segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Festa da Comida Caipira, em São Luiz do Paraitinga


"É que a viola fala alto no meu peito humano..."
(Vide Vida Marvada- Rolando Boldrin)
Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga

São Luiz do Paraitinga me encanta e não é de hoje. Minha cidade preferida no estado de São Paulo, sempre em festa e cheia de charme, São Luiz sempre nos recebe de braços abertos e com muitas chitas enfeitando as ruas, mesas e moças. Já perdi a conta de quantas vezes estive nesse pedacinho de terra tão amado e escrevi um pouco sobre suas histórias e estórias aqui no blog, mas como a cada visita, nos deparamos com coisas novas, é necessário sempre atualizar as descobertas, o que torna cada ida pra lá, uma viagem a um novo lugar, apesar do tamanho diminuto da cidade.
Nossa última estada em Paraitinga, foi em agosto, numa viagem que se iniciou numa saída de São Paulo sem rumo e terminou na descoberta de uma das festas mais deliciosas que já fomos: a Festa da Comida Caipira. Além disso, tivemos uma grata e emocionante surpresa: encontramos a Igreja da Matriz já reinaugurada e linda, novamente de pé após ser destruída pela enchente de 2010, que assolou a cidade.
Foi esse fim de semana de festa, comilança e música boa, que relato a seguir.

Mais uma vez, São Luiz do Paraitinga

Sexta-feira à noite em São Paulo. Um fim de semana de folga pela frente e nenhuma vontade de ficar na cinza capital. Não tínhamos ideia de onde ir, mas decidimos pegar a estrada mesmo assim. Aliás, essa não foi a primeira vez que saímos sem rumo por aí e nem a última. 
No caminho, fomos pensando em algumas possibilidades, mas acabamos mesmo indo pra nossa velha conhecida, São Luiz do Paraitinga. 
Chegamos na cidade no começo da madrugada, quando as ruas já estavam vazias e nossa única alternativa de janta foi numa das (deliciosas) barraquinhas de lanche da Praça Oswaldo Cruz. E qual não foi nossa imensa surpresa, quando nos deparamos, bem em frente à praça, com a Igreja da Matriz toda iluminada e linda, de pé e reinaugurada. No último post que escrevi sobre SLP, contei como a cidade foi arrasada pela enchente de 2010, que destruiu vários casarões antigos e levou à ruína, essa Igreja do século XVIII. Foram quatro anos de trabalho intenso do IPHAN na restauração até que em maio desse ano, enfim, ocorreu a tão esperada reinauguração. Foi, sem dúvida, uma imensa alegria poder sentar novamente nos degraus de sua escadaria e apreciar o movimento moroso da cidade.

Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga
Nova Igreja da Matriz
(foto do celular)

Depois da satisfação pelo reencontro com a Igreja, fomos pra pousada e lá, mais uma surpresa: o nosso recepcionista era um figuraça e logo que viu o Thiago tirar o violão do carro, se interessou e nos convidou pra um sarau, já que a pousada estava vazia. Fomos para a calçada em frente à pousada e cantamos com o senhor, que tinha um vozeirão de Nelson Gonçalves e, segundo nos disse, era o compositor de várias marchinhas do carnaval da cidade. Nosso anfitrião se empolgou tanto que resolveu nos oferecer cerveja de graça, mas como ele não era o dono do lugar, acabou protagonizando uma cena hilária: deu a grana pro Thiago e pediu que ele comprasse a cerveja. Isso porque o prédio tinha câmeras e seu chefe descobriria, caso ele pegasse as cervejas sem que tivesse o registro de que um cliente tivesse comprado. É claro que, no fim, ele também usufruiu da cervejinha gelada e rimos da cena um tanto quanto bizarra, mas que tanto caracteriza a nossa amigável e sempre receptiva São Luiz.

Festa da Comida Caipira


Descobrimos, durante nosso sarau da noite anterior, que haveria uma festa durante aquele fim de semana, na cidade. Nenhuma novidade, já que São Luiz do Paraitinga é cheia delas. Já que estávamos por lá, resolvemos que iríamos conferi-la, mas não sabíamos que algo tão sensacional nos esperaria. Não só pela comida que era, de fato, espetacular, mas o que mais curtimos foi a programação de músicas caipiras autênticas, que nos emocionou durante todo o fim de semana a cada dupla que subia ao palco para tocar. Foi tão fantástico que passamos quase todo o sábado e domingo no festival e saímos só para dar uma volta, ou outra na cidade.

Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga
Igreja do Rosário

O festival acontece dentro do Mercado Municipal, um prédio que já é um passeio à parte. A construção do século XIX é constituída de um quadrilátero todo em arcada, tendo sua parte central descoberta. E foi justamente nesse vão livre, que foi realizada a festa.

Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga
Chegando ao Mercado Municipal

No mercado, é possível encontrar a comida mais típica de São Luiz do Paraitinga, o afogado (ensopado de carne de vaca servido com farinha de mandioca), vendido nas barracas do seu interior. Mas nesse dia de festa não era só o afogado que era oferecido no mercado e, sim, vários pratos da tradicional culinária caipira. Os principais restaurantes da cidade montaram suas barracas ali e vendiam seus quitutes, enquanto música boa era tocada.

Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga
Festa da Comida Caipira

Almoçamos sem pressa e depois de curtirmos bastante a festa, fomos caminhar um pouco pela cidade pra esperar uma das atrações do dia: o desfile dos carros de boi, que estava marcada para o meio da tarde. E não atrasou. Estávamos caminhando pela praça, quando ouvimos o barulho das rodas e do trote dos bois e os gritos dos carreiros (os homens que conduzem os carros de boi), descendo pela ponte que cruza o Rio São Luiz do Paraitinga, vindo em nossa direção. Fomos recebê-los e os acompanhamos no cortejo pelas ruas da cidade numa barulheira estrondosa e alegre. Crianças e mercadorias eram carregadas pelos carros e o alvoroço logo se fez na cidade.

Desfile de boi, na Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga
Carreiro 

Desfile de carros de boi, na Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga
Desfile de carros de boi

Os carreiros são figuras tradicionais na cultura caipira e não poderia ser diferente em São Luiz do Paraitinga. Eram muito frequentes na cidade na época dos tropeiros, quando desciam em romaria pela sinuosa estrada que desce a Serra do Mar em direção à Ubatuba e Paraty, sempre levando mercadorias e pessoas. Durante a colonização, eram respeitados como trabalhadores livres, numa sociedade em que a maioria da população pobre era escrava. Sempre vestidos de calça jeans, camisa social quadriculada, cinto grosso e chapéu de palha, carregando seus compridos paus com o que conduzem a boiada. O estilo dos carreiros não é só no modo de se vestir, mas também na culinária, influenciada pelos tropeiros e também na arte. Mesmo na música, muitos carreiros fizeram história com suas cantorias simples e poéticas. Como principal exemplo temos o lendário Tião Carreiro, considerado o pai do pagode (um tipo de moda de viola mais animado), mas outros como Carreirinho, João Carreiro entre outros também fizeram fama.

Depois do desfile dos carros de boi, demos mais uma volta na cidade, passando pela charmosa Igreja das Mercês, que também desabou na enchente de 2010 e foi toda reconstruída, sendo reinaugurada em meados de 2011, tornando-se um símbolo na luta da cidade para reerguer-se depois do desastre enfrentado.

Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga
Capela das Mercês
(primeira edificação a ser reconstruída após a enchente de 2010)


No meio da tarde, resolvemos tirar uma soneca para aguentar o tranco para a programação da noite do festival, que prometia muita moda de viola e música caipira. Aproveitamos pra mudar de pousada (apesar de toda simpatia do funcionário que nos recebera na noite anterior), já que a que ficamos na tinha uma cama extremamente desconfortável e um quarto sem ventilação.
Depois da preguicinha vespertina, seguimos pro Mercado Municipal, onde tivemos uma noite inesquecível. Levamos um queijinho e um vinho comprados ainda em São Paulo e aproveitamos a noite de música deliciosa, incluindo até a catira, tradicional dança dos bailes no interior desse Brasil afora. Com uma bota pesada e batendo palmas, catireiros dançam com os pés e as mãos, fazendo um lindo som com seus corpos enquanto a viola toca sua moda. É um espetáculo lindo de se ver e ouvir. 

Ficamos lá até o fim da festa e voltamos pra pousada emocionados e satisfeitos com a noite caipira. E no dia seguinte ainda teria mais.

O reencontro com a Igreja da Matriz


Acordamos mais tarde e logo após o café da manhã, caminhamos pelas ruas da cidade, uma das mais gostosas coisas a se fazer em São Luiz do Paraitinga. Chegamos na Praça Oswaldo Cruz e, finalmente, resolvemos entrar na Igreja da Matriz recém inaugurada para reencontrá-la depois de tantos anos. Confesso que esperava uma restauração mais autêntica e vi grande diferença da estrutura original e da atual. Imagino a dificuldade de se restaurar uma Igreja completamente destruída, mas minha lembrança da Matriz original não foi correspondida integralmente. É claro que isso não diminui a alegria de poder ver seus fiéis podendo rezar em seu interior e ver seu altar novamente resplandecendo e abençoando a cidade.

Festa da Comida Caipira em São Luiz do Paraitinga
Igreja da Matriz recém inaugurada

Igreja da Matriz reinaugurada

Quando saímos da Igreja já era hora do almoço e fomos correndo pro nossa esperada farra no Festival da Comida Caipira. Este seria o último dia e a programação musical era mais que especial. Ouvimos um músico mineiro estudioso da moda de viola, João Araújo, que cantou músicas que marcaram minha infância. Chorei, que nem menina e ainda comprei um CD autografado do cantador. 

O Festival acabou após a apresentação do João Araújo e nos despedimos do Mercado Municipal já programando o retorno no próximo ano.
Demos uma última caminhada pela cidade para despedidas e ainda conversamos com um professor de viola caipira, um coroa com camiseta de banda heavy metal e divertidíssimo, que prometeu ensinar a moda de viola para o Thiago. Só falta marcar as aulas agora...

No caminho para a Destilaria Mato Dentro, em São Luiz do Paraitinga
Espantalho no caminho para a Destilaria Mato Dentro

Destilaria Mato Dentro


Mas ainda não queríamos voltar pra cidade grande e aproveitamos o fim de tarde para conhecer a fazenda que produz a cachaça mais famosa de São Luiz do Paraitinga e considerada uma das melhores destilarias brasileiras, a Mato Dentro. Já conhecíamos a cachaça de outros carnavais (leia-se outros botecos) e agora era a vez de conhecermos sua produção. A fazenda fica num bairro rural de São Luiz, que tem o mesmo nome da cachaça. Fomos recebidos pelo dono do lugar, seu Rômulo, um simpático e altivo sexagenário, que cuida de tudo com vigor e energia. Ele nos contou da sua história e provamos as várias cachaças disponíveis. Não só provamos, como o Thiago resolveu levar várias garrafas pra casa pra recarregar seu estoque.

Seu Rômulo, dono da Destilaria Mato Dentro em São Luiz do Paraitinga
Seu Rômulo, proprietário da destilaria Mato Dentro

Foi assim que saímos, mais uma vez alegres da pequena São Luiz do Paraitinga, depois de um fim de semana especial de tão delicioso. E voltaremos pra lá em breve, como sempre fazemos.


Mais sobre São Luiz do Paraitinga:





Nenhum comentário:

Postar um comentário