domingo, 25 de maio de 2014

A pacata Remedios

A pacata praça de Remedios, em Cuba.

Assim como Sanctu Spiritus, Remedios não estava no nosso roteiro inicial. Chegamos aqui, fugidos da balbúrdia de Santiago de Cuba, após um dia agitado demais (pros nossos padrões) naquelas bandas. Quando ainda estávamos em Santiago, tivemos vontade de voltar para Baracoa, mas a ideia logo foi descartada, pois precisávamos já começar o caminho de retorno e Remedios nos pareceu perfeita para conciliar as duas coisas: era relativamente próxima de Havana e tinha a tranquilidade que buscávamos.
E foi assim que encaramos uma noite de viagem até Santa Clara e de lá um táxi coletivo para Remedios. Quase quinze horas de viagem, que valeram à pena, já que nos encantamos pela cidade e seus moradores e, de quebra, ainda conhecemos o Cayo Santa Maria e fizemos inesquecíveis amizades.

San Juan de los Remedios de la Sabana del Cayo foi fundado em 1514 e é considerada a oitava cidade mais antiga de Cuba. Diz a lenda local, que a cidade foi construída às escondidas, já que seu fundador, o nobre Vasco Porcallo de Figueroa, não queria enviar à Coroa Espanhola, as taxas de recolhimento obrigatórias na época. O vilarejo cresceu e acabou ganhando fama, estragando os planos do espertinho Vasco. Desde então, Remedios cresceu pouco e seu centro histórico manteve-se bem conservado e autêntico. Atualmente, é a principal porta de entrada para o famoso Cayo Santa Maria e muitos turistas usam a cidade apenas como passagem, o que torna o lugar bem tranquilo e livre de jineteros. Um paraíso para nós!

A chegada em Remedios


Saímos de Santiago de Cuba à noite e após uma noite de viagem, chegamos à Santa Clara, mas a famosa cidade que consolidou a vitória da Revolução ainda não era nosso ponto final e teriámos que descobrir informações de como chegar à Remedios. Puxamos assunto com um casal que viera conosco no ônibus e tivemos sorte: eles também estavam indo para lá e poderíamos dividir um táxi coletivo. Ele era argentino e ela, espanhola e ambos eram bons negociadores. Conseguimos preços excelentes no táxi e eles ainda nos ensinaram a negociar nas casas particulares. Estávamos pagando uma média de 25CUC na diária e eles conseguiam facilmente 15CUC negociando com os donos. Aprendemos a lição e chegamos na cidade obstinados a economizar na hospedagem. 
Já em Remedios, nós nos despedimos na praça central e eles caminhariam pelas redondezas para regressarem no fim do dia. Nós, que ficaríamos por aqui, ainda teríamos que procurar um pouso. Andamos pelas ruas ao redor do centro e logo achamos uma casa que nos pareceu muito simpática. Negociamos o preço e, pronto, estávamos hospedados por 15CUC e sem nem fazer muito esforço. Pena que aprendemos isso já nos últimos dias de viagem. 
A casa se chamava La Francia e seu dono, Augustin era bem atencioso e gentil. Seus pais, Dona Nadia e Seu Jesus, também nos receberam muito bem e estavam sempre preocupados conosco. Podemos dizer que foi a segunda melhor casa que nos hospedamos em Cuba. Só perdeu pra casa de nossos amigos Hiliana e Ángel, de Trinidad.

Caibarién


Depois de tomarmos café da manhã, descansamos um pouco da longa viagem e acordamos bem mais dispostos a passear. Augustin nos sugeriu de conhecer um povoado próximo de Remedios, chamado Caibarién, onde se localiza a entrada pro famoso cayo da região. Decidimos aceitar a sugestão e seguimos pra lá. O transporte foi bem capenga, como sempre: um ônibus da cubatur (clandestino) até a entrada da cidade e de lá pra praia, pegamos uma bicitáxi. O rapaz nos cobrou barato, mas depois nos enrolou na conversão entre o peso cubano e o conversível. Mais jinetagem pro nosso orçamento, mas já estávamos acostumados.

Ficamos numa espécie de clube, que vai serpenteando o mar. O lugar é interessante com uma areia branquinha linda, mas confesso que ela fica bem atrás de todas as outras que conhecemos no caribe cubano, como a Península Ancón, a Playa Maguana e até mesmo o fabuloso Cayo Santa Maria que conheceríamos no dia seguinte.

Caibarien, a praia mais próxima de Remedios, em Cuba.
Caibarién

Achamos a praia mal conservada  e suja. Alguns trechos, tinham cascalho e areia misturada e chegamos mesmo a ver pedaços de cerâmica jogados ali. Uma pena, mas percebemos que os cubanos não tem uma visão ambiental muito desenvolvida. Vimos com frequência, pessoas jogando lixo nas ruas sem o menor pudor, assim como nas praias. O exemplo mais concreto disso foi em Mar Azul, que é muito frequentado pelos habaneros e que cheguei a ver saco plástico, garrafas e outras tranqueiras boiando no mar.


Caibarien, próximo de Remedios, em Cuba
Areia da praia made in China

Depois de caminharmos pela região, descobrimos um bar com simpáticas atendentes e ficamos ali conversando. Foi bem interessante, porque descobrimos que antes da Revolução, a praia era dividida de acordo com a classe social dos banhistas. Os mais pobres, ficavam com a parte mais feia e cheia de pedras e os mais ricos com a areia mais fininha e confortável. Quem diria...

Começamos nosso retorno e pegamos um coche, dirigido por um guri de no máximo uns quinze anos acompanhado de seu pai, um senhor rabugento e insatisfeito com o regime. Era uma quarta-feira à tarde e eu me questionei o motivo de seu filho não estar na escola. Será que não era melhor o pai levar a carroça e o menino ir estudar? Não entendi bem a situação, mas compreendo a insatisfação.
Ficamos na entrada da cidade e de lá, mais um ônibus ilegal para voltar para Remedios. Já parecíamos verdadeiros cubanos na arte da locomoção no país.

Caibarién, próximo à Remedios, em Cuba.
Andando de carroça pelas ruas de Caibarién

A deliciosa e animada pracinha de Remedios


Chegamos já no fim da tarde e na hora da ginástica local, ministrada pelo pároco da cidade, ali na praça principal mesmo. Além de nos surpreendermos com a malemolência do padre, ainda rimos muito de um grupo de turistas que tentava desengonçadamente acompanhar a aula e, mais especificamente de um deles que era o mais animado, indo pra esquerda, quando todos iam pra direita e vice-versa. A cidade parou pra assistir o momento e ali conseguimos ter nosso primeiro contato com os simpáticos moradores.

Ao fim da aula, um senhor se aproximou de um outro que estava ao nosso lado. Ele vinha com a foto do Fidel na mão e perguntou ao amigo:
- Qual o verdadeiro nome de Fidel Castro?
- Fidel Castro! Disse o amigo.
- Não, não, não. É Fidel Castro RUZ.
E assim continuo com perguntas sobre a história de Cuba e seus heróis. Ele beijava a foto de Fidel e parecia ter devoção ao comandante-en-chefe. Logo puxamos assunto e ele se surpreendeu, pois pensava que éramos cubanos. Engatamos numa prosa e ele, ligeiramente ébrio, nos ofereceu de regalo seu cordão de ouro. Claro que não aceitamos, mas agradecemos calorosamente. Aliás, vimos muitos bebuns pela cidade. Nenhum indigente, mas todos bem maluquinhos.

Nativo de Cuba, em Remedios.
Thiago após receber o regalo de nosso amigo

Nativo de Cuba, em Remedios
Menino maluquinho? 

Depois de socializar com nossos novos amigos, seguimos para uma caminhada pela cidade. Na verdade, uma caminhada pela Plaza Martí, que praticamente compreende toda a cidade. A praça é o ponto principal do lugar e é onde os moradores se reúnem para conversar, namorar, fazer ginástica, ou qualquer outra coisa. É bem charmosa e aconchegante. Passamos a maior parte do nosso tempo em Remedios sentados, ou andando ao redor desse adorável lugar.

A pacata praça de Remedios, em Cuba.
Coreto e busto de José Martí, na Plaza Martí

A pacata praça de Remedios, em Cuba.
Tons de rosa no céu e na Plaza Martí

Ao redor da praça, imponentes casarões dão um ar colonial ao centro histórico. Ali, encontram-se importante edifícios, como o Hotel Mascotte, o antigo Casino Español (hoje, Casa de la Cultura) e o tradicional Café El Louvre, numa construção datada do ano de 1866 e o lugar mais animado da cidade à noite.

A pacata praça de Remedios, em Cuba.
Café El Louvre, sempre animado

Mas o prédio mais suntuoso e imponente da praça é a Iglesia de San Juan Bautista, considerada uma das mais importantes de Cuba e toda construída em estilo barroco e com um altar decorado em ouro. Engraçado pensar que o pároco responsável por esse monumento é o mesmo que estava mais cedo rebolando com suas alunas na praça. Definitivamente, quem vê cara, não vê coração.

Iglesia de San Juan Bautista de Remedios, em Cuba.
Iglesia de san Juan Bautista

Já no finzinho da tarde, ouvimos uma música vinda de um dos cafés ao redor da praça e imediatamente rumamos para lá. Sentamos numa das mesas e qual não foi nossa surpresa, quando os músicos começaram a tocar "Garota de Ipanema". Ficamos emocionados e sentimo-nos um pouco mais próximos de casa. Foi muito bacana. Pena que durou pouco.

Depois do show, estimulado pela saudade que a música do Tom Jobim nos causou, o Thiago teve a ideia de tentarmos usar a internet para nos comunicarmos com a família. Compramos um cartão para usar no Hotel Mascotte. Teríamos trinta minutos por 3CUC. Caro, mas já sabíamos que seria assim. O que não esperávamos era não conseguirmos acessar nossos emails. Nós dois usamos o gmail e descobrimos que o governo americano bloqueia o uso do google na ilha do Fidel. A solução foi o Thiago usar um antigo email da USP para conseguirmos mandar notícias para o Brasil. Curioso que as pessoas pensam que a censura do governo cubano impede o uso da internet no país, mas descobrimos na nossa própria pele que não é bem essa a verdade dos fatos. Pelo menos, não a verdade completa.

Assim que escureceu, voltamos pra casa, pois tínhamos combinado de jantar na casa de Augustin. O  jantar foi feito por sua esposa, Estrella e estava uma delícia. Aproveitamos a oportunidade para conversar um pouco com o pai de Augustin, que tinha muitas histórias. O sexagenário senhor nos contou que antes da Revolução, havia muita repressão e um dos seus primos estava sendo perseguido pelo governo por ser considerado anti-patriota. Um dia, esse primo chegou numa camionete na fazenda onde Seu Jesus morava e para ajudá-lo os homens esconderam o carro e o moço dentro do canavial , que ficou ali vários dias. Quando a polícia chegou, perguntando do sujeito, todos diziam que não o tinham visto e conseguiram despistar os milicos. Imagino o que teria acontecido a todos eles se a trama tivesse sido descoberta. Provavelmente, ele não estaria ali pra contar-nos a história.

Nativos de Cuba, em Trinidad
Dona Nadia, Seu Jesus e Augustin, nossos anfitriões em Remedios

Depois do jantar, fomos dar mais uma volta no centrinho e não havia muito movimento. Decidimos, então, assistir uma apresentação que ocorria no teatro municipal da cidade, onde uma orquestra apresentava canções cubanas, argentinas e até asiáticas. O teatro estava cheio e foi  bacana participar de uma atividade local. E além do mais, a música era bem boa.
Acabado o espetáculo, voltamos para a praça e tentamos socializar no Café El Louvre, mas não havia muita gente ali e ainda havia uma bicitáxi toda enfeitada com luzes coloridas, tocando o maldito reggeaton. Era uma versão de bike dos nossos insuportáveis carros de som. Uma tristeza.
Decidimos voltar pra casa e aproveitamos pra assistir a novela (brasileira) com Dona Nádia, mãe de Augustin e depois o jogo de beisebol com Seu Jesus. Depois da gostosa companhia da família, fomos dormir, pois o dia seguinte seria cheio e teríamos mais um dia de praia, dessa vez no Cayo Santa Maria.


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4 comentários:

  1. bom que vcs gostaram de lá e que este "canto esquecido" da ilha continua bem!
    boas viagens !!

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    1. Gabriel, nós gostamos demais de Remedios: simples, acolhedora e linda! Tudo que buscamos numa cidade...
      Você conhece Cuba? O que achou da ilha?
      Abraços

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  2. isso ai, a simplicidade é tudo!
    conheço sim (sou quem tb fez aquele relato mochileiros.com), cuba demonstra que outro mundo é possível !!
    valeu

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    1. Ah... o Pedrada? rsrs
      O relato de vocês me inspirou tanto...
      Obrigada pela visita no blog! :)

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