sábado, 11 de abril de 2015

Paraty para todos

Cetro histórico de Paraty visto do mar

Paraty já nasceu imponente. A cidade foi o principal pólo de exportação de ouro e diamantes, durante o período colonial brasileiro. Pela Estrada Real chegavam das Minas Gerais centenas de toneladas desse rico metal para ser levado diretamente para Europa. Pela sua localização favorável, no fundo de uma baía de mar calmo, encontra-se praticamente numa fortaleza natural que servia de proteção contra piratas e invasores e o lugar ideal para desembarque dos metais preciosos. A cidade, então, desenvolveu-se em torno do porto e sua arquitetura foi toda ajustada às condições do mar, tanto que seu calçamento em pé de moleque, permite que a maré que invade sazonalmente seu centro histórico tenha sua água reabsorvida. Com o fim do Ciclo do Ouro, Paraty caiu no ostracismo, o que permitiu a preservação de seus casarios e modo de vida pacato até os dias de hoje e que é justamente o que atrai os turistas para aquela região.

Arquitetura colonial do centro histórico de Paraty.
Arquitetura colonial 

A cidade litorânea mais ao sul do estado do Rio de Janeiro faz parte da minha vida e nem me lembro a idade que tinha quando lá fui pela primeira vez. Morei boa parte da minha infância na vizinha Angra dos Reis, num distrito pequenino chamado Jacuecanga e nos finais de semana que não passeávamos de barco, íamos visitar a cidade vizinha mais turística e famosa. Fui lá dezenas de vezes, quando morava próximo e depois voltei a frequentá-la na faculdade. Já formada, ainda passei por lá muitas vezes e na companhia do Thiago já se foram mais três visitas: uma durante a FLIP de 2012, outra no reveillon de 2013, quando fomos para Calhaus e, por último no feriado de páscoa desse ano, que será o tema desse post. Em 2012, eu e Thiago fazíamos nossa primeira viagem juntos e estávamos hospedados em Ubatuba. Foi uma viagem inesquecível, sobre a qual eu nunca fiz um relato detalhado, já que nossa intenção era mais curtirmos um ao outro do que desbravarmos muitos lugares, apesar de termos rodado bastante de carro naquela ocasião, passando além de Paraty e Ubatuba também pela nossa adorável São Luiz do Paraitinga.

Centro histórico de Paraty

Mas, apesar de tantas visitas, fazia tempo que eu não me hospedava no Centro Histórico e foi agora na páscoa que tiramos esse atraso. Como sempre, não planejamos nada da viagem, mas conseguimos descolar uma pousadinha marota e barata bem perto do burburinho e conseguimos curtir a cidade do jeito que a gente gosta. Chegamos já no fim da tarde e não resistimos a uma caminhada pelo calçamento de pé de moleque, que muito me lembra Trinidad, cidade cubana que se parece em tudo com esse centrinho de Paraty. A ideia era procurarmos algum lugar pra tomar uma cervejinha, mas empolgamos no passeio e já com a lua lindamente cheia e alta, sentamos para a merecida cerva gelada. Observei que alguns oratórios estavam abertos na cidade, como que em janelinhas pequenas nas casas mais antigas, todos com decoração roxa. Interpretei que era por conta da páscoa, mas só depois que voltamos e que pesquisei mais sobre a cidade que descobri que esses oratórios se abrem apenas na Semana Santa e ficam fechados durante todo o resto do ano. Como não os fotografei, só terei essa oportunidade novamente no próximo ano.

No fim da noite, ainda apareceram dois amigos que também estavam na cidade para nos fazer companhia e já deixamos combinado o programa pro dia seguinte: passeio de barco pela região litorânea de Paraty.

Calçadas em pedra de Paraty
Calçamento em pé de moleque

Navegando pela Baía de Paraty

Na manhã seguinte, acordamos cedo para negociar com o barqueiro nosso passeio e partimos assim que a maré baixou, após ter que atravessar uma multidão que esperava no porto a saída das farofentas escunas (que levam até duzentas pessoas com som alto e clima festivo) . Viajar no feriado tem dessas desvantagens.

Trapiche de Paraty
Trapiche

O bom que fretamos um barquinho só para nós quatro e mesmo com o mar congestionado de embarcações, conseguimos ter tranquilidade no convés, curtindo o céu azul e o ventinho gostoso. Navegar pela Baía de Paraty é sempre delicioso, ainda mais por ser uma das maiores do nosso país (perdendo apenas para as baianas baías de Todos os Santos e Camamu, além da carioca Guanabara) e de estarmos envoltos por lindos morros da Serra do Mar. Não canso de achar que essa região junto com Ubatuba formam o trecho litorâneo mais lindo de nosso país.

Baía de Paraty
Baía de Paraty

Baía de Paraty
Baía de Paraty

O lado ruim ficou com o barqueiro, que não parecia estar muito disposto a nos levar numa praia mais tranquila, apesar da nossa insistência de que não queríamos ir num lugar lotado. Após certa negociação, ele nos levou para uma praia pequenina e linda chamada Jurumirim, de onde partiu em 1988 o navegador Amyr Klink  com sua embarcação de sugestivo nome Paratii  para sua expedição de volta ao mundo. A história dessa viagem de 88 dias deu origem ao incrível livro Mar Sem Fim e de leitura deliciosa e emocionante. Aliás, quase todas as suas expedições (e foram muitas) saíram dessa praia, que fica numa propriedade dele. O famoso veleiro Paratii hoje está no Museu do Mar (fundado com apoio de Amyr) na cidade de São Francisco do Sul, em Santa Catarina.

Jurumirim, praia do Amyr Klink na Baía de Paraty
Jurumirim

Jurumirim, praia do Amyr Klink na Baía de Paraty
Enseada de Jurumirm

Ficamos na praia um bom tempo, tomando banho de mar e, no retorno, o próprio barqueiro nos desaconselhou de continuar o passeio, já que todas as praias estariam cheias. Tenho certeza de que numa lugar repleto de praias isoladas e desertas, como Paraty, encontraríamos alguma vazia mesmo num feriado, mas faltou vontade ao barqueiro e optamos por encerrar o passeio antes mesmo das horas contratadas. A ideia era continuarmos a avegação no dia seguinte, mas a verdade é que não gostamos dele e optamos por nem voltar mesmo.
Retornamos ao Centro Histórico e conforme nos aproximávamos da costa, íamos aos poucos voltando a observar os famosos cartões-postais da cidade: suas igrejas emolduradas pela mata atlântica, cena belíssima e difícil de esquecer.

Igreja Nossa Senhora das Dores, em Paraty, vista do mar
Igreja Nossa Senhora das Dores

Igreja de Santa Rita, em Paraty, vista do mar
Igreja de Santa Rita 

Chegamos na cidade na hora da maré alta de um período de lua cheia, ou seja, o mar estava invadindo boa parte do centro, num espetáculo típico de Paraty e que obviamente me inspirou a fotografar, afinal a cidade foi construída pensando justamente nesse fenômeno natural.

Maré alta no Centro Histórico de Paraty
Maré alta invade as ruas do centro histórico

Maré alta no centro histórico de Paraty.

Um pulinho no passado...

Ainda era cedo e com a inesperada diminuição do passeio de barco, ganhamos tempo pra outras atividades. Foi inevitável pra mim sugerir ao Thiago que fôssemos num lugar que faziam anos que eu planejava ir: na antiga casa dos meus pais em Jacuecanga, onde fui criada. De Paraty, são duas horas de carro, mas a paisagem da Rodovia Rio-Santos, considerada uma das mais cênicas estradas do mundo, compensou todo o esforço.

Paisagem na Rodovia Rio-Santos
Paisagem na Rodovia Rio-Santos

Paisagem na Rodovia Rio-Santos

Isso sem falar na alegria de mostrar ao Thiago a casa em que morei, o rio que corria no fim da minha rua, a escola em que me alfabetizei, o clube e a praia que tanto frequentei. Foi uma emoção tremenda pra mim ver que a pequena cidade se mantém quase a mesma de 25 anos atrás, sem prédios e ainda pacata. Andamos por quase todas as ruas sem encontrar ninguém, assim como era na minha infância. Nós podíamos brincar na rua sem ninguém perturbar, sem nenhum perigo a nos ameaçar. Vivi uma infância livre e selvagem, que poucos da minha geração puderam ter. A única decepção foi ver que a casa em que fui tão feliz está bem abandonada e mal cuidada pelos atuais donos. Mas vê-la sem estar reformada e exatamente como era na minha memória foi até mais impactante.

Escola que estudei, em Angra dos Reis
Portão da escola em que me alfabetizei

Voltamos com uma lua cheia linda nos acompanhando na estrada, apesar de alguns sustos ao longo do caminho, já que dirigir à noite numa estrada sinuosa como a Rio-Santos não é tarefa simples. À noite, encontramos novamente com nossos amigos e ainda dançamos um forrozinho gostoso no Sarau, nosso bar preferido na cidade.

Na manhã de domingo, ficamos na dúvida se fazíamos um novo passeio de barco, ou se iríamos pra alguma praia. Decidimos, então, ir para Paraty-Mirim com a ideia de ir de lá até o Saco do Mamanguá, mas acabou que ficamos pela praia mesmo, tocando violão e tomando uma cervejinha. Foi um dia mais ameno e sem grandes emoções.

Paraty-Mirim
Paraty-Mirim

Paraty-Mirim
Igreja Nossa Senhora da Conceição
(a mais antiga de Paraty)

Mas nosso dia terminou mesmo na deliciosa Trindade, onde resolvemos pernoitar para curtir o última dia de viagem. E esse dia foi tão produtivo que resolvi escrever um post só sobre ele.

Fim de tarde em Trindade
Fim de tarde em Trindade


Mais fotos:

Maré baixa no centro histórico de Paraty
Maré baixa no Centro Histórico

Nativo de Paraty
Marinheiro só


Mais sobre Paraty:



Sobre a Estrada Real:



2 comentários:

  1. Acabei de descobrir o blog, vindo lá do Mochileiros... Sensacional. E belas fotos, também.
    Estava "viajando" sobre a viagem que farei em janeiro, e antes de parar aqui já tinha pensado em Paraty e região... Conheci rapidamente a cidade em um final de ano que passei em Martim de Sá. Vamos ver o que rola...
    Parabéns pelos escritos e escolhas, pretendo voltar com mais calma...
    Caio

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    Respostas
    1. Caio, que jóia seu comentário! Volte sempre que quiser! "Viajar" sobre as próximas viagens é sempre uma delícia e a minha ideia em manter o blog é dar um empurrãozinho nisso, compartilhando minhas experiências pelos lugares por onde passei!
      Depois, me conta pra onde vc decidiu ir! :)

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