segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Um bate-e-volta até Santa Catarina

Barra do Sul, no litoral catarinense.

Um amigo argentino e 600km de distância. Eis o início de uma loucura, digo, uma viagem de apenas um fim de semana para Santa Catarina para buscar o Nahuel (nosso célebre amigo argentino e excelente músico), que nos encontraria em Joinville, vindo de uma longa viagem de dois dias desde Corrientes, passando pelo Paraguai e Foz de Iguaçu. Ele viria até São Paulo no mesmo esquema ônibus/carona, mas o Thiago resolveu que iria buscá-lo no meio do caminho, ou seja, em Santa Catarina. Só que não tínhamos muito tempo além de dois dias e meio e passamos ao todo quase vinte horas (nove horas na ida e longas onze horas na volta) dirigindo para encontrá-lo e trazê-lo para nossa casa.
Claro que aproveitamos o bate-e-volta para passearmos e revisitei lugares que havia conhecido com meus pais há alguns anos atrás, como Joinville, São Francisco do Sul e Penha (onde, naquela época, fui ao Beto Carreiro World e dessa vez visitamos a deliciosa Praia Vermelha). Ainda conhecemos lugarezinhos ainda pouco turísticos, mas deliciosos, como Itapocu e Barra do Sul.
A lição que ficou dessa maluquice foi: não ir pra região litorânea do Paraná e Santa Catarina no verão, sob o risco de encarar engarrafamentos colossais. A menos que seja para encontrar um amigo querido.

A conturbada chegada ao Paraná


Saímos de São Paulo na hora do almoço e conseguimos chegar bem até a Serra do Cafezal, onde sempre há congestionamentos quilométricos. Não foi diferente dessa vez e demoramos uma hora para atravessar a fila de caminhões que se forma ali. Chegamos no Paraná já no anoitecer e não sabíamos ao certo onde dormiríamos: se em Joinville, ou Penha, ou talvez São Francisco do Sul. 

Fim de tarde na estrada, rumo à Santa Catarina
Fim de tarde na estrada para o Paraná

Chegamos próximo à Curitiba e havíamos decidido pernoitar em Joinville, pois já estávamos cansados da viagem. Seria uma excelente ideia, se não houvesse um congestionamento monstro na BR-101 e o trânsito simplesmente não andava. Descobrimos, depois, que um caminhão havia tombado e uma pista estava interditada. Cansados e famintos, desistimos de ir pra Joinville, mas sequer conseguíamos fazer o retorno na rodovia de tanto trânsito. O Thiago, então, começou a estudar o mapa do GPS e descobrimos uma estradinha de terra minúscula, que nos levaria até Tijucas do Sul, no meio do caminho entre Curitiba e Joinville, mas ainda no Paraná. Decidimos, então, pernoitar nessa cidade mesmo e continuar a viagem no dia seguinte.
Quando entramos na estradinha, foi um misto de alívio e medo, pois estava tudo completamente escuro e no início do trecho não haviam sequer casas. Confiamos no GPS e seguimos em frente.

Na estrada rumo à Santa Catarina
Estradinha no meio do nada para fugir do trânsito

Aos poucos, surgiram algumas casas, luzes e até carros. Passamos por algumas pessoas que trocavam um pneu e aproveitamos para perguntar sobre o destino daquela estrada e se conseguiríamos hospedagem na cidade. Por sorte, o grupo era dali mesmo e já nos indicaram uma pousada simples, mas limpinha que poderíamos dormir tranquilos. Era tudo que queríamos.
Seguimos a orientação deles e chegamos a Tijucas do Sul, uma cidade sem muito charme, mas um paraíso para nós naquela noite. Chegamos na pousada indicada e realmente era como o descrito. Deixamos nossas coisas lá e fomos direto jantar. Entramos num dos poucos restaurantes abertos e todos nos olhavam com estranhamento. Nunca me senti tão forasteira num lugar, como ali. Tocava uma música ruim e o garçom estava mais preocupado em paquerar uma das clientes do que nos atender, mas só de termos nos livrado de uma madrugada de trânsito já estávamos felizes. Finalmente, comemos e fomos direto dormir o sono dos justos.

No dia seguinte, acordamos cedo e aproveitamos pra ter uma rápida prosa com o João, dono da pousada. Minha ideia era descobrir algum atrativo da região pra aproveitar a estadia ali, mas não havia nada que fosse muito convidativo  para nós. 
Seguimos, então, nosso caminho descendo a Serra do Mar e fomos direto para Penha, mais especificamente para a Praia Vermelha, pontuada com quatro estrelas no nosso Guia 4 Rodas. E, de fato, ela merece a fama. Gostamos tanto e vivenciamos momentos tão especiais lá, que decidi relatar a experiência num post separado.

Mirante da Praia Vermelha, no litoral catarinense.
Mirante da Praia Vermelha

Barra Velha e Araquari


Após conhecer as praias de Penha, o dia ainda estava na metade e queríamos curtir o máximo, então seguimos viagem no sentido norte, rumo à Joinville e fomos fazendo várias descobertas no caminho
O Thiago viu no mapa um lugar próximo à São Francisco do Sul, que parecia ser interessante e, apesar de não termos nenhuma informação do lugar, seguimos para lá. Era a desembocadura do Rio Itapocu, entre as cidades de Barra Velha e Araquari. O rio fica paralelo ao mar durante alguns quilômetros e fomos seguindo uma estrada de terra que passa ao lado do rio, com a praia do outro lado. É uma área rural com casinhas simples na beira do rio e muitos pescadores trabalhando. O rio é de um marrom transparente, quase azul (difícil imaginar isso, mas a foto abaixo dá uma ideia do que estou dizendo). A luz do fim de tarde deixou o lugar ainda mais lindo e eu achei uma pena não termos tempo de ficar mais. Sem dúvida, é um lugar que pretendo voltar pra me hospedar e passar dias tranquilos e longe do mundo. De preferência, na primavera, já que no verão o trânsito é garantia e no inverno o frio é certeza.

Rio Itapocu, entre Barra Velha e Araquari, no litoral catarinense.
A cor do rio, que de marrom se torna azul

Rio Itapocu, entre Barra Velha e Araquari, no litoral catarinense.
Rio Itapocu

Queríamos chegar até o outro lado do rio e ver como era a praia lá. Pelo mapa, vimos que em determinado momento, o rio acabava e poderíamos alcançar o mar, passando por dunas. Seguimos pra lá e caminhamos pela areia, tentando encontrar novamente o rio, mas infelizmente a estrada tinha nos levado pra longe do rio e não conseguimos mais alcançá-lo. Quem sabe na próxima, nos programamos para um trekking pela praia até a desembocadura do rio? Vontade não falta.
Ficamos ali curtindo a praia selvagem e de ondas fortes. E mais uma vez, passamos por inúmeros pescadores. Catarinense gosta mesmo de peixe.

Praia paralela ao Rio Itapocu, entre Barra Velha e Araquari, no litoral catarinense.
Tentando achar o rio

Voltamos pro carro e já estávamos planejando seguir direto para Joinville, quando passamos por uma cidadezinha linda, chamada Barra do Sul, às margens do Canal do Linguado, que separa São Francisco do Sul do continente. Passamos por um deck, de onde crianças pulavam no rio e seus pais aproveitavam pra pegar um solzinho de fim de tarde, no gramado delicioso na beira do rio. Não resistimos e paramos ali também. O Thi pegou o violão e ficamos ali até o Sol se esconder e as crianças irem embora.

Canal do Linguado, entre Barra Velha e Araquari, no litoral catarinense.
Canal do Linguado

Nativos brincam no Canal do Linguado, em Santa Catarina.
Crianças brincando no canal

Fim de tarde na Barra do SUl, litoral catarinense.
Fim de tarde, em Barra do Sul

O gostoso do verão nessa região é que o Sol demora pra se pôr e conseguimos ficar bastante tempo curtindo seus últimos raios.
Partimos já no escuro, rumo à Joinville, numa viagem de pouco menos de uma hora. Pensamos que não teríamos dificuldade com hospedagem, mas estávamos enganados. No domingo, haveria um concurso público na cidade e os hotéis e hostels estavam lotados. Depois de muita procura, achamos o Joinvillense, um hotelzinho recém-inaugurado e pouco conhecido (mas bem digno e confortável) e ficamos por lá mesmo.

Depois, fomos jantar no Pinus, um restaurante alemão, que serve o rodízio de hackepeter, uma espécie de carne crua temperada, com direito a cervejinha alemã e tudo mais. Foi um fim de dia merecidamente gostoso.

São Francisco do Sul 


O principal objetivo do dia era encontrar o Nahuel. Seu ônibus estava previsto para chegar às 8h30, mas atrasou uma hora. Quando, finalmente, conseguimos encontrá-lo, fomos direto pro hotel e lá conseguimos que ele tomasse banho no nosso quarto e ainda tomasse café da manhã conosco. Tudo isso escondido do staff, que nem percebeu sua presença.
Seguimos, então, nossa viagem e a ideia era aproveitar um pouco o dia ainda em Santa Catarina antes de encarar novamente a estrada. O atraso do ônibus e nossa demora em sair do hotel acabaram atrapalhando um pouco nossos planos e chegamos em São Francisco do Sul já na hora do almoço.
Minhas lembranças dessa charmosa cidade são de um frio congelante, pois minha estadia anterior havia sido no inverno catarinense, mas dessa vez o dia estava lindo e o calor intenso. A cidade é uma graça com seus casarios antigos à beira-mar e suas fachadas coloridas ao longo de toda orla.

São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina.
São Francisco do Sul, vista de seu trapiche

Desde que decidimos buscar o Nahuel, eu lembrava constantemente de um passeio de barco pela Baía da Babitonga, que fizera com minha mãe e fiquei com vontade de repeti-lo, mas infelizmente chegamos tarde e não conseguimos fazê-lo.

Passeamos pelas ruazinhas de pé-de-moleque e eu me emocionei, quando passamos numa pracinha pequena, mas com uma árvore gigantesca no centro. Essa era a minha lembrança mais forte da cidade e nada mudou ali em quinze anos.

São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina.
A árvore das minhas lembranças

São Francisco do Sul é a cidade mais antiga de Santa Catarina e foi colonizadas por espanhóis e portugueses açorianos, que foram enviados por Portugal para impedir o avanço das tropas espanholas nessa região. Essas origens deixaram marcas na história e na arquitetura da cidade, que apresenta até hoje seus casarios antigos em estilo colonial açoriano, principalmente no centro histórico.

Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina.
Vista para a Baía da Babitonga

Isso tudo às margens da tranquila Baía da Babitonga, uma charmosa bacia cercada de serras, que deixam o visual ainda mais encantador. A baía separa São Francisco do Sul do continente, através do Canal do Linguado, que havíamos visitado na véspera, quando estivemos na Barra do Sul. As águas tranquilas propiciam a atividade náutica e, por isso, São Francisco do Sul apresenta o sexto porto com maior movimento de cargas do país, além de estaleiro e o famoso Museu do Mar (que não visitamos pela correria do dia).

Baía da Babitonga, em São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina.
Baía da Babitonga

São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina.
Nahuel e Thiago fazendo caretas, às margens da baía

O Nahuel não tomava banho de mar desde sua última estadia no Brasil, em 2012 e, por isso, decidimos levá-lo pra praia. A ilha de São Francisco do Sul tem várias praias e fomos para a da Enseada, uma das mais movimentadas, mas foi onde encontramos uma sombrinha embaixo das árvores para eu descansar, enquanto os meninos curtiam o mar.

Praia da Enseada, em São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina.
Praia da Enseada, em São Francisco do Sul

Ficamos lá bastante tempo e o Nahuel não queria sair do mar, mas nossa viagem de volta precisava começar, já que sabíamos que teríamos um longo caminho pela frente. Mas nem a pior expectativa superou a dificuldade que tivemos pra chegar em casa, como relatarei a seguir.

A saga do retorno pra casa


Decidimos fugir do trânsito pegando as bolsas entre São Francisco do Sul e Itapoá e depois entre Guaratuba e Matinho, já no Paraná. De lá, subiríamos a Estrada da Graciosa e já estaríamos quase na fronteira com São Paulo. A ideia era fugir da BR-101, onde estariam os veranistas de Joiville e Curitiba voltando pra casa. A ideia seria perfeita, não fossem alguns imprevistos.

Depois de sairmos da praia, seguimos para o primeiro ferry boat, do outro lado da ilha. Sabíamos que a balsa sairia às 16h e chegamos lá às 15h00 com folga. Porém ainda não tínhamos almoçado e decidimos comer no restaurante ao lado da estação. Demoramos pra ser atendidos e, quando conseguimos, o dono do restaurante nos deu uma bronca por termos demorado pra pedir, pois a balsa já estava chegando (realmente, já a avistávamos no horizonte) e não haveria tempo hábil pra preparar a comida, já que, segundo ele, a balsa não esperava o horário e partia assim que os carros entravam.

Acabamos escolhendo o prato mais rápido e comemos como uma espuleta. O Thiago ainda teve que deixar comida no prato e foi uma correria pra conseguirmos pagar e ainda pegar o carro. No fim, deu tudo certo, mas os funcionários esperaram o horário das 16h pra zarpar e não precisaríamos ter comido tão rápido. Isso deixou o Thiago indignado e passamos o resto da viagem ouvindo seus lamentos de que desperdiçou a comida à toa.

A viagem pela Baía da Babitonga durou quarenta minutos e o visual do lugar fez compensar toda a correria de minutos antes.

Na balsa, rumo à Itapoá
Na balsa, rumo à Itapoá

Nossos planos iam bem até nossa primeira dificuldade: a estrada de cerca de 60km que separa Itapoá de Guaratuba era de terra e a viagem que pensávamos que demoraria trinta, ou quarenta minutos demorou mais de uma hora. E pra piorar, uma fila literalmente quilométrica nos fez perder mais uma hora até conseguirmos pegar a balsa para Matinho. Nesse momento, nos demos conta que a viagem seria pior que imagináramos.

Balsa entre Guaratuba e Matinho
Na balsa, entre Guaratuba e Matinho

De Matinho para a Estrada da Graciosa já pegamos trânsito e nosso desejo de ver o pôr do Sol, na Graciosa foi por água abaixo. Pela segunda vez, passamos por essa charmosa estrada sem conseguir aproveitar muito. Na primeira, vindos da Ilha do Mel, o tempo estava nublado e com neblina. Dessa vez, o dia estava lindo, mas só conseguimos chegar lá à noite. E subimos com um trânsito caótico e parado dos dois lados. Muitas pessoas esperavam o trânsito melhorar com os carros parados no acostamento, ouvindo música alta e bebendo. Uma visão do inferno, que não recomendo ser experimentada por ninguém.

Quando, finalmente, alcançamos a Regis Bittencourt o relógio já badalava 22h e ainda estávamos no meio do caminho. Ainda tivemos que desviar de um congestionamento de 10km na Serra do Cafezal e pegamos uma estradinha esburacada e sinuosa, para o litoral paulista. Ainda mais trânsito nos esperava na Praia Grande e isso já era quase duas da manhã. Chegamos em casa extenuados de cansaço às quatro da manhã e às sete a segunda-feira já começava cheia de trabalho pela frente. Uma loucura, que só compensou pela presença do Nahuel conosco, que encheu nossa casa com sua alegria criolla por alguns dias.


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3 comentários:

  1. Esse eu li quase inteiro! As fotos tão muito legais.
    Renato

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  2. "Quase inteiro"!!!! Uau! Até emocionei! Estamos evoluindo! :)
    Valeu, Rê!
    Bjo

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  3. Ana, caí aqui por acaso, tentando procurar um lugar diferente pra eu e meu marido passar 1 pernoite e algumas horas - de Curitiba para Floripa. E eis que dou de cara com teu relato magnífico de passagens por lugares que conhecemos muito bem e são sensacionais. Não encontrei o que precisava, mas adorei!!!!! Abço

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