabamos descobrindo um casal que alugava barracas e ficamos ali com eles, um ponto relativamente mais vazio. Aproveitamos para comer o acarajé da moça e conversamos sobre o turismo na região, que ainda parece estar se estruturando e vem melhorando a qualidade de vida da população, principalmente porque nessa região a pesca não é muito favorecida, por ser área de mar aberto. Foi uma conversa agradável e acabamos descobrindo com eles que é possível, sim, ir até a Praia do Forte à pé e decidimos voltar fazendo essa caminhada.

Curvas do Rio Imbassaí
Curvas do Rio Imbassaí

Passamos boa parte da tarde descansando e curtindo as piscinas formadas pelo rio, na nossa barraca improvisada e ainda nos divertimos com pequenos sirizinhos que faziam bolinhas de areia, nos lembrando da famosa música do Gonzagão:

"Vi dois siris jogando bola,
lá no mar.
Vi dois siris bola jogar,
lá no mar"

A travessia entre Imbassaí e a Praia do Forte


No fim da tarde, com a maré baixa, iniciamos nossa empreitada de volta, dessa vez, caminhando pelas belas e desertas praias entre Imbassaí e Praia do forte. Não sabíamos, ao certo, qual seria a distância a percorrer e seguimos num ritmo constante, mas tranquilo.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte
Iniciando a caminhada de volta para a Praia do Forte

No início, ainda tínhamos alguns caminhantes que nos acompanhavam no trajeto, mas nenhum deles foi além das pedras que ficam ao fim de Imbassaí e seguimos sozinhos adiante. Logo, encontramos alguns pescadores tranquilos com suas varas de pesca. Eles também ficaram pra trás, assim como todos os resquícios de vida humana.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
Encontro com pescadores

Nem mesmo canoas nós encontramos e apenas uma pista me lembrava a passagem de um ser humano por ali: pegadas na areia, que pareciam ser de um casal, que passara ali na maré alta (pois as pegadas eram bem na areia fofa, no alta da praia). Curioso como que nessas circunstâncias inóspitas, pequenos detalhes nos chamam atenção, pois passamos um bom tempo examinando aquelas pegadas e tentando imaginar em que condições aquelas pessoas teriam passado ali. Não faria sentido algum fazer aquilo numa praia movimentada e cheia de gente.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
Nossas pegadas e de outras duas pessoas, os únicos índícios da passagem humana ali

O primeiro trecho de praia parecia ser infinito. Uma curva logo ali nunca chegava e o que parecia ser só 1km foi se transformando em quatro, depois cinco e a gente ainda naquele primeiro trecho.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
O primeiro trecho da viagem termina logo ali, no fim dos coqueiros

Resolvemos desencanar de usar os coqueiros como parâmetro de distância e começamos a nos ocupar com as descobertas do caminho: peixes, pássaros e até uma camisinha do mar. Sim, descobrimos um ser de uma coloração arroxeado-transparente, no formato de uma camisinha e ficamos nos perguntando o que seria aquilo. Achamos prudente não mexer muito no bicho, ainda bem, pois no dia seguinte descobrimos que se tratava de uma água-viva caravela bem comum na região.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
Encontros no caminho

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
Água-viva da espécie camisinha marinha

Havíamos nos determinado a só descansar, quando chegássemos na bendita ponta, onde terminavam os coqueiros e depois de quase 6km, ela chegou. E com ela, a presença humana. Depois de quase duas horas sem contato algum com qualquer atividade da nossa espécie, avistamos um casal vindo na nossa direção e logo puxamos assunto. Descobrimos que ali havia um resort e que mais uns 4km e já estaríamos na Praia do Forte. Que alegria. 

Seguimos adiante com mais energia, sabendo que já havíamos passado da metade do caminho e resolvemos parar para descansar logo depois do resort, numa enseada com mar tranquilo. O Sol já estava baixando e a luz foi ficando cada vez mais linda pra fotografar. Uma beleza.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
O outro lado dos coqueiros infindáveis

Seguimos viagem e o terreno começou a ficar mais recortado com diversas pequenas praias e enseadas, todas cheias de pedras. Foi mais agradável caminhar assim com novas paisagens a cada curva e ficou mais fácil disfarçar o cansaço que começou a bater.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
A paisagem começa a mudar

Novos encontros encheram nossa caminhada de emoção e ficamos como bobos correndo atrás de siris e pássaros. Pena não termos visto nenhuma tartaruga, mas parece que elas só vão para a areia colocar seus ovos durante a noite.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
Mais encontros inesperados

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
Siri perdido

O pôr do Sol se aproximava e com isso a maré começou a subir. Fomos sendo empurrados para dentro da praia, em direção à areia fofa, o que foi tornando a caminhada cada vez mais difícil. A sensação era de que nenhuma areia no mundo era mais fofa e pesada que aquela.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
Fim de tarde se aproximando da Praia do Forte

Finalmente, vislumbrei um farol e apertei o passo. Queria chegar logo e acabar com aquele martírio da areia fofa. Pro meu alívio, o farol era do Projeto Tamar, já na Praia do Forte e, enfim, havíamos chegado. Pra completar a alegria, nossa chegada foi presenteada com um belíssimo prêmio: um pôr do Sol fantástico, com vista pra enseada que forma a Praia do Forte. Foi de tirar o fôlego, literalmente.

Caminhada entre Imbassaí e Praia do Forte, na Bahia.
Finalmente, o farol do Projeto Tamar

Pôr do Sol na Praia do Forte, na Bahia
Pôr do Sol na Praia do Forte

Ficamos um bom tempo ali, descansando e aproveitando aquele visual incrível. Só fomos embora depois que a fome chegou e o cansaço bateu. No GPS do Thiago, a marca era de 10,3km de caminhada em pouco menos de três horas. 

Fim de tarde na Praia do Forte
Descansando


Praia do Forte


Chegamos no movimentado centrinho, e o Thi teve a brilhante ideia de comemorarmos nossa chegada com um açaí bem geladinho. Caiu como uma luva.

Seguimos para o hostel para um merecido banho e depois, fomos jantar num dos restaurantes que tínhamos desconto: A Casa da Naty, comidinha caseira deliciosa, além de ter uma caipirinha incrível com uma cachaça local, chamada Sapiraga. Gostamos tanto que almoçamos ali também no dia seguinte (mas confesso que o almoço não estava tão bom).

Caminhamos um pouco pelas ruazinhas movimentadas no centro, mas logo fomos dormir, porque o cansaço estava batendo e meus pés doíam pela caminhada descalça na areia e pela queimadura nas areias de Imbassaí.

O dia seguinte era uma segunda-feria e dia de, enfim, curtimos a Praia do Forte propriamente dita, já que havíamos caminhado pelas redondezas, mas ainda faltava curtir a vila. 
Acordamos cedo e depois de um belo café-da-manhã, caminhamos pelas ruas paralelas à avenida principal (tristemente nomeada de Avenida ACM) e passamos por muitas casas de nativos. Havia um clima de ressaca no ar, já que era uma segunda-feira e a cidade parecia estar se recuperando do agito do fim-de-semana. Muitos moradores limpavam suas casas, lavavam seus carros, regavam suas plantas. Um clima de interior. em plena praia.
Chegamos na praça principal e nem parecia o mesmo lugar da véspera: tudo calmo e apenas alguns nativos conversavam tranquilamente nos bancos. A Praia estava completamente vazia.

Praia do Forte na Bahia
Praia do Forte, numa manhã de segunda-feira

Fim de tarde na Praia do Forte

Passamos pela pequena e charmosa Capela São Francisco de Assis, pequena construção com características coloniais, que é o cartão postal da cidade. Infelizmente, ela estava fechada e nós não conseguimos entrar para conhecer seu interior.

Capela São Francisco de Assim, na Praia do Forte
Capela São Francisco de Assis

Logo atrás da capela, fica o Projeto Tamar e chegando lá descobrimos que a entrada é gratuita até às 9h e nossa fitinha não serviu muito, pois chegamos bem antes disso.

Projeto Tamar na Praia do Forte
Entrada do Projeto Tamar

Demos uma volta no lugar e achamos tudo meio sem graça, pois não entendemos muita coisa. Assistimos um videozinho completamente non-sense sobre algo que parecia ser sobre tartarugas, mas haviam sereias e um rapaz afogado e tudo meio psicodélico, que não deu pra acompanhar bem.
Decidimos, então, participar da visita guiada, o que atrasou um pouco nosso dia, mas foi o que salvou a visita no Tamar, pois todos os detalhes passaram a fazer sentido, além de conhecermos detalhes do projeto e da história local. Foi muito bacana. Conhecemos os tipos de tartarugas marinhas existentes, suas características e hábitos; conhecemos os detalhes técnicos do Projeto e ainda demos risadas com o guia.

Projeto Tamar na Praia do Forte
Visita guiada

Saímos de lá e a ideia era conhecer o Castelo Garcia D'avila, que é bem famoso na região (e era uma fazenda, onde produzia-se a cachaça sapiranga, que hoje é produzida em outro local), mas a hora já estava adiantada e tivemos que fazer optar por apenas um passeio, pois iríamos embora no começo da tarde.
Escolhemos ficar nas piscinas naturais da Praia do Forte, que eram as lembranças mais intensas que o Thiago tinha de quando conheceu a região,em 2009.

Piscinas naturais da Praia do Forte na Bahia
A caminho das piscinas naturais

Piscinas naturais da Praia do Forte na Bahia
Piscinas naturais

Caminhamos pelo mesmo trecho da véspera, quando a maré estava cheia e não tínhamos conseguido ver as piscinas. Conhecendo a hora certa da maré baixa, fica mais fácil pra aproveitar. Havíamos levado máscaras de mergulho (apesar de não termos nenhuma técnica no esporte) e saímos nadando pelas piscinas que se formam todos os dias, na maré baixa. Nadamos até um trecho que um nativo havia nos dito que era bom de mergulhar e, quando colocamos as máscaras, um mundo encantador se descortinou pra nós: peixinhos de diversos tamanhos e cores passavam bem perto e seguiam em cardumes sem nem nos dar bola, siris passavam meio tontos e até uma água viva veio em nossa direção (aquela mesma no formato de camisinha, que havíamos visto na véspera) e tivemos que desviar do encontro inesperado. Pena que não temos câmera à prova d'água pra fotografar aquela maravilha toda.

Ficamos um bom tempo ali e esquecemos de tudo, inclusive do perigo do Sol forte (que me causou uma bela ensolação no dia seguinte).

Era, enfim, nossa despedida da Bahia. Fomos embora com muita vontade de voltar para rever nossos amigos e conhecer mais desse estado encantador. Já no aeroporto estávamos cantando a música do Caymmi: "Ah, mas que saudade eu tenho da bahia..."
E espero matar toda essa saudade, em breve.


Na mesma viagem:


Itacimirim em ótima companhia

4 comentários:

  1. Adoreiii! Ri muito com "Água-viva da espécie camisinha marinha".
    Voltem logo! Beijo

    ResponderExcluir
  2. A 'camisinha marinha' na verdade nao é uma água viva prorpiamente dita, é parente próxima. Se chama caravela! Essa realemtne parece uma camisinha, mas geralmente ela é mais arredondada kkkkkk. Amei as fotos, a da caravela,principalmente!

    ResponderExcluir
  3. Eita! Não sabia.Obrigada. Já mudei no texto! ;)
    Mas qual a diferença entre a caravela e a água viva?

    Bjos

    ResponderExcluir