sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Vila de Bom Jardim: a nova Bonito?


Mergulho no Rio Salobra em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".

A Vila de Bom Jardim, na cidade de Nobres tomou para si a fama de ser a "Nova Bonito". Bem próxima da Chapada dos Guimarães e de fácil acesso para Cuiabá, resolvemos conhecê-la, já que estávamos pela região.
Com essa comparação toda, foi impossível para mim não lembrar da minha estadia em Bonito no longínquo ano de 2002. Já naquela época, a cidade era conhecida pela seu turismo excessivamente organizado, pois todas as atrações só eram possíveis de serem realizadas através de agências de turismo. Apesar de burocratizado e sem muitas possibilidades de passeios alternativos, o turismo em Bonito, de fato, me pareceu corresponder ao que se propõe. Os lugares visitados além de espetaculares eram também muito bem estruturados com enorme e equipados receptivos que ofereciam vários serviços aos turistas.
A conclusão que cheguei após conhecer os dois lugares foi que a comparação prejudica a pequena Vila de Bom Jardim que, apesar de ter belos atrativos e ser um lugar agradável, está longe de ter a mesma estrutura que Bonito. Isso não seria um problema se o turismo praticado lá também não fosse cópia da irmã mais famosa, com a necessidade de agências de turismo para realizar todos os passeios.
Eu, particularmente, preferia ir num lugar assumidamente simples e rústico que oferecesse suas belezas naturais com mais autenticidade e menos atravessadores, mas apesar disso, valeu a pena conhecer a vila e passear por seus rios de água límpida e transparente.

Flutuação em Bom Jardim: Refúgio Ecológico Lagoa zul

Acordamos ainda na Chapada dos Guimarães e partimos bem cedinho rumo à pequena Vila de Bom Jardim, numa viagem de uma hora e meia em estrada boa e toda asfaltada. A paisagem também é linda, saindo do visual de chapadas para a planície.

Entre a Chapada dos Guimarães e Bom Jardim, vila do município de Nobres.
Manhã na estrada entre Chapada dos Guimarães e Bom Jardim

Chegamos na cidade cedo e seguimos direto para a pousada que havíamos contactado na véspera, afinal os passeios aqui só podem ser feitos através de agências de turismo e nós precisávamos comprar os vouchers das atrações. Conversamos com o dono da pousada (que era o mesmo da agência) e escolhemos ir para o Refúgio Ecológico Lagoa Azul, onde faríamos uma flutuação.
Partimos sem demora para lá e chegamos a tempo de entrar no segundo grupo do dia. Isso porque a flutuação é feita em grupos de até quinze pessoas, que são formados por ordem de chegada ao receptivo. Recebemos coletes, papetes e snorkel e seguimos de trator até o ponto de início do passeio.

Após uma caminhada de 700 metros chegamos ao impressionante aquário natural que se forma pela presença de três nascentes, todas formadoras do Rio Salobra, chamada Lagoa Azul. O nome é auto-explicativo e apresenta uma água transparente e límpida, onde vemos os peixes mesmo do lado de fora. Mágico!

Lagoa Azul em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Lagoa Azul

É nesse aquário azul que todos entram para o treinamento da flutuação com a guia. Aliás, nossa guia merece uma capítulo à parte. A moça era da fronteira do Brasil com a Bolívia e tinha uma ascendência indígena marcante, o que tornava seu português uma mistura de sotaques quase incompreensível. Apesar de solícita e simpática, foi difícil a comunicação.
Ela tentava pacientemente orientar quem nunca tinha feito a atividade, mas não sei se conseguia muito sucesso. No fim, passamos uma boa meia hora ali flutuando pelas nascentes e observando os peixes do lugar. O Thiago, que era marinheiro de primeira viagem em flutuação, ficou um pouco inseguro no começo, sem entender como não precisaria nadar, mas logo percebeu como a própria correnteza do rio nos conduz delicadamente pelo rio.

Lagoa Azul em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Flutuação na Lagoa Azul

Lagoa Azul em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".


Nosso grupo era inexperiente em flutuação e aproveitei isso para ser a primeira a mergulhar na lagoa, o que me possibilitou ver mais peixes, já que assim que aquela galera toda começou a flutuar, os peixes diminuíram bastante no aquário. Um dos primeiros que vi foi um cascudo descansando num tronco. Eu o vi logo no início da minha flutuação e depois voltei no lugar com o Thiago e ele já tinha sumido, provavelmente, fugindo da muvuca do grupo.

Lagoa Azul em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Peixe Cascudo, num tronco

Uma das belezas mais impressionantes do aquário são suas cavernas sub-aquáticas. Várias delas circundam o lago e de seu interior surgem as nascentes que formam o próprio lago e descem pelo Rio Salobra. Como estávamos apenas flutuando e não mergulhando, não foi possível vê-las por dentro, mas mesmo de longe elas encantam.

Lagoa Azul em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Uma das cavernas de onde surge as nascentes do Rio Salobra

A exploração do aquário foi, no final das contas, a parte mais legal desse passeio, pois foi onde vimos mais peixes e onde a água estava mais transparente. Pena que passou rápido e tínhamos que continuar rio abaixo.

Lagoa Azul em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".

Depois que todos já haviam explorado o aquário e já estavam craques na flutuação, nossa guia nos convocou para mais uma caminhada para um ponto mais abaixo do rio, de onde flutuaríamos com a correnteza por mais de um quilômetro.
Partimos, quando outro grupo de turistas já chegava para começar o seu passeio. A organização é em série e não podemos nos dar ao luxo de demorar, pois atrás vem gente. Essa é a desvantagem de viajar em feriados e em lugares excessivamente turísticos.

Depois de uma rápida caminhada, chegamos no ponto de mergulho e a a cor do rio logo me chamou a atenção e me lembrou mesmo os rios de Bonito. A guia ainda nos alertou de que a transparência e a visibilidade não estavam ideais, pois havia chovido na véspera. Quando mergulhamos, vimos que alguns trechos estavam mesmo mais turvos e com terra, mas mesmo assim foi uma delícia descer o rio sem fazer nenhum esforço, só deixando a correnteza nos levar.

Rio Salobra em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
A transparência do Rio Salobra

Rio Salobra em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
O rio um pouco turvo, devido as chuvas da véspera

Rio Salobra em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Thiago entre os peixinhos

 Dessa vez, minha tática foi oposta à do aquário: deixei todos me passarem e fui a última do grupo, já que eu não queria ter pressa. Eu e o Thiago fomos os últimos a terminar o passeio e vagarosamente nos despedimos do Salobra, satisfeitos com o que vivemos, mas com a sensação de que teríamos aproveitado mais num grupo menor.

Rio Salobral em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Solidão

Depois do passeio, almoçamos no próprio receptivo do refúgio e achei a comida bem ruinzinha, se comparado aos almoços dos receptivos de Bonito. Mais uma vez, reafirmo que a comparação prejudica Bom Jardim. Se fosse apenas um almoço sem grandes pretensões, eu teria achado digno.

Pôr do Sol na Lagoa das Araras


Foi inevitável tirar uma sonequinha na pousada após o almoço, cansados que estávamos da jornada desde cedo, Na verdade, nos preparávamos para o espetáculo do dia, o pôr-do-Sol na Lagoa das Araras, que como o nome diz é um dos melhores pontos da cidade para observar essas aves, que se dirigem para ali no fim do dia para dormir.

Lagoa das Araras, vereda em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Lagoa das Araras

Para entrar no lugar precisamos comprar os benditos vouchers na agência de turismo e o entregamos numa loja de material de construção. Sim, apesar de toda a burocracia, a estrutura do lugar não condiz com as exigências. Fica sempre a sensação de que houve ali em Bom Jardim uma exploração desmedida por parte dessas agências de turismo.
Apesar disso, valeu muito a pena ter ido até lá. O lugar é de fato lindo, cheio de buritizeiros e um lago que reflete as árvores em seu espelho d´água. Chegamos cedo e, no começo, ainda não havia muitas araras, mas conforme a tarde ia caindo, elas foram chegando, sempre em casais, de todos os lados. Ficamos ali por quase uma hora, vendo o espetáculo e a delicadeza daquelas aves fiéis, que escolhem um parceiro e vivem com ele a vida inteira.

Lagoa das Araras em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Um casal de araras descansa no buritizeiro

Lagoa das Araras em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".

Voltamos já no escuro e fomos jantar numa singela pizzaria, que também era uma pousada e que também era uma agência de turismo. Tudo assim bem mambembe.

Enfim, foi uma noite agradável e sem grandes pretensões e fomos dormir logo, afinal o dia seguinte começaria cedo, já que gostaríamos de aproveitar a manhã, antes de partir para Cuiabá.

Invasão no Rio Triste 

Depois de um café da manhã agitado pela quantidade de hóspedes na pousada, partimos para explorar um pouco da região sem o aval de nenhuma agência de turismo. Sabíamos que havia um balneário próximo e tínhamos a esperança de entrar lá sem os benditos vouchers, mas logo de cara fomos barrados. Apesar de ser um bar, como outro qualquer (com uma propensão nítida à farofagem), precisávamos pagar pra entrar e esse pagamento só poderia sr feito com as agências. Ou seja, para entrar lá, precisaríamos voltar pra cidade, comprar os vouchers e voltar. Não, claro que não faríamos isso, até porque achamos o lugar absolutamente fake e artificial, já que eles nitidamente fizeram um represamento absurdo do rio para construir o balneário.

É uma pena ver o turismo indo por um caminho tão burocratizante. Ao menos em Bonito, apesar de também haver essa exploração por parte das agências, há toda uma preocupação ambiental que torna menos indignante o atravessamento. Aqui, não vimos uma preocupação ambiental importante. O que vimos foi um monopólio do turismo pelas agências e nada mais. Não vejo o motivo de não podermos pagar as atrações diretamente nos locais. E confesso que isso me incomodou e deixou nossa estadia na vila menos prazerosa.

Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Rio transparente e lindo, mas represado para formar um balneário

Desistimos do balneário e após conversarmos com alguns nativos que brincavam no mesmo rio, mas fora da área paga, descobrimos que havia um jeito de tomarmos banho no Rio Triste sem precisarmos pagar. Era pra lá que eles iam nos fins de semana, quando não jogavam futebol na vila. Pegamos as instruções do caminho e seguimos na estrada de terra indicada.
Não sem antes termos que nos correr de alguns macacos famintos que pulavam no nosso carro para conseguir comida de algumas pessoas que jogavam para eles bananas e outras frutas. Foi uma das situações mais hilárias da viagem.

Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
O ataque dos macacos famintos

O caminho até o rio foi bem lindo, passando por propriedades rurais e uma bela paisagem. Chegando no rio, nos demos conta de que o lugar era na entrada de uma propriedade particular, justamente onde há uma flutuação pelo Rio Triste, que pra ser feita precisa dos benditos vouchers.

Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Estrada para o Rio Triste

Estacionamos onde nossos amigos nos indicaram e percebemos que poderíamos entrar na propriedade, margeando o rio. Bateu aquela curiosidade: como será o rio lá pra cima? Não resistimos e invadimos a propriedade, caminhando rio acima com aquelas águas azúis transparentes. Foi, ao mesmo tempo, emocionante e medonho. O medo era de sermos pegos e a emoção era de estar num lugar tão lindo.

Rio Triste em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Caminhando nas margens do Rio Triste

Rio Triste em Bom Jardim, vila do município de Nobres, que se considera a "nova Bonito".
Rio Triste

Ficamos ali um bom tempo curtindo o rio e felizes por termos fugido da opressão das agências. Quando nos demos conta, já era hora de voltar, afinal ainda precisávamos chegar em Cuiabá no fim da tarde para pegar nosso vôo de volta para casa.

O retorno


Foi o tempo de tomarmos um banho, arrumarmos as malas e partirmos. O dono da pousada e também da agência de turismo estranhou termos saído sem comprar nenhum voucher, mas azar o dele. Não precisamos de atravessadores para conhecermos o que queremos. Partimos e pronto e que se dane.

No caminho, passamos pela Usina Hidrelétrica de Manso e resolvemos conhecer seu lago. A ideia era almoçar em algum restaurante próximo, mas não conseguimos achar nenhum que nos agradasse e ficamos apenas com a bela paisagem do lago com a chapada atrás.

Lago do Mando, próximo à Bom Jardim
Lago de Manso

No fim, chegamos cedo em Cuiabá ainda a tempo de almoçarmos no delicioso Sesc Arsenal, um dos melhores que já fui. Era o fim de um aprazível feriado, que apesar de todas as críticas, nos rendeu ótimas lembranças e aprendizados.


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