quarta-feira, 27 de maio de 2015

A Congonhas do Campo de Aleijadinho

"À medida que seu corpo ia se desfigurando,
e com chagas crescentes ia se despedaçando,
o que caía no chão nova terra era formada."
(Romance do Aleijadinho- Antônio Nóbrega)
Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho

Depois de uma viagem de quase três horas desde Tiradentes, minha sensação era de que estava em Congonhas do Campo na hora certa. Apesar da dificuldade para atravessar o trânsito caótico e desorganizado da cidade, cheguei no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, quando o Sol se escondia atrás de uma daquelas lindas montanhas da região e os doze profetas à frente da Igreja eram iluminados pela áurea mágica do entardecer. Um lindo jogo de sombra e luz deixava o lugar ainda mais impressionante e eu mal conseguia olhar a igreja atrás de mim, já que todo meu corpo insistia em admirar aquelas doze estátuas, a obra-prima do maior escultor e entalhador brasileiro.

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, nosso Aleijadinho, nasceu sem nenhuma deformidade física e iniciou a vida artística antes mesmo dos primeiros sintomas da doença misteriosa, que em poucos anos culminaria na completa deformidade de seu corpo, inclusive de seu principal instrumento de trabalho, as mãos. Mas, apesar do sofrimento atroz e das intensas dores que sentia, Aleijadinho nunca parou de produzir e seus ajudantes (escravos, em realidade) amarravam as ferramentas em sua mão para que conseguisse trabalhar.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho. No detalhe, o profeta Abdias.
Profeta Abdias

Pouco se sabe da vida desse grande artista e muita coisa acabou sendo mistificada, como a hipótese de que ele teria perdido dedos do pé e da mão, algo que não é comprovado. O fato de ser mulato (filho de mãe escrava alforriada e pai português) também foi intensamente valorizado, principalmente pelo Modernismo brasileiro, quando Mário de Andrade escreveu um pequeno ensaio sobre ele e o caracterizou como "a solução brasileira da Colônia". Mas algo importante para se levar em consideração é que Aleijadinho produziu toda sua obra num período da história da arte em que o valor individual não era importante, aliás, o próprio conceito do artista como entendemos atualmente não existia. O Barroco, sua grande escola, acontecia num trabalho coletivo e o "artista" se submetia ao atelier de mestres, reproduzindo apenas o estilo que lhe fora ensinado. Foi só com o Romantismo que surgiu a figura do artista como alguém que coloca sua marca pessoal no trabalho que executa e só a partir daí que nomes começaram a surgir como referências isoladas, tal qual Rembrandt, ou Picasso. Antes disso, não se falava em nomes, pois o que importava era apenas a obra e não quem a tinha feito.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho. No detalhe, o profeta Jonas.
Profeta Jonas

Tanto é que até o período romântico não existia o hábito de assinar obras de arte, já que não importava o nome do artista e, sim, seu atelier de origem. E isso é uma grande dificuldade para se conhecer exatamente quais foram as obras realizadas por Aleijadinho, já que depois que seu nome criou fama, todo mundo queria dizer que tinha uma obra sua em casa. É claro que especialistas em arte conseguem identificar características próprias dele, mas também se sabe que muitos escultores posteriores imitaram seu estilo.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho. No detalhe, Profeta Daniel.
Profeta Daniel

Os 12 profetas de Aleijadinho, em Congonhas do Campo

O que sabemos efetivamente é que a cidade com maior número de obras de Aleijadinho é, sem dúvida, Ouro Preto, onde ele nasceu e viveu toda a vida e onde projetou e executou vários projetos, mas é aqui em Congonhas do Campo, que encontramos a última e mais importante obra do artista mineiro: um conjunto de doze estátuas esculpidas em pedra-sabão de doze profetas da bíblia. Como se não bastasse, além das esculturas, Aleijadinho também produziu 66 estátuas em madeira, representando a Via Crucis e que estão num conjunto de capelinhas na frente do Santuário. O que encontramos é algo monumental, efetivamente.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho
Santuário do Bom Jesus de Matasinhos

Como cheguei na cidade no fim de tarde, aproveitei para fotografar o fabuloso pôr-do-Sol e ainda tive a noite e a manhã seguintes para fruir daquilo tudo. Pude observar atentamente cada estátua e, sem dúvida, uma das que mais me chamou a atenção foi a do Profeta Isaías, um dos poucos representado como um ancião com longas barbas e rugas na testa. Não entendo quase nada de religião e fiquei curiosa para entender o porquê dessa representação com características diversas das demais, já que quase todos são representados como jovens.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho. No detalhe, profeta Isaías.
Profeta Isaías

Já o Profeta Amós era o de feição mais jovial e tranquila de todos. Parece que Aleijadinho queria mesmo representar-lhe como um simples pastor. Suas mãos parecem pedir esmola e os dedos já destruídos (pelo tempo, ou por vandalismo?) dão ainda mais dramaticidade à imagem.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho. No detalhe, profeta Amós.
Profeta Amós

Não sei por qual motivo, mas a estátua que mais me impressionou (e a que mais fotografei também) foi a de Ezequiel. Ele está numa posição que seria evidentemente desconfortável para um humano de carne e osso, já que apresenta-se com o rosto pra um lado e um dos braços flexionados para o lado oposto. A mim, me pareceu que ele tenta se esquivar de algo, mas certamente que essa interpretação fala mais de mim do que da própria obra em si.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho
Profeta Ezequiel

Algumas outras não me chamaram tanta atenção e escrevendo esse post me dei conta de que esqueci de fotografar três delas. Uma pena, mas a vida é assim mesmo. E, além do mais, não é a minha intenção virar catalogadora do acervo, de modo que me contentei em registrar ao meu modo o que experimentei por lá.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho. No detalhe, Profeta Baruc
Profeta Baruc

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho. No detalhe, Profeta Oséias.
Profeta Oséias desfocado pela Lua

Mas duas estátuas me cativaram, em especial. Uma delas é de Abdias apontando firmemente para o céu em atitude exaltada (foto no início desse post) e a outra a de Habacuque, que parece fazer um encantador joinha com a mão esquerda, o que ganhou toda a minha simpatia.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho. No detalhe, Profeta Habacuc.
Profeta Habacuc

Foi um fim de tarde fantástico entre aquelas imagens comoventes e fortes. Apesar de não ser católica, a experiência me foi arrebatadora. Pra não esquecer jamais.

Pôr do Sol em Congonhas do Campo com os profetas de Aleijadinho

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