sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Cerrado que ainda persiste na Chapada dos Guimarães

Paredões e cerrado da Chapada dos Guimarães

A Chapada dos Guimarães apareceu no meu imaginário há pouco mais de dez anos, quando meus pais fizeram uma longa viagem pela região e se encantaram pelo que viram. Na mesma ocasião, conheceram também o Pantanal e Bonito, já no Mato Grosso do Sul. Lembro de mamãe falar com entusiasmo das araras e dos paredões de pedra, assim como das fotos espetaculares que fizeram (com uma câmera amarela gigante que  salvava as imagens diretamente em disquetes- uma verdadeira relíquia nos tempos atuais, mas um avanço para época). No mesmo ano, fomos juntos para Bonito, mas me faltou conhecer a Chapada e eis que uma década depois, eu consegui preencher a lacuna, aproveitando uma promoção de passagem aérea para Cuiabá.
Apesar da expectativa, confesso que me assustei com o que vi. O agronegócio vem ocupando grande parte da vegetação original de cerrado e as plantações sem fim dão a dimensão dos grandes latifúndios que dominam a região. Claro que também muitas invasões de terra (cujos moradores vivem num clima tenso, sempre correndo o risco de serem expulsos) fazem parte da paisagem matogrossense, mas nem se compara com o predomínio das extensas monoculturas de soja, algodão e milho, além dos vastos pastos com milhares de cabeças de gado. Não é à toa que o cerrado é um dos ecossistemas em maior risco no mundo e não é possível que não nos preocupemos com isso.
 É nesse contexto que o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães é um oásis de preservação e cuidado ambiental em meio à destruição da mata original da região e foi lá que passamos dois intensos e adoráveis dias.

Acordamos ainda de madrugada em São Paulo e aproveitamos a diferença de fuso horário, que nos permitiu ganhar uma hora de viagem e chegamos cedo em Cuiabá. Foi só o tempo de alugarmos um carro e pegarmos a estrada rumo ao nosso destino final. São pouco mais de 60 km que separam a capital do Parque Nacional, numa estrada reta e bem sinalizada, em que vamos apreciando desde longe a beleza dos paredões da região.

Paredões e cerrado da Chapada dos Guimarães
Estrada pra Chapada

O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães


A entrada do parque fica próxima da rodovia e ao avistá-la não resistimos e já entramos para sentir o clima do lugar. A ideia era apenas dar uma olhada, mas acabamos passando toda a manhã lá e só fomos para a cidade mesmo já na hora do almoço. Sem programar, acabamos tomando a melhor decisão, já que tivemos uma ótima recepção ali.
Ao chegarmos, seguimos logo pro cartão postal da região, a Cachoeira Véu da Noiva, que atualmente só pode ser observada por um mirante, já que o acesso à sua base foi bloqueado após a morte de uma pessoa, que tentou tomar banho na imensa cachoeira. A trilha até ali tem pouco mais de 500 metros, mas foi gostoso imergir novamente no cerrado, após a nossa primeira experiência nesse ecossistema, há pouco mais de um ano, na Chapada dos Veadeiros.

Paredões e cerrado da Chapada dos Guimarães
Trilha pelo cerrado 

Ao chegar na cachoeira, a visão é extasiante. A água cai entre as pedras do paredão de uma impressionante altura de 86 metros de altura, vinda do Rio Coxipózinho. O visual é de tirar o fôlego e ainda recebemos as boas-vindas de um lindo casal de araras vermelhas, que passeavam por ali, bem na hora que chegamos. Uma pena que não deu tempo de fotografá-las.

Cachoeira Véu da Noiva, cartão-postal da Chapada dos Guimarães.
Cachoeira Véu da Noiva

Logo acima do mirante, há um complexo de restaurante, lanchonete e lojinha de bugingangas. Foi ótimo poder comer algo e matar a sede, já que vínhamos de uma viagem longa desde São Paulo. Mas me causou estranhamento aquela estrutura montada num Parque Nacional, já que todos que conhecemos tem rígido controle sobre a exploração ambiental. No dia seguinte, descobrimos que essa estrutura é de pessoas que moravam na Chapada antes dela se tornar área protegida e, apesar dessas pessoas serem chamadas de invasores do parque, na verdade, elas que foram invadidas, quando da instalação do mesmo. Uma política de reparação financeira tem sido feita, aos poucos, mas nem todos abandonaram o lugar (talvez porque ainda não tenham sido ressarcidas) e ainda ganham uma graninha em cima do turismo. A tendência é que, de fato, elas sejam expulsas, o que gera várias questões com os habitantes anteriores, como o que vimos acontecer nos Lençóis Maranhenses.

O P.N. da Chapada dos Guimarães foi criado em 1989, ocupando uma área de pouco mais de 32 mil hectares de terra, preservando importantes pontos do ecossistema da região, fortemente devastado desde a colonização, mas por ser recente, a implantação do parque gerou esse tipo de conflito de difícil solução.

Paredões e cerrado na Cachoeira Véu da Noiva, da Chapada dos Guimarães
Vista do Mirante

Depois do batismo no Véu da Noiva, voltamos para a entrada do Parque e no caminho, algo curioso aconteceu. Um homem todo camuflado (inclusive sua câmera) tentava fotografar pássaros. Fiquei imaginando que era melhor que ele estivesse numa área menos frequentada por humanos, já que aquela região é a mais famosa de toda a Chapada e num dia de feriado, haveria uma grande movimentação de pessoas pra afastar os animais. Não sei se o local lhe rendeu boas fotos, mas só sua presença já me rendeu uma foto, no mínimo, engraçada.

Fotógrafo se camufla na Chapada dos Guimarães.
Camuflado

Chegamos no carro e não resistimos em conhecer as cachoeiras que ficam ali próxima da entrada do parque e que estão abertas a pouco tempo pra visitação. Trocamos de roupa dentro do carro (já que precisávamos de roupa de banho pra cair na água, senão obviamente que não teria graça de ir até lá) e partimos. A trilha até lá é um pouco maior que a do Véu das Noivas, mas não tem mais que dois quilômetros de extensão.

Trilha pelo Cerrado da Chapada dos Guimarães.
Caminhando pelo cerrado 

Ali ficam duas cachoeiras bem simpáticas: a Cachoeirinha e a dos Namorados. A primeira é uma queda pequena, mas deliciosa, que faz uma relaxante massagem nas costas e a segunda, uma cachoeira maior e mais imponente, mas não menos gostosa.
Como era dia de feriado e as cachoeiras tem acesso livre, tivemos que competir o tempo todo por um espaço ao vento (ou melhor, à água) e foi difícil fotografar sem que alguém aparecesse pra atrapalhar. Mas mesmo assim foi uma bela introdução às maravilhas da Chapada.

Cachoeira no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães.
Cachoeirinha

Pouco mais de duzentos metros separam a Cachoeirinha da Cachoeira dos Namorados e também ali há uma grande área de infra-estrutura pro turismo. A diferença é que aqui os restaurantes estão fechados e não há ninguém trabalhando. Até mesmo um acesso pra carro com uma ligação direta com a estrada foi interditado. Ficou a sequela de uma grande interferência humana na área, já que foi construído uma espécie de barragem pra água da cachoeira e até uma escada para acesso ao poço d´água. Uma pena tamanha modificação no ambiente e fica pro Parque a tarefa de restauração do ecossistema original da lugar.

Cachoeira dos Namorados, na Chapada dos Guimarães
Cachoeira dos Namorados

Chapada dos Guimarães, a cidade


Ficamos por lá até a fome apertar e só então fomos, efetivamente, pra cidade de Chapada dos Guimarães. Não precisou de muito tempo para eu me encantar com a cidade, muito arborizada e com simpáticas casinhas e jardins bem cuidados. O centro da cidade é basicamente todo ao redor da graciosa Praça Dom Wunibaldo, toda charmosa e com vários bancos e mesinhas para socialização dos frequentadores.

Praça Dom Wunibaldo, na Chapada dos Guimarães.
Praça Dom Wunibaldo

A estrela da praça é a Igreja de Santana, construção datada de 1811, ainda no tempo de Dom João VI com caraterísticas coloniais. Santana é a padroeira da cidade e tem na região centenas de devotos.

Igreja de Santana, na Chapada dos Guimarães
Igreja de Santana

Depois de uma caminhada rápida pela praça, almoçamos pelo centro mesmo e logo em seguida partimos para um dos mais famosos pontos turísticos da cidade: o Centro Geodésico. A visita foi extensa e caminhamos bastante por lá, por isso vou deixar pra falar mais desse lugar em um post separado, que escrevo logo a seguir.

Paredões e Cerrado da Chapada dos Guimarães
Centro Geodésico

Pegamos um Sol danado durante o dia, mas assim que saímos do Centro Geodésico e achamos uma pousada pra ficar, caiu uma chuvinha deliciosa, que apreciamos da rede da varanda, tomando uma cervejinha gelada. Foi o fim perfeito de um longo e intenso dia, que começara ainda de madrugada. Depois da chuva, tivemos força apenas de comer uma tapioca na pracinha principal e dormir, afinal o cansaço batia forte e no dia seguinte teríamos outro dia intenso.

Pelos arredores da Chapada dos Guimarães


Nosso segundo dia na Chapada foi dedicado a conhecer uma região fora do Parque Nacional, numa propriedade particular, que guarda em si cenários esplendorosos, como a Caverna Aroe-Jari e a Lagoa Azul. Foram 8km de trilha no meio do cerrado, passando por lugares magníficos, que deixarei pra relatar num post à parte.

Caverna Aroe-Jari, entre o Cerrado da Chapada dos Guimarães
Caverna Aroe-jari

Depois da trilha, nossa guia nos levou num lugar fenomenal, mas pra entrarmos lá passamos por uma situação bizarra. Ela nos disse que iríamos num condomínio particular, chamado Morro dos Ventos e que entraríamos dando o nome de uma amiga dela. Fizemos isso, mas na portaria, eles exigiam que nós tivéssemos uma autorização da moradora. Nossa guia ligou pra ela e não conseguiu falar. Eu, que sempre detesto essas situações vexatórias já estava querendo ir embora, mas a guia, com o orgulho ferido, pediu que a própria porteira liga-se. Foi o que ela fez e, pra nossa sorte, conseguiu falar com a moça, que nos autorizou a entrar. Confesso que por alguns momentos, achei que a tal amiga não existisse, mas no fim deu tudo certo.

A vergonha da entrada valeu a pena, pois a vista do lugar é, de fato, de tirar o fôlego. Depois de passar por imensas mansões, chegamos ao mirante do condomínio e demos de cara com os paredões alaranjados típicos da chapada. Foi de arrepiar. Pra nos deixar ainda mais encantados, uma cachoeira se formava bem ao nosso lado com a água caindo por centenas de metros. Ficamos pensando se alguma gota consegue chegar ao solo, ou se toda aquele volume evapora-se durante a queda. Um espetáculo belíssimo.

Paredões e cerrado da Chapada dos Guimarães
Paredões alaranjados típicos da chapada

Paredões e cerrado da Chapada dos Guimarães
Cachoeira entre as pedras

Abaixo de nós, campos sem fim se formavam, quase todos cobertos de plantações de soja, onde antes havia vegetação de cerrado. Uma visão impressionante não só pela beleza, como pela dimensão concreta que temos ali do tamanho do agronegócio.
Pra nossa sorte, tivemos o privilégio de ver duas chuvas caindo nos campos lá longe. Que cena curiosa observar as nuvens e é até difícil ter a dimensão correta do tamanho daquela paisagem.

Planície matogrossense, visto da Chapada dos Guimarães
Ao longe, duas áreas de chuva nos campos abaixo da Chapada

Com a aproximação da chuva, achamos que era mais prudente irmos embora, mas, curioso, não choveu na Chapada, naquele momento. Apenas de madrugada ouvimos o barulhinho da água no telhado.
Aproveitamos, então, aquela última noite na deliciosa cidade para curtir um pouco da vida noturna. Depois de almo-jantar, demos uma volta na pracinha e fomos ouvindo as diferentes músicas que tocavam nos barezinhos. Primeiro, paramos para ouvir MPB e depois, do outro lado da praça, foi a vez da música caipira. Curtimos o clima ameno do fim do dia e nos despedimos, já que no dia seguinte bem cedinho partiríamos pro mais novo point do turismo na região, a Vila de Bom Jardim, na cidade de Nobres.


Mais sobre o Cerrado:


Nenhum comentário:

Postar um comentário