terça-feira, 14 de abril de 2015

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Trindade, em Paraty

A Trindade das minhas lembranças de menina era uma vila pacata e cheia de hippies, quase deserta e sem estrutura, onde caminhávamos livres pelas praias e nos sentíamos num paraíso. Mas nesses dez anos, desde a última vez que aqui estive, muita coisa mudou e o antigo reduto de bichos-grilo virou uma praia badalada e cheia de carros de som, onde paulistanos gostam de vir para  se sentir selvagens, mas sem abrir mão do restaurante gourmet, ou do wifi na pousada. Para mim, foi uma grande decepção chegar aqui na Sexta-feira Santa e encontrar congestionamento na única rua e um mundo de gente fazendo compras em lojinhas de grifes. Não ficamos nem dez minutos e resolvemos que só voltaríamos para lá no domingo de páscoa à tarde, quando a horda de paulistanos e cariocas descolados já teriam ido embora. Dito e feito. Nesse retorno, conseguimos aproveitar um fim de tarde e uma noite fenomenais no domingo e ainda uma segunda-feira vagabunda e memorável. Foi tão bom que me senti de novo na Trindade dos velhos tempos.


Reencontrando Trindade, na Praia dos Ranchos

Depois de uma tarde preguiçosa em Paraty-mirim, partimos para nosso plano mirabolante de curtir Trindade sem tantos turistas e tivemos um baita sucesso na empreitada, ainda ganhando, de lambuja, um belíssimo fim de tarde, com um espetáculo arrebatador: o Sol já não mais iluminava a Praia dos Ranchos, mas ainda iluminava as montanhas ao fundo dela, oferecendo um espetáculo de cores que variavam do rosa ao azul, passando pelo amarelo e o escarlate. Um verdadeiro presente de Pessach, a palavra em hebreu que originou a nossa Páscoa e que significa passagem. Se para os judeus, a páscoa (comemorada em outra data) significa a libertação de seu povo do julgo dos egípcios após 400 anos de escravidão, para os cristãos significa a ressurreição de Jesus Cristo após ter sido crucificado pelos judeus. Acima de qualquer religião, o sentido da travessia está dado e nada melhor que viver essa data  junto à natureza nos permitindo, de fato, ser atravessados por ela.

Praia dos Ranchos de Trindade, em Paraty
Praia dos Ranchos

Praia dos Ranchos de Trindade, em Paraty

A noite terminou ali mesmo, na praia, com um luau delicioso com direito a uma lua cheia de tirar o fôlego, ao som do violãozinho maroto do Thiago e ainda com a participação dos amigos que nos acompanhavam por lá, que se permitiram até ensaiar um sambinha de gafieira na areia.

Praia do Meio e Caxadaço

Na manhã seguinte, acordamos cedo para curtir o que a segunda-feira de folga nos permitiria. O céu azul já nos dava um belo bom dia, tirando qualquer possibilidade de preguiça. Tomamos um café da manhã reforçado e seguimos para as praias mais afastadas do centrinho de Trindade. Afastadas, em termos, já que não são assim tão distantes, principalmente a Praia do Meio, que não fica mais que dez minutos de caminhada da rua principal. Confesso que esperava encontrar uma praia deserta, naquela segunda-feira de abril, mas me surpreendi com o número de pessoas, que não chegava a formar uma muvuca (ainda bem), mas era razoável. Realmente, Trindade já não é mais aquela mesma vila de pescadores e hippies.

Praia do Meio de Trindade, em Paraty
Praia do Meio

Praia do Meio de Trindade, em Paraty

No fim da Praia do Meio, desemboca o Rio dos Codós, que não é muito caudaloso e permite que o  atravessemos a pé para continuar numa trilha pela mata, num trecho de morro até a praia seguinte, a do Caixad'aço. Pra lá seguimos e após uma caminhada de cerca de quinze minutos, chegamos nela, que é mais extensa e com mar mais aberto do que a anterior, uma pintura. Caminhamos até o fim da faixa de areia e a partir dali, uma nova trilha leva para a famosa  piscina natural, mas que não chegamos a ir, devido ao tempo apertado e, naquele momento, a ideia de um banho de cachoeira nos parecia mais atraente.

Praia do Cachadaço de Trindade, em Paraty
Praia do Caixad'aço

Praia do Cachadaço de Trindade, em Paraty

Cachoeira em Trindade

Essa região de Trindade entre a Praia do Meio e a Piscina Natural do Caixad'aço está inserida no Parque Nacional Serra da Bocaina, sendo a única região do parque que tem atrativo marinho, já que todo o resto fica em área de mata fechada, subindo a Serra do Mar. Nós, claro, aproveitamos a oportunidade e seguimos morro acima e mata adentro para curtir um pouco das inúmeras cachoeiras do parque, pela trilha que margeia o Rio dos Codós a partir da Praia do Meio. Após uma trilha de vinte minutos, chegamos na Pedra que Engole, a cachoeira mais próxima, onde uma pedra parece servir de tampa ao rio, sendo possível passar por baixo dela, dando a impressão que somos engolidos pra quem olha de fora. Uma piscininha deliciosa compõe a paisagem, além de uma queda gostosa de água. Não tivemos coragem de passar pela experiência de sermos engolidos, mas só o banho ali já valeu a caminhada.

Pedra que engole, cachoeira de Trindade, em Paraty
Pedra que Engole

Era hora de voltarmos para pousada e de nos despedirmos da linda Trindade com votos de que a pequena vila resista às insistente exploração e ao turismo predatório. Oxalá...

Trindade, em Paraty


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