quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pelos jardins e obras de Inhotim

"arte que te abriga arte que te habita 
arte que te falta arte que te imita 
arte que te modela arte que te medita 
arte que te mora arte que te mura 
arte que te todo arte que te parte 
arte que te torto ARTE QUE TE TURA"
(Paulo Leminski)
Pelos jardins de Inhotim

Minha primeira visita ao Instituto Inhotim foi nos idos de 2011. Estava hospedada na casa dos pais de um amigo querido e eles gentilmente me emprestaram o carro para que eu fosse conhecer o famoso museu, que fica distante 60km da capital mineira. A experiência de estar sozinha naquele momento foi marcante e decisiva para que eu conseguisse estar mais integrada ao lugar. Quase quatro anos depois, voltei, mas dessa vez não mais sozinha, pude vivenciar o instituto compartilhando do olhar do Thiago, que completou (como sempre completa) o meu.


Pelas obras de Inhotim
A origem da obra de arte
Marilá Dardot, 2002
Não sou grande frequentadora de museus, apesar de ter sempre sido uma apreciadora de arte. Lembro que uma das minhas primeiras atividades após me mudar pra São Paulo foi entrar num curso de história da arte no MASP, onde vivi momentos deliciosos sobre o fazer artístico e muitas das obras que sempre admirei por pura sentido estético, passei a também admirar pela técnica e pelo contexto em que foram elaboradas. Curioso que nesses estudos informais nunca me interessei muito por arte contemporânea. Talvez, por um excesso de saudosismo (mesmo do que não vivi) que me faz gostar mais do que já passou, talvez por não serem trabalhos de fácil entendimento, nem serem sempre belas esteticamente. Ou talvez por tudo isso junto. Mas a verdade é que nunca me senti muito atraída por artistas como Lygia Clark, Helio Oiticica, ou Tomie Ohtake apesar de respeitar e ver o valor do trabalho de cada um deles.

Pelas obras de Inhotim
Galeria Lygia Pape
2012

Descobrindo Inhotim

E foi nesse espírito pouco contemporâneo que me é peculiar que visitei o Inhotim sem a  expectativa de admirar cada obra e ficar horas estudando os detalhes de cada galeria. Meu interesse era caminhar pelo museu livremente e sem grandes pretensões, permitindo-me descobrir os encantos daquele lugar, que apresenta um fantástico projeto de paisagismo com flores e árvores exóticas, além de observar a harmonia (ou desarmonia) que a paisagem teria com a arte contemporânea ao seu redor.

Pelos jardins e obras de Inhotim
Troca-troca
Jarbas Lopes, 2002

Mas, confesso que, apesar de não ter sido o objetivo principal, várias obras me encantaram, me emocionaram, me divertiram, me fizeram pensar e brincar. Fiquei tão inspirada que acabei transformando meu olhar fotográfico em algo mais e decidi deixar fluir minha verve artística nas fotos que fiz nas duas visitas que fiz ao Instituto, mas principalmente na primeira delas, em que meu olhar era solitário e ainda virgem para os encantos do Inhotim. Portanto, acabei me permitindo colocar nesse post o resultado desses dois dias de explorações e nas fotos há algo além do registro histórico. As fotos mostram um Inhotim particular e o que suas obras de arte (da natureza e do homem) causaram em mim.

Pelas obras de Inhotim
Inmensa
Cildo Meireles, 1982

E vou me permitir aqui escrever sobre as obras que mais me chamaram a atenção. Algumas pela beleza plástica, outras pela criatividade, ou pela sensações cenéstesicas que me geraram, assim como as reflexões e sentimentos. Isso é ago que acho bem interessante na proposta da arte contemporânea, que é de viver a arte não apenas com a visão, como na pintura clássica, mas também com ouvidos, toque, cheiros, paladar e qualquer outro sentido que nos permitamos. É incrível como um único museu pode gerar tantas experiências dessas ao mesmo tempo pro visitante, como o Inhotim.

Pelas obras do Inhotim.
Viewing machine
Olafur Eliasson, 2002

Aliás, um museu particular, diga-se de passagem. Fundado em 2002 por um empresário que coleciona obras de arte desde a década de 80 e que soube como ninguém transformar sua coleção pessoal em fonte de renda. Ao menos, o dinheiro que pagamos para entrar é bem empregado, quando nos deparamos com a fantástica organização e impecável cuidado em cada detalhe, desde a disposição das galerias até o deslumbrante paisagismo.

Pelas obras do Inhotim
Piscina
Jorge Macchi, 2009

As obras do Inhotim

Meu primeiro momento no Inhotim foi numa obra do Oiticica, bem em frente a um dos lagos e que tem uma série de paredes coloridas em disposições aparentemente desconexas, que tem o objetivo de tornar o espaço penetrável e público, questionando a arquitetura dentro da arte. A ideia é interessante e podemos passear livremente por entre o labirinto de paredes, além daquela mistura de cores criar um lindo mosaico.

Pelas obras do Inhotim
Invenção da cor penetrável magic square
Helio Oiticica, 1977

Pelas obras do Inhotim.
Invenção da cor penetrável magic square
Helio Oiticica, 1977

Hélio Oiticica foi um dos artistas brasileiros mais importantes de todos os tempos e sua obra se propõe suprassensorial (um estado que, segundo ele, seria semelhante ao experimentado no uso de drogas alucinógenas), onde os sentidos se misturam e confundem, permitindo ao expectador não só uma atitude contemplativa da obra de arte, mas também participativa, no que o próprio artista considerava ser um exercício experimental de liberdade. Um dos exemplos dessa proposta é a Galeria Cosmococa, uma das mais famosas do Inhotim e cheia de sensorialidade, desde a música alta, imagens projetadas nas paredes e nos corpos dos visitantes, passando pela experiência de deitar em redes ou colchões e até de nadar numa piscina que parece intergaláctica. Uma experiência única e inesquecível.

Pelas obras do Inhotim.
Galeria Cosmococa
Helio Oiticica, 1973

Pelas obras do Inhotim.
Galeria Cosmococa
Helio Oiticica, 1973

Pelas obras do Inhotim.
Galeria Cosmococa
Helio Oiticica, 1973

Pelas obras do Inhotim.
Galeria Cosmococa
Helio Oiticica, 1973

Já na minha segunda visita, começamos a caminhada pela badalada galeria da Adriana Varejão, uma das artistas brasileiras mais exaltadas da contemporaneidade. Tanto que o Inhotim dedica um prédio inteiro para exposição permanente de algumas de suas obras cheias de pinturas em azulejo. O projeto arquitetônico da galeria é do arquiteto Rodrigo Cerviño Lopez e foi um dos meus preferidos em todo o museu, construído em cima de um espelho d'água que se confunde com o prédio. A sensação ao chegar ali é que parte da construção flutua sobre as águas.

Pelas obras do Inhotim.
Galeria Adriana Vareijão
2008

Pelas obras do Inhotim.
Galeria Adriana Vareijão
2008

Mas a minha obra preferida mesmo foi o Narcissus garden, cujo o autor a concebeu inicialmente para a Bienal de Veneza, onde vendia extra-oficialmente bolas espelhadas e entre elas podia-se ler a frase: "seu narcisismo à venda". O artista acabou sendo expulso da bienal por vender as tais bolas sem autorização, mas seu trabalho teve grande impacto no questionamento da mercantilização e repetição na arte. Na minha primeira visita ao Inhotim, ainda era possível mexer nas pelotas que flutuam em cima de um espelho d'água no telhado de uma das construções. Passei um bom tempo lá brincando e me deliciando com o barulho que elas faziam ao se tocarem, além de, obviamente, passar um bom tempo fotografando narcisicamente meu reflexo nelas, já que não podia comprá-las, como na antiga bienal. Quando voltei três anos depois com o Thiago, um dos lugares que eu mais queria levá-lo era ali naquele telhado, mas dessa vez a regra tinha mudado e já se podia mais tocar em nada. Pra mim, ficaram as lembranças e as fotos de um tempo mais lúdico. Ainda bem.

Pelas obras do Inhotim.
Narcissus gardem
 Yayoi Kusama, 1966

Pelas obras do Inhotim.
Narcissus gardem
 Yayoi Kusama, 1966

Pelas obras do Inhotim.
Narcissus gardem
 Yayoi Kusama, 1966

Pelas obras do Inhotim.
Narcissus gardem
 Yayoi Kusama, 1966

Ao sair das galerias e caminhar livremente pelo Inhotim, vamos encontrando várias surpresas, como uma mesa gigante, cujas bases são outras mesas menores e assim sucessivamente no meio de um passeio público (foto mais acima nesse post), ou como um conjunto de enormes pedaços de metal enterrados no chão, que descobrimos terem sido atirados por um guindaste de uma altura de 45 metros. Impossível não imaginar como terá sido esse dia performático, em que dezenas de vigas de metal voaram pelos céus de Brumadinho.

Pelas obras do Inhotim.
Beam drop Inhotim
Chris Burden, 2008

Pelas obras do Inhotim.
Beam drop Inhotim
Chris Burden, 2008

Os Jardins de Inhotim

Tudo isso permeado por um belíssimo projeto de paisagismo com flores, árvore, lagos e gramados de tirar o fôlego. Apesar de ter forte influência de Burle Marx a quem o Inhotim delega a autoria do projeto paisagístico, o arquiteto Luiz Carlos Brasil Orsini ganhou na justiça o direito de ter seu nome assinado como paisagista principal do instituto, uma polêmica que só descobrimos nas páginas dos jornais e não dentro do museu. Mas, independente do autor, os jardins do museu são os mais lindos que já pisei.

Pelos jardins do Inhotim.
Pelos belos jardins do museu

Pelos jardins do Inhotim.

Pelos jardins do Inhotim.

Pelos jardins do Inhotim.

Enfim, o Inhotim é um daqueles lugares que todo brasileiro deveria ir uma vez na vida, pelo menos. Pra falar bem, ou mal, não importa. Mas precisamos saber que nosso país também sabe fazer museus criativos e divertidos.

Pelos jardins do Inhotim.

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