quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Presidente Figueiredo: Caverna Maroaga e Gruta da Judéia

Gruta da Judéia, em Presidente Figueiredo

No post anterior, relatei os dias que eu e um querido casal de amigos passamos na deliciosa Presidente Figueiredo, distante cerca de 150km de Manaus e cheia de cachoeiras, grutas e cavernas. Conhecemos várias dessas formações e uma delas me chamou tanta atenção que decidi descrevê-la em uma postagem separada. Trata-se da trilha que fizemos na única APA (área de proteção ambiental) da cidade, passando pela Caverna Maroaga e pela Gruta da Judéia, além da incrível caminhada pela floresta amazônica conhecendo suas características e especificidades.
Tivemos a companhia de um guia da cidade, o que é obrigatório, mas muito válido. Conhecemos  a geologia do lugar, assim como os vários tipos de vegetação amazônica. Foi uma experiência de muito aprendizado e de grandes belezas naturais, que relato a seguir.

Início da trilha para a Caverna Maroaga e Gruta da Judéia


A entrada da reserva é na cabeceira da estrada, onde deixamos o carro e seguimos à pé, numa trilha de cerca de 4km, que inicia-se quase do lado da pista. Aliás, isso é impressionante, pois em poucos metros de caminhada já estamos em mata fechada, como se a estrada estivesse distante de nós, quando, em realidade, ela está ali do lado. Inicialmente, ouvimos o barulho dos carros passando, mas conforme seguimos a trilha, o som dos automóveis é substituído pelo dos pássaros e macacos e vamos, aos poucos, entrando cada vez mais no coração da mata.

O curioso é que fomos todos preparados para o Sol amazônico: chapéus, óculos de Sol, protetor solar. Mas a verdade é que nada disso é necessário no meio da mata, que de tão densa impede a entrada de raios solares. Ficamos quase o tempo todo na sombra e até tiramos os óculos de Sol, que atrapalham a caminhada, já que deixam o caminho mais escuro. Eu e o Thiago havíamos tido experiência semelhante na trilha que fizemos em Mamirauá, mas aqui a mata era ainda mais fechada, já que aqui as árvores são de menor porte, ocupando menos espaço na floresta e concomitantemente aumentando a sua densidade populacional.
O mais curioso era caminhar pela trilha e sentir o chão fofo sob nossos pés. A sensação era de que a qualquer momento, o solo cederia e cairíamos num mundo subterrâneo, como nos filmes do Indiano Jones.

Para mim, foi muito importante termos conosco o guia Eduardo, já que ele foi nos explicando algumas características do solo da região, assim como da geografia e geologia. Vi muitas diferenças entre a mata aqui e a que conhecemos em Mamirauá e ele nos explicou que isso se deve a diferenças geológicas e, pelo fato de que aqui ser terra firme e não várzea. Aprendemos que existem dois tipos de vegetação nessa região: campinarana, caracterizado por floresta de alta densidade, mas como o solo é arenoso e pobre as árvores são baixas e de tronco fino; e o segundo tipo de vegetação, que não me recordo mais o nome de jeito nenhum, infelizmente.

Trilha para Caverna Maroaga e Gruta da Judéia, em Presidente Figueiredo
Campinarana

O trecho inicial da trilha é de descida e não há grandes dificuldades, exceto pelos galhos caídos que precisamos desviar, ou passar por cima. Fomos acompanhados, ao longo de todo o passeio, por um simpático Capitão do Mato, pássaro famoso por ter sido um ingênuo delator dos escravos fugitivos, já que ele tem o hábito de acompanhar quem caminha na floresta, piando em sua direção. Obviamente que eles eram atacados pelos negros e sofreram grande perseguição durante o período da escravidão, no Brasil.

A Caverna Maroaga


Depois de uns quarenta minutos de caminhada, chegamos, finalmente, ao nosso primeiro destino do dia: a Caverna Maroaga. A visão foi de tirar o fôlego: uma caverna com mais de trinta metros de altura, com um enorme filete de água que jorra exatamente na sua entrada, dando as boas vindas a quem tem a coragem de explorar seu interior.

Caverna Maroaga, em Presidente Figueiredo
Caverna Maroaga

O nome da gruta é uma homenagem a um dos chefes da tribo Waimiri-Atroari, que lutou bravamente contra a construção da BR-174 e se escondia aqui de seu perseguidor, o  regime militar brasileiro, que foi quem iniciou a construção dessa estrada.
Estima-se que a gruta tenha algo em torno de 400 metros de profundidade com inúmeras galerias em seu interior. Atualmente, só é permitido o acesso à alguns poucos metros da caverna, pois além do cuidado com a preservação ambiental, foi descoberto a presença de fungos patogênicos, que crescem nas fezes dos milhares de morcegos que moram no local. Nosso guia ia nos contando isso, enquanto caminhávamos pela escuridão total da caverna e apontava sua lanterna para um ou outro morcego, que dormia lá no teto alheio à nossa presença. O clima era quase de terror e, vez ou outra, ele ainda nos mostrava alguma aranha peluda e medonha. Foi emocionante, mas logo chegamos no limite permitido de acesso a menos de 50 metros da entrada e tivemos que voltar. Fico imaginando o que não deve haver lá próximo dos 300 metros. Algum ser mitológico rastejante e sem olho, talvez.

Caverna Maroaga, em Presidente Figueiredo
Interior da caverna

Depois da rápida incursão ao interior da caverna, era hora de aproveitar a incrível queda d'água, que descia com força e fazia uma massagem deliciosa no corpo todo. Eduardo nos falou que tivemos sorte, já que essa época do ano é de seca e, muitas vezes, a água pára de cair do alto da caverna, mas como havia chovido dias antes, ainda conseguimos aproveitar bastante do banho naquele chuveirão natural.

Caverna Maroaga, em Presidente Figueiredo

Caverna Maroaga, em Presidente Figueiredo
A cachoeira vem dali

Depois de aproveitarmos aquele lugar lindo era hora de continuarmos o passeio. Dessa vez, a trilha seguia por um riacho que se formava da queda d'água da caverna. Andamos descalços pela água que batia no cotovelo e foi uma delícia sentir a areia sob os pés. Pra mim, essa foi a parte mais gostosa da trilha, ainda mais que caminhamos apenas no plano e sem muito esforço físico. O riacho contornava o paredão externo da caverna e íamos caminhando num cenário idílico. Era como se estivéssemos num filme. Incrível imaginar que aquela pintura não foi planejada e era apenas uma exuberância da natureza.

Caverna Maroaga, em Presidente Figueiredo
Contornando a caverna

Caverna Maroaga, em Presidente Figueiredo

De repente, ouvi o Arthur falar:
-Aninha, não se mexe. Tem uma aranha do seu lado.
Eu que não estava vendo a tal aranha, fiquei paralisada por segundos com medo de me mexer e ir de encontro com o aracnídeo peludo. Arthur me mandou dar um passo pra trás e eu o fiz com toda cautela para não tocar em nenhum galho, ou folha.
No fim, a aranha estava morta e tinha sido colocada ali, dias antes, pelo nosso guia para assustar os incautos que passavam na trilha. Só que ele mesmo tinha esquecido disso. Enfim, passado o susto, retomamos nosso caminho, mas imaginando que se aquela aranha esteve um dia viva por ali, outras, provavelmente também estariam.

Caverna Maroaga, em Presidente Figueiredo
No meio do caminho tinha uma aranha. Tinha uma aranha no meio do caminho

Não sei se influenciada pelo encontro com a aranha morta, ou pelo clima de filme do lugar, passei a achar aquilo tudo meio aterrorizante e até a uma árvore que crescia no alto da caverna e cujas raízes desciam pelo paredão ao nosso lado, me fez sentir num filme de aventura. A sensação era de que em qualquer momento iam aparecer canibais, ou piratas. Ou quem sabe até Alice passeando em seu país das maravilhas que, sem dúvida, poderia ter sua capital ali naquele cenário.

Caverna Maroaga, em Presidente Figueiredo
Árvore crescendo em cima da caverna com suas raízes descendo pelos paredões

A Gruta da Judéia


Depois de contornarmos a caverna por fora e de ainda andarmos, mais uma vez, por entre a vegetação de sussuarana, chegamos, finalmente, ao nosso segundo ponto do dia: a Gruta da Judéia, que na verdade é um grande paredão rochoso com várias grutas encrustadas. Numa grande fissura em seu teto, desce uma cascata deliciosa, formando um lindo lago de águas alaranjadas, onde podemos tomar mais um delicioso banho.

Gruta da Judéia, em Presidente Figueiredo
Gruta da Judéia

Gruta da Judéia, em Presidente Figueiredo

Passamos um bom tempo explorando as grutas e, principalmente, no lago de água quentinha e o chuveirão massageador. Além de lindo, o lugar era delicioso. Estávamos num cenário fabuloso e ainda nos refrescando do calor amazonense. Não podia ser melhor.

Gruta da Judéia, em Presidente Figueiredo
Foto do nosso guia Eduardo

Foi difícil ir embora, mas tivemos que partir, afinal a hora já estava adiantada. O caminho de volta foi praticamente todo em subida, mas era um trecho curto e logo estávamos de volta ao portão de entrada e à estrada. Era o fim da nossa experiência mais interessante em Presidente Figueiredo e à tarde prometeria mais aventuras.


2 comentários:

  1. Muito massa mesmo, Eduardo! Um dos lugares mais incríveis que conhecemos, nas redondezas de Manaus! :)
    Abraços

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