sexta-feira, 4 de abril de 2014

Trinidad, a Paraty de Cuba

"Cerca del mar y del monte"
(Norberto Carpia Calzada)
Centro histórico de Trinidad, em Cuba.

Trinidad era uma das últimas cidades a visitarmos, no roteiro inicial da viagem, mas acabou sendo nosso destino já no início dessa aventura toda. Isso porque com o caos que é o transporte público em Cuba e com a nossa falta de planejamento prévio (ausência essa que nos ocasionou algumas atribulações, mas também nos rendeu as melhores descobertas do país) não conseguíamos viajar pra onde queríamos e, sim, pra onde era possível ir. Foi assim que na casa da Raquel, nossa (quase) anfitriã em Havana, descobrimos, na manhã do segundo dia da viagem, que haveria um táxi coletivo com mais um casal pra dividir conosco as despesas, saindo naquela mesma tarde para Trinidad. Vamos? Vamos. E não nos arrependemos.

Centro histórico de Trinidad, em Cuba.

História de Trinidad


Trinidad foi fundada em 1514 pelo conquistador espanhol Diego Velázquez e floresceu como grande produtora de cana-de-açúcar entre os séculos XVIII e XIX. A cidade cresceu com charmosas características coloniais nas ruas de pedra redonda (chamadas chinas pelonas) e casarões coloridos. Sua arquitetura típica com grande influência moura e andaluza mereceu um olhar mais atento da UNESCO, que em 1988 declarou a cidade como Patrimônio da Humanidade. Andar pelas agradáveis ruas do centro histórico é quase lúdico, pela diversidade de cores nas fachadas e pela simpatia dos moradores, porém um olhar mais atento na arquitetura nos leva a observar a homogeneidade das construções. Em geral, as fachadas tem uma grande porta e ao lado dois janelões (praticamente do tamanho da porta e chegando quase ao nível do chão), que compõe a entrada das casas. Essas janelas  são ornadas por grades (originalmente de madeira e que foram sendo substituídas por ferro, com o passar do tempo), cuja parte superior apresenta uma decoração torcida, como na foto abaixo.

Arquitetura colonial do Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Típica janela de Trinidad com sua grade retorcida na parte superior

A produção açucareira declinou no fim do século XX e a cidade passou por grande ostracismo após esse período, que possibilitou a manutenção e preservação de suas características arquitetônicas originais. Foi somente com a redescoberta da cidade pelo turismo na década de 90, que ela passou a ser novamente um pólo econômico para o país.

A viagem para Trinidad


Saímos de Havana, depois da intensa visita ao Museo de la Revolución. Dividimos o carro com um casal polonês muito simpático, Sandra e Andres, que estavam fortemente impactados com a quantidade de carros poloneses antigos (do tempo que a Polônia fazia parte do bloco socialista da URSS), que haviam visto nas ruas de Havana. Apesar de ambos serem de uma geração pós-comunista, eles falavam muito mal do antigo regime de seu país de origem e mostravam-se felizes com o sistema atual, pois agora conseguem acesso a tecnologias e bens de consumo, que seus pais e avós não tinham. Por outro lado, nos contaram também que as gerações antigas sentem falta de quando todos tinham empregos e não precisavam trabalhar tanto para conseguir os recursos básicos. Inseridos na lei de oferta e procura, os poloneses se viram pressionados a produzir em escala capitalista, principalmente a mão de obra menos qualificada que não teve muita opção de emprego. Sorte de quem teve recurso para se qualificar. Azar dos outros. Isso é a lei do mercado e salve-se quem puder.

Estrada para Trinidad
Na estrada para Trinidad

A conversa estava animada, quando de repente nosso taxista nos avisou que faria uma parada de cinco minutos. Foi então, que entramos numa cidade nada turística, chamada Rodas, onde ele parou em frente à uma casa bem simples e ali mesmo abasteceu o carro com um combustível, que estava dentro de um galão de plástico. O lugar não era um posto de gasolina. Longe disso. Era uma casa, como outra qualquer. Os galões ficavam ali no quintal, esperando os clientes.
Esse foi nosso primeiro contato com um lado negro de Cuba: a clandestinidade. Na falta de recursos e com os preços excessivos cobrados pelo governo, abre-se brechas para que mercados paralelos floresçam no país. Ao longo dos nossos dias na ilha, tivemos intenso contato com diversos produtos e serviços ilegais: táxis, combustíveis, lagostas, charutos, entre outros. Nas nossas andanças, chegamos onde o governo não consegue chegar, ou pelo menos, finge não conseguir. O que mais me assustou nesses serviços é o quanto a população se coloca em risco para fornecê-los e/ou consegui-los: o risco de explosão na venda de combustíveis sem nenhuma proteção, o risco de acidentes com transporte de pessoas em caminhões que deveriam transportar areia, etc. É assustador e triste, mas é o cotidiano do cubano.  E, convenhamos, nada que não vejamos também em outras terras. Infelizmente.

Estrada para Trinidad
Na falta de trasporte público decente, cubanos se arriscam para conseguir se locomover

As estradas cubanas são relativamente boas. O perigo maior são os carros velhos e sem manutenção, levando pessoas de qualquer jeito. Mas asfalto e sinalização, isso tem. É bem comum passarmos por pessoas pedindo carona. E esse é o jeito mais cubano de se locomover entre as cidades, devido a inexistência de um transporte público decente. Dificilmente, se vê um carro vazio em Cuba. Todos estão apinhados de gente tentando chegar em algum lugar.

A viagem continua. E conforme ela prossegue, a paisagem vai mudando: próximo de Havana passamos apenas por grandes planícies de vegetação seca e conforme vamos nos aproximando de Trinidad, a Sierra del Escambray já aparece no horizonte e a vegetação começa a ficar mais verdinha e exuberante.
Num determinado trecho, já próximo à Trinidad, a estrada margeia o mar e chegamos ali na melhor hora possível: a do pôr do Sol. Isso porque em todo litoral sul do país (para localizar: o litoral sul é a parte da lha que está de frente para a parte continental da América Central), o pôr do Sol é na água, coisa rara de vermos aqui no Brasil e que só me lembro de ter visto assim tão lido em Jericoacoara. Pedimos para o taxista parar o carro para vermos aquela belezura e conseguimos curtir um pouco do primeiro fim de tarde em Trinidad.

Fim de tarde na estrada para Trinidad, em Cuba.
Pôr do Sol na estrada, à caminho de Trinidad

O triste foi que nessa mesma parte da estrada, uma enxurrada de caranguejos cruzava a pista e quase todos eram craquelados pelos automóveis que passavam. Nosso taxista nos contou que nessa época do ano, milhares deles descem da serra em direção ao mar para se reproduzir. Nunca tinha ouvido dizer que caranguejo se locomovia tanto, mas não tive motivos de não acreditar, depois de ver a quantidade de bichos mortos. Infelizmente, não há uma cultura de preservação ambiental em Cuba e passamos constantemente por situações de vermos pessoas jogando lixo nas ruas e nas praias com toda naturalidade do mundo. Parece que, de fato, eles não tem a informação sobre riscos ambientais. Ou se tem, a ignoram.

Em Trinidad


No começo da noite, depois de quatro horas de viagem chegamos ao nosso destino. Chegamos na casa particular indicada pela Raquel e o dono, Ángel, já nos esperava na porta. Fomos extremamente bem tratados por ele e sua esposa Iliana e posso mesmo dizer que essa foi a nossa melhor hospedagem em Cuba. Não só pela qualidade da acomodação, mas pela receptividade e carinho dos nossos anfitriões. Pra completar, a Iliana era cozinheira do melhor hotel da cidade e tinha até prêmios culinários, ou seja, comemos muito bem nos dias que passamos com eles.
Mas naquela noite, tivemos que comer fora, pois chegamos já à noite e, em Cuba, as refeições precisam ser planejadas com antecedência, pois os mercados fecham cedo e não há fartura de suprimentos. Já deixamos nosso jantar combinado pro dia seguinte e seguimos, acompanhados do Ángel, pra nossa primeira caminhada pelas ruas de pedra de Trinidad até chegarmos ao local onde concentram-se os restaurantes e casas de música. Seguimos a sugestão do nosso simpático anfitrião e jantamos num paladar agradável, que servia lagostas por irrisórios 15CUC (o equivalente a 15 dólares). Inocentemente, comemos a iguaria (que nem estava assim tão boa- como todos os peixes que comemos em Cuba, estava sem tempero e meio cru) e somente no dia seguinte fomos informados pelo Ángel que aquela lagosta devia ser clandestina, já que a venda desse crustáceo é regulada pelo governo, que cobra altas taxas para a revenda. Enfim, mais uma experiência na ilegalidade cubana cotidiana.  Nesse paladar, experimentamos também a canchánchara, uma espécie de aguardante feita com rum, mel, água e lima, servida num copo de cerâmica. A bebida é produzida na própria cidade e não a encontramos em nenhum outro lugar da ilha. Se é gostoso? Prefiro as nossas cachaças brasileiras.

Nesse mesmo restaurante, havia uma dupla com violão e maraca, que tocava algumas músicas típicas e outras nem tanto. Ao saber que éramos brasileiros, o cantor imediatamente tocou Michel Teló (sim, a febre do insuportável "ai, se eu te pego" chegou até em Cuba!). No intervalo, o Thiago criou coragem e tocou  Pretinha, uma música bem mais decente pra mostrar nossa cultura brasileira, convenhamos e recebeu até aplausos. O engraçado foi que o músico da maraca tentava seguir o ritmo e, pela primeira vez, ouvi Seu Jorge em ritmo de son. Antes de ir embora, ainda dançamos a primeira salsa em território autóctone do ritmo. Claro que nossa salsa parecia mais forró, mas mesmo assim nos divertimos. A malemolência brasileira ajuda sempre nessas horas cheias de musicalidades. Em Cuba, isso aconteceu inúmeras vezes, principalmente em Trinidad e Baracoa.

A animada noite de Trinidad, em Cuba.
Thiago tocando música brasileira, em território cubano

Mas a noite não tinha terminado e parecia que aquela estava fadada ao estrelado do Thi. Seguimos para o Palenque de los Cangos Reales e não é que lá chamaram o Thiago para subir no palco? Dessa vez, era pra participar de um número em que ele levantaria uma mesa (com uma moça em cima) somente com os dentes. E o nego (com a ajuda de outros negões) conseguiu. Foi cômico.

A animada noite em Trinidad, em Cuba.
Em sua noite de estrelato, Thiago sobe ao palco do Palenque de los Congos Reales

O Palenque é um lugar para turistas. Todas as noites ocorrem apresentações de danças afro-cubanas e depois shows de son. Como eu queria muito ver as tradições africanas na ilha, achei que poderia ser uma boa experiência conhecer o lugar, mas a verdade é que as apresentações são mais para entreter os turistas e fazê-los rir do que, de fato, mostrar as danças. O show, no fim, nos deu a oportunidade de bailar mais um pouco e, depois fomos embora cansados e felizes com nosso primeiro contato com a música e dança cubanas.

No caminho  de volta, passamos pela Plaza Carillo, uma agradável área bem arborizada e cheia de vida, onde jovens tocavam violão e conversavam tranquilamente. Sentamos num dos bancos e ficamos, por um tempo, observando aquela cena incrível. Era já de madrugada e, mesmo assim, ninguém parecia preocupado por estar escuro (sim, pois a iluminação pública no país é precária), nem pareciam estar preocupados com violência. Drogas? Só cigarro e rum. Não há maconha, cocaína, ou outras drogas na ilha. O tráfico ainda não chegou por essas bandas. Foi uma experiência bem autêntica estarmos ali entre jovens que buscavam se divertir, como qualquer jovem, mas com perspectivas e vivências tão diferentes das que vivenciamos em nossa juventude.

Plaza Carillo, no Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Plaza Carillo  (foto feitas dois dias depois do encontro noturno com os jovens cubanos)

O cansaço começou a bater e resolvemos ir pra casa. Só que seguimos um caminho completamente errado e conseguimos nos perder naquela pequena cidade. Passamos por uma casa, cuja porta estava aberta e duas senhoras viam TV na sala. Resolvemos perguntar como se chegava no nosso endereço, mas as senhoras não se limitaram a nos ensinar o caminho. Fizeram uma mobilização na casa, ligaram pro Ángel e, finalmente, nos direcionaram para nosso destino. Uma gentileza que para muitos seria até excessiva, mas assim são os cubanos: solícitos até o seu limite.

Península Ancón


No dia seguinte, acordamos cedo e seguimos direto para a Península Ancón. A experiência de estarmos, pela primeira vez, no Caribe, vendo aquele mar azul-bebê que só havíamos visto somente em fotos, foi tão intensa, que relatarei esse dia num post separado. 

Península Áncon
O mar do caribe

A melhor comida de Cuba


Passamos o dia todo no caribe e voltamos somente a noite para casa. Lá já nos esperava o jantar delicioso da Iliana. Eu tinha pedido para que ela fizesse arroz com feijão, pois sabia que essa era a comida típica dos cubanos, mas não conseguimos comer nada disso nos paladares. Na verdade, eu detestei a comida dos paladares e queria comida caseira. Nossa adorável anfitriã nos preparou o MELHOR feijão que já comi na vida. Havia um frango delicioso de acompanhamento, mas eu me refastelei mesmo foi com os frijoles rojos com um tempero que nunca comi igual. Pra completar, o Ángel nos preparou mojitos fenomenais, que foram os melhores de toda a viagem.

Isso tudo acompanhado de uma prosa das boas com o casal e seu filho, o Mario. Eles nos contaram sobre a história de da casa onde moram, que era de um importante personagem de Trinidad e tataravô de Ángel, Don Lino Pérez, general do Exército Libertador, que viveu ali a mais de um século. Iliana, além de excelente cozinheira, também gosta de pesquisar o passado e tem guardado uma série de documentos históricos da cidade. No começo desse ano, Trinidad completou 500 anos e Iliana participou ativamente das comemorações em homenagem à cidade e chegou a ganhar um concurso de história, além de ficar em segundo lugar no concurso de culinária temática. A família transpira tranquilidade e tem uma forma ingênua e bela de levar a vida, parecendo estar alheios a afetação dos novos tempos. Foi uma experiência muito enriquecedora para nós estar ali com eles.
Durante a noite, a conversa fluiu tão bem e houve tanta empatia entre todos nós, que Ángel nos convidou para jantarmos na mesma mesa que eles, no dia seguinte. Confesso que me senti lisonjeada, pois poucos hóspedes tem esse privilégio, em qualquer casa particular de Cuba. Passei o dia seguinte todo esperando esse momento.

Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Ruas mal iluminadas de Trinidad (e de toda Cuba)

Mas o dia ainda não tinha terminado e queríamos ainda ver um pouco mais da vida noturna de Trinidad. Depois do jantar, fomos para o centro histórico e assistimos um pouco do espetáculo (gratuito) que rolava na Casa de la Musica, um lugarzinho bem pitoresco, localizado numa escadaria antiga, bem próximo a Plaza Mayor, principal ponto da cidade. A música estava agradável, mas as escadas estavam lotadas e não tinha mais espaço pra ninguém. Ali, quem não era turista era jineteiro. Não haviam cidadãos cubanos normais. Isso me chamou bem a atenção em Cuba, pois os lugares onde há música típica são para turistas (ou para velhos- como vimos em Baracoa, num adorável baile pra terceira idade). Os jovens cubanos cançam reggaeton, que definitivamente não agrada meus ouvidos.

Fomos embora mais cedo e, dessa vez, já estávamos conhecendo a cidade e não nos perdemos pra chegar em casa.

Pelo Centro Histórico de Trinidad


O dia seguinte começou com questões objetivas: precisávamos planejar os próximos dias de viagem. Como eu já disse antes, nosso roteiro foi determinado pelo transporte disponível e não pela nossa própria vontade. Isso, porque o transporte coletivo em Cuba é absolutamente ineficiente e caótico. Já havíamos tido dificuldades em Havana e, em Trinidad os problemas continuaram: não haviam ônibus noturnos para Santiago, nosso próximo destino. Queríamos viajar à noite, pois esse seria um deslocamento longo (doze horas na estrada) e não gostaríamos de perder o dia no trajeto. Viajando à noite, economizaríamos a grana da hospedagem e não perderíamos o dia. 

Rodoviária de Trinidad no Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Um guagua (como os cubanos chamam os ônibus) típico cubano

A única solução que encontramos foi irmos até Sanctu Spiritus, distante três horas de Trinidad e de lá pegarmos o bendito ônibus noturno para Santiago. Compramos, então, as passagens para o próximo destino e ainda faltaria comprar os bilhetes até Santiago. Mas as coisas não são assim tão fáceis: não existe compra online dentro de Cuba (pelo simples fato de que mal existe internet em Cuba) e o escritório da Viazulconsiderada (sem a minha concordância) a melhor empresa de viação do país, não tinha telefone para podermos reservar o próximo trecho. Seguimos, então, para a casa do Ángel que com a gentileza de sempre nos ajudou nessa reserva e, finalmente, depois de uma manhã tensa, estávamos livres para passear.

 Decidimos, então, conhecer mais do Centro Histórico da cidade. Foi bem gostoso caminhar pelas ruas de pedra e ver um pouco da rotina da cidade, que basicamente gira em torno do turismo, mas que tem suas peculiaridades.

Nativo caminha pelas ruas do Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Pelas ruas de Trinidad

Nosso percurso começou pelas ruas ao redor do centro, não tão suntuosas como mais antigas, mas bem cuidadas e coloridas. 

Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Casas simples, ao redor do Centro Histórico

Passamos pela Plaza Carillo, onde se localiza o Hotel Iberostar, local de trabalho da Iliana. Foi nessa praça que encontramos um grupo de jovens cubanos tocando violão, logo na nossa primeira noite na cidade, como relatei anteriormente. Logo depois, já chegamos a Plaza Mayor, ao redor da qual a cidade cresceu. Apesar do nome, a praça é singela: um pequeno quarteirão cheio de lindas palmeiras, ideal para passear com tranquilidade.

Plaza Mayor, no Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Plaza Mayor

Dali, seguimos para o Museo de la Lucha contra Bandidos (entenda-se por bandido todo e qualquer contra-revolucionário). O museu foi criado em 1984 com o acervo retirado dos opositores ao regime, que se refugiaram na Sierra del Escambray logo após o início da revolução, em 1959. O prédio foi construído em 1730 por monges franciscanos, servindo-lhes como igreja e mosteiro. Depois, perderam a posse do lugar que passou para o domínio do exército espanhol. Devido ao seu mal estado de conservação, parte da sua estrutura foi demolida, poupando-se apenas o campanário, de onde temos a vista mais bela da cidade, localizada entre o mar e a montanha, como conta uma antiga música da cidade.

Sierra del Escambray vista do campanário do antigo mosteiro, Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
A Sierra del Escambray vista de um dos lados do campanário do antigo mosteiro

Plaza MAyor, vista do campanário do antigo mosteiro, no Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Vista do outro lado do campanário: a Plaza Mayor, no primeiro plano e, ao fundo, o mar do caribe com uma parte da Península Ancón. 

Já era fim de tarde e quando saímos do antigo mosteiro, era a horário de término das aulas escolares. Incrível como em todas as cidades de Cuba, essa hora é especial: as ruas são tomadas pela meninada que anda fazendo bagunça e se divertindo, com toda a liberdade que lhes cabe. Os cubanos cuidam muito de seus niños e, independente de serem parentes ou não, todos se preocupam para que eles fiquem bem. É algo encantador de se ver.

Crianças nas ruas do Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Ruas invadidas por estudantes, no horário de saída da escola

A caminhada nos levou até as escalinatas da Casa de la Musica, onde estava rolando o ensaio de uma banda e ficamos ali sentados nas escadas, curtindo o som e vendo o movimento. Foi aqui que vimos nossa primeira coca-cola em Cuba. É difícil achá-la, mas nos lugares mais turísticos as vezes tem. É o imperialismo yanque sendo mais forte que seu próprio embargo.

Imperialismo yanque no Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Imperialismo yanque sendo mais forte que seu próprio embargo, imposto à Cuba

Continuamos andando sem muito destino e cada rua nos encantava de seu modo: pela arquitetura, pelo comércio peculiar, pelas pessoas. Não havíamos almoçado e a fome começou a bater. Resolvemos, então, comer uma fatia de pizza de uma mini-lanchonete. O valor era cobrado em pesos cubanos, mas só tínhamos CUC e o dono da birosca nos cobrou 3 CUC pela pizza que era 10 pesos cubanos (uma conta rápida me faz chegar ao cálculo de que pagamos seis vezes mais do que o valor correto). Ainda sem experiência com a jinetagem cubana, pagamos e pra piorar a pizza era incomestível. Até o Thiago que come qualquer coisa, não conseguiu. Acabamos dando a pizza pra uns amigos que o Thi tinha feito, nas suas incessantes conversas pela cidade. Foi nossa estréia na jinetagem informal (aquela que não é feia por prostitutos e, sim, por malandrinhos de ocasião). Ainda naquele dia, cairíamos em outras duas armadilhas: tivemos que dar umas moedinhas para uns senhores que posavam pra foto e a outra contarei em breve.

Nativos de Cuba, no Centro histórico de Trinidad.
Troféu joinha pra você que caiu na jinetagem

O Ángel havia nos dito que era possível ver o pôr do Sol subindo as ruas até a Ermita de Nuestra Señora de la Candelaria de la Popa, uma ruína que fica na parte mais alta da cidade. Infelizmente, o lugar está em obras, pois se transformará num suntuoso hotel, mas ainda conseguimos ver  a fachada da frente (onde um dos campanários já ruiu) e o melhor foi poder conhecer um lado bem diferente da cidade.

Ruínas da Ermita de Nuestra Señora de la Candelaria de la Popa, em Trinidad.
Ruínas da Ermita de Nuestra Señora de la Candelaria de la Popa

A comunidade próxima a Eremita é nitidamente mais pobre com casas mais humildes e ruas de terra. O lugar, em si, é melhor que qualquer uma de nossas favelas, mas contrasta com o resto da cidade, que é tão perfeitinha. Ali ficou nítido a questão de que o turismo acabou criando uma classe social levemente mais favorecida, pois são os que tem acesso mais fácil aos CUC.
Muitas pessoas nos pediam sabonetes, canetas e mesmo dinheiro. Ninguém nos ameaçou, mas havia nitidamente um certo interesse de conseguir algo conosco. Ali senti o que um médico cubano me falou, enquanto ainda estávamos no Brasil: para os cubanos, turistas são como caixas eletrônicos ambulantes.
Apesar de muitas pessoas dizerem que isso acontece em muitos lugares do país, só vimos em Trinidad.

Nativos em ruas fora do Centro histórico de Trinidad, em Cuba.
Ruas mais pobres de Trinidad

Ruas mais pobres de Trinidad, em Cuba.
Nem todas as ruas são de pedra

Decidimos continuar subindo para tentar encontrar um bom ângulo para ver o pôr do Sol. Chegamos numa estrada de terra e de lá avistamos o mar e a península Áncon. Um visual deslumbrante.

Península Áncon vista de Trinidad
Península Ancón

Achamos um local com boa visibilidade e ficamos apreciando a paisagem e esperando o cair do Sol. Estávamos ali tranquilos, quando dois cavalos desceram em disparada, quase passando por cima de nós. Mais um pouco e um menino veio correndo pelo mato:
- Viram dois cavalos?
- Sim, desceram para lá.
E ele foi correndo pra direção que apontamos.
Mais um pouco e outro menino aparece no mato:
- Vocês viram um menino passando aqui?
- Sim, desceu para lá.
Ser criança em Cuba é isso.

Trinidad, em Cuba.
Visão quase onírica dos dois cavalos em disparada

Logo em seguida, ocorreu uma situação incrivelmente cômica, se não fosse trágica. Um rapaz muito bem vestido estava descendo a estrada, quando resolveu puxar assunto conosco. Era cubano, boxeador e "não tinha dinheiro nem para comer", suas (belas) roupas tinham sido presente de um amigo italiano e ele morava com sua avó doente no meio das montanhas, desde que sua mãe falecera (nessa hora, sua expressão era de uma tristeza irritantemente falsa e me deu vontade de falar que era bom que ele fosse boxeador, já que pra ator ele não levava jeito). Eu comecei a me incomodar e ele percebeu, dizendo que não faria nada de mal conosco. Perguntou onde jantaríamos e já quis nos levar num paladar. Desconversamos, falamos que não tínhamos interesse e ele, num último ato de tentar ganhar algo, nos pediu a capa do meu óculos escuro, que segundo ele serviria para usar como estojo na escola (nota: ele devia beirar os trinta anos e sabemos que, em Cuba, todos terminam os estudos cedo). Um amigo dele chegou e também começou a nos encher o saco até que fomos mais ríspidos e eles desistiram. Esse é o problema de todos os lugares muito turísticos de Cuba.

Passado o estresse com o nosso ator, conseguimos ter tranquilidade para apreciar o visual, que era mesmo o nosso objetivo. O céu estava lindo, cheio de nuvens e com as luzes do Sol passando por entre elas. Haviam focos de chuva no mar e isso deixou o espetáculo ainda mais bonito.

Pôr do Sol em Trinidad, em Cuba.
Pôr do Sol, em Trinidad

Ficamos ali um bom tempo curtindo a paisagem, mas começamos a descida antes do fim do pôr do Sol, porque as nuvens próximas ao mar estavam mais densas e começaram a cobrir totalmente o Sol.

Chegamos em casa já à noite e Iliana já estava com a comida pronta, nos esperando.
Naquela noite, jantamos juntos e foi inesquecível poder compartilhar desse momento da família. A comida, como na véspera, estava deliciosa e ainda tomamos vários mojitos do Ángel. Conversamos muitas coisas e Iliana nos contou dos seus passatempos, Mario nos mostrou suas lições da escola e, no fim, os pais de Iliana chegaram para completar a festa. Todos muito solícitos e receptivos e fizeram-nos sentir verdadeiramente em casa.

Nativos de Cuba, em Trinidad.
Mario, Iliana e Ángel

As despedidas foram emocionadas e ficamos com a certeza de que a amizade permanecerá, mesmo com a nossa partida. Chegamos a pensar em voltar pra Trinidad só para rever nossos amigos, depois que saímos de Santiago, mas acabamos indo para Remedios. Mas tenho certeza que outros encontros ainda nos esperam.


Informações Práticas

Como chegar em Trinidad?
Nós compartilhamos um táxi com um casal polonês. O taxista nos pegou na nossa casa particular em Havana e nos deixou no lugar que nos hospedaríamos em Trinidad.
Existem também ônibus da Viazul que fazem o percurso, mas conseguindo outros turistas para compartilhar o táxi sai quase o mesmo preço com mais comodidade.

Onde ficar em Trinidad?
A melhor experiência em casas particulares que tivemos foi aqui e recomendo de olhos fechados a casa de Iliana e Ángel. Seguem os dados deles:

Don Lino, casa colonial histórica do século XIX
Endereço: Camilo Cienfuegos (Sto Domingo), 269 - e/ Francisco Cadahía e Antonio Maceo
Contato: +53 (41) 993261 (fixo) ou +53 54127005 (celular)
Email: imartnezmndez@yahoo.com


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