terça-feira, 9 de setembro de 2014

São João no Maranhão: a festa do bumba-meu-boi


"Meu São João, São João, meu São João,
eu vim pagar a promessa de trazer esse boizinho
Para alegrar sua festa
Olhos de papel de seda e uma estrela na testa..."
(Boi da Lua- Papete)
Festa do Bumba-meu-boi no São João do Maranhão

O Maranhão é um dos estados mais pobres do país e um dos mais violentos também. Ainda ecoa na minha memória a barbárie ocorrida no início desse ano, na Penitenciária de Pedrinhas (quando presidiários foram decapitados por "companheiros" de cela) que desencadeou  uma crise no governo da atual governadora Roseana Sarney de proporções catastróficas. Coincidência, ou não, Roseana e seu pai, o senador pelo Amapá e ex-presidente da República Jose Sarney anunciaram suas aposentadorias das funções parlamentares (o que é bem diferente de se afastar da política- é importante que se diga) em meados desse ano. O clã Sarney reinou absoluto por cinco décadas do estado e deixou uma herança recheada de favelas, esgotos à céu aberto, ruas esburacadas e violência.
Mas mesmo nesse cenário de guerra, o povo maranhense continua firme, persistindo e lutando. E, principalmente, não perdendo seu encanto e suas origens. Ano passado, conhecemos Seu Nazareno, em Paulino Neves e vimos de perto sua luta no combate à corrupção em seu município. Na Baixa Grande, no meio dos Lençóis Maranhenses, conhecemos Seu Moacir e Dona Odete, que moram num rancho, cuja eletricidade é gerada por um pequeno (e barulhento) gerador, que só é ligado, quando a família recebe visitas. E mesmo com tantas dificuldades, esse casal encantador tem orgulho de suas pequenas conquistas e de sua terra, de onde não saem por dinheiro algum.
Esse meu primeiro contato com o Maranhão foi intenso e marcante, mas ainda me faltava conhecer um das maiores manifestações populares do país e um dos orgulhos maranhenses: a festa do bumba-meu-boi, que ocorre no São João,  em todo o estado.

Promessa feita e cumprida (parcialmente por mim, que só fiquei dois dias em São Luis), em junho desse ano, quando conseguimos a preciosa companhia de dois amigos, Rafa e Renato, que nos acompanharam nessa aventura. Cada um tinha uma agenda e fomos e voltamos em dias diferentes, o que em nada nos impediu de curtirmos, cada um nas suas possibilidades, os festejos da cidade. Mas confesso que pra mim, as duas noites de Boi não foram suficientes e ainda ficou o gostinho de quero-mais.

Festa do Bumba-meu-boi no São João do Maranhão
Ruas do centro de São Luis, preparadas pro São João

A lenda do bumba-meu-boi no Maranhão...

O bumba-meu-boi ocorre, no Maranhão, desde o século XVII e tem suas origens no ciclo do gado, quando o boi tinha grande importância econômica e social para a região. Nessa época, colonizadores usavam mão de obra escrava na criação do gado e daí surgiu a lenda do casal que protagoniza a história. Por ser um festejo de negros, ela foi proibida durante bastante tempo, mas sua força a manteve firme no ideário popular e a festa do boi permanece viva até hoje na cultura maranhense.

A lenda conta que Mãe Catirina, negra e escrava,  estava grávida e repentinamente é acometida pelo desejo incontrolável de comer a língua de um boi, mas que não podia ser qualquer boi. Tinha que ser o boi mais caro e bonito de seu senhor. Para impedir que seu filho nascesse com cara de boi, Pai Francisco  atende o desejo de sua exigente esposa e mata o melhor boi da fazenda. O senhor logo descobre o ocorrido e ameaça matar o responsável pela perda de seu boi preferido e convoca pajés e curandeiros para tentar salvar o bicho, que, então,  graças à fé do povo, ressuscita, salvando também a vida de Francisco, que se livra da culpa de ter matado o bichano. A festa do bumba-meu-boi é, portanto, uma celebração à vida.

Festa do Bumba-meu-boi no São João do Maranhão
Apresentação de boi na Praça Maria Aragão

Ao longo dos anos, muitos grupos se formaram, organizando suas próprias festas. Cada comunidade ia moldando a música ao seu jeito, gerando manifestações diferentes com utilização de instrumentos musicais próprios, o que fez nascer os chamados sotaques, ritmos em que as músicas que homenageiam o boi são tocadas. Basicamente, existem hoje os sotaques de matraca, ou da ilha (o mais tradicional e, na minha opinião o mais bonito), onde há um número gigantesco de pessoas, incluindo a platéia, esfregando dois pedaços de pau, a matraca, gerando um som único e inconfundível. Nesse sotaque, é utilizado também o tambor-onça (uma espécie de cuíca com som grave) e os pandeirões, como os do tambor de crioula. Os outros sotaques são de zabumba, da baixada, costa de mão e o de orquestra ( o mais moderno com a utilização de instrumentos de sopro e corda- que atualmente são os mais populares).
No vídeo que posto abaixo, além de explicar a história do boi do Maranhão, há um resumo dos sotaques e de sua sonoridade.


Cada brincante do boi tem sua função e representa um papel. O dono da fazenda usa sempre a roupa mais vistosa e é quem organiza o batalhão; tem sempre um apito na boca e, em muitos grupos é também o cantador. Pai Francisco, por sua vez, usa roupas mais simples e é quem mais interage com a platéia, levando-a muitas vezes ao riso com seus trejeitos e brincadeiras. Mãe Catirina sempre apresenta-se com um barrigão de grávida, mas em geral é encenada por um homem que veste-se de mulher. Mas nenhum outro papel é tão importante, quanto o do miolo, que é o brincante que representa o boi e em movimentos harmoniosos e coreografados faz sua evolução. Ele é, sem dúvida, o componente mais respeitado e admirado do batalhão. Outros personagens foram sendo incorporados à festa, como as índias (sempre cobertas de penas), os vaqueiros e caboclos de fitas (com chapéus por onde pendem longas fitas coloridas) e os caboclos de penas (que usam enormes chapéus cheios de pena). Esses personagens representam o ecumenismo que possibilitou a ressurreição do boi, reunindo a pajelança dos índios e a fé católica no milagre.

Festa do Bumba-meu-boi no São João do Maranhão
Apresentação de boi na Praia Grande (foto do celular)

Eu, infelizmente só consegui ficar duas noites na cidade e vi parte da festa, já que tradicionalmente o Bumba-meu-boi começa mesmo só após a noite de 23 de junho, quando ocorre o batismo do boi. Os grupos mais tradicionais só saem nas ruas depois dessa noite, mas muitos grupos se apresentam mesmo antes disso, já que durante todo o mês de junho, São Luís recebe turistas de todos os cantos e a cidade acabou se adaptando a essa comercialização de sua festa.
Existem apresentações em toda a cidade, desde pequenas ruas e paróquias, que fazem uma festa bem peculiar e intimista até grandes eventos, que reúnem milhares de pessoas com grande produção com batalhões (como são chamados os dançarinos e músicos de cada boi).

Festa do Bumba-meu-boi no São João do Maranhão
Apresentação de boi na rua

Existem dois lugares que concentram apresentações ao longo do mês de junho: Praça Maria Aragão e a Praia Grande. Pelo que pude perceber, a Praia Grande tem uma estrutura maior e reúne mais gente em torno das apresentações.
Nos meus poucos dias na cidade, acabamos indo pra praça nas duas noites e na segunda tive a grande alegria de assistir o show de um dos melhores percussionistas do mundo, o Papete, que eu conheci com o Thiago, ouvinte de suas músicas desde a infância. Eu me emocionei ouvindo músicas como "Boi da Lua", ou "Catirina", que podem ser ouvidas nesse link.

Participar do São João do Maranhão é uma experiência única de brasilidade, que vale a pena presenciar, pelo menos, uma vez na vida. Ou muitas, como espero que seja para mim.


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4 comentários:

  1. Olá, parabéns pelo blog, começando promissora e elegantemente pela epígrafe de Zé Keti.
    Tivemos impressões semelhantes sobre o Maranhão. Miserável, cruel, repressivo, injusto, faminto, pelas décadas de ditadura do clã Sarney a serviço dos donos do pedaço, a própria família entre eles. Mas de paisagem, cultura, povo, culinária, entre tantas qualidades, fascinantes, imperdíveis.
    Estive por lá inúmeras vezes, de norte a sul do estado, inclusive durante um São João. Permaneci toda a segunda quinzena de junho para degustar as festividades. Valeu e muito a pena, sobretudo pelos bois com sotaque de matraca, zabumba e baixada. Obrigatório um giro pelos arraiais espalhados pela cidade de São Luís.
    E vamos que vamos, para mais viagens e mais relatos.
    Augusto
    http://viajantesustentavel.blogspot.com.br/

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    1. O Maranhão é encantador. Torço pra que a situação política do estado melhore, pois aquele povo merece.

      Obrigada pela visita, Augusto!

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  2. Adorei a história, dessa vez em um tamanho que me permite ler do começo ao fim!
    Por mais viagens curtas da Ana!
    Renato

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    1. Não é o post que está pequeno. É o convívio com a Rafa que está ampliando sua flexibilidade com uma retórica mais, digamos, ostensiva! rs
      Mas poxa... não me deseje viagens curtas, por favor. Deseje-me viagens longas com infinitos posts pequenos! :)

      Valeu pelo comentário aqui e pela viagem lá, Rê.

      Bjos

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