terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A charmosa São Luiz do Paraitinga

"Mesmo sem nada, ainda sou feliz,
Saindo aqui deste lugar.
O mundo é grande, toda gente diz
Limpe os olhos, dê risada,
Não precisa mais chorar."
Centro Histórico de São Luiz do Paraitinga

Era começo de ano. Eu havia acabado de acordar após a festa de reveillon e fui ver as notícias, esperando encontrar aquelas tradicionais do Primeiro de Janeiro de todos os anos: fogos em Copacabana, festa na Paulista, previsões para o ano novo. Mas não naquele ano. A notícia que marcou meu início de 2010 foi a da enchente de São Luiz do Paraitinga. As imagens da cidade me assustavam. As águas do Rio Paraitinga invadiram a cidade e eu não reconhecia mais a praça que tanto frequentei, desde minha mudança para São Paulo, em 2008. Estava tudo embaixo d'água e até mesmo a majestosa Igreja da Matriz, construída em  1774 havia sido destruída e sua estrutura ruiu por completo, ficando apenas escombros. Foi a pior enchente da história da cidade e mesmo habituados com a subida do rio, em períodos do chuva, os luisenses não esperavam toda aquela destruição.

Bombeiros iam de bote para resgatar pessoas presas em telhados e em cima de árvores e milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Senti um enorme pesar e não só eu. Todos que já foram no delicioso Carnaval de Marchinhas, ou na emocionante Festa do Divino se sensibilizaram e muitos foram para a cidade ajudar na reconstrução.
E, sim, a cidade foi, aos poucos, se reconstruindo. Até hoje, passados quatro anos, caminhamos por casas de pau a pique com sua estrutura à mostra e na praça principal ainda há casas completamente destruídas. Mas grande parte da cidade renasceu. Em cores vibrantes das novas fachadas, nas festas feitas com ainda mais garra e determinação, na força daquele povo que não se deixou abater. Arrisco mesmo a dizer que São Luiz do Paraitinga é hoje uma cidade mais bonita.
A reinauguração da Igreja da Matriz de Tolosa, totalmente reconstruída e restaurada (preservando suas características originais) está sendo prometida para ocorreu em 2014 e será, provavelmente, o último passo para a reconstrução completa da cidade.

Fundada em 1769 às margens do Rio Paraitinga, no Vale do Paraíba, entre a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira, São Luiz do Paraitinga fica encravada nas montanhas. Pra chegar na cidade, é preciso descer por uma estrada municipal e do alto conseguimos ver o centro histórico lá embaixo. Isso explica o motivo de ocorrerem frequentes enchentes na região, mas nenhuma foi como a de 2010, considerada a pior da história da cidade. o Rio Paraitinga transbordou e subiu quinze impressionantes metros.

Festa do Divino, no Centro Histórico de São Luiz do Paraitinga
Altar da Festa do Divino, numa das antigas casas do Centro Histórico

São Luiz do Paraitinga e suas tradições


Minha primeira estada em Paraitinga, foi no carnaval de 2008, num bate-e-volta a partir de Taubaté. De lá pra cá, perdi a conta de quantas vezes fui na cidade. Fosse para fotografar, para participar de alguma festa, ou até mesmo ficar sentada na escadaria da Igreja da Matriz vendo a hora passar sem pressa, como faziam tantos moradores antes de seu desabamento. Havia ido na cidade nos últimos dias de 2009, poucos dias antes da inundação. A praça principal do Centro Histórico me encanta de uma forma única. Sou capaz de ficar ali por horas.

Nativa no carnaval de marchinhas de São Luiz do Paraitinga.
No carnaval das marchinhas

São Luiz do Paraitinga é o conjunto de casarões antigos e agora reconstruídos, é o calçamento em pé de moleque, é a calma e tranquilidade dos moradores que passam sem pressa, muitos vindos da roça com seus cavalos, ou bicicletas com a pele curtida do Sol e os chapéus de palha, que não me lembram outro personagem que não o Jeca Tatu. Aliás, Moteiro Lobato (autor de Urupês, que tem o Jeca como personagem principal) nasceu nessa região, mais precisamente em Taubaté e, sem dúvida que se inspirou ali pra criar suas histórias e personagens.
Outro que eternizou a figura do caipira foi Mazzaropi, que chegou a ter um estúdio cinematográfico, em Taubaté, onde filmou as venturas e desventuras desse povo. Tristeza do Jeca é um clássico do cinema nacional e sua trilha sonora, composta por Angelino de Oliveira, foi considerada a melhor música caipira de todos os tempos e canta as agonias dessa gente:

" Eu nasci naquela serra
Num ranchinho beira-chão
Tudo cheio de buraco
Donde a lua fai clarão
Quando chega a madrugada
Lá o mato a passarada 
Principia um baruião..."

O Jeca é de uma ternura e inocência encantadoras. Impossível não ouvir, ou ver os filmes do Mazzaropi sem se emocionar. Mas minha música preferida (e também a mais triste, na minha opinião) está no filme Jeca Tatu, quando o personagem sai de seu rancho após este ser incendiado. Chama-se Fogo no Rancho e a composição é de Elpídio dos Santos (nascido em São Luis do Paraitinga). O refrão é de uma tristeza sem fim:

"Botei o meu boi no carro e não tive nada pra carregar."

Conhecer Paraitinga é conhecer essa gente, essa melancolia do caipira sem pressa. É caminhar pelas ruas de peito aberto e sorriso no rosto, esforçando-se pra entender o sotaque arrastado e cheio de R, até mesmo onde seria impensável haver essa letra. É parar no tempo e esquecer qualquer correria. É desacelerar o relógio.

Igreja da Matriz no Centro Histórico de São Luiz do Paraitinga, antes da enchente de 2010.
Escadas da Igreja da Matriz, que foi à baixo na enchente de 2010

A nossa última estada em Paraitinga marcou minha memória por ter sido a primeira noite que dormi na cidade, numa pousada simples às margens do Rio Paraitinga. Numa conversa despretensiosa com o dono da pousada conseguimos ter a dimensão do que foi a enchente de 2010, que deixou a sua casa (e mais algumas morro acima) completamente submersa.
Passear pelo Centro Histórico à noite foi uma delícia. Luzes de Natal, carrocinhas de cachorro-quente e lanche, show no coreto da praça e uma brisa fresca após uma chuva torrencial. Um jantar no Cantinho dos Amigos, justamente com amigos queridos, numa noite perfeita. Inesquecível.

São Luiz do Paraitinga
São Luiz do Paraitinga, vista do alto

No dia seguinte, conhecemos a área mais rural da cidade, passando por ranchos e sítios e não deixamos de terminar o dia voltando pro centro e comendo os deliciosos doces, comprados na casa da simpática (e doceira de mão cheia) Eliane. O dia não podia terminar de outro jeito, senão no mirante da cidade com o visual do Rio Paraitinga do alto. Aliás, na foto que postei do mirante fica fácil perceber a localização delicada da cidade: num vale e ao lado do rio. Olhando a foto é fácil entender o motivo das enchentes.

Cada ida nesse lugar encantador me faz ficar ainda mais apaixonada. Pelas ruas, pelo ar puro, pela tranquilidade e beleza. São Luis do Paraitinga é uma cidade poética. E cheia de brasilidades.


Mais sobre São Luiz do Paraitinga:

A Charmosa São Luiz do Paraitinga
A Festa da Comida Caipira de São Luiz do Paraitinga
A Festa da Música Caipira de São Luiz do Paraitinga
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