segunda-feira, 31 de março de 2014

Museu da Revolução Cubana

"Si ésa es la patria (la patria, la noche)
que nos han legado siglos de egoísmo,
yo otra patria espero, la de mi locura."
(José Martí, herói da independência cubana)
Museu da Revolução Cubana, em Havana
Museo de la Revolución
O Museo de la Revolución foi criado ainda em 1959, logo após a vitória de Fidel Castro e seus companheiros contra o poderoso exército do ditador Fulgêncio Batista. Ironicamente (mas sem nenhuma coincidência) o museu foi montado no antigo Palácio Presidencial, um suntuoso prédio inaugurado em 1920, que foi moradia de inúmeros presidentes cubanos até a fundação do atual acervo revolucionário. Ali, temos acesso a história da independência cubana e, principalmente do período de combates, na Sierra Maestra que teve seu triunfo, no dia primeiro de janeiro de 1959, levando Fidel e seus combatentes ao poder. O museu segue contando a história do país até a década de 90 e de lá pra cá temos que, nós mesmos, tomarmos conclusões sobre a situação atual, nas andanças pela ilha. Na área externa, há ainda o Memorial Granma, onde encontra-se em exposição o iate que levou os guerrilheiros desde o México até a Sierra Maestra, onde iniciaram a guerrilha. A independência cubana.


Cuba foi o último país da América a conquistar sua independência, já em 1899. Porém, antes disso várias tentativas já haviam ocorrido, a mais famosa sendo a que foi liderada por José Martí e seus companheiros Antônio Maceo e Maximo Gómez (esse último, de origem dominicana, recebeu o título de cidadão cubano de nascença, mesmo sem ter nascido em terras cubanas- título esse que somente foi concedido à ele e à Che Guevara). José Martí, o grande líder e fundador do Partido Revolucionário Cubano, acabou morrendo logo nos primeiros dias de combate, em 1895 e não chegou a ver sua terra libertada. Hoje é considerado o grande herói da independência do país, pelo seu grande empenho e coragem em lutar pela pátria. 

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Na escadaria principal do Museo de la Revolución, a estátua de Jose Martí, ao lado
das marcas de bala, disparadas em 1957 por estudantes revolucionários
 que tentavam matar (sem sucesso) o ditador Fulgêncio Batista.

Com a morte de Martí, houve retrocesso na guerra, porém em 1898, após a Espanha afundar o navio USS Maine de origem norte-americana, os EUA declaram nova guerra contra a Espanha, auxiliando os cubanos a conquistar sua independência. O resultado disso foi que os estadunidenses impuseram a aprovação da Emenda Platt, já na primeira constituição do país, que permitiu aos EUA intervir em Cuba a qualquer momento, caso o interesse de ambos os países tivessem ameaçados. Ou seja, naquele momento, a ilha caribenha apenas trocava de potência colonizadora. Se antes era colônia espanhola, a partir da Constituição de 1902 virava colônia norte-americana. Foi na mesma época que os EUA também conseguiram posse do território que hoje é a Base Naval de Guantánamo, pagando cerca de quatro mil dólares mensais, valor que é devolvido aos EUA, desde o início da Revolução, em 1959. 

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Navio USS Maine afundando, na baía de Havana. Foto de 1898.
Fonte: wikimedia commons (autor desconhecido)

Os prelúdios da Revolução


Em 1933, surge na cena política cubana, Fulgêncio Batista, que inicialmente foi eleito presidente e em 1952 dá um golpe militar, impedindo que o partido de oposição chegasse ao poder. Seu governo ditatorial teve o apoio norte-americano e foi marcado pela corrupção e repressão política, o que levou a grande insatisfação popular com o regime.

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Exército de Batista, executando um revolucionário
Fonte: wikimedia commons (autor desconhecido)

É em 1953 que aparece, pela primeira vez de forma mais representativa, a figura de Fidel Castro. No dia 26 de julho, ele lidera junto com outros 151 militantes, o assalto ao Quartel Moncada, na cidade de Santiago de Cuba, que fracassou e teve como consequência a morte de muitos dos combatentes e a prisão do seu líder Fidel Castro por treze anos. Em seu julgamento Fidel, que era advogado, fez sua própria defesa e seu famoso discurso virou o livro "A história me absolverá" (publicado pela primeira vez de forma clandestina em 1954, quando ainda estava na prisão).

Quartel Moncada, em Santiago de Cuba, onde se iniciou a Revolução Cubana
Quartel Moncada, em Santiago de Cuba. Hoje, uma escola.

Em 1955, num ato de reconciliação e após grande pressão popular, Batista concede anistia à todos os preços políticos, incluindo Fidel Castro e em 1956, vai viver no México, onde articula-se mais uma vez contra o ditador e cria o Movimiento 26 de julio (em homenagem àquele assalto ao Quartel Moncada, ocorrido nesta mesma data, em 1953) com objetivo de derrubar o governo. Ainda no México, conhece Che Guevara no apartamento de Maria Antonia, onde foi levado por um de seus pacientes, Raúl Castro. O apartamento era uma espécie de refúgio para os exilados cubanos e foi lá que Fidel e Che fundaram uma aliança, que se iniciaria com a simples prestação de serviços médicos e cresceu a ponto de argentino se tornar um dos líderes e estrategistas da Revolução, vencendo a batalha final, que deu a vitória ao movimento. Outro herói revolucionário famoso, Camilo Cienfuegos, foi o último a compor a expedição e se tornou um dos comandantes e homem de confiança de Fidel, sendo um dos fundadores do Exército Rebelde, que treinava os campesinos para ajudarem na guerrilha armada. Ambos, Guevara e Camilo são as duas figuras mais celebradas no país e são considerados grandes heróis nacionais.

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Bandeira vermelha e preta, do Movimiento 26 de julio
Foto: Oliver Wolters 

A guerrilha


Em dois de dezembro de 1956, o Iate Granma desembarca do porto de Tuxpan, no México, com 82 homens (numa embarcação com capacidade para 25 pessoas) rumo à Cuba, levando com eles 140 armas e munições, além de dois canhões. A expedição foi delatada e bombardeada por aviões, o que levou a morte da maioria dos tripulantes. Enquanto em Havana, a notícia da morte de Fidel já circulava, os vinte sobreviventes do iate chegavam à Sierra Maestra de onde conseguiriam vencer a Tirania (como os cubanos chamam o exército de Batista), apenas 25 meses depois do embarque. 

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Fidel e seus companheiros, na Sierra Maestra
Fonte: autor desconhecido

Durante a guerrilha, Fidel e seus homens tiveram amplo apoio da população local, principalmente dos campesinos. Aos poucos, o Exército Rebelde crescia e ganhava força. Em 1957, uma greve geral assolou o país, após a morte de Frank País, um dos revolucionários mortos por Batista. A situação era cada vez mais crítica e a partir de 1958 os combates entre as forças rebeldes e as da Tirania aumentaram consideravelmente. O governo já sem apoio popular, começou a sofrer várias derrotas, apesar da discrepância entre o número de soldados dos dois exércitos, sendo o dos Rebeldes centenas de vezes menor e seus homens, bem menos armados. 
Na ocasião, o Movimiento 26 de julio já tinha quatro colunas, lideradas pelos comandantes: Raúl Castro, Juan Almeida, Che Guevara (que inicialmente era só o médico da expedição, mas foi galgando postos ao longo da guerrilha) e Camilo Cienfuegos, todos liderados pelo comandante-en-chefe Fidel Castro.

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Percurso do Exército Rebelde, desde o México, aportando na Sierra Maestra, em 2 de dezembro de 1956 e cruzando todo o país até chegar em Havana, no dia 1o de janeiro de 1959
Fonte: wikipedia

Em fevereiro de 1958, Fidel cria a Rádio Rebelde (que existe até hoje), por onde os rebeldes transmitiam suas ideias pra qualquer um que quisesse ouvir, conseguindo ainda mais apoio popular ao movimento. A partir de agosto daquele mesmo ano, a guerrilha começa, então, sua própria ofensiva, numa série de combates, que seguem-se até Havana. um coluna é destruída, enquanto as outras seguem em marcha. Os irmãos Castro invadem o Oriente (como é chamada a região mais ao leste do país), enquanto Che e Camilo chegam até a região de Las Villas. É ali, na cidade de Santa Clara, que ocorre o combate final, entre as tropas comandadas por Guevara e o exército de Batista. 

A vitória da Revolução Cubana


Com a ajuda da população local, o exército de Che com cerca de trezentos homens entra em Santa Clara, no dia 28 de dezembro de 1958. Apesar de intensamente protegida por soldados do governo e do bombardeio que colocou em risco a vida dos próprios civis, os revolucionários ganham espaço e se escondem nas casas. Sabendo da partida de um trem blindado carregando cerca de 2500 soldados da tirania e centenas de armamentos, que sairia de Havana em direção ao Oriente (onde encontravam-se as tropas de Fidel), Che e seu comando decidem fazer barricadas ao longo dos trilhos, impedindo a passagem do trem. O inevitável descarrilhamento ocorreu na manhã seguinte, quando o trem passava na região. Os soldados presos dentro dos vagões, em meio ao intenso tiroteio, bombas de gás lacrimogêneo e calor, rendem-se no final da tarde. Com isso, os revolucionários conseguem um feito fundamental, ganhando a batalha e ainda conseguindo uma quantidade enorme de artilharia. Nos dias seguintes, novos combates ocorrem, mas com artilharia pesada, as tropas de Che conseguem avançar cada vez mais. É quando, nas primeiras horas do ano de 1959, Fulgêncio Batista foge do país, dando a vitória definitiva à Revolução.

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Trem descarrilhado pelo Exército Rebelde, após combate que levou
 o ditador Fulgêncio Batista a fugir do país. Dezembro de 1958
Fonte: lezumbalaberenjena

Fidel, então, começa sua marcha desde o Oriente até Havana, que durou sete dias, usando o transporte que encontrava no caminho. Aonde passava, o líder revolucionário era aclamado pela população.

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Marcha da Vitória do líder revolucionário Fidel Castro desde Santiago de Cuba
 até chegada em Havana, o dia 8 de janeiro de 1959
Fonte: lezumbalaberenjena

Em oito de janeiro, finalmente Fidel chega à Havana e dá início à formação do governo revolucionário, com o primeiro presidente nomeado, o juiz Manuel Urritia Lleá, que ficou no cargo até 17 de julho, quando foi demitido após grande descontentamento popular com a saída do primeiro-ministro Fidel Castro. Os primeiros meses do novo governo, foram marcados por intensas mudanças econômicas e políticas, como a campanha de erradicação do analfabetismo, a Reforma Agrária, a nacionalização de diversas propriedades cubanas e estrangeiras, incluindo as norte-americanas. 

A contra-revolução


Sentindo-se cada vez mais prejudicados pelas ações revolucionários, os EUA respondem com o bloqueio econômico, político e comercial, imposto a partir de 1960 e que dura até hoje. É o maior e mais longo embargo econômico da era moderna e por 18 vezes foi condenado pelas Nações Unidas, que consideram essa imposição estadunidense um entrave no desenvolvimento econômico da ilha. 
Em resposta à pressão dos EUA, a União Soviética passa a apoiar a Revolução, comprando grande parte de sua produção açucareira, que antes iria para terras norte-americanas. Em 1961, um dia após Fidel anunciar oficialmente o caráter socialista da Revolução, ocorre a famosa invasão da Baía dos Porcos, quando exilados cubanos treinados pela CIA e apoiados pelas forças armadas norte-americanas, tentam sem sucesso uma contra-revolução. Na ocasião, o próprio Castro voltou a pegar em armas para defender seu território contra os ianques. 

Museu da Revolução Cubana, em Havana
"Girón, primera derrota del imperialismo yanqui en America Latina"
(Fidel Castro)
Foto: florriebassingbourn

Em meio à Guerra Fria, a invasão da baía dos porcos (somado a instalação de mísseis norte-americanos na Turquia, Grã-Bretanha e Itália) foi considerada uma afronta à própria União Soviética, que, em resposta, instalam mísseis nucleares em Cuba, apontados para os EUA, em outubro de 1962. A localização estratégica da ilha, a apenas 150km da Flórida, ajudou a aumentar a tensão e uma guerra nuclear parecia iminente. O evento ficou conhecido por Crise dos Mísseis e durante treze dias houve intensa negociação entre as duas potências nucleares, com a população americana em desespero com a guerra iminente, tentando fugir e criar abrigos subterrâneos, certos de que não haveria solução possível.  Com a retirada dos mísseis de Cuba, houve um tratado de não-proliferação de armas nucleares e a situação acalmou-se, pelo menos, naquele momento.

Museu da Revolução Cubana, em Havana
Foto aérea da base de lançamento dos mísseis soviéticos, em Cuba. Nov/1962
Foto: USAF (Forças Armadas Norte-Americanas)

Período Especial


Cuba passou por uma fase estável até o colapso da URSS, em 1991, quando perdeu de uma só vez 85% do seu comércio exterior. A vitória global do capitalismo somado à persistência do bloqueio econômico estadunidense levaram à ilha ao período chamado Especial, que caracterizou-se por intenso racionamento de alimentos e de fontes energéticas. O fim da Revolução parecia ser inevitável, mas em 1993, Fidel lança o sistema de duas moedas, que permitiu o afluxo de moedas estrangeiras ao país, assim como iniciou a abertura ao turismo. A partir daí, a economia estabiliza-se um pouco, mas até o próprio Fidel Castro considera que não é possível considerar que o país tenha superado completamente a crise.

Nas décadas seguintes, Cuba aliou-se a outros países, como China, Venezuela (a partir do governo Hugo Chávez) e estreitou laços com a União Européia.  Em 2008, Fidel renunciou a seu cargo de presidente por questões de saúde e, em seu lugar, assumiu seu irmão, Raul Castro, que tem em sua mão a responsabilidade de colocar a pequena ilha no caminho da estabilidade econômica, apesar do embargo histórico. A pergunta que fica no ar é: Cuba se manterá socialista após a morte de Fidel? Ouvimos de muitos cubanos que o problema da ilha não é político e, sim, econômico. Mas será possível dissociar as duas coisas? E será que o único culpado da crise econômica é o embargo dos EUA, ou o próprio socialismo cubano começa a dar sinais de esgotamento, pelas demandas de consumo da nova geração? Perguntas que me fiz ao longo dos nossos dias em Cuba e que ainda não consegui resposta.  

Atualização:  2015 já entra pra história como o ano em que Cuba e EUA reataram as relações diplomáticas, graças aos esforços do atual papa. Parece que as palavras de Fidel foram premonitárias, quando declarou:

"Os Estados Unidos só voltarão a dialogar conosco quando tiverem um presidente negro e quando houver no mundo um Papa latino-americano."
Ainda não é o fim do embargo econômico, mas é o passo inicial e mais importante para tanto.


Mais posts sobre Cuba:




Em tempo:
 fica aqui registrado meu agradecimento ao Gabriel Britto, que gentilmente me ensinou a pesquisar fotos de outras fontes na internet, respeitando os direitos autorais de cada fotógrafo. O Gabriel Quer Viajar, além de ter um dos melhores conteúdos de viagens dentre os blogs especializados no assunto, ainda tem uma preocupação rara com aos direitos autorais das fotos que são publicadas naquele espaço. Obrigada, Gabriel!

2 comentários:

  1. Que belo trabalho você faz nesse blog, mas o bom mesmo é que eu "viajo" com ele! :-)

    ResponderExcluir
  2. Valeu demais, Lu. A ideia do blog é mesmo que os amigos viajem com a gente! obrigada pelo apoio! :)

    ResponderExcluir