sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O Morro da Igreja em dois atos


Pedra Furada vista do Morro da Igreja

Um dos mais espetaculares momentos, na nossa viagem de fim de ano, foi quando na cidade de Urubici, conhecemos o Morro da Igreja com sua inebriante vista para a Pedra Furada. O lugar nos agradou tanto que resolvemos ir até lá nos dois dias que ficamos na cidade. É claro que a neblina pesada que cobria toda a serra no primeiro dia nos ajudou a decidir por subir novamente no segundo, mas mesmo o clima enevoado e misterioso nos encantou e ficamos admirados com a beleza do lugar, que nem imaginávamos que existia pouco antes de chegar lá. É sobre esse paraíso encrustado em plena serra catarinense, que relato nesse post.

O Parque Nacional São Joaquim, onde localiza-se o Morro da Igreja é terceiro ponto mais alto do estado de Santa Catarina, considerado informalmente um dos lugares mais frios do Brasil, já que aqui em 1996 foi registrada a temperatura de -17,8oC. O parque foi criado em 1961 com o intuito de preservar a Mata de Araucária, de fato, abundante na região.

Parque Nacional São Joaquim, onde fica o Morro da Igreja
Muitas araucárias, no Parque Nacional São Joaquim

Parque Nacional São Joaquim, onde fica o Morro da Igreja

Morro da Igreja: 1º ato


A nossa ideia era chegar lá em cima para avistarmos a famosa Pedra Furada, que fica em frente ao morro, mas pra isso precisaríamos da cooperação de São Pedro, já que o tempo na região é instável e constantes neblinas assolam o lugar. Tentamos estudar os melhores horários para a subida e fomos conversar com o funcionário da secretaria de turismo da cidade para nos informarmos. Ele olhou pro céu (azul e sem nuvens naquele momento) e nos disse que daria para subir, mas  avisou categoricamente que não era garantia que veríamos algo. Subimos esperançosos os quase mil metros de altitude que separam o centro de Urubici (localizado a 900m de altitude) e o pico do morro (a 1822m de altitude), mas conforme ganhávamos altura, íamos nos aproximando de uma nuvem que parecia estar estacionada justamente no nosso destino final. E não deu outra. Chegamos no CINDACTA (posto da FAB, que controla todo o tráfego aéreo de Santa Catarina) e não víamos um palmo à nossa frente.

Morro da Igreja em dia de muita neblina
Morro da Igreja enevoado

A temperatura era deliciosamente amena e decidimos ficar algum tempo ali, torcendo para o tempo se abrir. Tanto insistimos que, como num milagre, a neblina se esvaeceu um pouco deixando descortinar justamente quem nós queríamos ver, a Pedra Furada. Aquela serração toda somada a imensidão do lugar me fez sentir num dos meus livros favoritos da adolescência, as Brumas de Avalon (da Marion Zimmer Bradley), justamente porque era depois da bruma que se chegava à cidade escondida, onde Morgana morava e fazia seus feitiços. Um livro que me introduziu às questões do feminismo, já que todo o protagonismo é das personagens mulheres, que precisam se haver com sua sexualidade e exigências sociais. A sensação era de que, mais alguns metros de caminhada no Morro da Igreja e chegaríamos à Avalon da minha juventude...

Névoa encobre a Pedra Furada, na serra catarinense.
Pedra Furada enevoada

Foi uma emoção ver a pedra surgindo por entre as nuvens, como se a paisagem tivesse se despindo e foi uma experiência tão intensa, que decidimos que no dia seguinte voltaríamos lá para de novo tentar vê-la sem tantas nuvens em volta. Queríamos vê-la inteiramente nua. E também tínhamos a esperança de que, no dia seguinte, que seria uma segunda-feira, o lugar fosse estar mais vazio, já que nesse primeiro dia, o morro estava repleto de visitantes.

Morro da Igreja: 2o ato

E não deu outra. Na manhã seguinte, bem cedinho, partimos pro parque e quando chegamos, éramos praticamente só nós dois lá em cima. Nós e um mar de morros à nossa frente, além da personagem principal, a Pedra Furada, que dessa vez não tinha sequer uma nuvenzinha em seu redor. São Pedro tinha caprichado e recebemos um presente, podendo ver e sentir aquela mundão à nossa frente. Foi incrível.

Pedra Furada, vista do Morro da Igreja em dia sem nuvem
Pedra Furada desnudada

Pedra Furada vista do Morro da Igreja em dia aberto

E caminhando pelo Morro da Igreja descobrimos que, na verdade, não é só a Pedra Furada que faz a gente perder o fôlego. É também o entorno de todo o parque, com cânions e paredões alucinantes, cobertos por uma vegetação verdinha e resplandecente.

Cânion no Parque Nacional São Joaquim, ao lado do Morro da Igreja
Cânion no Parque Nacional São Joaquim

Cânion no Parque Nacional São Joaquim, ao lado do Morro da Igreja

Nem sei por quanto tempo ficamos lá. O Thiago já tinha planejado levar o violão e ali ficamos, sentados nas pedras e ouvindo o som da natureza e das cordas do instrumento do meu amado. Bela despedida de Urubici e um dia pra nunca mais esquecermos.

Pedra Furada e o Morro da Igreja

Estrada no Morro da Igreja
O caminho de volta é sempre mais difícil

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