segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O primeiro dia em Mamirauá

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.

No post anterior, escrevi sobre a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Sua história, características, objetivos e, principalmente sobre a população ribeirinha que aqui vive em harmonia com a natureza. Mas posterguei a tarefa de relatar com mais detalhes nossos dias na região e aqui estou a cumprir essa deliciosa tarefa que me imponho por puro prazer.
Foram três deliciosos e inesquecíveis dias, que apesar de corridos, nos encantaram e envolveram. Saímos de Mamirauá com uma nova (e intensa) relação com os sons da mata, com os cheiros da floresta e com a visão mais aguçada sobre a vida. Foi uma viagem às nossas origens mais viscerais: nosso próprio corpo e como ele se relaciona com o que nos cerca. Voltamos pra casa mais próximos de nós mesmos e mais atentos aos contornos da realidade cotidiana.

Meu plano inicial era relatar os três dias num único post, mas ele ficaria enorme, portanto resolvi escrever aos poucos e sem pressa em várias postagens consecutivas. Assim, me permito também compartilhar mais fotos desse lugar mágico. Segue, então, o relato do primeiro dia.

Entre Manaus e Mamirauá


Havíamos chegado em Manaus na madrugada de quinta pra sexta e pegaríamos nosso vôo para Tefé no início da tarde do dia seguinte. Aproveitamos, então, a manhã desse dia pra conhecer um pouco da capital do Amazonas. Caminhamos descompromissadamente pelo Largo de São Sebastião, Teatro Amazonas e o porto. Nesse passeio rápido já sentíamos a umidade e calor amazônicos e eu, que não sou de suar, passei a notar uma película de água sobre minha pele. Película essa que me acompanharia por todos os dias na região, desde segundos após sair do chuveiro até o início do banho seguinte. Sim, estávamos na Amazônia e a umidade relativa do ar próxima de 100% (com exagero que me permito, claro) nos mostrava isso.

Logo voltamos pro hotel e no horário programado, estávamos no aeroporto da cidade e seguimos sem complicação para Tefé (a maior cidade próxima de Mamirauá e a segunda maior do estado). Realizamos um sobrevôo incrível sobre a Amazônia, num esplêndido passeio sobre seus rios e árvores. Foram rápidos 45 minutos de vôo e logo chegávamos a cidade de 70 mil habitantes.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamitrauá.
Sobrevoando a Amazônia, rumo à Tefé

Já no aeroporto, fomos recebidos pelo Valciney (ou Sarney, seu inexplicável apelido), que nos levou para o porto da cidade, com uma rápida parada no caminho para buscarmos a outra hóspede que estaria conosco naquele fim-de-semana, a simpática Flávia com quem travamos uma calorosa amizade. Sim, tivemos a imensa sorte de estarmos num grupo de apenas três turistas na pousada e foi uma delícia termos toda a estrutura do lugar só pra nós.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Porto de Tefé

Já no porto, conhecemos o adorável Tito, caboclo conhecedor profundo da selva e que seria nosso guia pelos próximos dias. O Tito é uma dessas pessoas que, mesmo sem muito estudo tem uma sabedoria de poucos. Conhece cada canto da floresta, cada árvore, cada bicho. É incrível caminhar (ou navegar) do seu lado e ouvir suas histórias. O convívio com ele foi uma das mais enriquecedoras experiências que tivemos em Mamirauá. Aprendemos com ele mais do que em minhas aulas de geografia e história da Amazônia, na escola. Ele nos prometeu que vem, um dia, nos visitar aqui em São Paulo e ficou até com o cartão do Thiago. Esperaremos e estaremos prontos a recebê-lo, quando esse dia chegar. Só não sei se ele vai gostar muito dessa selva de pedra. Veremos...

Também no porto, estava nossa anfitriã na pousada, a Iris, uma espanhola de português fluente e que já está no Brasil há alguns anos. A moça conhece mais da Amazônia do que a maioria dos brasileiros e estava sempre atenta para nos proporcionar uma boa experiência tanto na pousada, quanto nos passeios pela reserva. Ela também é quem faz a tradução do português para os gringos que frequentam a reserva, que aliás ainda são a maioria dos turistas. Iris nos contou que tem crescido o número de brasileiros, mas os gringos ainda nos vencem em frequência por aqui.
Muito em breve, a Iris não precisará mais ser a tradutora, já que os funcionários da pousada estão recebendo aulas de inglês e poderão conversar diretamente com os gringos. Essa, aliás, foi uma conquista bonita do projeto garupa, que será mais um passo importante para que a comunidade assuma integralmente a gestão da pousada.

A viagem entre Tefé e a Pousada Uacari foi muito agradável. Logo conhecemos as águas barrentas do Rio Solimões, cruzando algumas comunidades ribeirinhas. Depois de um tempo, passamos por um cruzamento de rios e eis que chegamos no nosso primeiro encontro das águas amazônicas, dessa vez, do Rio Solimões (de águas brancas) com o Rio Japurá (de águas pretas). Já falei bastante sobre esse fenômeno, no post introdutório sobre a Amazônia. Aqui, o fenômeno não é tão nítido quanto o que no que acontece entre o Solimões e o Negro, mas mesmo assim nos impressionou. Tito parou o barco para que nós observássemos melhor e logo o mais surpreendente (para nós) aconteceu: botos cor-de-rosa pulavam logo ali na nossa frente. Foi uma emoção! Iris nos ensinou que eles gostam de ficar no encontro das águas, pois é um local que acumula muitos peixes. De fato, voltamos a vê-los em outros dias, próximos de outro encontro, já dentro da reserva. Mas, apesar de ficar muito pertinho deles, não consegui fotografar nenhum boto. Os danados são rápidos e eu não tive habilidade suficiente para acompanhá-los com a câmera. A lembrança do seus saltos acrobáticos ficou só aqui na minha memória.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Encontro entre o Rio Solimões (na parte inferior da foto) e o Rio Japurá (na parte superior da foto)

Dali, navegamos rio acima pelo Japurá e passamos por dezenas de pequenas comunidades, todas com seus barquinhos na porta das casas. Cruzamos também por muitos caboclos navegando pelo rio, subindo e descendo seu curso. De fato, os rios são as estradas da Amazônia, ainda mais para os ribeirinhos que moram em locais sem acesso a estradas. Fomos saboreando aquela paisagem grandiosa até que o Tito nos mostrou uma árvore gigantesca. Era a Samaúma, a maior árvore da Amazônia (e uma das maiores do planeta), podendo chegar a medir 70m de altura. Segundo nosso guia, aquela que víamos devia ter uns 50m. Essa é uma árvore fundamental para os povos da floresta. Por seu tamanho, serve de localização para quem navega pelos rios e também serve de comunicação pra quem está perdido na mata, pois seu tronco faz um eco estrondoso, quando batemos nele. Alguns caboclos, inclusive, acreditam que o curupira também usa a samaúma pra se comunicar, principalmente à noite e fazem muita bagunça com ela, principalmente à noite. Será mesmo? O Tito afirma que sim.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamitrauá.
A casa fica pequenina perto da gigantesca Samaúma

Ainda nem havíamos entrada na Reserva Mamirauá e já estávamos completamente envolvidos por aquele universo tão próximo de nós, mas tão novo.

Continuamos nossa viagem e chegamos numa cidadezinha às margens do rio, chamada Alvarães com pouco mais de 15 mil habitantes. Boa parte do Mamirauá pertence a esse município e muitos habitantes da reserva tem casa aqui, onde moram na época da cheia. Nosso objetivo era buscar uma das camareiras que trabalharia conosco durante nossa estadia na Pousada Uacari. Missão cumprida e já com mais um integrante no barco seguimos viagem.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamitrauá.
Posto de gasolina flutuante, em Alvarães

Enfim, Mamirauá...


Depois de mais alguns minutos de navegação, finalmente, chegamos na entrada de Mamirauá, um enorme lago e local de mais um encontro de águas. Voltaríamos ali mais algumas vezes durante o fim-de-semana, mas dessa vez só passamos e seguimos nosso destino.

Ainda paramos mais uma vez na comunidade que o Tito mora, a Boca do Mamirauá. Ali, ele deixou algumas compras e desembarcou uma das senhoras que estava conosco, justamente a mãe do Valciney, que nos recebera no aeroporto de Tefé. Fomos descobrindo que por ali todos são parentes, ou próximos disso. O que nos pareceu é que os mais jovens preferem constituir suas famílias nas próprias comunidades onde foram criados e não acontece o êxodo para as grandes cidades que estamos acostumados a ver das pequenas vilas do país.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Comunidade Boca do Mamirauá, já dentro da reserva

Voltamos, então, a navegar e após mais alguns minutos na voadeira, chegamos, finalmente, à Pousada Uacari, onde ficaríamos hospedados pelos próximos dias.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Pescadores (não só da raça humana, afinal pássaros são exímios nessa arte)

Chegamos no início da tarde e fomos recepcionados pelos funcionários da pousada, que gentilmente se apresentaram para nós, contando um pouco de sua história a comunidade. Logo engatamos numa conversa gostosa sobre nosso roteiro pelos próximos dias, propostas e expectativas, quando, de repente, o zelador anunciou: ali um jacaré. E lá estava ele, descansando nas madeiras que formam a base flutuante da pousada, bem ali do nosso lado. Foi uma euforia da nossa parte, que nunca tínhamos visto um jacaré assim tão de perto. Foi o primeiro de muitos que vimos durante a nossa estadia em Mamirauá. A maioria bem assim, do nosso ladinho.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Jacaré descansando entre as madeiras flutuantes da Pousada Uacari

Quando nos demos conta já era hora do nosso primeiro passeio oficial pela reserva. Digo oficial, porque a viagem até aqui já fora um tremendo passeio em alta velocidade. Agora, era a vez de pegarmos um barquinho mais lento e trafegarmos tranquilamente pelos estradas de Mamirauá.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
1o passeio oficial pela Reserva Mamirauá 

A tarde foi perfeita e conseguimos avistar alguns animais. Na verdade, fomos numa época meio complicada para avistamento da vida selvagem, já que o rio estava secando, mas ainda estava relativamente cheio. Mesmo assim, por sorte, ou por pura exuberância mesmo, vimos pássaros que nunca antes eu havia visto. Macaquinhos-de-cheiro também, mas esses eram mais difíceis de ser fotografados pelas peripécias que insistiam em fazer, pulando entre um galho e outro. Foi um passeio de apresentação da reserva e aquilo era só um aperitivo do que viria pelos próximos dias.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Vida selvagem

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.

Além da paisagem exuberante, aproveitamos a tranquilidade do passeio pra engatar numa prosa com Tito, que nos contou sobre a curupira, que, segundo ele, existe e já raptou um menino de uma comunidade próxima da dele. Falei sobre isso quando escrevi sobre as lendas amazônicas aqui. É curioso observar como é a relação deles com essas criaturas imaginárias (ou nem tão imaginárias assim) e que dominam a cultura regional daqui. A lenda que Tito desbancou mesmo foi a do boto-cor-de-rosa, que segundo ele é invenção das moças que engravidam e querem esconder seus romances dos pais. Danadinhas.
Conforme íamos navegando por aquelas águas mansas, nuvens negras começaram a se formar bem ao nosso lado. E esse foi um dos maiores espetáculos que vimos na região: o céu amazônico. Nuvens de diferentes formatos e cores, desde as branquinhas parecendo flocos de neve até as cinza-chumbo. E essas nuvens co-existem em harmonia, dividindo o céu: de um lado, céu azul com nuvens branquinhas e do outro lado a chuva caminhando. Espetáculo magnânimo de uma natureza que não tem medo de se exibir. Na amazônia é assim, tudo é grandioso.

Tito, com sua experiência cabocla, logo indicou um rumo pelos rios para fugirmos da chuva que nos seguia. O barquinho foi se afastando das nuvens pesadas e quando olhei pra trás, me deparei com o arco-íris mais lindo que já vi na vida. Ele era um arco perfeito e podíamos vê-lo de ponta a ponta, desde seu início até o fim, passando por cima das gigantescas copas das árvore. Ele era tão grande , que não coube na minha câmera e tive que fotografá-lo aos pedaços.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Além do arco-íris...

Já longe da chuva e com céu claro sob nossas cabeças (assim é a Amazônia), entramos numa área alagada, que ainda estava secando. Dentro de dias, já não seria mais possível navegar ali, mas nós ainda conseguimos. Não sem alguma dificuldade, já que o barco atolou numa determinado momento e foi preciso habilidade pro Tito conseguir nos tirar do atoleiro.
O dia já estava começando a cair e o céu foi mudando de novo. Tons de rosa e laranja começavam a dominar a paisagem e as águas iam sendo pintadas por aquelas cores. Que espetáculo é o entardecer na floresta.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Em terras alagadas

Enquanto o Sol se escondia atrás das árvores, fazíamos nosso caminho de volta. Que fim de dia espetacular!

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Fim de tarde na Amazônia

Chegamos na pousada já no escuro e por lá estava tudo molhado. A chuva da qual nós conseguimos fugir, caíra com força em nossa casa. Era hora de jantar e, depois, de assistirmos um filme sobre a Reserva Mamirauá. Muito do conteúdo que aprendemos no vídeo apresentado, eu compartilhei no post anterior, quando escrevi sobre a história da reserva. Foi uma noite agradável, onde nos aproximamos mais de nossa parceira de expedição, a Flavia e também da Iris, nossa anfitriã na reserva. A conversa foi longe e esquecemos da hora, mas o dia seguinte começaria bem cedo e precisávamos dormir.

Fomos pro quarto e lá a sensação era de uma liberdade incrível. Mergulhados na selva, cercados por uma natureza selvagem e intocada. Mas não silenciosa. Nossa noite foi ao som dos pirarucus, que continuamente batiam com suas nadadeiras na superfície da água, fazendo um barulho semelhante a um tiro; jacarés, que se movimentavam na caça de suas presas e podíamos ouvi-los até mastigar ao nosso lado; ao longe, macacos urravam ocasionalmente. Uma noite cheia de movimento, que me fez sentir ainda mais na selva. Inesquecível.


Mais fotos:


Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Alvarães

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Entrada da Reserva Mamirauá

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Vista do quarto, na Pousada Uacari

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
A continuação do arco-íris

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Terra alagada

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Desfoque também é arte! 

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Céu de chuva

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
Pousada Uacari


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