sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Itinerância em Manaus: O encontro das águas

"Então canta, Manaus!
-filha da tribo-
canta hoje teu castigo:
ser um rio vivendo o mar."
Rio Negro, próximo à Manaus

Durante minha estada no Amazonas, passei por diferentes encontro das águas. O primeiro deles foi logo na chegada à Reserva Mamirauá, no encontro dos Rios Japurá e Solimões. Depois, passei por vários descendo o próprio Solimões, entre Tefé e Manaus. Mas ainda me restava ver o mais famoso de todos, onde o Rio Amazonas é formado, quando o Negro encontra o Solimões, bem na frente de Manaus. Fizemos isso no último dia de viagem e aproveitamos para emendar numa ida a comunidades  ribeirinhas. Um passeio excessivamente turístico com alguns pontos que me incomodaram bastante pela exploração, principalmente dos animais da região, mas também dos próprios nativos que se submetem a destruição de sua terra para conseguir alguns poucos trocados. Esse talvez seja o principal ponto turístico em Manaus, mas penso que não faria novamente esse roteiro e tentaria achar algum jeito alternativo de conhecer as periferias da cidade sem me sentir explorando as condições de vida do lugar. 

Encontro das águas


Já na véspera, eu, Arthur e Ju, meus sempre parceiros de viagem, havíamos acertado com um barqueiro no Porto do Ceasa o nosso passeio. Poderíamos ter fechado com alguma agência de turismo, mas preferimos negociar diretamente com os trabalhadores locais. Achávamos assim que conseguiríamos um preço melhor e ainda evitaríamos atravessadores, aumentando o lucro dos que efetivamente nos ofereceria o serviço. Mas confesso que me decepcionei um pouco ao perceber que o próprio barqueiro já estava bem inserido na lógica de mercado e não senti que ele estava preocupado em preservar suas tradições. Uma pena.

Porto do Ceasa, em Manaus.
Porto do Ceasa 

Chegamos cedo no porto e logo encontramos nosso barqueiro já nos esperando pra iniciar o passeio. Depois de poucos minutos de navegação estávamos no ponto exato do encontro dos dois rios. Logo percebi que aquele encontro era bem mais impactante que todos os outros que vira. A divisão é nítida e a diferença das águas evidente.
É curioso ver aqueles rios que caminham juntos sem se misturar, num respeito mútuo e, ao mesmo tempo num afastamento evidente e a primeira coisa que pensamos quando nos deparamos com aquele fenômeno é como é possível? Bem, a resposta eu tive antes mesmo de chegar no Amazonas, pesquisando sobre a região e ela é mais simples do que imaginamos. As águas brancas do Rio Solimões são mais barrentas e com restos orgânicos que acumula ao longo de seu trajeto, além de ter uma correnteza mais veloz e uma temperatura menor. Já o Rio Negro de águas pretas tem maior acidez e menos restos orgânicos, velocidade menor de correnteza e temperatura maior. São esses os fatores que impedem sua mistura imediata e o resultado é assombroso para quem vê ao vivo: águas que caminham lado-a-lado sem se tocar. Só depois de mais de seis quilômetros de convívio isolado é que as duas águas cedem uma a outra e viram um só e soberano rio, o Amazonas.

Encontro das águas do Rio Negro e Solimões, em Manaus
Rio Solimões à esquerda e Rio Negro à direita

Algo que me impressionou muito nessa travessia foi a quantidade de barcos de grande porte navegando no rio. Difícil acreditar que estamos a quase seis mil quilômetros do mar. Num corte transversal cheguei a lembrar da Baía de Guanabara da minha adolescência, onde muitos barcos ficavam estacionados esperando a hora de entrar no porto. Mas não. Estamos num mar de água doce, isso sim. Um rio, que é mar, ou um mar que é rio.

Rio Amazonas, em Manaus, depois do encontro do Solimões e Negro.
Rio que mais parece mar

Pelos arredores de Manaus


Depois de admirarmos o encontro das águas era hora de conhecermos a outra margem do rio, bem menos urbanizada e estruturada. Estava curiosa de ver como viviam os ribeirinhos manauaras, mas infelizmente só vimos superficialmente a realidade desse povo, já que o passeio tem um roteiro pré-estabelecido todo preparado e nada espontâneo. 
Primeiro, paramos numa casa flutuante para pescar pirarucu. Os coitados ficam num cercadinho, presos e esperado serem pescados por felizes turistas, que depois de tirarem fotos com sua presa jogam-nos de volta ao cercado, quando esperarão por outro feliz turista a fazer o mesmo. Depois de ver centenas de pirarucus livres e faceiros, na Reserva Mamirauá foi dolorido ver esse peixe, que pode medir até dois metros de comprimento, preso num cercadinho em que mal poderia se mexer. Nenhum de nós teve coragem de fazer isso e fomos logo embora daquele lugar.

Comunidades ribeirinhas, no Rio Amazonas, em Manaus
Infelizmente, só vimos as comunidades ribeirinhas de longe

Nosso encontro mais próximo com um ribeirinho foi na casa do jovem Vagner, onde paramos para ver alguns animais selvagens. A casa flutuante era muito simples e, enquanto sua mãe fazia o almoço na cozinha, Vagner nos mostrava os animais que ele mesmo havia caçado: uma cobra, um filhote de jacaré e um bicho-preguiça. Confesso que logo me encantei com o bicho-preguiça que havia visto bem de longe em Mamirauá e agora eu podia tocá-lo e fotografá-lo de perto. Mas logo senti um misto de compaixão e desespero por aqueles bichos tirados de seu habitat natural apenas para o usufruto do turista e, ao mesmo tempo, uma dó daquele rapaz que se deixou levar por uma pressão dos que ganham dinheiro em cima dele. O jovem não cobra nada para que os turistas brinquem com os bichos e cada um deixa o que pode de contribuição. Triste ver como a preservação ambiental passa longe dali. 
Vagner nos explicou que ele tenta não alterar a natureza, já que o jacaré é caçado diariamente, a cobra em dias alternados e o bicho-preguiça semanalmente. Depois do prazo, os animais são devolvidos ao seu habitat e novos caçados em seus lugares. Mas assim como ele, outras famílias fazem o mesmo, de modo que eu fico pensando que os mesmos animais devem ser caçados por diferentes famílias e fico imaginando o impacto ambiental se todas as famílias resolverem fazer o mesmo. É esse o tipo de turismo que eu mais abomino e detesto, já que tudo vira mercadoria. Até os animais.

Bicho preguiça em comunidade ribeirinha de Manaus
Bicho-preguiça aprisionado

Bicho preguiça em comunidade ribeirinha em Manaus


Nativo da Amazônia

Na saída da casa, reparamos várias pessoas acenando para nós, numa canoa e percebemos: todas elas tinham animais para oferecer aos turistas. Impressionante e triste, ao mesmo tempo.

Nossa última parada foi num complexo de casas flutuantes, onde se vendia artesanato e comida. Passamos direto pelo lugar e seguimos numa caminhada por pontes em palafita, por cima do rio. Pra mim, essa foi a melhor parte do dia, já que o lugar era mesmo muito bonito.

Caminhada pela floresta amazônica, próximo de Manaus
Início da caminhada

Logo chegamos no local onde crescem as vitória-régias, mas que nessa época não costumam florir. Para não decepcionar os turistas, uma madeira foi colocada estrategicamente para represar as plantas, de modo que ficam todas juntas e não se espalham pelo igarapé.

Vitória-régia, na floresta amazônica, nas proximidades de Manaus.
Vitória-régias represadas

O lugar em volta às vitória-régias é fenomenal. Um igarapé com águas calmas e cheio de pássaros, que foi o mais autêntico que vimos naquele dia.

Igarapé do Rio Amazonas, nas proximidades de Manaus
Igarapé

Por fim, caminhamos até uma gigantesca samaúma de cerca de trinta metros de altura. As palafitas rodeiam a árvore e podemos observá-la em todos os ângulos.

Samaúma, em comunidade ribeirinha nas proximidades de Manaus.
Samaúma

Samaúma em comunidade ribeirinha nas proximidades de Manaus.

Assim, terminamos nosso passeio pelas redondezas de Manaus, como sempre com críticas a favor de um turismo efetivamente comunitário e sustentável. Torço para que Manaus perceba que o turismo que tem trilhado não durará muito tempo, já que leva a destruição das próprias atrações turísticas. Torço também para que iniciativas como a do Instituto Mamirauá se multiplique pela Amazônia e seja o modelo de turismo para toda a região. Oxalá!


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