domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Serra Catarinense: Urubici

Cachoeira do Avencal, em Urubici

Até bem pouco tempo, Urubici era pra mim uma ilustre desconhecida. Não sabia, na minha santa ingenuidade que a região da Serra Catarinense possuía tantas belezas, como descobrimos na nossa viagem de fim de ano. A cidade, em si, é bem simples e tem pouco menos de onze mil habitantes, quase todos pequenos agricultores de hortaliças e maçãs. Aliás, isso me encantou na cidade, que é cheia de terrenos com lindas casinhas construídas na frente e belas hortas plantadas atrás. Não vimos grandes fazendas por aqui e, sim, simpáticas e autênticas propriedades familiares. Claro que isso me agradou, principalmente depois de termos a experiência assustadora de viajar pelos latifúndios do agronegócio matogrossense, quando conhecemos a Chapada dos Guimarães.
Apesar da simplicidade de Urubici,  suas redondezas escondem verdadeiras maravilhas da natureza com paisagens grandiosas, cachoeiras magníficas e trilhas de (literalmente) tirar o fôlego. Passamos dois dias magníficos na cidade e saímos com a sensação de que precisaremos voltar. E, de preferência, no inverno.

A estrada para Urubici, por si só, já é um deslumbre com lindas florestas de araucárias e pinheiros. Eu nunca tinha visto tantas dessas árvores juntas, já que estou acostumada com a  Serra da Mantiqueira, onde temos exemplares isolados apenas. Andamos quilômetros por entre essa paisagem, principalmente nas cercanias de Urupema, que aliás tem a araucária como seu símbolo. Urupema é considerada a cidade mais fria do Brasil e foi curioso passar por ali em pleno verão brasileiro e ver as pessoas com roupas de frio. Fico imaginando como não deve ser em julho.

Chegando em Urubici, na serra catarinense.
Floresta de araucárias e pinheiros
(foto feita com o carro em movimento)
Aproveitamos a passagem pela pequena cidade para conhecer um de seus mais famosos atrativos: a cachoeira que congela. Obviamente, que em pleno sol de janeiro, a água corria sem dificuldades e não vimos nem sombra de gelo, mas o relato é que nos dias mais frios do inverno a pequena cascata vira quase um escorrega. Para provar, uma foto mostra o lugar, de fato, congelado, mas nós teremos que voltar em julho para ver com nossos próprios olhos esse evento raro em nosso país.

Cachoeira que Congela, nas proximidades de Urubici
Cachoeira que congela descongelada

A pacata Urubici

Depois de algumas boas horas de viagem, finalmente, chegamos na pacata Urubici e logo achamos uma deliciosa pousada, no centro da cidade. Depois de uma boa prosa com a dona do lugar, Dona Célia, partimos para jantar, num restaurante recomendado por ela e a diversão da noite foi observar as inúmeras aranhas que teciam suas teias e brigavam entre si pelos mosquitos, nas árvores ao lado da nossa mesa.

Na manhã seguinte, estávamos preparados para conhecer tudo que a cidade tinha a nos oferecer, mas nosso principal objetivo era mesmo chegar ao Morro da Igreja, dentro do Parque Nacional São Joaquim e terceiro ponto mais alto do estado de Santa Catarina, considerado informalmente um dos lugares mais frios do Brasil.  A experiência lá foi tão marcante, que subimos o morro nos dois dias que passamos na região, encontrando paisagens completamente diferentes em cada um dos momentos. Em função disso, deixarei para escrever sobre esse misterioso lugar, num post separado.
Pedra Furada, em Urubici
Pedra Furada por entre as nuvens

Pedra Furada, em Urubici
A mesma Pedra Furada
(no dia seguinte)

Na primeira descida do Morro da Igreja, paramos no meio do caminho para conhecer uma das inúmeras cachoeiras da região, a Véu da Noiva, dentro de uma propriedade particular e com um delicioso restaurante, onde aproveitamos para já almoçar antes de continuarmos o dia.
O Thiago não resistiu e caiu na cachoeira com roupa e tudo, apesar da água gelada e da presença de mutucas gigantes, que pareciam que nos carregariam pelos ares.

Cachoeira Véu da Noiva, em Urubici
Cachoeira Véu da Noiva

Cachoeira do Avencal e pinturas rupestres em Urubici 

Dali, seguimos pro outro lado da cidade, em direção ao Morro do Avencal. No caminho, paramos num sítio arqueológico, onde encontram-se inscrições rupestres datadas de quatro mil anos atrás. Apesar de ser impressionante pensar que povos pré-históricos habitavam aquela região e da imaginação ficar tentando conceber como seria a vida dessas pessoas, a verdade é que as inscrições mesmos são incompreensíveis para nós que não somos estudiosos do assunto. Parecem riscos sem sentido e quase infantis. Senti falta de uma explicação maior sobre o lugar, mas será que ela existe? Ou a vida desses povos milenares ainda não foi totalmente compreendida por nossa ciência moderna?

Inscrições rupestres, em Urubici
Inscrições Rupestres

Ali mesmo no sítio arqueológico, tivemos nosso primeiro contato com a fenomenal Cachoeira do Avencal, localizada ainda distante, mas com seu porte descomunal, conseguimos avistá-la mesmo de longe. Fiquei admirando-a por um bom tempo antes de partimos e, obviamente, seguimos direto para ela, já que queríamos conhecê-la de bem pertinho.

Cachoeira do Avencal, em Urubici
Cachoeira do Avencal

Continuamos a estrada e logo chegamos na propriedade particular em que a cachoeira se localiza. Deixamos o carro bem próximo do abismo e logo chegamos no mirante que dá vista para a descomunal queda de cem metros de profundidade.

Cachoeira do Avencal, em Urubici
Cachoeira do Avencal

Saímos de lá embaixo de uma chuvinha fina, que felizmente foi rápida e não chegou a nos atrapalhar. Resolvemos esperar o tempo melhorar, estacionados no Mirante do Avencal, na rodovia próxima à cachoeira e que tem uma linda vista de Urubici. Dali, temos a noção exata de como a cidade se localiza num vale (conhecido como Vale do Rio Canoas), espremida entre montanhas, tanto é que a altitude da cidade é de apenas 900m, enquanto que os morros em volta chegam a 1800m. Lá do alto, pudemos entender bem a geografia do lugar.

Urubici
Urubici chuvosa

Morro do Campestre 

Quando a chuva passou, tratamos de voltar para a pousada, mas logo partimos para um dos lugares que mais nos interessaram, quando começamos a pesquisar sobre a cidade: o Morro do Campestre. Dona Célia havia nos dito que de lá teríamos um lindo pôr do sol e nós, apaixonados por entardeceres, decidimos que subiríamos o tal morro a todo custo. O que não contávamos era com a duração do dia de verão, naquelas bandas sulinas, que vai tranquilamente até quase 21h. Saímos cedo demais da pousada, mas seguimos para nosso passeio, mesmo com o sol ainda alto. No caminho, percebemos que havia um carro que parecia estar indo para o mesmo lugar que que nós. Estávamos certos e os dois carros entraram juntos na pequena propriedade, onde se localiza o morro. Eu, que inicialmente fiquei incomodada com a presença de mais gente no lugar, logo percebi que estava imensamente errada em reclamar, quando a zeladora nos comunicou que só conseguiríamos subir com carro alto, já que a chuva havia piorado alguns trechos de lama no caminho. E não é que o outro carro era alto e não é que o simpático casal nos ofereceu carona até lá encima? Assim foi que subimos juntos e com algum perrengue o sinuoso morro até o início da trilha.

Conforme, íamos subindo, um mundo se descortinava à nossa volta. O fértil vale com suas plantações aparecia junto com o reflexo do rio no horizonte. Uma beleza que compensava o esforço da subida cansativa.

Plantações no Vale do Rio Canoas, em Urubici
Plantações no Vale do Rio Canoas

Rio Canoas, em Urubici
Rio Canoas cortando a paisagem

Quando chegamos no alto do morro, um conjunto de pedras furadas nos recepcionou em grande estilo. Ficamos um bom tempo desbravando as pedras e curtindo a vista lá de cima. O Thiago não se conformou e subiu ainda mais e chegou em cima da pedra mais alta, por um caminho apertado e perigoso. Tão perigoso que eu e o outro casal não tivemos coragem de segui-lo.
Não ficamos até o pôr do sol (até porque estávamos de carona), mas mesmo assim valeu demais ter ido até lá.

Morro do Campestre, em Urubici

Morro do Campestre, em Urubici
Morro do Campestre

Para descer, todo santo ajuda e rapidamente estávamos de volta à casa da zeladora e nos despedimos dos nossos anjos, que nos permitiram chegar até lá. E para mim, essa foi uma grande lição, pois aquela situação me fez aprender (mais precisamente, relembrar) que sempre vão haver momentos que precisaremos pedir ajuda e é sempre um grande desafio assumirmos que temos limitações.

Com mais essa lição aprendida, partimos e com a tarde linda que fazia, não quisemos voltar pra pousada. Decidimos conhecer mais uma das maravilhas da cidade e seguimos para o Arroio do Engenho. O caminho já foi uma surpresa, pois passamos por araucárias gigantescas com placas que indicavam terem mais de 400 anos de existência. Pela grossura do tronco e altura das árvores, deviam ser mesmo centenárias.
Mas, chegando no arroio, descobrimos que teríamos que fazer uma longa trilha para conhecer todo o lugar e achamos que era arriscado estarmos na mata à noite, já que começava a escurecer. Bom, esse é mais um motivo para voltarmos pra cidade, já que o lugar parece ser lindo e, segundo o proprietário, tem uma cachoeira que borrifa gotículas de água que, no inverno, viram neve. Será mesmo? Só voltando na época de frio para saber.

Araucária em Urubici
Araucária de 400 anos de idade

Enfim, nosso intenso dia terminava e com a temperatura amena do verão urubiciense, me permiti até jantar um delicioso fondue de queijo, num restaurante mais arrumadinho (e cheio de pose) da cidade.
Fomos dormir sonhando para que o dia seguinte fosse de céu azul e sem neblina para nossa segunda subida ao Morro da Igreja e, ainda bem, São Pedro parece ter ouvido nossas preces. Mas isso eu conto no próximo post.


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