domingo, 20 de julho de 2014

De volta à Havana

"Pero a pesar de los pesares
Como sea Cuba va, Cuba va..."
Praça da Revolução, em Havana.
Nossos anfitriões, Estela e Jeferson, na Plaza de la Revolución

Depois de caminharmos por toda parte leste da ilha de Cuba, era chegada a hora de voltarmos pra capital Havana, onde já nos esperavam nossos queridos amigos Estela e Jeferson, um casal de brasileiros que estão terminando já terminaram a faculdade de medicina e que nos receberam em sua casa com todo carinho e atenção. Conhecemos a Estela no nosso primeiro dia em Cuba, quando ela fez a grata surpresa de nos buscar no aeroporto com direito à plaquinha com o nome do Thiago e tudo mais. Agora, depois de mais de quinze dias, voltávamos pra sua casa de mala e cuia pros nossos três últimos dias no país. Os dias com esse querido casa foram inesquecíveis, tanto pelas intensas conversas sobre medicina, política e sobre a própria ilha, como pela oportunidade de convívio com pessoas tão incríveis como aqueles dois. Muito obrigada, Estela e Jeferson. Esse post é todo em agradecimento a vocês!

Entre Remedios e Havana


O dia começou cedo, em Remedios e ainda aproveitamos a viagem para conhecer Santa Clara. Mas nosso destino final desse longo dia não era a pequena cidade e, sim, a capital da ilha, Havana. Ainda na rodoviária de Santa Clara, procuramos um táxi coletivo e conseguimos. Era um carro moderno com banco de couro e até air-bag. Ele conseguia ser mais novo que o carro que andamos com nosso louco motorista em Santiago de Cuba. Mas qual não foi minha surpresa, quando ao iniciarmos a viagem, o motorista nos disse:
- Se a polícia nos parar, digam que somos amigos e que estou lhes dando uma carona. 
Recado dado e compreendido: estávamos num táxi ilegal. Nossa primeira experiência desse tipo em Cuba, mas confesso que não estranhei. A informalidade está presente em toda ilha e vivemos situação parecida no caminho para Trinidad, quando o taxista parou numa cidadezinha isolada para comprar gasolina no mercado negro, ou em Sanctu Spiritus, quando o funcionário da rodoviária tentou nos extorquir para guardar nossas malas por algumas horas. Num país em que o acesso ao dinheiro é controlado e limitado, os que não compartilham das ideias do regime vão sempre querer dar seu jeitinho. Algo importante a se pensar sobre a experiência de se viver num país socialista. Algo que me faz questionar a própria natureza humana, que parece não se contentar em ter o básico e quer sempre mais.

Mas, ainda bem, não fomos parados pela polícia e depois de pouco menos de três horas de viagem, estávamos em Havana. Depois de um certo trabalho pra achar a casa dos nossos amigos, que ficava no bairro de Santos Suárez, mais distante do centro, finalmente chegamos sãos e salvos.
Infelizmente, não tiramos muitas fotos do agradável bairro, praticamente todo residencial com antigos casarões coloniais e bem arborizado. De certa maneira, me lembrei de Punta Carretas, um bairro bem parecido em Montevidéo. O curioso é que não vimos nenhuma casa particular (as que recebem estrangeiros) no bairro, ao contrário de Habana Vieja, ou Vedado em que todos os prédios parecem enfestados pelo símbolo oficial das hospedarias para turistas. 

Chegamos por volta das 15h e imediatamente engatamos numa longa e intensa conversa que durou até a noite. Eu estava curiosíssima pra ouvir o que a Estela e o Jeferson tinham pra nos contar sobre essa experiência de viver sete anos em Cuba, estudando medicina. O sistema de saúde era um dos pontos que mais me interessava, claro, mas também queríamos saber: há mesmo censura? Há racionamento de comida? Como é a rotina na cidade? E fomos conversando sobre todos esses temas por horas e horas e horas até nos esgotarmos. Nem todas as minhas dúvidas foram respondidas, pois há muitas perguntas sem respostas num sistema tão ímpar, quanto o cubano. Mas consegui entender muita coisa e escrevi sobre elas ao longo de todos os posts, mas principalmente no primeiro texto dessa série, quando compartilhei minhas impressões da ilha. Não tenho dúvidas que nossas conversas com Estela e Jeferson tiveram papel fundamental na minha compreensão do que, de fato, é Cuba e de como vivem os cubanos.

Depois de comermos uma pizza e ainda jantarmos a deliciosa comida do Jeferson (que era cozinheiro profissional aqui no Brasil, diga-se de passagem), dormimos ainda mais curiosos com aquele país incrível. E o dia seguinte ainda nos traria mais descobertas.


Já que pela manhã, a Estela precisava visitar uma paciente. Assim é a vida de um médico integral (como eles chamam o médico de família) cubano: muito trabalho.

Plaza de la Revolución


Saímos quase na hora do almoço e nossa primeira parada foi num dos lugares mais importantes e conhecidos da cidade: a Plaza de la Revolución, onde Fidel Castro costumava proferir seus famosos e intermináveis discursos, que atraíam milhares de cubanos. Eram duas datas principais para seus discursos: o 1o de maio (dia internacional do trabalhador) e o dia 26 de julho (dia da invasão do Quartel Moncada, que já escrevi a respeito, quando estávamos no Museo de la Revolución).

A gigantesca praça começou a ser construída ainda no governo do ditador Fulgêncio Batista com a construção da suntuosa estátua em homenagem ao libertador cubano José Martí, medindo 18m e com um memorial em sua homenagem com a  impressionante altura de 109m (seu topo é o ponto mais alto da cidade). Infelizmente, o memorial estava fechado e não pudemos subir nele, mas pudemos andar pelo seu térreo todo construído em mármore (proveniente da Isla de la Juventud) e chegamos bem pertinho de onde Fidel se posicionava para discursar, em seus áureos tempos.

Memorial de José Martí, na Praça da Revolução, em Havana
Memorial José Martí e sua estátua

Em frente à praça, ficam importantes prédios administrativos e políticos do país. O mais famoso deles é o prédio do Ministério do Interior, em cuja fachada há uma imensa escultura de arame de bronze com os contornos da face de Che Guevara, baseada na famosa fotografia do jornalista Alberto Korda. A escultura foi construída em 1995 e foi uma bela homenagem ao guerrilheiro, que trabalhou na década de 60 num escritório neste edifício.

Busto de Che Guevara, na Praça da Revolução, em Havana.
Ministério do Interior com busto de Che Guevara

Ao lado deste prédio, fica o Ministério da Informática e Comunicação, em cuja fachada há a escultura de Camilo Cienfuegos, que morreu de maneira misteriosa num vôo entre Havana e Camaguey (há boatos de que Fidel Castro estaria envolvido nesse acidente) e foi um importante comandante do Movimiento 26 de julio. A escultura é mais recente e data de 2009. Embaixo dela, uma referência à pergunta que Fidel sempre fazia à Camilo, quando tomava uma decisão importante: "Voy bien, Camilo?".

Praça da Revolução, em Havana.
Vas bien, Fidel

Após descansarmos do calor abrasador, no refrescante mármore do Memorial José Martí, seguimos numa agradável caminhada pelas ruas de Vedado, passando por alguns prédios pitorescos e sempre acompanhados das insistentes propagandas do governo, sempre defendendo o regime contra os ianques.

Embargo econômico, em Havana.
"Bloqueio, o genocídio mais longo da história."

Fachada de prédio em Vedado
Fachada de prédio em Vedado

Durante a caminhada, passamos por importantes pontos da cidade como a Universidade de Havana, onde estudavam Estela e Jeferson, que nos contaram que foi ali nas escadarias do prédio que ocorreu o último discurso público de Fidel, em 2010, quando eles já estavam no país.

Universidade de Havana.
Escadarias da Universidade de Havana

Depois de almoçarmos um delicioso perro caliente, tentamos tomar um sorvete na famosa sorveteria Copélia, mas a fila quilométrica nos fez desistir da ideia e terminamos nossa caminhada no tradicional e suntuoso Hotel Nacional.
O belo prédio com características Art-Decó e reminiscências de detalhes mouriscos teve sua construção concluída em 1930 e viu grandes figuras da sociedade aristocrática da Cuba pré-revolucionária circularem em seus corredores. O hotel hospedou celebridades como Nat King Cole e Frank Sinatra, em seu período áurea, na década de 50. Com a vitória da Revolução, seus administradores (quase todos norte-americanos) fugiram da ilha e os empregados do hotel assumiram a administração, que teve um período de declínio até a reabertura do país para o turismo, na década de 80, quando voltou a receber hóspedes endinheirados, que querem (até hoje) conforto e luxo.

Entramos, sem nenhuma dificuldade, pelos corredores no hotel e caminhamos tranquilamente pelos lindos jardins do seu entorno. Confesso que me surpreendi com essa liberdade para os não-hóspedes. Tenho certeza que se fosse no Brasil (ou mesmo nos EUA), a entrada seria permitida apenas para os grão-finos hospedados ali. Mas esse não é o caso, afinal estamos em Cuba e, por mais que apenas os estrangeiros possam pagar a estadia do hotel, qualquer um pode usufruir de suas áreas comuns.
Foi aqui que nos despedimos da Estela e do Jeferson, que já tinham compromissos naquela tarde e precisavam voltar pra casa. Eles foram e nós ficamos, sentados numa agradável mesa no jardim do hotel, e de frente pro Malecón. Nada mal pra um começo de tarde e ainda mais, sem pagar nada.

Hotel Nacional, em Havana.
Caminhando pelos jardins do Hotel Nacional

Malecón visto do Hotel Nacional, em Havana
Malecón visto do Hotel Nacional

O Malecón de Havana


Depois de ficarmos um bom tempo ali curtindo a paisagem e descansando, seguimos para mais uma caminhada, desse vez pelo Malecón. Era sábado e o calçadão mais famoso do país estava abarrotado de famílias, casais e amigos curtindo o dia de folga.
Esse trecho do Malecón, que passa pelo bairro de Vedado é bem movimentado e cheio de prédios comerciais, restaurantes e bares. E lá ao longe, vemos a cúpula do Capitólio.

Malecón de Havana
El Malecón, com a cúpula do Capitólio, ao fundo

Malecón de Havana
Trecho do Malecón com o Castillo del Morro, à esquerda

Aproveitamos a caminhada pra comprar nosso souvernir do país: rum. Trouxemos pra casa muitas garrafas da cachaça cubana, tanto para nós, quanto para presentearmos amigos. Não compramos charutos. Primeiro, porque não fumamos e segundo, porque não achamos barato.
Após as compras, seguimos pro lado oposto do Malecón, no sentido do luxuoso bairro de Miramar. Conforme íamos caminhando, os prédios de Vedado iam dando espaço para as charmosas casas na beira da praia e a paisagem mudou substancialmente. Já não víamos mais tanto agito e começamos a ficar mais em frente ao Sol, já que a orla faz uma curva importante, depois que saímos de Vedado. E era essa a nossa ideia mesmo, afinal queríamos ver o pôr do Sol, sentadinhos na mureta do Malecón, de frente pro espetáculo do fim do dia.

Malecón de Havana.
Em busca do Sol, na direção à Miramar

Depois de muito estudarmos qual seria o melhor ponto de observação do Sol, escolhemos um cantinho gostoso do Malecón e ali ficamos, na espera do entardecer, um dos nossos momentos favoritos, em quase todas as nossas viagens.

Pôr do Sol no Malecón de Havana.
Lá vem o Sol...

E não nos decepcionamos. Assistimos, em Miramar, um dos mais bonitos entardeceres da viagem. Não sei se gostei mais desse dia, ou do fabuloso pôr do Sol, em La Boca, uma linda praia próxima de Trinidad.

Pôr do Sol no Malecón de Havana.
Pôr do Sol, em Miramar

Ficamos ali até o último fio de Sol e ainda ganhamos, de lambuja, uma lua lindíssima, compondo com o cenário do Malecón à noite.

Malecón de Havana.
Lua cheia clareia o Malecón

Voltamos pra casa e, pela primeira vez em Havana, pegamos sozinhos uma máquina (como eles chamam os carros particulares que fazem o transporte entre bairros, burlando um pouco do caos que é o transporte público no país). Apesar do nosso receio, deu tudo certo e chegamos bem, já nos sentindo verdadeiros habaneros.
Pra nossa grata surpresa, na chegada à casa da Estela, um casal de amigos deles estavam lá e foi muito agradável conhecê-los. Eram brasileiros e também estudantes de medicina. Todos às voltas com os exames finais da graduação. Depois de um bate-papo rápido, fomos tomar sorvete, ali pelo bairro mesmo. A sorveteria não era tão famosa, quanto a Copélia, mas era uma delícia e nos refastelamos na refrescância do gelado. Voltamos cedo pra casa e logo fomos dormir. Afinal, havíamos combinado de ir a praia no dia seguinte e queríamos aproveitar ao máximo o nosso último dia na ilha.

No dia seguinte, acordamos cedo e tomamos um belo café da manhã, preparado pelo Jeferson. Tínhamos duas razões para iniciarmos logo o dia: era nosso último dia no país e era também o dia do meu aniversário. Quer coisa melhor do que comemorar cumpleaños no mar do Caribe? Pois foi pensando nisso que logo partimos rumo a Playa Mar Azul.

No caminho para lá, ainda tivemos a bela oportunidade de conhecer a rua mais agitada de Havana: a Calle Obispo, uma estreita rua cheia de lojinhas e prédios charmosos. Aproveitamos a passagem por ali pra comprar maracas e outros instrumentos típicos da música cubana. Na correria, acabei esquecendo de fotografar o lugar, ainda mais que só estava com o celular, já que minha câmera havia parado de funcionar naquela manhã. As fotos ficarão pra próxima vez.
Enfim, após pegarmos um ônibus e uma maquina (Mar Azul fica fora de Havana), chegamos na belíssima praia. O dia lá foi tão lindo e especial em Mar Azul, que farei um post separado só pra contar sobre esse lugar mágico.

Playa Mar Azul, a preferida dos moradores de Havana.
Playa Mar Azul (foto do celular)

A Fortaleza de la Cabaña

Depois de passar um dia delicioso na companhia de nossos amigos, ainda tínhamos mais um compromisso. Queríamos assistir o famoso canhonaço, na Fortaleza de la Cabaña que ocorre todos os dias pontualmente às 21h. 
Pegamos outra máquina na praia e descemos no meio do caminho, ainda na estrada que dá acesso à cidade e de lá caminhamos até o Castillo del Morro, que fica bem na entrada da baía de Havana.

Pôr do Sol em Havana
Castillo del Morro à esquerda e cidade de Havana, ao fundo. Separando os dois pontos, a Baía de Havana
(foto do celular)

Tivemos a baita sorte de chegar ali, na hora do entardecer e conseguimos apreciar um belíssimo pôr do Sol, com a cidade de Havana, ao fundo. Inesquecível.
Caminhamos, então, pelas ruínas do Castillo del Morro, uma fortaleza construída em 1589 para proteger a baía de Havana de piratas, que viajavam pelos mares do Caribe a procura dos tesouros do Novo Mundo.
Em 1762, os ingleses conseguiram quebrar o cerco da protegida fortaleza e tomaram Havana por quarenta dias, o que fez com que os espanhóis aumentassem ainda mais a proteção da região, construindo uma nova fortaleza ao lado da antiga, que viria a se chamar San Carlos de la Cabaña.

Castillo del Morro, visto do Malecón de Havana
Castillo del Morro, visto do Malecón
(foto tirada no nosso primeiro dia em Cuba)

Após o espetáculo do fim do dia, continuamos subindo pelas ruínas ao lado do Castillo até chegarmos justamente em la Cabaña, que é onde ocorre o tradicional canhonaço. A fortaleza é monumental e foi construída em forma de um polígono de dez hectares. Nós, que só conhecemos o lugar à noite, não conseguimos ter dimensão de se tamanho, mas tivemos o privilégio de ver Havana de longe, toda iluminada. Um espetáculo.

Baía e cidade de Havana
Baía e cidade de Havana, observados da Fortaleza San Carlos de la Cabaña

Já na entrada da Fortaleza, começamos a ver a movimentação dos atores para o início do canhonaço. Vestidos em trajes típicos oitocentistas (com direito a peruca branca de cachinhos), eles fazem uma cerimônia de arriar a bandeira nacional e seguem em marcha pelas ruínas da fortaleza.
Assim que chegamos no local, logo nos posicionamos próximo ao canhão pra assistir tudo de perto. E foi uma ótima escolha, já que de longe não ouviríamos os atores. Depois de uma encenação, ocorre o canhonaço (de mentira, já que nenhuma bala é disparada). Um barulho ensurdecedor irrompe no ar por segundos e fim. Particularmente, achei bem sem graça.
A saraivada de canhão historicamente acontecia no período em que a cidade de Havana era toda cercada por muros e ao anoitecer, os tiros eram disparados para avisar aos habitantes e forasteiros, que os portões da cidade estavam se fechando. Devia ser bem mais legal naquela época. Hoje, perdeu um pouco o sentido e me pareceu ser um evento meramente turístico.

Sem minha câmera fotográfica e apenas com a câmera do celular, foi impossível tirar uma foto decente do evento, que ficou registrado apenas nas nossas memórias.

Voltamos pra casa, paramos numa pizzaria próxima e encomendamos uma pizza para viagem. Enquanto os meninos esperavam, eu e Estela fomos pra casa pra adiantar o banho. Qual não foi minha surpresa, quando na hora do jantar, as luzes foram apagadas e um bolo cheio de velinhas apareceu no meio do nada. Era uma festinha surpresa pro meu aniversário. Nosso última dia em Cuba terminava com chave de ouro e eu não podia estar mais feliz e agradecida àquele país e a todos que lá conhecemos.

Festinha surpresa, no meu aniversário


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2 comentários:

  1. Olá, gostei muito das suas informações. Irei em julho de 2016 para Cuba passar 15 dias e gostaria de saber se poderias me enviar o contato desses brasileiros para ficarmos em sua casa também.

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    1. Olá, Aninha. A Estela e o Jeferson moraram sete anos em Havana, durante o período da graduação deles. Esse ano, eles terminaram a faculdade e voltaram para o Brasil.
      Abraços!

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