segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Centro Geodésico da América do Sul

"Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto-sim resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de um modo explícito"
(Um índio- Caetano Veloso)
O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.

Por definição, centro geodésico é o ponto no interior de uma superfície, localizado em maior distância de qualquer outro ponto de seu perímetro. Se levarmos esse conceito pra geografia, o centro geodésico coincide com o centro geográfico, se temos um mapa não muito irregular. Nesse sentido, esse seria um ponto para o qual a maioria das linhas retas que passam por ele atingem as fronteiras em dois pontos equidistantes desse centro, ou ainda um ponto do país cuja menor distância às fronteiras, ou litoral fosse maior possível.
Parece um conceito complicado e, de fato, é. Mais complicado ainda é calcular isso na prática. Tanto que muitas polêmicas envolvem a localização dos centros geodésicos mundo afora. Um dos maiores estudiosos do assunto foi o sertanista Marechal Cândido Rondon, um grande desbravador dos interiores do Brasil, que em 1909 conseguiu determinar o Centro Geodésico da América do Sul (e também de vários países, ajudando na elaboração de fronteiras de muitos deles, como Colômbia, Peru, Guiana, entre outros). Sem a tecnologia do GPS disponível nos dias atuais, Rondon usou a astronomia para ajudar em seus cálculos, já que os astros nunca mudam de lugar e, por isso mesmo,  seus estudos são respeitados e ratificados por outras técnicas mais modernas até hoje. Com isso, ele conseguiu desvendar o ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico, o centro do Hemisfério Sul.

O Centro Geodésico (oficial) da América do Sul


Nos cálculos de Rondon, o Centro Geodésico de nosso continente localiza-se nas coordenadas geográficas de latitude 15° 35’ 56¨ ao sul da linha do equador e Longitude 56° 06’ 05¨ a Oeste do Meridiano de Greenwich. Noves-fora-zero, essa coordenada cai exatamente na atual Praça Pascoal Moreira Cabral, em Cuiabá, onde hoje se localiza a Câmara Municipal da cidade. Curiosamente, antes de sediar o marco do centro geodésico, o lugar era palco dos castigos aos escravos fugitivos, ou preguiçosos.

Mas a realidade é que o local oficial dos cálculos de Rondon não tem a menor graça, como se vê no texto e imagens do texto (link aqui) , que aliás, foi o melhor que encontrei na internet sobre o assunto.

O verdadeiro Centro Geodésico da América do Sul, em Cuiabá
Centro Geodésico da América Latina- Cuiabá
(Fonte)


O Centro Geodésico (místico) da América do Sul


Talvez, por isso, um simples (fabuloso) mirante da face sul da Chapada dos Guimarães acabou tomando para si o nome de Centro Geodésico da América do Sul. A fama não é de toda falsa, já que o marco de altitude, de fato, passa ali e, além do mais, é possível observar, ao longe, a cidade de Cuiabá e, portanto, o centro geodésico verdadeiro. Então, apesar de não ser o centro calculado por Rondon, acabou sendo o centro escolhido por todos, desde turistas desavisados até místicos que afirmam que há ali uma energia espiritual importante.

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
Começando a caminhada pelo Centro Geodésico

E foi pra esse lugar tão especial, que partimos logo no nosso primeiro dia na Chapada dos Guimarães, após já termos conhecido o Parque Nacional com suas belas cachoeiras. Fomos logo depois do almoço, quando o Sol estava à pino e sofremos bastante com o calor, mas o esforço valeu a pena, pois o lugar é fantástico. Mas penso que teria sido mais ameno ir no final da tarde com o Sol mais frio, como dizem os nordestinos.

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
Vista da imensa planície matogrossense com suas extensas plantações

O centro geodésico fica em propriedade particular, mas a entrada é livre. Deixamos o carro no alto do mirante e logo nos surpreendemos com a paisagem. Uma planície quase sem fim bem à nossa frente. De fato, é de tirar o fôlego. Algumas pessoas nos disseram que dali, em dias claros, é possível ver o pantanal. Nós não vimos, até porque haviam vários pontos de chuva e queimadas ao longe, mas Cuiabá nós conseguimos avistar e lá estava a capital com seus prédios e urbanidade. Parecia ser a única cidade no horizonte.

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.

Caminhamos pela trilha que desce pelo mirante, bem rente aos paredões, mas ali a vegetação era de pasto. Não acredito que aquela seja a vegetação original, mas, infelizmente a preocupação ambiental não é prioridade no estado inteiro, como observamos bem, em vários momentos dessa viagem. Apesar disso, o verdinho do pasto dá um tom bucólico ao lugar e compõe bem a paisagem. Mas não tenho dúvidas que eu trocaria isso pelos galhos retorcidos das árvores do cerrado.

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
Caminhando bem próximo aos paredões da Chapada

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
Turistas no alto do mirante

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
Trilha estreita próxima aos paredões

A caminhada termina, numa impressionante vista para os paredões que continuam quase que infinitamente. Vamos descendo cada vez mais por entre as pedras e chegamos num ponto que me pareceu o mais incrível para observar a paisagem. À nossa esquerda, vimos o caminho que percorreramos, bem em cima de uma pedra enorme. À nossa direita, mais paredões e pedras. E à nossa frente, a grande planície. Impressionante.

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
Vista do fim da trilha 

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
À esquerda da foto, é possível ver a trilha que percorremos, bem em cima da pedra

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
Medo? Magina!

A volta foi mais fácil, já que descobrimos que era possível subir diretamente sem precisar fazer a trilha novamente. Com um pouquinho de fôlego, chegamos lá no alto do mirante pouco antes de uma chuva gostosa começar a cair na cidade. Era o fim de um delicioso (e calorento) passeio à um dos meus lugares preferidos da Chapada.

O Centro Geodésico da América do Sul, na Chapada dos Guimarães.
Voltando para o alto do mirante

E muito me lembrei, escrevendo esse post, de uma música do Caetano Veloso, chamada Um Índio e a letra me parece falar de algo que me preocupou bastante nessa viagem: só iremos percebemos o óbvio (da gravidade da destruição que estamos impondo ao cerrado e à natureza, de forma geral), quando tudo mais estiver acabado. E, para Caetano, nesse dia, um índio descerá bem aqui, no centro do hemisfério sul para nos lembrar disso. E eu fico aqui me perguntando: e se esperarmos esse dia, já não será tarde demais?

Comecei o post, com um trecho da músico e o finalizo com a letra inteira, pois vale demais a reflexão.


Um Índio
(Caetano Veloso)

Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto-sim resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de um modo explícito

Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé Filhos de Gandhi
Virá

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio


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