quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Revivendo Visconde de Mauá

Visconde de Mauá

Quando falamos em Visconde de Mauá, na verdade, falamos em três pequenas vilas (Maromba, Maringá e a própria Visconde de Mauá), separadas entre elas por alguns quilômetros de distância. Cada vila está em um município diferente, tornando a geografia do lugar bem curiosa. Visconde de Mauá pertence à Resende, Maromba pertence à Itatiaia e Maringá é ainda mais misturado, já que metade da vila localiza-se em Itatiaia (RJ) e metade localiza-se em Bocaina de Minas (MG). A divisa dos dois estados se dá pelo rio que corta Maringá, chamado Rio Preto mas a vila é uma só, separada apenas por uma charmosa ponte de pedestres. Se é difícil entender no papel, não é difícil de entender estando lá, ainda mas podendo curtir cada vila com suas características próprias.
A região foi se constituindo em torno do turismo, principalmente após a descoberta do lugar pelos hippies na década de 80, que passaram a viver em Mauá e a construir as primeiras pousadas e restaurantes. Ainda hoje, eles estão lá, mas pelo que pude observar, atualmente estão mais concentrados na vila de Maromba, ainda com acesso mais dificultado pela ausência de estrada de asfalto. Mas nas minhas primeiras estadas por aqui (ainda criança, com meus pais, na década de 90), eles eram maioria em todos os lugares.
Apesar de tantas mudanças, principalmente depois da chegada da estrada de asfalto desde Resende até Maringá, Mauá ainda mantém uma autenticidade e tranquilidade, que tornaram o lugar meu principal destino de férias durante a infância e adolescência. E voltar lá do lado do Thiago foi uma mistura de sensações, que me fizeram lembrar de muitas coisas já vividas e, ao mesmo tempo, experimentar coisas novas ao lado dele.

Saímos cedo de São Paulo para aproveitar ainda o dia. Após um almoço bem gostoso em Penedo (outra vila de Itatiaia, bem próxima da Dutra, mas que não me atraia muito) iniciamos a subida da tortuosa estrada que sobe a Serra da Mantiqueira rumo à Mauá. Minhas lembranças dessa estrada são da década de 90, quando ainda de terra, eu ali passei mal e vomitei todo o carro do meu pai, que obviamente ficou fulo da vida e saiu caminhando pela estrada, naquela época bem vazia.
Vinte anos depois, não são só as curvas que precisamos vencer, mas também os inúmeros caminhões que sobem a serra em velocidade de tartaruga e que não conseguimos ultrapassar pela dificuldade da estrada. Não passo mais mal, mas a cada curva me lembro dos motivos que me fizeram enjoar na primeira viagem.

Chegando em Visconde de Mauá


Aproveitamos os vários mirantes da estrada para curtir a paisagem e também fugir dos caminhões. A vista vai ficando cada vez mais linda, conforme vamos subindo e, mesmo com o tempo nublado, a paisagem é de tirar o fôlego.

Visconde de Mauá
Mirante na estrada

Passamos direto pela vila de Visconde de Mauá (na minha opinião, a mais fraquinha das três vilas) e fomos direto para Maringá. Estacionamos o carro e após atravessarmos a ponte pro lado mineiro, uma chuva torrencial caiu sobre nossas cabeças. Entramos num dos charmosos cafés da vila e esperamos a chuva passar com um delicioso chocolate quente.

Café na Vila de Maringá, em Visconde de Mauá.
Esperando a chuva passar

Cachoeira do Escorrega e Poção da Maromba


Como toda chuva de verão, depois que ela passou o tempo abriu e partimos pra explorar um pouco das cachoeiras. Nossa primeira parada foi logo na mais conhecida de todas: a Cachoeira do Escorrega, na vila de Maromba. Minhas melhores lembranças de Mauá são dessa cachoeira e eu queria muito ir até lá com o Thiago, que ainda não a conhecia, apesar de já ter visitado a região.

Como era uma sexta-feira fora de feriado e logo após um temporal, não encontramos muita gente por lá, apesar de termos esbarrado com alguns turistas. A maior surpresa foi que não é permitido mais o acesso de carro até a cachoeira e um estacionamento foi estrategicamente montado bem próximo dali. Como não havia muito movimento esse dia, não tivemos problemas pra parar na rua, mas acredito que nos dias mais agitados parar no estacionamento seja a única alternativa. Males do crescimento...

O bom foi que o Escorrega continua o mesmo: lindo e gelado. É sempre delicioso estar ali, principalmente por me permitir retomar lembranças de minha infância já adormecidas. Na minha memória, a cachoeira é sempre maior do que de fato é. Todas as vezes que vou lá, penso: lembrava dela tão maior que isso... A única explicação que consigo dar a esse fato é que minha primeira vez no Escorrega foi com uns seis ou sete anos e imagino eu que essa memória de criança foi a que me marcou, mesmo tendo voltado lá inúmeras outras vezes depois.

Cachoeira do Escorrega, na Vila de Maromba, em Visconde de Mauá.
Cachoeira do Escorrega

Como sempre fazia, quando era criança, subi até a parte alta da cachoeira, de onde os corajosos escorregam pela pedra até o poção. Muitas vezes desci ali em várias posições diferentes, mas dessa vez, a água gelada me desencorajou da empreitada. O Thiago sequer cogitou, pois não acreditava que era possível escorregar sem se machucar. Como não tinha ninguém pra mostrar pra ele que, de fato, era possível, ele resolveu entrar apenas no poço e ainda enfrentou uma água gélida.

Cachoeira do Escorrega, na Vila de Maromba, em Visconde de Mauá.
Do alto da Cachoeira do Escorrega

Lá de cima da cachoeira, avistamos uma cena curiosa: um cachorro sentado do outro lado do rio, parecia tranquilo aproveitando a paisagem. Logo, ele começou a se agitar e percebemos que ele  tentava atravessar o rio sem sucesso. Ele ensaiava passar pelas pedras, mas logo voltava atrás.
Ficamos pensando em como o danado conseguiu chegar ali do outro lado, já que o acesso pra cachoeira só se dá pelo lado oposto ao que ele estava.
Enfim, decidimos ajudá-lo e lá fomos nós (ou melhor, lá foi o Thiago) na operação resgate e foi uma dificuldade, porque o Thi teve que atravessar o rio e cada vez que ele se aproximava, o cão se afastava, parecendo arredio. De tanto insistência, ele acabou se aproximando e o Thiago nem precisou pegá-lo no colo, pois acho que apenas a presença de alguém ali já o encorajou a pisar nas pedras dentro do rio e atravessar.  A tensão foi que ele escolheu logo o caminho próximo da queda d'água, mas deu tudo certo e ele saiu serelepe de lá e nem nos deu bola.

Cachoeira do Escorrega, na Vila de Maromba, em Visconde de Mauá.
Como ele chegou ali?

Foi só quando saímos da cachoeira e já estávamos perto do carro, que ele reapareceu cheio de carinhos pra dar pro Thiago. O coitado estava cheio de carrapatos e pulgas, o que nos fez crer que ele deve ter vindo pelo mato até chegar aqui, já que os cachorros de Mauá são sempre muito bem cuidados. Isso até me faz lembrar a lendária Rosinha, uma burrica muito charmosa que vivia em Mauá e que era cuidada por todos daqui. Ele deve ter vivido bons anos, enquanto era o xodó da cidade.

Cachoeira do Escorrega, na Vila de Maromba, em Visconde de Mauá.
Todo carinhoso após ser resgatado

Depois que saímos do escorrega anda tinha um restinho de luz do Sol e aproveitados para passar no Poção da Maromba, cujas lembranças mais marcantes que tenho são de bravos rapazotes pulando lá do alto (a pedra mais alta do poção deve ter próximo de cinco metros de altura). Eu nunca tive coragem de pular, mas sempre tive vontade. Ainda não foi dessa vez, mas quem sabe um dia...

Poção da Maromba, em Visconde de Mauá.
Poção da Maromba

Quando saímos do Poção, a chuva já começava a cair de novo e seguimos para procurar uma pousada. Todas as vezes que vim pra cá (exceto com meus pais), fiquei na vila de Maromba por ser mais barata e rústica, mas dessa vez, nós queríamos um pouquinho mais de conforto (coisa rara de acontecer, pois eu e Thiago sempre viajamos no modo mochileiro). Optamos por uma pousada mais arrumadinha e ficamos em Maringá mesmo. A vantagem foi que com a chuva que caiu quase todo o fim de semana, não precisávamos pegar o carro pra sair pra jantar e pudemos curtir o conforto da pousada que escolhemos.

Ficamos um bom tempo no nosso quarto quentinho e confortável, esperando a chuva passar. Quando, finalmente, estiou fomos jantar e o Thiago me levou num restaurante que ele foi na outra vez que esteve em Maringá. Não somos de frequentar restaurantes badalados e caros e foi isso que nos encantou no Borbulha: ambiente agradável e comida deliciosa (a melhor truta que já comemos na vida), mas sem frescura e com o preço justo. A noite ainda foi sonorizada pelos LPs do Edison, dono do restaurante, que tem uma coleção de 14 mil discos, que ele gentilmente disponibiliza para que seus clientes escolham e ouçam, durante o jantar. Ainda ficamos um bom tempo conversando com ele, que nos contou sobre suas andanças por aí. Foi uma noite inesquecível e que tornou nossa estadia em Mauá ainda mais encantadora.

Vale do Alcantilado

Acordamos cedo e depois de um delicioso café da manhã de frente ao Rio Preto, partimos para uma das mais famosas atrações da região: o Vale do Alcantilado. 

Pousada na Vila de Maringá, em Visconde de Mauá.
Café da manhã em frente ao Rio Preto

Com suas nove cachoeiras em que vamos subindo a trilha até a mais alta e linda de todas, a Cachoeira do Alcantilado, o vale merece a visita, apesar de ser em propriedade particular. Começamos a trilha com tempo encoberto e exatamente quando chegamos no Alcantilado o tempo fechou e uma garoa refrescou o fim do passeio. Como ficamos bastante tempo lá, vou deixar para relatar a trilha num post separado.

Vale do Alcantilado, em Visconde de Mauá.
Já na metade da trilha, a vista do Vale do Alcantilado

Depois da trilha, almoçamos num restaurantezinho simples na estrada de volta à Maringá e depois do almoço, nos permitimos tirar uma longa soneca, já que a chuva voltara e nós queríamos aproveitar o nosso confortável quarto da pousada. Quando acordamos, já no fim da tarde, ainda chovia e ficamos na varanda, o Thiago tocando violão e eu, deitada na rede, ouvindo sua música e o barulhinho da chuva, além de ficar ali sentindo o cheirinho de terra molhada que eu tanto gosto. Coisas simples, mas que dão um sentido toda especial à vida, anda mais nesses tempos de correria que vivemos.

À noite, preferimos sair apenas pra comprar algumas guloseimas e ficamos no nosso quarto, tomando um vinho e comendo o queijo que trouxéramos de São Paulo. Nada de badalação naquela noite chuvosa.

A tentativa de chegar a Pedra Selada

Acordamos e o tempo nos surpreendeu: um céu azulzinho e sem nenhuma nuvem, diferente dos dois últimos dias, nublados e chuvosos. Decidimos, então, que faríamos a trilha da Pedra Selada, o ponto mais alto da região de Mauá. 

Preparamos tudo para mas um dia de trilha e seguimos pela estrada até a propriedade onde está a pedra. O caminho até lá é longo, já que precisamos cruzar a vila de Visconde de Mauá e ainda andar bastante tempo numa estrada que passa por várias propriedades rurais ate chegar na entrada para a pedra. Começamos o caminho já dentro da fazenda e a estrada de terra foi piorando cada vez mais. Nós com carro baixo começamos a nos preocupar, mas continuamos até que um lamaçal nos amendrontou o suficiente para não continuarmos. Fizemos o retorno com dificuldade na estreita estrada e anda voltamos num perrengue danado, já que a descida fazia com que o carro arrastasse em várias pedras. Além da dificuldade para chegar no início da trilha, acho que eu mesma não conseguiria dar conta de subir a pedra de tão alta que ela me pareceu lá de baixo. Depois de ter feito a trilha do Alcantilado, minhas pernas doíam e eu já estava cansada. Infelizmente, não estou no auge da minha forma física e terei que me preparar para encarar a Selada. Combinei com o Thi que até o meio de 2015, estarei pronta. Oxalá!

Pedra Selada, em Visconde de Mauá.
Pedra Selada

Já que não conseguimos chegar à Pedra Selada, tentamos achar alguma cachoeira pela região. Pergunta aqui e investiga dali e descobrimos uma. Aproveitamos para dar carona a uma senhora descolada, que ia em direção à Visconde de Mauá. Ela nos orientou e após atravessar um rio e passar por um vilarejo, chegamos na corredeira. O lugar não tinha a mesma beleza das cachoeiras mais famosas da região, mas o Thiago adorou o banho dali e foi difícil tirá-lo de dentro da água.

Visconde de Mauá
Cachoeira no meio da estrada

Cachoeira Santa Clara

Saímos de lá e decidimos fazer todo o caminho de volta até a vila de Maromba para visitar um das cachoeiras mais badaladas da região, a Santa Clara. Quando chegamos, o susto foi inevitável, já que haviam muitos carros parados na entrada e já entendemos que o lugar estaria lotado.
E foi isso mesmo que aconteceu. A nossa sorte foi que assim que chegamos o Sol sumiu um pouco e muitos que estavam na água gelada, resolveram ir embora. Ficamos bastante tempo por lá e foi difícil fazer uma foto sem que algum incauto não aparecesse. Mesmo assim, foi gostoso ficar ali e essa foi a única cachoeira que eu consegui mergulhar nessa temporada em Mauá, já que todas as outras estavam num gelo maior do que consigo suportar.

Cachoeira Santa Clara, na Vila de Maringá, em Visconde de Mauá.
Cachoeira Santa Clara

Cachoeira Santa Clara, na Vila de Maringá, em Visconde de Mauá.

Aproveitamos que estávamos próximos da Maromba para almoçar na vila e curtir um pouco do clima hippie que ainda se mantém ali. Depois do almoço, ficamos um bom tempo sentados num dos banquinhos da rua, observando o movimento tranquilo e sem pressa de seus moradores. Um moço brincava de igual pra igual com um grupo de cinco crianças pequenas e fiquei encantada com o empenho dele de fazer as crianças se divertirem. Lembrei das minhas estadas anteriores na Maromba e nas longas conversas que já tive com essas pessoas que escolheram abrir mão de quase tudo para viver segundo o que seu coração manda. Uma ousadia simples e corajosa, que eu admiro e que ainda penso em me permitir um dia. Combinei com o Thiago que na nossa próxima estada em Mauá, ficaremos ali para poder conviver mais de perto com esse povo do bem.

Já no fim da tarde, iniciamos nosso caminho de volta para São Paulo e ainda tivemos uma demonstração de beleza, quando já na Dutra, vislumbramos a chuva iluminada pelo Sol, na Serra da Mantiqueira. Foi um fechamento com chave de ouro de um final de semana que nós dois necessitávamos: cheio de natureza, tranquilidade e aconchego. Voltar à Mauá foi uma alegria pra mim, ainda podendo compartilhar desses momentos com meu amado.

Serra da Mantiqueira
Sol e chuva, na Serra da Mantiqueira

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