terça-feira, 7 de outubro de 2014

O terceiro dia (e a última manhã) em Mamirauá

Caminhada pela mata amazônica, em Mamirauá.

Depois de dois dias incríveis, chegávamos ao nosso terceiro dia na Reserva Mamirauá. Já mais adaptados à rotina e sem vontade alguma de que a estadia acabasse, aproveitamos pra conhecer um pouco mais da floresta amazônica e fizemos uma bela trilha pela selva, caminhando por entre suas árvores e conhecendo suas riquezas, inclusive seus animais típicos, que tanto nos encantaram.
No mesmo dia, ainda passeamos pelo Lago Mamirauá e encaramos na volta pra casa, uma das maiores aventuras desses dias na reserva.
Relato a seguir esse dia especial.

Trilha na selva de Mamirauá

Assim como no dia anterior, acordamos cedo e ganhamos um lindo nascer do Sol e café da manhã delícia. Antes de sair, tivemos que nos preparar com mais cuidado do que nos dias anteriores, afinal encararíamos, pela primeira vez, uma trilha na selva. Iris, nossa sempre gentil anfitriã, nos arranjou botas de plástico, pois segundo Tito, o incansável guia, o caminho estaria com lama, já que fazia pouco tempo que o nível do rio estava baixando e até poucos dias antes o local que caminharíamos estava inundado de água.  Além das botas, usamos calça e blusa de manga comprida pra nos protegermos das carapanãs, como são chamados os mosquitos na Amazônia. Ainda levei óculos de  Sol e chapéu, que foram, na verdade, absolutamente desnecessários, já que dentro da mata quase não bate Sol, pois as copas das árvores encobrem quase todo o teto e alguns pontos chegam a ser escuros e difíceis até mesmo para fotografar sem flash.

Turismo Comunitário e Sutentável na Reserva Mamirauá.
Mais uma manhã, em Mamirauá

O início da trilha era bem próximo à pousada e rapidamente estávamos dentro da mata. Inicialmente, o Tito seguiu um caminho demarcado, mas logo não havia marcação alguma e estávamos literalmente no meio da selva. Pra mim, todos os lugares eram iguais e em pouco tempo eu já não sabia mais pra onde estava o rio. Era hora de confiar piamente no nosso experiente guia e foi o que eu fiz sem pestanejar. Na maior parte do tempo, caminhávamos por um mar de folhas caídas ao chão, que me lembrou a deliciosa música do Nelson Cavaquinho: quando eu piso em folhas secas, caídas de uma mangueira... mas ali as folhas não eram de mangueira, mas de samaúmas, bacuris, mognos, jatobás, entre outras.

Caminhada pela selva amazônica, na Reserva Mamirauá.
Confiança total no guia para caminhar pela selva
(sem nenhuma marcação de trilha)

Enquanto caminhávamos, ouvíamos os barulhos das folhas e dos finos galhos que íamos quebrando ao passar. Éramos os primeiros turistas da temporada a fazer a trilha e, portanto, aquelas terras estavam desde a última seca sem receber visita de seres humanos. Se não haviam humanos, haviam onças. Não vimos nenhuma, mas vimos suas pegadas. Tito nos mostrou a marca da pisada no solo fofo, medindo uns 10cm e com algumas folhas em cima. Ela devia ter passado por ali há uns três dias. Ainda bem, pois apesar de saber que o risco dela nos atacar é pequeno, eu não estava disposta a encarar aquele bichano no meio da mata.

Trekking pela floresta amazônica, em Mamirauá.
Thiago preparadíssimo para o avistamento da vida selvagem

Caminhamos por cerca de uma hora, conversando com Tito, que nos falava sobre cada árvore e nos mostrava diversos animais, além de ouvir inúmeros sons de diferentes espécies de aves e macacos, que eu só conseguia identificar num uníssono estridente sem nenhuma separação entre eles.

Algo que me chamou bastante a atenção foi o tamanho das árvores amazônicas. Elas medem muitos metros de altura e desafiam qualquer perspectiva na hora de fotografá-las. Não consegui fotografar nenhuma árvore por inteiro e se eu me afastasse para tentar enquadrá-la, alguma outra árvore se colocava no caminho me impedindo a empreitada

A floresta amazônica

Enquanto nos deliciávamos com aquele mundo fenomenal, Tito nos pediu silêncio e seguiu para um determinado canto.
- Ouçam! É o Uacari. Ele está por aqui. Disse nosso guia.
Foram momentos de emoção, afinal estávamos próximos de um dos exemplares mais bonitos do endemismo que existe na várzea, afinal esse macaco só existe aqui e em nenhum outro lugar do mundo. Foi para preservá-lo que Marcio Ayres propôs a criação da Reserva Mamirauá e é ainda ele que dá nome a nossa pousada.
Logo Tito conseguiu os avistar e foi uma peleja para que nós também conseguíssemos. Era um grupo de três, que estavam lá na copa de uma das árvores bem longe de nós. De vez em quando, eles olhavam na nossa direção, mas logo desviavam o olhar, nitidamente tentando se esconder e dificultando as nossas fotos.
O Uacari é todo branquinho, tendo apenas a cabeça bem vermelha. Seu rosto não tem pêlos, o que lhes deixa com aspecto humanóide. Tem hábitos diurnos e vive sempre na parte mais alta das copas, nunca sendo encontrados no chão. E isso torna ainda mais complicado seu avistamento.

Macaco Uacari, típico da várzea amazônica.
Primeiro encontro com o macaco Uacari

Ficamos quase uma hora ali curtindo aqueles animais incríveis e só continuamos nossa caminhada, quando o pescoço começou a reclamar de tanto olhar pra cima. Tito continuava a nos falar sobre a floresta e nos explicava sobre cada bicho que encontrávamos no caminho. Foram tantas coisas que ele disse, que eu devia ter levado um caderninho pra anotar. Já não me lembro mais dos nomes dos animais, nem das árvores que vimos. Muito difícil apreender tudo que a selva tem em algumas poucas horas de trilha.

A floresta amazônica na Reserva Sustentável Mamirauá
A selva

Pássaro na selva amazônica
Bico-de-pimenta

Conforme íamos caminhando, agradeci mentalmente à Íris pelas botas que nos emprestara. O solo ainda estava molhado e passamos por áreas bem elameadas. O Thiago chegou a cair num buraco e molhou a roupa quase até o joelho. Eu perguntei pro Tito se existia mesmo areia movediça e ele disse que sim, mas que essa história de sumir na lama é lenda. Fiquei mais tranquila, afinal.

Num determinado momento, Tito cortou um galho e falou:
- Levanta o pescoço e abre a boca.
E nos deu de beber de uma água fresquinha saída do caule de uma árvore (eu, infelizmente, não lembro o nome da danada). Essa é uma árvore importante pros povos da floresta, já que permite que uma pessoa perdida na selva não morra de sede.
Em sua humildade, Tito nos contou que fora fazer um curso de primeiros socorros, num treinamento do exército e que lá eles ensinaram esse truque da água, entre outros. Mas, segundo Tito, qualquer ribeirinho conhece os segredos da mata. Tenho certeza de que o exército aprenderia mais com Tito do que o contrário.

Nativo da Amazônia, nos guiando pela selva.
Tito sempre atento ao que a mata tem a dizer

Não sei ao certo quantos quilômetros caminhamos. Num determinado momento, paramos pra descansar num tronco caído e continuamos em nossa prosa. Tito nos falou de algumas questões que não sabíamos, inclusive de que há uma pousada sendo construída em sua comunidade para receber turistas. Não entendi muito bem o objetivo, nem como se dará o turismo nessas circunstâncias, mas ouvimos as ponderações do caboclo e temos que respeitá-las, afinal cada um sabe onde aperta o seu calo. Só torcemos para que o respeito às suas raízes prevaleça e que o maldito turismo predatório não chegue até aqui.

Nativo amazônico nos guiando pela mata amazônica.

Após a pausa para recuperar o fôlego, retomamos o caminho de volta e eu admirei o sentido de orientação do nosso guia. Não faço ideia de como ele sabia pra onde ir e se me deixassem ali sozinha, provavelmente, eu estaria completamente perdida. Foi quando eu comentei sobre esse meu medo que Tito nos ofereceu mais um truque de sobrevivência na selva. Pegou um galho relativamente grosso e nos levou até uma samaúma. Bateu numa de suas gigantescas raízes (que partem de altura maior que a minha) e eis que um estrondo ecoou pela selva com direito a eco.
-Viu? Se vocês se perderem é só fazer isso! Disse nosso guia, como s fosse algo bem tranquilo se perder na selva.
Pelo seu tamanho, a samaúma transmite o som até bem distante e serve de comunicação dentro da floresta. Impressionante.

Continuamos nosso caminho de volta e eis que Tito ouve de novo o som dos uacaris, Pede silêncio, anda pé-ante-pé e, finalmente, nos chama. Lá estavam eles e, dessa vez, era um grupo maior. Consegui vê-los melhor dessa vez e me senti muito felizarda de estar ali. É incrível como observar a natureza nos faz sentir vivos.

Encontro com o macaco uacari, típico da várzea amazônica
Uacari-branco

Voltamos pra trilha demarcada e poucos metros depois já estávamos de volta à beira do rio, onde nos esperava nosso barco. Era hora de voltarmos pra pousada.

Almoçamos com nossos colegas biólogos, que já estavam conosco desde o dia seguinte e depois foi impossível não tirar uma soneca até a hora do passeio da tarde. Afinal, nossas emoções naquele dia ainda não tinham terminado.

Fim de tarde no Lago Mamirauá

Após a merecida sesta, partimos novamente no nosso barquinho dessa vez com destino ao Lago Mamirauá. O objetivo era vermos o pôr-do-Sol por lá e podemos dizer que fomos parcialmente bem sucedidos na empreitada. Logo explicarei porquê.
O lago fica distante cerca de meia hora da pousada e quando chegamos, Tito deu uma paradinha rápida para nos explicar sobre o lugar. Estávamos no local de fundação da reserva, onde tudo começou. Tito nos falou das dificuldades enfrentadas no começo, quando pescadores viam pescar pirarucu por aqui e os ribeirinhos precisavam se revezar na vigilância do lago.

Lago Mamirauá
Lago Mamirauá

Uma das soluções pra caça predatória foi o manejo da pesca no interior do lago, principalmente do pirarucu, peixe muito visado por pescadores, pela sua valorização no mercado. Tito se mostrou preocupado com o tal manejo, pois acha que pode estar ocorrendo abusos por parte de alguns pescadores mais espertinhos. Esperamos que haja a fiscalização necessária e que tais abusos sejam coibidos. Assistimos com atenção o nosso guia, tiramos algumas dúvidas e seguimos para o nosso destino final do dia, a vista do pôr-do-Sol.

Uma formiga na selva amazônica
Miudezas da mata

Tito nos levou até um remanso do lago, um lugar de uma paz celestial. Ele ancorou nosso barco numas graminhas e ali ficamos a contemplar o lugar. Pra melhor ainda mais, tínhamos um verdadeiro pic-nic a usufruir: frutas, bolachas e até pipoca. Todos nós nos refastelamos na comilança e, enquanto nos divertíamos com as histórias do Tito, começamos a observar uma nuvem, ou melhor, uma massa de nuvens cinza-chumbo e daquelas que tem cara de temporal. A visão daquele céu era, ao mesmo tempo, fenomenal e assustador.

A chuva amazônica
E lá vem chuva...

A chuva amazônica

O mais incrível era que a chuva vinha caminhando em direção ao Sol e estávamos exatamente no meio do caminho entre um céu de chumbo e um pôr-do-Sol espetacular. Olhando as fotos, parece que elas foram feitas em momentos diferentes, mas não. Era o mesmo céu visto de dois horizontes: à oeste era chuva e à leste era um céu de nuvens brancas. Só estando lá pra ter a percepção daquele espetáculo. Foi de tirar o fôlego.

Entardecer na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
Olha o curupira nas nuvens!

Entardecer na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

As nuvens de chuva se aproximavam cada vez mais e uma ventania se fez presente. Os pássaros começaram a voar pra longe e o Tito nos alertou: é hora de guardar as câmeras. E não deu outra. Em minutos, o céu desabava sobre nossas cabeças e foi a chuva mais linda que já vi.
Tito decidiu que faríamos o caminho de volta assim mesmo sob chuva e numa completa escuridão, navegamos com nosso barquinho rio abaixo. Ao nosso redor, trovões quilométricos se formavam, caindo nas árvores mais altas. Eu me arrepiava a cada clarão que se fazia e me vinha à mente que aquele barco de alumínio não era o melhor isolante térmico do mundo. Observei que o Tito ia com a almofada (de borracha) em cima da cabeça e fiz a mesma coisa. Enquanto isso, Thiago e Flavia se divertiam com o banho de chuva.
Depois de uma meia hora de temporal, os pingos foram afinando e logo a chuva amansou. Consegui respirar mais aliviada e me dei conta de que estávamos completamente no escuro, no meio da Amazônia. Uma sensação de intensa liberdade me dominou e me senti absolutamente integrada àquele ambiente.

Quando a chuva parou, Tito pegou uma lanterna mega potente e começou a fazer a famosa focagem de jacaré, que nada mais é que ir com uma lanterna tentando mirá-la bem no olho de um jacaré. Quando isso acontece, vemos mesmo de bem longe, os olhinhos dele brilhar. É muito legal ver o brilho lá de longe, no meio da escuridão. Vimos incialmente algumas dezenas de olhinhos brilhantes. De vez em quando, o Tito lançava seu foco de luz pro alto das árvores (sim, com as onças acontece a mesma coisa), mas o maior espetáculo mesmo foi quando chegamos nas proximidades da pousada. Quando me dei conta estávamos literalmente numa plantação de jacarés. Eram centenas de olhinhos brilhantes e é difícil descrever aqui o que vimos. Foi um dos pontos altos do dia. Pena que não foi possível fotografar.

Chegamos de volta à pousada e essa foi uma noite muito especial. Jantamos todos juntos. Todos mesmo, incluindo nossos guias Tito e Alex, além dos famosos biólogos que comentei no post anterior. Foi emocionante observar o Tito, caboclo de pouco estudo e grande conhecimento, conversando de igual pra igual com Peter, cheio de títulos acadêmicos. Foi uma noite memorável que guardarei com carinho na memória.

Amigos na Pousada Uacari
Último jantar em Mamirauá 

A prosa foi boa, mas tínhamos que ainda deixar nossas malas preparadas pro dia seguinte. Eu partiria pra Manaus numa viagem de dois dias de barco pelo Rio Solimões e pra isso precisei me organizar sobre o que levar, afinal dormiria em rede e sem nenhum lugar muito seguro para guardar meus pertences. Já o Thiago, voltaria de avião pra Manaus e de lá pra São Paulo.
E, além de organizar nossas coisas, precisávamos dormir cedo para o que ainda nos esperaria no dia seguinte: o nascer do Sol na entrada da Reserva Mamirauá. E pra esse feito precisaríamos acordar cedo. Bem cedo.

Despedida de Mamirauá


O combinado era que Iris nos acordasse, caso o céu estivesse limpo. Então, não colocamos despertador e dormimos com os dedos cruzados de que São Pedro favorecesse nosso passeio. E deu certo. Na hora combinada, Iris veio nos acordar, não sem antes ter que dar alguns gritos para que nós a ouvíssemos. Já havíamos deixado as roupas separadas e em minutos, estávamos no nosso barquinho.

E todo o esforço valeu a pena. Que lindo espetáculo assistimos, naquela manhã. O céu ficou pintado de tons de azul, roxo e amarelo e aves não cansavam de voar próximas a nós. 

Experiência de Turismo de Base Comunitária na Reserva Sustentável Mamirauá.
E mais um dia começa em Mamirauá

A bateria da minha câmera acabou antes de efetivamente nascer o Sol, mas isso não teve importância. Guardei na minha memória as cores e o som daquela manhã que chegou resplendorosa na Amazônia. E não esquecerei jamais.

Após assistir aquela maravilha, era hora de voltarmos pra pousada, tomar um belo café da manhã e nos prepararmos pras despedidas, pois já era hora de partir.
Foi emocionante abraçar a todos e sentimos mesmo uma tristeza de não ficarmos mais naquele paraíso, mas ainda pretendemos voltar um dia, quando esperamos que os comunitários já estejam à frente da gestão da pousada e que Mamirauá não seja uma exceção de preservação ambiental na Amazônia.

Equipe da Pousada Uacari
Nossa gratidão à toda equipe da Pousada Uacari pelos dias inesquecíveis

Seguimos para Tefé com Tito, numa prosa gostosa que fez a viagem de uma hora passar rápido. No caminho, ainda fomos surpreendidos, mais uma vez, pelo olhar de lince do nosso guia que viu, mesmo na velocidade rápida que ia a lancha, uma preguiça descansando no alto de um galho.

Bicho preguiça na despedida de Mamirauá.
Que preguiça de ir embora... 

Na chegada em Tefé, fomos recebidos pelo Valciney (vulgo Sarney) com quem fomos almoçar, depois de ter conhecido o Mercado Municipal da cidade (que relato no post a seguir). Depois do almoço, deixamos o Thiago no aeroporto, que já voltaria pra selva de pedra e a partir dali eu embarcaria sozinha numa viagem de quase dois dias pelo rio Solimões até Manaus. Parti, então feliz pra minha aventura solitária (ou nem tanto, porque os amazonenses não deixam ninguém se sentir sozinho) pelas águas calmas da Amazônia. Mas isso eu conto no próximo post...


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