sexta-feira, 25 de abril de 2014

Baracoa, la ciudad primada


"A Baracoa me voy
Aunque no halla carretera..."
El Yunque é o cartão-postal de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
El Yunque

Depois de uma saga, desde Trinidad, passando por Sancti Spitirus e Santiago, finalmente chegamos em Baracoa, após mais de quinze horas de viagem. A cidade mais oriental de Cuba mereceu todo nosso esforço para chegar até ela. Ao descobrir seus encantos, fomos seduzidos de tal maneira, que aqui vivemos nossos melhores momentos no país. Não só pelas belezas naturais (pois é nessa região onde encontramos a mata tropical da ilha), mas também pelo contato com pessoas adoráveis e com a verdadeira música (e dança) cubana. Nas três noites que estivemos na pequena cidade, nos sentimos verdadeiramente em casa: fizemos amigos, conversamos, dançamos e o Thiago chegou a tocar violão com os cubanos, além de ter aula (de graça) de percussão. No último dia, já éramos reconhecidos na rua e todos nos paravam para se despedir. Só de lembrar me bate uma nostalgia de não termos ficado mais por aquelas bandas. Mas uma certeza ficou: um dia, ainda voltaremos para rever os amigos e conhecer as outras belezas que ficaram a ser descobertas.

Era uma vez, em Baracoa


Em 1492, Cristóvão Colombo desembarcou numa terra que ele mesmo descreveu em suas cartas como o "lugar mais bonito do mundo". Nesse primeiro contato com a região, ele observa uma montanha em forma de bigorna (estaria ele se referindo ao monumental Yunque?)e descreve a variedade na fauna e flora, assim como já tem contato com os mansos índios Taínos, que viviam na região naquela época. Para muitos historiadores, essa é a descrição de Baracoa e esse foi o primeiro contato do navegador espanhol com a maior ilha das Antilhas, que ele denominou Juana, uma homenagem a um filho do rei espanhol, nome que que não colou muito. A ilha acabou sendo conhecida mesmo pelo nome anterior de origem Taína: Cuba (que significa terra fértil abundante, ou lugar amplo).

A província de Guantánamo (em vermelho) e Baracoa, a cidade mais oriental do país (em amarelo)
fonte: Wikimedia Commons

Em 1522, vinte anos depois do embarque de Colombo, o principal explorador espanhol das terras cubanas, Diego Velásquez, funda a primeira cidade na nova colônia e a batiza de Baracoa. Assim surge a mais antiga cidade cubana, que teve poucos anos de prosperidade, pois logo após sua fundação, Diego Velásquez muda-se para onde hoje é Santiago de Cuba e a pequena vila viveu no ostracismo, o que lhe permite manter algumas características típicas com grande influência indígena (na comida, principalmente). Até a década de 60, a única via de acesso à cidade era de barco e foi com a vitória da Revolução que se iniciou a construção de uma estrada, que passa no meio da selva, chamada La Farola. Foi após a construção dessa carretera que Baracoa pôde se comunicar com o resto do mundo.

A chegada à Baracoa


Depois de uma noite de viagem, chegamos em Santiago de Cuba. Na saída da rodoviária, encaramos uma multidão de jineteros nos oferecendo hospedagens, passeios, transporte e aquilo tudo nos incomodou demais. Ainda eram seis da manhã e aquela gente toda já estava atrás de uma graninha extra.
Decidimos esperar até às sete, quando abriria o escritório da Viazul e tentaríamos a sorte de conseguir bilhetes para Baracoa. Em caso contrário, ficaríamos por Santiago mesmo. Dessa vez, demos sorte no atendimento, que era bem melhor que em Sanctu Spiritus e conseguimos nossas passagens para às 8h. Antes de embarcar, aproveitamos para mudar de roupa e dar uma geral no visual, o que eu fiz sem constrangimento algum no banheiro masculino da rodoviária. Culpa do sono que me desorientou.

Passamos a maior parte da viagem dormindo, mas logo após passarmos por Guantánamo, começou a fabulosa La Farola, construção monumental, que me tirou completamente o sono. No trecho inicial, a estrada segue a costa, numa região peculiar, em que a paisagem é absolutamente desértica, apesar da proximidade com o mar. E a explicação pra esse fenômeno aprenderíamos dias depois, quando conhecemos uma professora de geografia, que nos disse que isso se deve ao fato de que a montanha impede que as nuvens cheguem naquela região. Tentei fazer algumas fotos de dentro do ônibus, mas creio não ter conseguindo capturar a dimensão do impacto que é aquilo.

Caminho para Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
Paisagem desértica ao lado do mar, na estrada para Baracoa
(foto tirada de dentro do ônibus)

Depois, drasticamente mudamos de cenário e entramos numa região montanhosa, quando a estrada ficou cada vez mais sinuosa e com vegetação cada vez mais verde e tropical. Li que nos pontos mais altos, podemos ver mar dos dois lados da paisagem (o lado sul e norte da ilha de Cuba), mas como estávamos no coletivo, não conseguimos parar para conferir essa informação. Continuei no meu afã de tentar fazer fotos de dentro do ônibus, sem muito sucesso.

La Farola, a estrada que leva para Baracoa, em Cuba.
Subindo La Farola, com o mar ali no fundo
(foto tirada de dentro do ônibus)

O ônibus fez uma parada despropositada no meio do nada, numa casinha simples. Estava bem apertada para fazer xixi e procurei o banheiro. Abri a porta e encontre isso:

Banheiro na estrada para Baracoa, no oriente de Cuba.
Banheiro na estrada

Ainda bem que foto não tem cheiro, caso contrário esse post estaria impregnado. Minha reação inicial foi fechar a porta e sair dali. Tentei achar algum mato, mas os outros passageiros do ônibus andavam pela região e eu teria o risco de ser pega no flagra. Eu estava muito apertada e acabei usando esse buraco, mas a situação foi ainda menos pior que nosso banheiro no Patapampa, ponto mais alto do Vale do Colca, em que nem uma cadeirinha pra ajudar nós tínhamos.

Enfim, depois de tantas horas de viagem e perrengues, no calor escaldante do meio dia, chegamos finalmente em Baracoa. Ali muitos nos cercavam (ainda mais que só há um ônibus por dia que chega na cidade, então, todos os jineteros sabem que ali estão os turistas), mas dessa vez já estávamos mais ou menos acertados desde Trinidad com uma casa particular e o Eugenio, dono da casa, estava lá nos esperando. Digo mais ou menos acertados, porque não demos certeza pra onde iríamos, mas mesmo assim ele estava na rodoviária, o que naquele momento, foi um alívio, pois estávamos cansados demais pra enfrentar a jinetagem.

Seguimos de bicitáxi até  casa, passando pelo Malecón de Baracoa, menos suntuoso que o de Havana, mas não menos charmoso.

Bicitáxi em Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
De bicitáxi pelas ruas de Baracoa

Chegamos na casa particular e a recepção foi meio decepcionante. Foi a casa mais simples que ficamos hospedados em toda Cuba e não gostamos do fato de que nosso quarto era separado da casa da família. Queríamos ter contato com os cubanos e ficar ali longe deles não era nosso objetivo. Na verdade, nem entendi muito bem como era o negócio ali, pois o Eugenio morava na casa debaixo, mas quem nos atendeu foram outras três moças, que dividiam as tarefas entre si e eu não sei qual era a relação dos quatro. Mas a vantagem é que do nosso quarto tínhamos uma bela paisagem da cidade, onde fazíamos as refeições com vista privilegiada. Logo que chegamos, não conseguimos fazer outra coisa, senão dormir.

Acordamos já no fim da tarde, com um céu em tons de um rosa espetacular e logo saímos para nossa primeira exploração à pé pela cidade. Caminhamos pelo Malecón e pelas fortalezas que protegiam a baía de Baracoa.

Malecón de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
Malecón de Baracoa

Malecón de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.

Aqui, o Malecón não é tão popular, quanto em Havana e mesmo numa sexta à noite não havia muita gente. O grande calçadão à beira-mar une os dois fortes da cidade: o Fuerte Matachín, próximo de onde estávamos hospedados e o Fuerte de la Punta, bem em frente à rodoviária.
Nitidamente, Baracoa é mais pobre e aqui não há casas coloniais. A arquitetura é na sua maioria de casas de madeira sem grandes enfeites na fachada. A sensação é a de que o tempo todo estamos andando em alguma periferia brasileira. É apenas próximo ao Parque Indepencia, que a arquitetura é um pouco mais elaborada, devido a presença da Catedral de Nuestra Señora de la Asunción e de outros prédios importantes da cidade.

Nessa primeira caminhada, nos limitamos ao Malecón e voltamos pra casa, afinal a fome começava a bater. Esperando o jantar, tivemos nosso primeiro contato com a Roxana-mãe (sim, pois ainda avia a Roxana-filha), que nos atendeu por mais tempo na casa. A conversa nesse primeiro dia foi bem agradável e, sentados numa deliciosa cadeira de balanço (item essencial em todas as casas de cuba), falamos bastante sobre cultura e política. Roxana mostrou-se bem culta e, pela primeira vez, encontramos quem falasse abertamente mal do regime castrista. Na verdade, sua crítica era à Raul Castro mais do que à Fidel, pois ela considera que nos primeiros anos da Revolução houve muito progresso e só depois que a coisa degringolou. Ela falava baixinho pra que os vizinhos não nos escutassem, afinal o CDR- Comitê de Defesa da Revolução- tem ouvidos em toda parte. Logo chegou uma vizinha e a conversa teve que mudar de rumo; falamos das novelas brasileiras (famosíssimas no país) e todos queriam saber o fim de "Avenida Brasil" (e eu, que não assisto a Globo há anos, fiquei sem assunto nessa hora). O Thiago logo encantou as moças falando de música e amenidades com seu jeitinho brasileiro.

Nosso jantar foi um prato típico da região, o Pescado a la Santa Barbara, uma espécie de moqueca com peixe fresco e leite de coco. Bem gostoso, mas a comida era bem pouquinha e não tinha a fartura que nos acostumamos na casa do Ángel, em Trinidad.

Nós, Baracoa e a boêmia cubana


Depois do jantar, seguimos para conhecer a cidade à noite. Já sabíamos que o point era a Casa de la Trova e fomos pra lá. Bem em frente ao Parque Independencia, a casa fica com suas janelas e porta abertas e do lado de fora, cubanos e estrangeiros curtem a música tradicional cubana sem pagar nada. Ficamos um tempo ali, mas estávamos curiosos de conhecer o resto do centrinho da cidade e resolvemos caminhar mais um pouco. Logo quando acaba o parque, começa a Calle Maceo, cheia de restaurantes, bares e cafés (que servem o famoso chocolate de Baracoa). Por ali, passamos pela Casa de Cultura e pelo Fondo de Bienes Culturales, dois prédios importantes da cidade, onde ocorrem vários eventos culturais. Na Casa de Cultura, havia uma aula de salsa para gringos. Nós assistimos um pouco da aula, demos umas risadas com a falta de malemolência dos europeus e seguimos nossa caminhada.
Paramos e nos apaixonamos mesmo por um bar simples, chamado El Patio. Ali nos acabamos de dançar até de madrugada. O bar foi nosso quartel-general em Baracoa e ali conhecemos gringos bacanas, cubanos espetaculares e, claro, alguns jineteros. Já nessa primeira noite, ainda tímidos, arriscamos alguns passos de salsa, mas enrolamos mesmo com nosso forró (que surpreendentemente encaixou bem na salsa cubana). Nessa mesma noite, conhecemos um casal alemão simpaticíssimo (mas meio perdidos sobre o regime comunista no país) e um belga bem louco, que deixara suas roupas e sua grana com uma cubana em Santiago.
A noite terminou com cachorro-quente na praça. Era hora de irmos dormir.

El Patio, bar de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
Noite no El Patio  com gringos e cubanos

Boca de Yumurí


A Roxana-filha (sim, a mãe nos recepcionara na véspera, mas de manhã era a vez da filha) nos acordou com um belo grito de "desayunooooo". Era hora de acordar e passear. O café da manhã estava longe de ser farto, mas deu pra matar a fome.  
Pontualmente, às 9h, nosso motorista nos esperava pra nos levar até a Boca de Yumurí, à leste de Baracoa. Aliás, o Otávio merece um comentário, porque virou nosso amigo nesses dias em Baracoa e acabou nos conduzindo à todos os passeios pela região. Conhecer o Rio Yumurí com seu fabuloso cânion foi uma experiência e tanto e, por isso mesmo, farei um post só pra narrar esse dia espetacular com direito até a show do Thiago tocando violão com um grupo de cubanos, na Playa Manglito, próxima ao Yumurí.

Cânion Yumuri, próximo de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
Rio Yumurí e seu fabuloso cânion

Boca de Yumurí, nas proximidades de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
Exatamente, na Boca do Yumurí

Voltamos para Baracoa próximo das quatro da tarde, famintos, afinal nosso café da manhã não tinha sido tão reforçado. Pedimos que o Otávio nos levasse em algum lugar barato e chegamos até o nosso saudoso Casa do Perro Caliente, que matou nosso fome muitas vezes em Baracoa com um preço excelente. 

Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
Casa del Perro Caliente, nossa pedida em Baracoa

Depois do passeio, demos uma boa cochilada, já que na véspera tínhamos ido dormir bem tarde. E quando acordamos, a Roxana-mãe já estava à postos nos esperando para ciceronear. Conversamos um pouco e dessa vez, o tema não chegou à política. Na verdade, eu já estava com uma certa implicância daquela situação esquisita de não saber de quem era a casa e não consegui interagir muito.
O jantar foi bem ruinzinho e nos arrependemos de não termos escolhido o pescado da véspera. Nosso amigo belga e louco apareceu pra jantar conosco, mas foi impedido pela Roxana-mãe, que disse não haver comida suficiente para todos. Mais um motivo para eu implicar com ela. Ele se despediu de nós, dizendo que teria que voltar pra Santiago por falta de dinheiro.

Depois do jantar, seguimos mais uma vez para balada baraconesa. Primeiro, uma parada rápida na Casa de la Trova, onde já encontramos alguns companheiros da véspera, inclusive um cubano mega dançarino que queria dar aula pra mim e pro Thiago. Depois de um tempinho, seguimos nosso caminho e chegamos na Casa de Cultura, onde estava rolando uma festinha pra terceira idade e foi a coisa mais linda ver os coroas dançando os boleros românticos e mesmo umas salsas arretadas. Eu e Thiago tentamos ensaiar uns passinhos, mas não nos permitiram: só podiam dançar os sócios do clube. Ali, encontramos o Betico, um dos músicos do El Patio, que nos disse que tinham acabado de tocar. Uma pena que não chegamos a tempo.
Saímos dali e continuamos a caminhada pela Calle Maceo e naquele dia, El Patio estava pouco movimentado. Sentamos por ali pra ver o movimento e, mais uma vez, o Betico  nos encontrou e ficamos conversando. Ele estava com a esposa e falamos sobre música, novelas e amenidades. Descobrimos que não haveria música aquele dia no El Patio e resolvemos, então, ir na balada dos jovens cubanos, no Las Terrazas. Haveria um show de dança e depois seria música de DJ. O show foi até interessante, mas a música era insuportável: o maldito reggaeton que invadiu desastrosamente Cuba. Ficamos pouco tempo ali e fomos embora. Na volta, ainda paramos na Casa de la Trova e dançamos mais um pouco. Nossa salsa forrozeada fez sucesso e todos nos olhavam dançar. Quem diria!

Playa Maguana


Mais um dia que a Roxana-filha nos acorda aos gritos, mas dessa vez não entendemos bem. Ela estava uma hora adiantada. Nós não entendemos bem, mas seguimos as ordens do desayuno. Logo que começamos a comer, pensamos: já que acordamos mais cedo, então vamos falar pro Otavio chegar antes do marcado. Foi só pensar isso e a Roxana veio nos informar: O Otavio já estava nos esperando.
Mas o que estava acontecendo? Será que nossos relógios tinham atrasado uma hora e não sabíamos? Bom, na verdade, o que tinha acontecido era o início do horário de verão cubano e nós, desavisados, ficamos perdidos no tempo.
Aproveitamos o café fraquinho pra comer o chocolate que compraramos na véspera. tentei dissolvê-lo no leite, mas a tarefa foi difícil. Com bastante paciência e açúcar, minha guloseima ficou gostosa.

Enfim, bem atrasados, seguimos pro passeio do dia: a Playa Maguana à oeste de Baracoa. E dessa vez, teríamos a adorável companhia da namorada do Otávio, uma professora de geografia, que nos ensinou bastante sobre a região. Eu tentando ser simpática, mas no meu espanhol atrapalhado, falei: muchas gracias, ao invés de falar mucho gusto.  E essa foi a piada do dia. Toda hora, o Otávio falava essas frases só que fora de contexto, pra implicar comigo. Foi um dia bem gostoso, em que passeamos não só pela belíssima praia caribenha, mas pelo Rio Toa, o mais caudaloso de Cuba, assim como chegamos bem pertinho do El Yunque e ainda fomos num belo mirante pra ver Baracoa do alto. Dia tão especial que também relatarei num post em separado.

Playa Maguana, nas proximidades de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
Playa Maguana

Playa Maguana, nas proximidades de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.

O passeio terminou, mais uma vez, com o delicioso Perro Caliente e depois aconteceu a coisa mais chata de toda a viagem: o Otávio deixou sua namorada na nossa casa, enquanto ele ia buscar um grupo no El Yunque. Estávamos conversando no terraço, quando a Roxana- mãe chegou e de uma maneira grosseira e inadmissível destratou a moça, dizendo que ela não poderia estar ali e que era um absurdo e blá blá blá. Tentávamos argumentar que era apenas a namorada do motorista, não era nenhuma jinetera e ela: "poderia ser a rainha da Inglaterra! Ela não pode ficar aqui." Parece que realmente há uma lei que proíbe a presença de cubanos em casas particulares, justamente pra inibir a prostituição. Não queríamos desrespeitar a lei e tentamos negociar. A solução foi a moça apresentar os documentos para que Roxana anotasse e nem sei muito bem o que ela faria com aquilo. Foi bem constrangedor e quando o Otávio chegou, foram logo embora. Eu que já estava implicando com aquela moça, passei a detestar. A casa em que nos hospedamos foi, realmente, nosso único problema em Baracoa.

Nativos de Baracoa, numa das regiões mais remotas de Cuba.
Nosso amigo Otávio com sua namorada e El Yunque no fundo

Naquela noite, ainda bem, não jantamos na casa e saímos cedo para a nossa já tradicional baladinha baraconesa. Foi bem curioso, pois saímos na hora da novela e todas as casas estavam sintonizadas no mesmo canal e no último volume, assistindo Avenida Brasil. Foi uma experiência antropológica ouvir a Adriana Esteves falando num espanhol dramático.

Procuramos um lugar pra jantar, mas acabamos indo mesmo no nosso Perro Caliente. Só que o pão tinha acabado e tivemos que dividir o único cachorro-quente que ainda tinha pra vender. A ideia era jantarmos decentemente depois, mas engatamos na balada e, quando saímos estava tudo fechado. Naquela noite, dormimos com fome.

Depois do cachorro-quente, fomos direto para El Patio, já ansiosos pra ouvir o grupo do Betico e bailar nossa salsa. Fomos os primeiros a chegar e aproveitamos que a pista estava livre pra dançar com mais liberdade. Logo começaram a chegar os gringos e os cubanos. Encontramos novamente nossos amigos alemães e até mesmo a Helena, francesinha que havíamos conhecido em Trinidad. Uma baita coincidência.
Essa noite foi a melhor de todas. Dançamos e conversamos com todos. Fiquei muito lisonjeada, pois vários cubanos me tiraram pra dançar e me elogiaram. Quem diria que eu dançaria salsa alguma vez na vida.
No fim da noite, todos se foram e fomos nos despedir do Betico. Ele era o percusionista da banda e acabou ensinando o Thiago a tocar um pouco de percussão. Eles ficaram uma meia hora ali treinando e depois, engatamos numa prosa que varou até às três horas da manhã. Falamos de política, economia, música. O Betico se mostrou um grande defensor do regime socialista e abriu nossos olhos sobre o que passam os refugiados cubanos nos EUA, que precisam trabalhar doze horas, ou mais pra conseguir ter uma vida minimamente digna. Uma minoria consegue, de fato, ficar rico. Segundo ele, muitos se arrepende da decisão de sair de Cuba.

Nós já havíamos comprado as passagens pra ir embora no dia seguinte e começamos a cogitar na possibilidade de ficar mais. Combinamos que no dia seguinte, o Thiago iria tentar pegar o dinheiro de volta, ou trocar a data dos bilhetes. Dormimos na esperança de conseguirmos uns dias mais naquela cidade adorável. Havíamos comprado bilhetes da Cubatur, uma agência de viagens que faz o trajeto entre Baracoa e Santiago de Cuba três vezes por semana. Queríamos fugir da Viazul e experimentar essa possibilidade nova, na expectativa de ser melhor que a rival. A estratégia acabou nos atrapalhando, pois a Cubatur não tinha esquema de reserva e tivemos que já comprar os bilhetes no dia que chegamos na cidade.

A despedida de Baracoa


Acordamos na esperança que conseguiríamos mudar os bilhetes. O Thiago foi logo cedo no escritório da Cubatur, mas as notícias não eram boas. Não poderíamos trocar. Nem usando uma desculpa esfarrapada (a de que eu estava doente). Ou viajaríamos, ou ficaríamos e perderíamos a grana. A decisão acabou pendendo pra grana, afinal não estávamos em condições de perder 60CUC.

Pelas ruas de Baracoa, uma das regiões mais remotas de Cuba.
Última caminhada pelas ruas de Baracoa

Tomamos café, demos uma última volta na cidade, nos despedindo das pessoas que encontrávamos e seguimos nosso destino. O Otávio, que encontráramos no centro, ainda tentou nos ajudar, conversando com o rapaz da Cubatur, mas não teve jeito. Embarcamos já saudosos daquele cidade encantadora. E com a certeza de que ainda voltaremos aqui.


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2 comentários:

  1. Oi! Adorei o post. Eu fui para Baracoa em 2013 e parei no mesmo banheiro do buraco. Hahahaha, ri muito quando li aqui. Eu também sou blogueira e estou fazendo um freela, escrevendo para um site gringo sobre Baracoa. Tem algumas coisas que eu não tenho foto porque perdi a maior parte delas nesse meio-tempo :(
    Estou catando algumas pela internet, e aproveitando para ler outros posts. Você me autoriza a utilizá-las, colocando na legenda os devidos créditos?

    Obrigada.
    Manuela

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    1. Oi, Manuela! Desculpe a demora na resposta, mas estou no Malaui e a internet aqui é jurássica! rs
      Eu sou apaixonada por Baracoa! É meu lugar preferido em Cuba! Pode usar as fotos, sim, com crédito e link pro blog! Não tem problema algum! Se quiser as fotos em melhor resolução, manda um email pra mim: nativosdomundo@gmail.com!
      Beijos

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