sexta-feira, 18 de abril de 2014

Um dia em Sanctu Spiritus

Centro histórico de Sanctu Spiritus, na região central de Cuba

Não estava nos nossos planos conhecer Sanctu Spiritus, mas na falta de opção para chegar à Santiago de Cuba, acabamos fazendo um rápido pit-stop na charmosa cidade, que apesar de ser a capital da província tem ares de interior.
Definitivamente, o turismo não é um ponto forte da região, apesar de termos encontrado alguns turistas perambulando pelas agradáveis ruas do centro. E foi justamente por ser pouco turística e mais autêntica, que Sanctu Spiritus nos agradou tanto. Ali conseguimos andar sem sermos notados e passamos o dia observando a rotina dos cubanos, que dependem de outras atividades além do turismo para sobreviver. A economia da província é basicamente de indústria canavieira e agropecuária. Vimos também muitos centros de saúde e comércio. Foi um dia de caminhadas e boas surpresas, onde conseguimos ter contato mais direto com a realidade dos cubanos.

Chegando em Sanctu Spiritus


Saímos cedo de Trinidad e pegamos, pela primeira vez, o ônibus da Viazul. Já na rodoviária, começamos a sentir os problemas que enfrentaríamos com essa empresa em toda Cuba: atendimento ruim e desorganização. 
Logo na chegada à rodoviária, nos disseram para entrar numa sala. Fizemos isso e um funcionário colocou etiquetas de identificação nas nossas mochilas. Procedimento normal em qualquer lugar do mundo, obviamente. Tudo estaria perfeito, se após esse procedimento, o tal funcionário não nos apontasse uma caixinha, onde havia dinheiro. Ele nem se deu ao trabalho de falar: só apontou. O Thiago perguntou para o que era o dinheiro e o cara teve a audácia de falar que era pra levar as malas até o ônibus (que estava parado em frente à sala, numa distância de menos de cem metros). Dissemos que, então, nós mesmos levaríamos nossa bagagem até lá. Foi quando ele desistiu de nos cobrar e nos mandou sair da sala bastante irritado. Fiquei com medo de que ele nos boicotasse e fiquei do lado de fora do ônibus, esperando ele trazer nossa bagagem, mas logo veio outro funcionário que de maneira nada gentil nos insultava a entrar logo no ônibus. Falamos das bagagens e ele disse que todas seriam levadas. 

Rodoviária de Trinidad
Rodoviária de Trinidad 

Dentro do ônibus, mais uma surpresa: não havia lugares marcados e cada um sentava onde queria. Como fomos um dos últimos a entrar, não conseguimos sentar juntos e eu viajei do lado de um gringo esquisito. O Thiago foi do lado de uma cubana falante, cujas amigas estavam no banco de trás e as três tagarelavam sem parar. Ainda bem que foi uma viagem curta, de apenas uma hora e meia. E (ufa!) nossas malas estavam direitinhas no bagageiro, quando chegamos.

Mas nossa saga com a Viazul não tinha terminado. Na véspera, havíamos reservado por telefone passagens para Santiago, com saída naquela mesma noite e queríamos já comprar os tíquetes para garantir nossos lugares. Já que estávamos ali na rodoviária, decidimos tentar comprar, mas que nada. Disseram que não precisávamos comprar e que chegássemos com meia hora de antecedência para pagar. Ainda insistimos, mas não teve jeito. E isso foi só o começo da saga que enfrentamos para comprar essas benditas passagens. A noite, ainda enfrentaríamos uma situação mais difícil e estressante com os funcionários, mas contarei isso em momento oportuno.
Impedidos de comprar (que simbólico, num país comunista!), seguimos nossa vida. Fomos deixar as mochilas no locker,cuja existência já havíamos pesquisado ao telefone. Mas que locker? O locker era um funcionário, que nos cobrou 3 CUC para cuidar das malas (isso porque o Thiago negociou o preço, já que o cara queria cobrar bem mais). E mais 1CUC teríamos que pagar ao seu colega que começava o turno às 18h. Na falta de opção e sem querer passar o dia com dois mochilas pesadas nas costas, acabamos aceitando a negociação e seguimos para conhecer a cidade.

Pelas ruas de Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Agitada  manhã de quinta-feira na capital da província de Sanctu Spiritus

A rodoviária ficava relativamente distante do centro e fomos caminhando por uma rua larga, com um agradável passeio público no canteiro central. Foi aqui que comecei a gostar da cidade: um clima tranquilo com pessoas sem pressa alguma. Pelo centro, ainda havia mais burburinho de gente e lojas, mas nessa parte da cidade reinava a paz. 

Passamos por um charmoso parque de diversão daqueles com roda gigante, carrossel e algodão doce. Ficamos tentados a entrar, mas não tínhamos moeda nacional pra pagar (grande erro!).
Na mesma rua, vimos escolas e hospitais. Todos em pleno funcionamento. 

Escolas, cena comum em Sanctu Spiritus e em toda Cuba
Escolas, escolas e escolas: uma das cenas mais comuns em Cuba

Centro de Saúde em Sanctu Spiritus, na região central de Cuba.
Centro Provincial de Retinosis Pigmentaria (policlínicos e centros de saúde também são paisagens comuns em Cuba)

Ao final dessa longa avenida, chegamos no centro da cidade propriamente dito. Aqui já começamos a ver um pouco mais de movimento e chegamos a passar numa rua, que me lembrou a 25 de março (com 1/3 da quantidade de pessoas). Caminhamos por uma feira e chegamos numa agradável pracinha, onde sentamos para descansar. Ali, um grupo de senhoras fazia um pique-nique e eu fiquei encantada com a alegria e disposição das velhinhas. Ficamos bastante tempo ali. O Thiago não tirava os olhos do livro sobre as missões de Cuba em Angola (que comprara em Trinidad) e eu me deliciei observando o movimento (lento) da cidade. Depois, já descansados, seguimos nossa caminhada.

Centro comercial de Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Movimento no centro comercial da capital da província

Centro Histórico de Sanctu Spiritus


Chegamos, então, no preservado centrinho histórico da cidade, bem menor que o de Trinidad, mas cheio de charme. Foi aqui o único lugar da cidade que vimos as placas de casas particulares (enquanto que em Trinidad, praticamente todas as casas alquilam para turistas).

Centro histórico de Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Centro Histórico de Sanctu Spitirus

No final das ruazinhas de pedra, finalmente, chegamos ao Rio Yayabo, onde conseguimos ter uma bela visão da famosa Ponte homônima que dá acesso ao centro histórico da cidade. A majestosa construção data de 1825 e tem um estilo medieval com arcos em terracota. Devido a essas caraterísticas únicas em Cuba, foi considerada patrimônio nacional. Apesar do rio estar com seu nível baixo, foi bem gostoso ficar ali apreciando a paisagem.

Ponte sobre o Rio Yayabo, em Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Ponte sobre o Rio Yayabo

Curioso que Sanctu Spitirus foi fundada por Diego Velásquez, como muitas cidades cubanas, mas sua localização não era a atual e, sim, próxima ao Rio Tuinucú e somente oito anos mais tarde foi transferida para as margens do Rio Yayabo, onde situa-se hoje. Não consegui descobrir o motivo da mudança, mas acredito que tenha relação com a facilidade de acesso daqui para outras regiões a serem exploradas pela coroa espanhola.

Ponte sobre o Rio Yayabo, em Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Arcos medievais que fizeram da ponte um patrimônio nacional

Ali às margens do rio, sentado tranquilamente, estava um senhor de aspecto cansado, roupas puídas e sapatos furados. Tentamos puxar assunto, mas o guajiro (como são chamados os campesinos em Cuba) não era de muito papo. Depois de um tempo, o Thiago conseguiu tirar algumas palavras dele, mas não conseguimos engatar a conversa. Desistimos de saber como era a vida dos verdadeiros guajiros cubanos e seguimos nosso rumo.

Um autêntico guajiro, nativo de Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Guajiro descansando às margens do Rio Yayabo

Voltamos ao centro comercial e começamos a procurar um restaurante pra comer. Tentamos entrar num que parecia mais simples e não nos deixaram, pois o Thiago estava de bermuda. Isso, na verdade, foi uma baita sorte, pois acabamos indo num paladar todo arrumado, que parecia caro, mas nos surpreendemos: a comida era muito barata e gostosa. Foi, sem dúvida, nossa melhor refeição nos restaurantes de Cuba (afinal nossas experiências foram todas ruins com pescados crus e sem tempero). Comemos, pela primeira vez, o arroz congrí, prato típico cubano e nos refastelamos.

Na saída do almoço, passamos pela praça principal da cidade e ouvimos uma música vinda de um dos antigos prédios. Logo nos interessamos e descobrimos de onde vinha: era o ensaio da banda local, na Casa da Cultura. Não resistimos e entramos para assistir, na cara dura. Ficamos ali um bom tempo assistindo e do alto do prédio, ainda tiramos algumas fotos da cidade.

Ensaio da banda local, em  Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Ensaio da banda local

O ritmo de vida cubano


Da sacada do prédio, conseguimos observar o ritmo da cidade e ainda tivemos uma visão geral do Parque Serafín Sánchez, que, por azar nosso, está em obras. Vários prédio de estilo neoclássico rodeiam o parque, deixando a paisagem com ares de época.

Parque Serafín Sanchez, em Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Parque Serafín Sánchez, em obras

Ficamos bastante tempo assistindo o ensaio da banda e verdadeiramente nos encantamos com aquilo. Um país sem dinheiro e em que não há muito acesso à internet, mas onde se estimula enormemente a cultura e a educação. Difícil criticar isso.
Começamos a cansar de ficar em pé e decidimos descer. Do lado da Casa da Cultura ficava a Biblioteca Provincial, um suntuoso prédio neoclássico e ficamos sentados na sua escadaria, curtindo a música cubana, que vinha do ensaio.

Enquanto estávamos ali sentados, deu a hora de saída das escolas e a cidade foi invadida por crianças de diferentes idades e uniformes. Com toda liberdade do mundo, elas corriam, brincavam, faziam algazarra pelas ruas. Sempre protegidas por todos que passavam, elas tinham prioridade no trânsito da calçada e das ruas. Incrível!
Várias crianças passavam pelas escadarias da biblioteca e desciam escorregando pelo corrimão lateral (inclusive algumas que filmei sem querer, no video que coloquei acima), mas o mais divertido foi quando quatro molecotes começaram a brincar nas escadarias, descendo o corrimão das maneiras mais bizarras possíveis. Vendo que nós ríamos deles, começaram a fazer mais pose ainda e, no fim, até o Thiago entrou na brincadeira.
Eu filmei a cena hilária dos cinco brincando, mas acabei apagando sem querer depois o vídeo. Só ficou a fotos dos guris antes e depois da bagunça.

Estudantes nativos de  Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Antes da brincadeira, ainda com uniformes intactos

Estudantes nativos de Sanctu Spiritus, na região central de Cuba
Depois da brincadeira, já imundos desgrenhados

Foi o momento mais divertido do dia e não queríamos que acabasse, mas a hora já começava a adiantar e queríamos chegar na rodoviária antes das 18h, quando haveria a mudança de turno dos funcionários da Viazul e assim (pensávamos nós) economizaríamos 1CUC, já que o segundo funcionário não precisaria cuidar das malas. Na verdade, não foi bem assim, mas ali na praça, ainda não sabíamos disso.

Seguimos nossa caminhada de volta e chegamos na rodoviária antes das 18h. Nosso ônibus estava marcado para as 21h e queríamos, sem pressa, pegar as malas e (tentar) comprar as passagens, que haviam nos impedido de comprar de manhã. Mas nossa saga com a Viazul continuava e não nos deixavam comprar os benditos tiquetes. Falavam que voltássemos depois e quando voltávamos, diziam que nos avisariam na hora que fosse liberada a compra. Os funcionários começaram a se irritar com a nossa insitência e nós com a falta de informação. Começamos a pensar que talvez não houvesse ônibus algum e que precisaríamos dormir na cidade.

Depois de quase duas horas de tensão, um funcionários nos chamou e disse que haveria um ônibus extra naquela noite, pois o que vinha de Havana estava lotado. Teríamos que correr pra pegar esse extra, que já estava saindo. Foi uma correria pra comprar as passagens e levar as malas (e eu precisava fazer xixi, já que os ônibus da Viazul não tinham banheiro). No meio desse tumulto, pra nossa surpresa, veio o funcionário do turno da noite (que não chegou a cuidar dos nossas malas) e nos pediu o 1CUC. Eu fiquei muito brava, mas o Thiago acabou dando pra evitar estresse, pois não tínhamos muito tempo pra pensar. Ficou pra conta da jinetagem.

Depois disso tudo, ufa, conseguimos embarcar e, dessa vez, sentamos juntos. O ônibus estava vazio. Foi uma viagem bem tranquila com muitas paradas (mutas mesmo), o que pra mim foi bom, pois não passei aperto com banheiro. O único problema da viagem foi com o ar condicionado glacial que tivemos que enfrentar a noite toda. Eu já havia lido sobre isso na internet e levei blusa, meia e estava de calça. O Thiago que não tinha acreditado na história, acabou passando frio a noite toda.

Chegamos em Santiago de manhãzinha e não sabíamos ainda qual seria nosso destino: ficar pela cidade, ou seguir pra Baracoa? Tudo dependeria da disponibilidade de transporte, como sempre. E só teríamos essa resposta às 7h da manhã, quando abriria o escritório da nossa querida Viazul. Mas isso eu conto no próximo post.


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2 comentários:

  1. Oi... Fotos e posts maravilhosos!! Qtos dias ficaram em Cuba? Como planejaram o roteiro? Obrigada...

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  2. Olá, obrigada!!!! :)
    Ficamos duas semanas e pesquisamos bastante informação da internet e no guia da Lonely Planet.
    Abraços!

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