quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O segundo dia em Mamirauá

"Nos caminhos desse rio,
muita história pra contar
Navegar nessa canoa
é ter o mundo pra se entranhar..."
(Caminhos do rio- Raízes Caboclas)
Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamitrauá.

Após uma primeira tarde inesquecível e intensa, ainda tínhamos mais dois dias inteiros pela frente e muita coisa ainda estava por vir. Aqui, me detenho no relato do segundo dia, quando fomos conhecer uma das comunidades que se localiza dentro da Reserva Mamirauá e que participa do turismo de base comunitária.
Existem centenas de comunidades no interior da reserva, que atualmente estão organizadas em associações e tem suas assembleias internas para deliberar sobre assuntos de seu interesse. Mas nem sempre foi assim. Até a década de 70, as famílias ribeirinhas viviam isoladas e praticamente não tinham nenhuma organização. Foi a Igreja Católica com a Prelazia de Tefé quem ajudou a população local a se articular coletivamente para que obtivessem maior robustez na luta por seus direitos e com a implementação da Reserva Mamirauá isso ganhou ainda mais força.
Atualmente, são quatro comunidades que participam mais ativamente do turismo (Boca do Mamirauá, Vila Alencar, Sítio São José e a que visitamos: Caburini ), enquanto sete delas optaram por não receber turistas. Entretanto, mesmo essas comunidades que não participam do turismo diretamente recebem, sempre no final do ano, um montante em dinheiro, resultante da divisão entre todas do lucro da Pousada Uacari.

Foi essa realidade fabulosa que conhecemos no nosso segundo dia na Reserva Mamirauá e que relato a seguir.

Comunidade Caburini de Mamirauá


A vida na selva começa cedo. Não só pelo motivo de que centenas de pássaros piando incessantemente servem de despertador, como é no começo da manhã que o clima é mais ameno para atividades ao ar livre. Nossos dias em Mamirauá começavam sempre às seis da manhã e um nascer do Sol esplêndido nos recebia, assim que abríamos a janela do quarto.

Nascer do Sol em Mamirauá.
Nascer do Sol, na varanda do nosso quarto

Nessa nossa primeira manhã, ainda fomos agraciados com uma visita matinal. Assim que abrimos a porta do quarto, demos de cara com um enorme jacaré parado bem ali na nossa frente. Quem viu primeiro foi o Thiago e ele mesmo já deu um salto pra trás. Quando eu vi, dei um berro. Na hora, foi um susto colossal, afinal não é todo dia que recebemos um bom dia desse bichano, um dos poucos predadores do homem. Mas é claro que estávamos protegidos, já que ele estava só descansando nas madeiras da pousada e não conseguiria subir aonde estávamos. Além disso, um jacaré só nos atacaria se faltasse alimentos para ele, afinal dá muito mais trabalho atacar um homem do que os peixes que nadam bem ali pertinho dele. Portanto, preservar o meio ambiente também significa evitar ataques de jacarés e onças a nós mesmos. Aprendemos muito bem isso, nesses dias em que vivemos em plena harmonia com esse ecossistema todo.

Jacaré em frente ao nosso quarto, na Pousada Uacari.
Jacaré em frente do nosso quarto

Depois do café da manhã, partimos pro nosso primeiro compromisso do dia, a visita à Comunidade Caburini. No caminho, algo nos chamou bastante a atenção: a quantidade de aves nas margens do rio era imensa e o barulho delas ensurdecedor. Tito, nosso incansável guia, nos explicou que a maioria delas são garças, que só aparecem por aqui na época da seca, quando fica mais fácil para as espertinhas pescarem. No resto do ano, elas vivem no pantanal, seu habitat original.

Experiência de turismo de base comunitária na Reserva Sustentável Mamitrauá.
Garças pantaneiras em águas amazônicas

Depois de meia hora de viagem, chegamos à comunidade e um novo mundo se descortinou aos nossos olhos. Dona Judite, nossa cozinheira da pousada, havia nos falado que morava numa praia na entrada da reserva e eu, mais habituada com o mar do que com os rios, não conseguia conceber como seria isso. Ela se referia à Caburini. A comunidade se formou numa região de terra arenosa, que deixa mesmo o local com ares de praia. Mas aquela areia não é como a das praias marinhas, que é quase estéril. A areia amazônica tem alguns nutrientes, afinal há grande deposição de material na época da cheia e é uma terra mais fértil e produtiva, que é intensamente aproveitada pelos ribeirinhos na sua subsistência. Claro que muita coisa não é possível plantar ali, mas quase tudo de que a comunidade precisa (mandioca, feijão, melancia, etc) sai desse solo. Eles plantam, quando a água começa a secar (meados de agosto, mais ou menos) e quando a água enche de novo, os ribeirinhos já colheram tudo que precisam.

Passeio pela comunidade de Caburini, dentro da Reserva Mamirauá.
Chegando à praia de Caburini

É justamente por se localizar na areia, que a comunidade de Caburini vem sofrendo um êxodo nos últimos anos, pois o rio está se deslocando a cada temporada. O que acontece é que seu solo arenoso é transportado pela correnteza na época da cheia e a praia vai se deslocando mais pra frente, quando chega a seca. Isso faz com que a comunidade também precise se deslocar, já que os ribeirinhos dependem de estar próximos a beira do rio para sobreviver. A última mudança da comunidade foi no ano passado e eles ainda estão se reorganizando na nova morada. Para reconstruir as casas, os homens precisam caminhar por quilômetros até o local da comunidade anterior, desmontar a casa antiga (todas feitas em madeira da Amazônia), trazer todo o material à pé até a comunidade nova e ali remontar a estrutura. Um trabalho cansativo e de formiguinha. A maioria das habitações são de palafita, aquele tipo de construção em que a casa fica bem alta (na foto acima há um exemplo). O objetivo é que as casas não sejam completamente invadidas pelo rio, mas nem sempre essa invasão é evitada.

Passeio pela comunidade de Caburini, às margens do Rio Japurá.
Comunidade de Caburini, às margens do Rio Japurá

Logo na chegada, fomos recebidos pelo adorável ancião da comunidade, Seu Sandro (cujo nome verdadeiro é Raimundo, pois por aqui todos tem apelidos). Ele nos levou até sua casa, onde conhecemos seus filhos e netos. Seu Sandro é um caboclo simples e de fala mansa e sem pressa. Prosador, ele nos contou um pouco da história da comunidade, nos apresentou suas plantações no solo arenoso, nos levou pra caminhar pelas casas de palafita. A comunidade é pequena e muitas casas ainda estão na antiga sede, distante uns três quilômetros da atual. Agora, na seca, que eles conseguirão concluir o trabalho de mudança completa.

Casas de palafita na Comunidade Caburini, em Mamirauá.
Caburini

Até mesmo a escola da comunidade ainda não foi transportada para cá e as crianças estão tendo aula numa casa flutuante (que agora, na seca, encalhou na areia). Muitos jovens das comunidades vão estudar nas cidades próximas e voltam para serem professores em sua própria terra. É o caso de um dos filhos de seu Sandro que atualmente trabalha em outra comunidade próxima de Caburini, como professor secundário. Aqui, a escola é primária e quando as crianças chegam no segundo grau precisam estudar em outros locais. Alvarães é a cidade mais próxima, mas algumas comunidades tem escola secundária e recebem crianças provenientes de comunidades vizinhas. Para transportá-las, há um barco escolar próprio pra eles, todo amarelinho e escrito Escolar, como nossas vans da cidade grande. Coisa mais lindinha.

Passeio pela Comunidade Caburi, na Reserva Mamirauá
Seu Sandro nos acompanha até a escola provisória 

Passeio pela comunidade Caburini.
Barquinho Escolar

Outra curiosidade que sempre me inquieta nas nossas andanças por aí é sobre o sistema de saúde e é claro que não deixei de perguntar para Seu Sandro a respeito. Ele nos contou que recebem a visita da agente de saúde (donde já pude concluir que eles participam do PSF- Programa de Saúde da família, o que já me deixou feliz). Segundo Seu Sandro, é a agente de saúde quem pesa e mede a criançada e dá dicas de alimentação e higiene. Quando precisam de atendimento médico, seguem para Alvarães, que tem atualmente cinco médicos de família, sendo dois cubanos (provenientes do Programa Mais Médicos). Mas Seu Sandro nos contou com orgulho que não conhece nenhum médico desses, pois nunca precisou. Apesar de já ser idoso, tem uma saúde de ferro e quando precisa se tratar de uma dorzinha, ou de um resfriado consegue tudo ali na natureza mesmo. Ele nos mostrou sua hortinha (feita numa estrutura suspensa para protegê-la na época da cheia) com várias ervas curativas. E ele tem razão. Não é a toa que a indústria farmacêutica visa tanto a floresta amazônica: muito dos nossos medicamentos vieram de plantas daqui e muitas, provavelmente, ainda estão lá esperando serem descobertas para curarem ainda mais gente.

Nativo da Amazônia e nosso anfitrião em Caburini
Seu Sandro, nosso anfitrião em Caburini

Enquanto a prosa ia se estendendo, sentamos num tronco caído à sombra de uma das casas e lá ficamos por bastante tempo. Começamos a ouvir risadas vindas da casa em frente e um rádio de pilha tocava umas músicas bregas. Foi o suficiente para o Thiago se oferecer pra entrar e participar da bagunça. Fomos todos atrás dele e descobrimos o que era: um grupo de rapazes preparava seu café da manhã (um belo peixe frito na brasa com limão e sal), refazendo-se de uma ressaca após festa em uma comunidade vizinha. Aproveitamos para confraternizar um pouco com eles, mas logo estava na hora de irmos embora e tivemos que nos despedir, não sem antes comprarmos alguns trabalhos de artesanato da esposa de Seu Sandro.

Passeio pela Comunidade Caburini, em Mamirauá.
Um dos integrantes da família de Seu Sandro, encontrado ainda filhote, quando seu ninho estava quase inundado pelo rio (na época da cheia)

Era hora de voltarmos pra pousada e as despedidas foram emocionadas. Foi uma experiência extremamente enriquecedora estar em Caburini e conhecer como vivem os ribeirinhos dali. Sem dúvida, serão lembranças e aprendizados que ficarão em nós.

Passeio pela comunidade de Caburini, em Mamirauá.
A despedida de Caburini

A volta foi tranquila e aproveitamos pra observar um pouco dos botos que vivem na entrada da reserva. Tinham muitos ali e cheguei a ser assediada por um deles, que ao me ver com a mão de fora do barco chegou bem pertinho. Quando eu senti as bolhas de ar de sua respiração na minha mão dei um grito, que acho que o assustou. Foi emocionante, mas não consegui fotografá-los em nenhum momento.

De barco pelo Rio Japurá, em Mamirauá.
Na estrada de volta pra casa

Chegamos e Dona Judite, nossa tímida cozinheira, já tinha preparado um almoção para nós com direito à peixe fresquinho (um tambaqui delicioso). Depois da farra alimentar, tínhamos um tempo livre, bondosamente planejado para fugirmos do calor escaldante do meio-dia. Os meses da seca acabam sendo os mais quentes na Amazônia, já que chove pouco e o Sol não dá trégua. Nesse nosso segundo dia, não caiu nem uma gotinha de chuva e o calor nos acompanhou o dia todo.

Pelo Rio Japurá


À tardinha, era a hora de embarcarmos pra nossa segunda aventura do dia: um passeio de canoinha pelas águas plácidas do Rio Japurá. Desse vez, fomos com um guia mais jovem, o Chris, menos experiente que o Tito, mas atento àquela mata que conhece desde que nasceu.
Essa não é uma época muito boa pro passeio de canoa, já que boa parte da floresta já está seca e não conseguimos entrar pela selva com ela, como acontece na cheia, quando a floresta está inteiramente alagada. Mesmo assim, foi um passeio agradável, em que pudemos navegar silenciosos (já que nos outros barcos sempre há o barulho do motor). Ali, ouvíamos apenas o barulho do remo do Chris batendo na água e a selva ao nosso redor. Não posso dizer que senti paz, pois a natureza não me pareceu pacífica, mas me senti completamente integrada àquelas águas e em comunhão com a natureza. Uma sentimento profundo de estar viva invadiu minha alma e a sensação era de que todos os meus sentidos estavam aguçados para experimentar aquele momento.

Passeio de canoa pelo Rio Japurá
Pelas águas amazônicas, no silêncio da canoinha

Não conseguimos entrar na floresta, mas seguimos por igarapés e becos do rio que iam cada vez se afunilando mais e seguíamos até a aonde a canoa conseguia navegar. Quando encalhávamos, era a hora de voltar e tomar outro caminho

Passeio de canoa pelo Rio Japurá
Igarapé

Esse foi nosso primeiro contato mais próximo com as árvores amazônicas. Conforme íamos navegando pela parte da floresta que ainda estava alagada, íamos mergulhando num mundo mágico. Olhávamos pra cima e não víamos o céu. As copas das árvores lá no alto ocupavam todo o espaço.

Copa das árvores na Reserva Mamirauá.
O céu na selva

O Chris ia desviando das árvores e troncos, enquanto nós não sabíamos bem pra onde olhar: pro alto das árvores, pra dentro da mata, pra água cheia de pirarucus? Nosso jovem guia ia nos ajudando, levando nossos olhares pra essa ou aquela árvores, esse ou aquele pássaro. Aprendemos nesses dias que podemos treinar nossos olhos para que eles vejam mais coisas. Na mata, há muitos detalhes que só um olhar treinado, como os dos ribeirinhos, consegue ver. Mais alguns dias de treino e eu também estaria tinindo...

Passei de canoa pelo Rio Japurá.
Navegando na floresta alagada

Pássaro amazônico.
Hora do jantar

Um dos aprendizados mais interessantes desse passeio foi sobre o cipó. Pra mim, cipó sempre esteve associado ao Tarzan e seus vôos sobre a selva e nunca soube muito mais desse vegetal além disso. Em Mamirauá, porém, aprendi que ele é um parasita, que cresce a partir de gavinhas, de cima pra baixo . Quando encontram uma árvore elas dão o que chama-se abraço da morte, estrangulando a árvore parasitada, que morre e cai. Assim, o cipó pode crescer no lugar da árvore morta.

árvore sendo estrangulada por um cipó.
O abraço da morte

Assim foi nosso fim de tarde e quando menos percebemos já era hora de voltar. O céu cheio de nuvens, mas sem chover deu o tom da nossa volta, num clima de pura fruição e alegria.

Reflexo nas águas do Rio Japurá, na Reserva Sustentável Mamirauá.
Fim de tarde, em Mamirauá

A chegada na pousada foi de grande surpresa, já que mais três hóspedes haviam chegado. Eram eles  Peter, George e Claudia, três renomados pesquisadores da onça-pintada. Peter no Pantanal, Claudia na Caatinga e George no mundo inteiro. Aliás, George é internacionalmente conhecido, tendo trabalhado também com os gorilas no Congo, o Panda na China, o Tigre na Índia e tem até menção na Wikipedia, nesse link. Obviamente que por serem pesquisadores e biólogos tão famosos, eles não fizeram os mesmos passeios que nós e ainda receberam todo o suporte da equipe que pesquisa da onça em Mamirauá, chefiada pelo também biólogo Emiliano. Para nós foi ótimo já que mantivemos as regalias nos passeios quase sozinhos e ainda conseguimos aproveitar, nas horas livres e nas refeições, da companhia desses caras que além de grandes conhecedores da onça eram gentilmente simpáticos e nos ensinaram um monte de coisas. Aproveitamos também a companhia dos pesquisadores que trabalham com o Emiliano e que foram conhecer os importantes hóspedes. Quem mais nos deu atenção foi o Guilherme, mineiro simpaticíssimo que nos mostrou vários videos sobre a onça e nos falou sobre os conflitos com as comunidades ribeirinhas, que caçam a onça.
Jantamos todos juntos e foi incrível. Ouvimos muitas histórias, principalmente do Peter, o mais falante dos três, enquanto nos deliciávamos com a comidinha de Dona Judite.

Após o jantar, ouvimos a palestra trilingue (começou em português, passou pro espanhol e terminou em inglês- para que o George entendesse) da Marina, pesquisadora espanhola que estuda os botos, na reserva. Aprendemos que esses adoráveis animais estão ameaçados de extinção desde que pescadores passaram a usar sua carne como isca de pesca e o Instituto Mamirauá tem trabalhado bastante na conscientização dos ribeirinhos sobre esse riscos de extinção.

Foi uma noite deliciosa e que começaria cedo no dia seguinte. Era hora de dormir.


Mais fotos:


Selva amazônica refletida no Rio Japurá.
Reflexos amazônicos

Nativos da Amazônia em barco comunitário.
Nativos da Amazônia

Belezas amazônicas

Passeio de canoa pelo Rio Japurá.
Descobrindo a Amazônia

O Rio Japurá na Reserva Sustentável Mamirauá.

Pássaros em preto e branco


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