sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Rumo à Cuba

 "Mamãe, eu quero ir à Cuba,
quero ver a vida lá."
(Caetano Veloso)
A proximidade de uma viagem sempre me causa um frisson. Ainda mais se é uma viagem que sonho, desde a faculdade. Cheguei a renovar passaporte, pelos idos do terceiro ano de medicina. Era certo: iria fazer um estágio em Havana. Iria conhecer o sistema de saúde cubano. E isso muito antes do Mais Médicos. Isso quando o PSF ainda era quase desconhecido. Ok, não faz muito tempo. E o PSF ainda continua quase desconhecido (até pelos médicos, tristemente). Isso aconteceu em 2004, quando o SUS só tinha dez anos de vida e essa coisa de universalidade era uma novidade. Ah, sim, ainda é.



Mais dez anos se passaram. Tornei-me médica. A Dilma resolveu comprar briga com minha classe e importou escravos de branco (ô céus! como meus colegas perderam a cabeça nessas críticas inconsequentes). Conheci o Luis, médico cubano (de olhos azuis, pasmem) e, de repente, me vi planejando os dias em Havana, Santiago de Cuba e "Sierra Maestra eu faço questão de conhecer! Baía dos Porcos tem que entrar no roteiro, claro! Ah, mas vamos aproveitar que estaremos no caribe pra conhecer um mar de água azul bebê, né?" Li guias, blogs, relatos de viagem, livros, vi filmes e ouvi músicas.
Músicas, aliás, que já ouvia mesmo, desde sempre, influenciada por minha mãe
Mamãe, que participou ativamente das Diretas Já (mas que tristemente se converteu nos anos 90 à centro-esquerda, quando o FHC trouxe as maravilhas do Real), que me ninava com música campestre venezuelana e com o refrão revolucionário da mãe que está no campo trabajando duramente foi minha grande influência musical. Não que meu pai também não tenha participado, mas da parte dele conheci a música mais, como direi... popular. Foi através do papai que ouvi, pela primeira vez, o fenomenal "adocica, meu amor, adocica" do Beto Barbosa, com direito a aulas de lambada, na cozinha de casa. E foi através dele também que conheci Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Zé Ramalho e a música nordestina. Não posso reclamar.


 Só hoje, vinte anos depois, me dou conta que conheço quase tudo da música revolucionária latino-americana, que inclui nomes como Mercedes Sosa, Pablo Milanês e Silvio Rodriguez (os dois últimos cubanos e a primeira, argentina), sem nem me dar conta de que eu conhecia. Obrigada, mamãe.


Embarcamos amanhã e a sensação é estranha. Não consigo mais pensar. Não consigo mais ouvir Pablo Milanês, ou Sílvio Rodriguez. O que antes era uma vontade louca de percorrer a ilha inteira, vem se transformando numa necessidade de sentir cada momento, viver cada encontro. Apenas. Sem pressa e vagarosamente. Será que estou preparada para encarar uma lógica diferente da capitalista? Será que Cuba está preparada pra encarar essa lógica? Não adianta pesquisar preços: eles são tabelados. É, mas serei eu a turista cheia de euros e, como me disse o Luis (o médico cubano e meu amigo), num fim de tarde na UBS, onde trabalhamos juntos: nada do essencial falta em Cuba, mas a quem queira mais e sempre mais. E eis a lógica capitalista incutida nos jineteiros. O turismo hoje é a principal atividade econômica da ilha, mas já tenho a sensação- mesmo antes de pisar nas terras governadas pelos Castros- que é através dele (do turismo, não dos Castros) que o socialismo vai se perdendo, em doses homeopáticas. Aliás, bem lembrado, vou perguntar ao Luis se existe homeopatia em Cuba. Florais já sei que existem. Ele faz lá na UBS.


Ainda não temos um roteiro, sequer temos hospedagem pra primeira noite. Não sabemos se vamos alugar carro, ou andar de táxi. Ônibus, provavelmente. O que sei é que quero ouvir as pessoas, sentir o que elas sentem (será isso possível?), entrar na cabeça de alguém que já nasceu socialista e cuja visão de mundo tem o pressuposto da igualdade de direitos como algo natural. Ou será que não? E aqueles que viveram antes da Revolução e que nasceram na lógica norte-americana, que comandava a ilha pré-revolucionária? O que será que pensam esses velhinhos? E por que Fidel escolheu um regime uni-partidário (sim, isso é uma ditadura, companheiro)? Será que ele não acreditava que seu socialismo se mantivesse numa democracia?
Tenho muitas perguntas, que espero conseguir respondê-las nos próximos dias. Talvez, não as obetenha e volte pra casa com ainda mais perguntas. Sempre é assim nas nossas andanças por aí.

Algo anda me paralisando ultimamente. Muitos pensamentos na cabeça costumam me deixar com essa letargia. Penso tanto em Cuba, que perco as forças. Na verdade, não só em Cuba flertam meus últimos pensamentos, mas é sobre ela que escrevo agora e manter o foco- pelo menos na comunicação escrita- ainda é uma qualidade que pretendo manter comigo.

Aproveito essas linhas pra compartilhar algumas das músicas que povoaram minha infância e que falam dessa Latino-America, oprimida e subjugada, mas poética e deslumbrante. Como diria Ledesma, um argentino de voz gauchesca, que conhecia através de um amigo dos pampas:


"Talvez um dia o gemido das masmorras
E o suor dos operários e mineiros
Vão se unir à voz dos fracos e oprimidos
E as cicatrizes de tantos guerrilheiros
Talvez um dia o silêncio dos covardes
Nos desperte da inconsciência deste sono
E o grito do sopé na voz do povo
Vai nos lembrar, que esta terra ainda tem dono"  




O objetivo do post não era pra ser um pout pourri de música latino-americana, mas tornou-se. Então, já que é assim, seguem algumas musiquinhas que tocaram na nossa vitrola, ultimamente.
No planejamento da viagem, descobri Ernesto Lecuona, pianista falecido em 1963, poucos anos após a Revolução de 59. Portanto, não dá pra considerar a sua música revolucionária. Aliás, nem descobri se ele tinha ligação política, mas não quero aqui parecer que a boa música é a que seja politicamente engajada. Prova disso é a nossa Bossa Nova: de uma alienação abissal, mas de uma poética triunfal.

Por último, deixo a trilha sonora: "Guajira Guantanamera" que ficou famosa com o filme "Buena Vista Social Club", produção estadunidense do Wim Wenders (cineasta alemão), que ironicamente usa uma música de campesinos (chamados em Cuba de Guajiros), que foram tão beneficiados com a Reforma Agrária, instituída por Fidel logo no início da revolução. Mais curioso ainda é que Guantanamera é quem vem de Guantánamo, terra hoje lembrada mundialmente por ser uma prisão militar dos EUA. O espaço foi concedido, como arrendamento perpétua, em 1903, quando Cuba ainda era uma colônia americana (já que até mesmo na sua constituição os EUA tinham autorização de mexer). Coincidência, ou não, Wim Wenders usa essa música pra encabeçar seu filme.
Não posto aqui a versão do Buena Vista, já conhecida, mas uma versão mais autêntica, de trovadores cubanos:



E assim, sigo pra ilha, cantando com Caetano:
"E a Revolução,
 que também tocou meu coração
Cuba seja aqui."


A viagem:

Nenhum comentário:

Postar um comentário