domingo, 8 de fevereiro de 2015

O Tirol brasileiro em Treze Tílias

"Como é bom, durante a primavera
Lançar mão do bastão de caminhada,
E, com flores o chapéu a ornamentar
Pelo Jardim de Deus poder vaguear..."  
(Trecho do poema Treze Tília de Friedrich W. Weber)
Centro de Treze Tílias

Treze Tílias fica no oeste catarinense e é uma daquelas cidadezinhas do Sul do país que faz a gente se sentir mesmo na Europa, mais especificamente, no Tirol (uma região da Europa Oriental, localizada na Itália e, principalmente, na Áustria). A cidade é fortemente influenciada por sua descendência austríaca tanto na arquitetura alpina com a presença da madeira talhada nas construções, quanto no modo de viver que valoriza sua própria cultura e economia. Sem contar os habitantes da região, quase todos brancos e louros e com sobrenomes de difícil pronúncia.
Foi nessa encantadora cidade que passamos quase dois dos melhores dias de nossa viagem de fim de ano pela região Sul do país e que relato a seguir.

Treze Tílias e a Cervejaria Bierbaum

Chegamos em Treze Tílias já no fim do dia e nosso único pensamento ao chegar na cidade era: onde fica a Bierbaum? Havíamos tomado uma cerveja de trigo dessa cervejaria, em Pomerode e, desde então, planejávamos visitá-la (leia-se: bebê-la). A Bierbaum é uma cervejaria artesanal ainda não muito famosa do Brasil, mas que produz cervejas e chopps excelentes. Como se não fosse muito, sua fábrica fica anexa a um dos melhores pizzarias de Treze Tílias, o Edelweiss, que vende o chopp fresquinho e com o mesmo preço que compramos da fábrica.
Por pura ironia do destino, nossa pousada ficava a um quarteirão de lá e inevitavelmente foi na Bierbaum que passamos nossas duas noites em Treze Tílias e também parte do nosso dia (comprando caixas de cerveja para trazer pros amigos e, principalmente, para nós mesmos).

Bierbaum, cervejaria de Treze Tílias
Noite cervejeira, na Bierbaum

Passamos momentos excelentes aqui e, sem dúvida, conhecer a Bierbaum (e bebericar as suas deliciosas cervejas) foi um dos pontos altos da viagem. Nossas noites na cidade, consistiam em experimentar todos os sabores de chopps possíveis e imagináveis (desde o pilsen até um chopp de abacaxi). Meu preferido ficou mesmo sendo o de trigo, que foi o primeiro que experimentei, mas todos são saborosos e imperdíveis.

Cervejaria Bierbaum, em Treze Tílias
Cervejaria Bierbaum

Conhecendo o centro de Treze Tílias...

Na manhã seguinte, apesar de uma leve ressaca que nos assolou, acordamos com gás total para conhecer os encantos da cidade na luz do Sol. E começamos o dia no lugar certo para conhecer sua história: a casa de seu fundador, Andreas Thaler.

Antes de se aventurar em terras brasileiras, Andreas Thaler foi Ministro da Agricultura na Áustria, mas vendo seu país em grave crise econômica com o fim da Primeira Guerra Mundial, resolveu emigrar com sua família para onde pudessem recomeçar suas vidas. A escolha do lugar passou por uma questão prática: a semelhança com clima austríaco e a fertilidade do solo, já que os emigrados eram quase todos camponeses.

Casa de Andreas Thaler, fundador de Treze Tílias
Casa de Andreas Thaler, fundador de Treze Tílias

O nome da cidade tem história curiosa, já que foi escolhido antes mesmo do imigrantes chegarem na cidade. Ela se deu, quando ao embarcar no Brasil, Thaler se deparou com um livro, na vitrine de uma livraria, cujo o título era Dreizehnlinden (em português, Treze Tílias), escrito pelo poeta alemão Friedrich W. Weber. O poema de 25 contos tem como palco o Mosteiro Dreizehnlinden, que se torna um oásis de paz em meio aos conflitos entre católicos e pagãos, no início da era cristã. Não à toa, Thaler escolheu para sua cidade o nome do tal mosteiro, querendo que Treze Tílias viesse proporcionar à ele, sua família e aos outros imigrantes a paz, que a Europa em conflito não poderia lhes oferecer, naquele momento.

Foto na casa de Andreas Thaler, fundador de Treze Tílias
Foto exposta na casa de Andreas Thaler

Passamos um bom tempo na casa do fundador, que é tombada e virou um pequeno museu. Conversamos bastante com a simpática funcionária do lugar, a Verônica, ela mesma descendente de austríacos e já tendo morado na Áustria e que nos contou longas histórias da cidade e de seu povo.

Saímos de lá e seguimos para a Igreja da Matriz e logo nos surpreendemos: seu interior era todo em madeira talhada. Não apenas a parte estrutural, mas como os ornamentos, o altar e até os santos. Começamos aqui a entrar em contato com a forte tradição da cidade em trabalhos com madeira. Um dos filhos de Thaler era artesão na Áustria e trouxe para Treze Tílias as técnicas de lá, passando para seus filhos (que também se tornaram artesãos) a tradição. O resultado é que hoje a cidade tem quase todas as casas construídas em madeiras ornamentadas, coisa linda de se ver.

Igreja da Matriz de Treze Tílias
Igreja da Matriz, toda trabalhada em madeira

Igreja de Treze Tílias

Em frente à Igreja, fica uma simpática pracinha, toda arborizada e florida, que tem como ponto principal a estátua de seu fundador.

Igreja da Matriz e o busto de Andreas Thaler, fundador de Treze Tílias.
Igreja da Matriz e o busto de Andreas Thaler

Caminhando por Treze Tílias, o que mais me chamou a atenção foi uma peculiar unanimidade nos telhados da casa: quase todas tem um galo feito de alumínio (ou material que o valha) que fazem as vezes de um catavento. Essa é outra tradição trazida do Tirol e que deixa a cidade ainda mais charmosa. Uma das minhas diversões na cidade foi conseguir diferentes ângulos dos galos.

Galo no telhado típico de Treze Tílias

Galo no telhado típico de Treze Tílias
O tradicional galo tirolês e os ornamentos em madeira frequentes na cidade

Linha Babemberg e a Via Sacra

Depois de conhecer a área urbana da cidade, resolvemos desbravar a sua zona rural, passeando por lindas estradas de terra cheias de fazendas de produção familiar. Nossa ideia era conhecer a Linha Babemberg, que segundo nossas pesquisas era onde se encontrava a casa mais antiga da cidade e também uma pequena capela rodeada por esculturas em madeira representando a via sacra. Foi nessa região que os primeiros imigrantes se instalaram e conhecer essa parte da cidade foi fundamental para entendermos o que enfrentaram esses primeiros habitantes.

Casa mais antiga do tirol brasileiro
A casa mais antiga da cidade

Na verdade, foi bem difícil fazer esse roteiro, tanto pela chuvinha fina que insistia em cair, tanto pela falta de sinalização, que nos fez andar em círculos sem que achássemos os lugares que queríamos. Mas tanto pelejamos, que conseguimos e valeu a pena todo a procura, pois descobrimos uma verdadeira preciosidade encravada naquele lugar.

Zona rural de Treze Tílias
Zona Rural de Treze Tílias

A Capela de Babemberg é a primeira da cidade, construída em 1934 toda em madeira. É bem pequenina e charmosa e a mata ao seu redor dá à ela um ar ainda mais bucólico. Mas o que mais nos interessou mesmo foi a incrível Via Sacra, uma espetacular série de doze obras esculpidas em madeira que formam uma trilha ao redor da capela, percorrendo um lindo caminho, que nos ofereceu um delicioso passeio por entre belas paisagens.

Capela de Babemberg, na zona rural de Treze Tílias
Capela de Babemberg

Via Sacra esculpida em madeira, na zona rural de Treze Tílias
Via Sacra esculpida no entorno da capela

Via Sacra esculpida em madeira, na zona rural de Treze Tílias

Passamos uma agradável manhã por ali e nos surpreendemos com o fato de sermos os únicos turistas a explorar aquele lugar tão rico. Talvez, pela chuvinha fina que caía, talvez pela dificuldade de acesso, mas a impressão é que o lugar é mesmo pouco conhecido, infelizmente.

Parque Lindendorf

Quando saímos de lá, a fome já apertava e aproveitamos para almoçar num dos lugares mais famosos da cidade, o Parque Lindendorf.  O almoço valeu mais pelo clima tirolês (com direito a música típicas e clips austríacos) do que pela comida em si. E mesmo o parque não nos agradou tanto, já que nos pareceu excessivamente turístico. O que mais nos chamou atenção lá foi a impressionante maquete de  350m² da cidade de Treze Tílias, riquíssima em detalhes.

Maquete de Treze Tílias
Impressionante maquete de Treze Tílias, no Parque Lindendorf
(na foto, a Casa do Fundador em miniatura)

Bandeira da Áustria, no Parque Lindendorf, em Treze Tílias
Bandeira da Áustria flamula do Parque Lindendorf

No parque, conhecemos também a Tília, árvore originária do Hemisfério Norte e que foi plantada especialmente no parque no número de treze exemplares da espécie, referência ao nome da cidade e ao mosteiro do poema de Weber, que me referi anteriormente e que foi a inspiração de Andreas Thaler.

Folha da tília, no tirol brasileiro
Folha da Tília

Mas a verdade é que apesar do agradável dia, saímos do parque já salivando de vontade do chopp da Bierbaum e foi pra lá que fomos sem pestanejar. Ficamos no bar da fábrica experimentando os diferentes sabores e escolhendo que cervejas levaríamos pra casa (e foram muitas!) e só saímos pra tomar um banho e logo depois voltamos pra lá, dessa vez pra nossa noite de despedida.

Treze Tílias foi uma das melhores surpresas dessa viagem e suas encantadoras casas, seu povo altaneiro e sua cerveja ficarão eternamente na nossa memória.


Ainda sobre o mesmo roteiro:


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