quinta-feira, 23 de abril de 2015

Paranapiacaba, lá onde o píííí acaba...


Paranapiacaba

A Serra do Mar é linda de qualquer ângulo. É claro que as paisagens que ela compõe em em algumas praias do litoral fluminense, assim como do paulista e até mesmo do litoral catarinense chamam atenção por juntar morros e mar num único e paradisíaco panorama, que é difícil de ver igual em outra parte do nosso litoral. Mas nem só de praia vive a beleza da Serra da Mar e Paranapiacaba está aí para provar isso. Entranhada no alto da serra, a vila de pouco mais de mil habitantes e pertencente à cidade de Santo André é cercada pela mata Atlântica, vivendo ares europeus, não só pela forte influência inglesa na sua fundação, mas também ao clima instável e muito propenso a neblinas.
Depois que descobri que com menos de uma hora de viagem a partir da caótica São Paulo, podíamos estar mergulhados na tranquilidade e placidez da vila e rodeados por uma natureza verdejante, passei a ser frequentadora assídua do lugar, que virou uma espécie de refúgio para mim, principalmente por poder ir até lá e voltar pra casa no mesmo dia.


Paranapiacaba
Já na chegada, Paranapiacaba causa impacto, quando da parte alta avistamos a Estação Ferroviária e a pequena vila que foi construída em suas margens. Já fica claro aí que a cidade foi toda planejadinha e que as casas seguem, mais ou menos, o mesmo padrão, exceto por uma delas, localizada no alto de uma colina e nitidamente maior e mais bem acabada que as demais. Trata-se da casa do engenheiro-chefe da estação de trem que deu origem ao vilarejo. Lá do alto ele tinha vista privilegiada não só das belezas naturais que o cercavam, mas também da própria vila e, principalmente, da estação, conseguindo assim controlar melhor o fluxo de trens. De lá, ele também vigiava a vida dos funcionários, conseguindo saber a que horas cada um voltava pra casa e se era respeitada a rígida hierarquia, que balizava a convivência social do lugar.



Paranapiacaba
Vila de Paranapiacaba vista do alto com a casa do engenheiro-chefe em destaque à direita

Era uma vez, em Paranapiacaba... 

A estação de trem em questão era da São Paulo Railway Company, uma empresa inglesa criada especialmente para construir a primeira estrada de ferro do estado de São Paulo, que ligaria o planalto paulista, grande produtor cafeeiro, ao porto de Santos de onde nosso café partia direto para a Inglaterra, em plena Revolução Industrial, em meados do século XIX.
Antes disso, o café era transportado pelos tropeiros, em longas e exaustivas viagens de mula, passando principalmente pela Estrada Velha de Santos. Sem dúvida que a ferrovia diminuiu o tempo de transporte, aumentando o escoamento da produção cafeeira brasileira. Mas o lucro da empresa, claro, ia pra Inglaterra, que coincidentemente era quem também consumia boa parte do café produzido por aqui. A ferrovia foi um grande negócio para os ingleses, evidentemente. Tanto que após 80 anos, que era o tempo do contrato com a São Paulo Railway, a ferrovia foi incorporada à RFFSA (Rede Ferroviária Federal) e progressivamente perdendo importância e hoje é praticamente apenas um caminho turístico, sem importância comercial. Aliás, é difícil de entender como o Brasil com seu tamanho de proporções continentais tem tão poucas ferrovias, já que sua manutenção é mais barata e a capacidade de transporte é bem maior do que a de caminhões.

Paranapiacaba
Estação de Trem 

Relógio inglês em Paranapiacaba
Destaque do relógio original inglês, na estação ferroviária

Por essas e por outras, estar em Paranapiacaba é viver essa incoerência latina em sua plenitude. As casas, quase todas em madeira, vivem hoje um certo abandono e não é difícil encontrar alguma em ruína. Seus habitantes atuais já não são mais ingleses, mas continuam sendo operários e pobres. O que ocorreu foi que em 2002, a prefeitura de Santo André comprou a vila que pertencia a RFFSA e, desde então, tenta investir no turismo do lugar, dando incentivos fiscais a quem vai morar ali. Mas a verdade é que, apesar de todo charme, Paranapiacaba vive, sim, ares de um abandono. O que, felizmente, não tira seu encanto e nostalgia de um passado que insiste em não desmoronar.

Casas abandonadas em Paranapiacaba
Casas abandonadas

Casa abandonada em Paranapiacaba

Paranapiacaba e seus festivais

Justamente para incentivar o turismo, a vila organiza inúmeros eventos ao longo do ano, que deixam a cidade mais alegre e viva. O mais famoso deles é o Festival de Inverno, em que várias atividades e shows acontecem ao mesmo tempo e é possível se sentir numa festa de interior, estando a pouco mais de 50km de São Paulo. Nós já fomos algumas vezes ao festival e sempre vale a pena, pelos shows e pelo clima gostoso (sempre friozinho).

Festival de Inverno de Paranapiacaba
Show de jazz na rua, durante o Festival de Inverno

Outra festa da cidade é o Festival do Cambuci, um dos meus preferidos, já que a cidade não fica tão cheia quanto no do Festival de Inverno, mas ainda tem atrações bacanas e, o melhor, seus restaurantes passam a oferecer várias opções diferentes para se comer o cambuci. A festa, em geral, é em abril, na época da colheita dessa fruta bem frequente na região. Eu, particularmente, não resisto ao bolo de cambuci que o Café Raízes da Terra faz só nessa época do ano. Só de me lembrar já dá água na boca.

Festival do Cambuci, em Paranapiacaba
Show de rock em meio a neblina, no Festival do Cambuci

Mas a festa mais curiosa que eu já participei em Paranapiacaba foi mesmo a Convenção das Bruxas, que acontece nas noites de lua cheia do mês de maio de cada ano. As tais bruxas se reúnem por lá, organizando palestras e numa das noites há uma procissão com velas e rituais, onde elas se vestem a caráter (com direito àquele chapéu pontudinho típico). Não conheço muito dessa cultura, mas achei tudo muito curioso e o que percebi é que há grande interesse pela integração do Homem com a natureza, nesses rituais.

Convenção das bruxas, em Paranapiacaba.
Convenção das bruxas

Acredito que o interesse das bruxas por Paranapiacaba vem de um certo ar de mistério que a vila possui, principalmente quando suas ruas são tomadas por uma intensa serração, que muitas vezes impede que enxerguemos um palmo a frente. E não é difícil que após algumas horas de Sol forte e céu azul, a neblina chegue sorrateira e tome completamente o lugar da paisagem. A primeira vez que vivi isso, me senti materializada num dos meus livros preferidos da adolescência, As Brumas de Avalon, da Marion Zimmer Bradley. Caminhei na cidade como a Morgana, bruxa e personagem principal do livro. Aqui na minha fantasia, acredito que a pessoa que teve a ideia de organizar a Convenção delas aqui em Paranapiacaba também leu esse livro e experimentou a mesma sensação que eu, caminhando na neblina da vila.

Neblina em Paranapiacaba.
Vagões abandonados em meio à neblina

Neblina em Paranapiacaba

A vida na Vila de Paranapiacaba

Mas não é só de festas que vive a cidade e é muito interessante a visita mesmo num fim de semana comum, quando podemos ver o cotidiano dos habitantes e caminhar tranquilamente pelas casas de madeira vermelha, típicas da vila. Dá para perceber a rigidez com que viviam os antigos operários num regime quase de castas, sem poderem se misturar com os engenheiros. Haviam também diferentes habitações para casados e solteiros, que não podiam ter contato uns com os outros. Viviam uma vidinha que devia ser bem dura e controlada. Não muito diferente dos habitantes atuais que, pelo menos, tem a liberdade de conviverem entre si sem restrições, já que são todos da mesma casta: pobres.

Arquitetura inglesa de Paranapiacaba

Avenida Fox, placa de Paranapiacaba
Daniel Makinson Fox foi o engenheiro executor da construção da São Paulo Railway

Paranapiacaba também tem várias trilhas pela Serra do Mar que devem ser deslumbrantes, mas ainda não fizemos nenhuma delas, assim como nunca pernoitamos na vila, coisa que queríamos fazer há tempos e que nunca tivemos oportunidade. O bom é que sempre temos motivo pra voltar.


Mais fotos:



Trens abandonados em Paranapiacaba

Paranapiacaba

Paranapiacaba

Paranapiacaba


Informações Práticas:

Como chegar?

De carro: Saindo de São Paulo, pela Rodovia Anchieta (saída no km 29) são 60km de viagem até Parapiacaba e o caminho é todo sinalizado.
De trem: Em São Paulo, é possível pegar o trem na Estação Brás e descer na Estação Riacho da Serra, onde um ônibus segue até o ponto final, já em Paranapiacaba.
Expresso Turístico: passeio organizado pela CPTM, sempre aos domingos, quando é possível chegar na vila com uma locomotiva da década de 50. Mais informações aqui.

E os festivais acontecem quando?

Festival de Inverno: acontece durante os finais de semana do mês de julho com programação divulgada em vários sites. É o maior e mais famoso festival da cidade
Festival do Cambuci: sempre nos três últimos finais de semana de abril
Convenção das bruxas e dos magos: É organizada pela Universidade Livre Holística Casa da Bruxa e ocorre sempre no mês de maio. A programação, o tema de cada ano e os objetivos do encontro estão disponibilizados no site do evento


(informações atualizadas em novembro de 2015)


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