terça-feira, 16 de setembro de 2014

Todo amor à Amazônia

"Em plena selva, Brasil ao vivo, vive uma gente
gente que é nossa, lida na roça,
gente valente, vence a corrente,
vence o rio bravo
e faz da selva, mundo vazio, cheio de amor..."
(Raízes Caboclas)

Conhecer a Amazônia era um sonho antigo, dos tempos de menina. Meu imaginário da floresta era a de uma selva alagada, com cipós por toda paisagem, árvores gigantescas e de troncos estrondosamente grossos, habitat de cobras, onças, jacarés e piranhas devoradoras de homens. Sabia, desde jovem, que a região já não era mais pacífica para os índios, mas fantasiava sempre com um ambiente inóspito para vida humana. Na escola, a Amazônia era lugar distante, quase um outro Brasil. Só estudávamos o ecossistema e repetíamos com a professora: a floresta amazônica é o pulmão do mundo. Um orgulho sem consistência, que não reflete sobre a realidade local de seus caboclos guerreiros, que tiram da mata tudo que precisam e vivem em harmonia com ela e muito menos sobre o avanço do capital internacional, ameaçando a soberania dos povos da mata, nem dos riscos do agronegócios com a plantação de soja, ou o desmatando pra criação de gado.
A amazônia não é complexa apenas pelo seu intrincado ecossistema. É complexa também pelas suas intensas e sinuosas redes econômicas, políticas e sociais. E, sem dúvida que, tudo isso a deixa ainda mais misteriosa, encantadora e brasileira. Bem brasileira.

O homem e a selva amazônica


Boa parte do que eu imaginava era isso: só imaginação. A floresta está lá, sim. Cada vez mais desmatada, mas ainda mantendo-se como a maior floresta tropical do mundo com uma biodiversidade quase infinita. Os animais selvagens também. Mas o que me surpreendeu mesmo foi a ocupação humana da região. Manaus, por exemplo, incrustada no meio da selva é uma cidade grande, hoje com dois milhões de habitantes, com estrutura igual a de qualquer capital de estado e com problemas iguais também, principalmente quanto ao avanço da cidade em direção à mata, levando a maior desequilíbrio ambiental. Nas cidades menores, motocicletas barulhentas invadem as ruas esburacadas e as vemos em centenas, num caos absoluto e ensurdecedor.

É nas pequenas comunidades ribeirinhas, na minha opinião, que encontramos um modo de vida verdadeiramente amazônico. Nas margens dos rios, caboclos (como são chamados os descendentes de brancos com índios) vivem de acordo com a velocidade das cheias e secas do rio, com suas casas flutuantes, ou em palafitas, adaptados ao ritmo da natureza. Muitos ainda vivem da agricultura de subsistência, plantando apenas o que precisam para comer. Os que optam pelo comércio, o fazem principalmente com o plantio de mandioca e produção de seus derivados, com a prevalência absoluta da farinha, item essencial na alimentação nortista e nordestina.

Palafita numa das comunidades ribeirinhas do Rio Solimões

Casa flutuante, no Rio Japurá

Conversando com os moradores locais, descobrimos que muitos são descendentes de nordestinos, cujos pais ou avós vieram atraídos pelas falsas esperanças de melhora de vida, no Ciclo da Borracha, no final do século XIX. Escravizados, esses homens andavam quilômetros pela mata atrás das seringueiras, árvore que produz o famigerado látex. Muitos morreram e nenhum melhorou de vida. Sua herança ficou para as gerações posteriores, que vivem hoje na mata. O dinheiro gerado nessa época não ficou com os seringueiros. Serviu para construir alguns prédios coloniais em Manaus, mas em sua maioria foi para as mãos dos grandes produtores de borracha no mundo, obviamente estrangeiros.

A Amazônia


Apesar de todas as tentativas de dominar a selva e torná-la mais rentável, os homens  nunca conseguiram escapar de sua grandiosidade e imponência. A floresta amazônica ocupa 42% do território nacional, estando presente nos estados do Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Pará e em parte do Maranhão, Mato Grosso e Tocantins. Essa área representa 60% da floresta, que se alastra por mais oito países além do Brasil, ocupando territórios do Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. E tudo na região é assim, colossal: seu tamanho, seu ecossistema, seus rios, suas chuvas. Tanto é que dizer que algo tem proporções amazônicas significa que está-se falando de algo realmente grande, majestoso e impactante. 

Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (Rio Japurá)

Uma das minhas fantasias sobre a Amazônia era pensar que havia uma homogeneidade no ecossistema da região. Achava que era tudo água e árvores gigantescas. Sim, água tem bastante, afinal estamos falando na maior bacia hidrográfica do mundo, cujo principal rio, o Amazonas, nasce nos andes peruanos (que quando chega ao Brasil recebe o nome de Solimões) e corre por quilômetros numa planície sem fim até chegar no mar, no estado do Pará. No seu caminho, um emaranhado de rios e igarapés vão se cruzando continuamente, formando um sistema capilar intrincado. Mas a verdade é que nem as águas da Amazônia são iguais, vide o exemplo do famoso encontro das águas entre o Rio Negro e o Solimões, que acontece em Manaus. Mas aquela é apenas mais uma das inúmeras misturas de águas pretas e brancas ao longo do Amazonas, que ocorre em vários rios. A água mais escura nasce na Venezuela e é mais límpida. É ela que faz o espelho na água que deixa fotos tão belas. Nessas águas, ocorre intensa decomposição de vegetais, liberando ácidos que deixam o Ph mais baixo, diminuindo a quantidade de insetos em suas margens. Já as águas mais claras tem intenso material em suspensão: galhos, folhas, lama, etc, que deixa a água mais barrenta e menos límpida, mas muito mais rica de nutrientes para proliferação de peixes. 

Águas brancas e negras

Se até as águas são diferentes, o que dizer do solo. Basicamente, existem dois tipos de floresta: de várzea, que compõe apenas 3% do território e que se caracteriza por ficar completamente submersa durante o período de cheia (chamado de inverno amazônico) e a floresta de terra seca, que é parcialmente inundada no período de chuva, mas mantendo a maior parte seu terreno ainda seco, mesmo na cheia. Isso faz com que ocorram ecossistemas completamente diferentes nesses dois terrenos, não só da fauna, quanto da flora. A vida na várzea muda completamente a cada seis meses e todos precisam adaptar-se à isso, inclusive os homens. Aqui, bicho precisa nadar, voar, ou andar muito bem nas copas das árvores. Quem depende muito de terra firme, morre na cheia. É na seca que os homens conseguem aproveitar a fertilidade do solo da várzea (que ficou debaixo d'água durante meses recebendo nutrientes do rio), para plantar feijão, mandioca, entre outros mantimentos, que eles guardarão para a cheia. Conhecemos essa realidade, quando visitamos a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, uma das experiências mais autênticas, que tivemos na Amazônia.

Várzea alagada

Mas é na floresta de terra seca, que é possível crescer cidades. Ali o risco de casas serem invadidas pela água é menor, mas não inexistente, já que a cada ano as cheias tem sido mais intensas, devido ao degelo das calotas polares, que aumenta a quantidade de água no rio. Esse ano, por exemplo, a cheia demorou mais do que o normal e várias comunidades ribeirinhas tiveram suas vidas complicadas.
O solo da terra firme é mais pobre do que o da várzea e há apenas uma fina camada de solo fértil, resultante da decomposição de material orgânico da superfície. Isso faz com que as raízes das árvores sejam mais horizontais do que profundas e o solo é fofo e oco. Quando caminhamos, parece até que ele irá se romper a qualquer momento e que cairemos em alguma caverna escondida, como nos filmes do Indiana Jones. Sentimos isso, caminhando próximo às grutas de Presidente Figueiredo, uma cidade bem peculiar, que apresenta em seu relevo várias cachoeiras- fato raro na imensa planície amazônica.

Floresta de terra firme (árvores mais baixas e com tronco mais fino, mas com vegetação mais densa)

Cultura e Lendas da Mata Amazônica


Quem nunca ouviu falar do curupira, ou do boto cor-de-rosa? Essas são lendas que estão enraizadas na nossa cultura e que vieram de lá, da nossa Amazônia. O curupira é um indiozinho de cabelos de fogo e pés virados pra trás. É muito travesso, pregando peças em quem caminha pela mata, deixando o sujeito atordoado sem conseguir voltar pra casa. Gosta também de levar crianças pra morar com ele. No Mamirauá, conhecemos o Tito, que nos garantiu que o Curupira existe e chegou mesmo a nos contar sobre uma criança da região que sumiu, levada pelo indiozinho, que se fazia parecer com a mãe do menino. O desaparecimento durou mais de um ano e um belo dia, a criança reapareceu na barranca do rio, saudável e bem cuidada. Perguntamos ao Tito se ele conheceu a criança. Ele disse que não, mas garantiu que a história vinha de fonte confiável. E nós confiamos.
Mas, segundo esse caboclo e grande conhecedor da mata, o que não existe mesmo é a história do boto. De acordo com essa lenda, sempre no início da noite, o boto cor-de-rosa se transforma num homem belo e bem aparentado, que frequenta as vilas e comunidades ribeirinhas, jogando um encanto nas mulheres e engravidando-as. Tito nos contou que já foi provado (sic) que isso tudo é invenção das moças que se envolvem com rapazes desconhecidos nas festas e depois não querem admitir para os pais que fizeram besteira. Por isso, elas falam que foram enfeitiçadas pelo boto. Danadinhas!

Além das lendas, a música amazonense tem muita influência da cultura indígena, até mesmo na festa do boi. Já falei um pouco dessa história, quando escrevi sobre o São João do Maranhão e no Amazonas a festa é bem parecida, apesar de ser chamada de boi-bumbá, enquanto que no Maranhão eles chamam de bumba-meu-boi. Não conheci muito desse festejo, pois ele é realizado sempre em junho, principalmente em Parintins com dois grupos principais: o caprichoso e o garantido, mas as músicas do vermelho e do azul estão presentes nas nossas rádios de todo Brasil. Quem nunca ouviu o refrão: meu coração é vermelho...?

Mas a mais deliciosa descoberta musical do Amazonas foi, pra mim, um grupo chamado Raízes Caboclas, que fazem uma música encantadora e autêntica, valorizando suas origens. Suas músicas são possíveis de serem ouvidas nesse link.

Outra descoberta incrível foi o jovem Nicolas Jr, que faz uma música mais contemporânea, mas muito crítica à perda das tradições amazonenses e invasão de um consumismo fabricado. Duas músicas dele me chamaram muita atenção. A primeira chama-se Viagem Insólita de um Caboclo, que conta a história de um amazonense que vai conhecer o sudeste. 
Outra música muito bacana do mesmo artista é a Divina Comédia Cabocla, uma crítica contundente à invasão de tecnologias e até de alimentos estranhos ao povo da Amazônia. Num trecho da letra ele chega a dizer que o povo agora só toma guaraná, quando não tem o gatorade. O refrão, brilhantemente, diz:

"Chega dessa pouca vergonha,
de esquecer nossa cultura, patrimônio secular
Vamos acabar com essa frescura 
de querer outra cultura
e quem quiser, que vá morar noutro lugar..."

Por fim, gostaria de compartilhar um dos inúmeros documentários sobre a Amazônia, que me marcou por levantar a questão da necessidade de que Amazônia seja integrada ao Brasil, mas depois de conhecer a região, eu me pergunto: como fazer isso respeitando a floresta e seus povos? Sem uma resposta sobre isso, qualquer avanço sobre a selva corre sério risco de trazer mais prejuízo do que desenvolvimento.


Mais sobre a Amazônia:

3 comentários:

  1. Seus relatos são saborosos, interessantes e fazem a gente viajar junto com vocês! Vou desfrutando devagarinho. Ainda vou ouvir os registros sonoros e assistir o documentário. Obrigada por partilhar e sistematizar todas essas informações de nosso povo e cultura. Beijo carinhoso!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, Lu, você como sempre gentil e delicada.
      Obrigada pelo comentário carinhoso. Isso me estimula a continuar! :)

      Bjo

      Excluir
  2. Ah! As fotos estão maravilhosas! :-)

    ResponderExcluir