sábado, 2 de maio de 2015

A fabulosa Juréia

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins

A Estação Ecológica Juréia-Itatins é uma área de proteção ambiental no litoral sul de São Paulo, localizada entre as cidades de Peruíbe, Iguape, Pedro de Toledo, Miracatu e Itariri num dos trechos de mata atlântica e restinga mais bem preservados do estado e arrisco mesmo a dizer que até do país. É um dos poucos lugares onde ainda é possível caminhar por praias desertas e selvagens numa liberdade que já não conseguimos mais usufruir em outras trechos urbanizados do nosso litoral. Mas esse paraíso precisa ser alcançado com certo esforço, já que o acesso é difícil, principalmente na parte da reserva que visitamos em Peruíbe, entre Guaraú e a  Barra do Una.


Antes da Juréia: a Praia de Guaraú

Nossa primeira parada na Juréia e também a mais próxima do centro de Peruíbe foi Guaraú, que tem fácil acesso por uma estrada asfaltada. Fomos para lá na baixa temporada e, portanto, não haviam muitos turistas, mas deduzo que a movimentação por ali deve ser grande no verão, pela quantidade de pousadas que vimos. É curioso andar pelas ruas de terra de Guaraú, que são amplas e com quadras bem delimitadas, mas quase todos os terrenos ainda com mata nativa. Não consegui muito bem entender como é a questão legal da ocupação humana na estação ecológica, mas imagino que haja empecilhos para que se construa novas casas na região. No caminho para Barra do Una, vimos placas de desapropriação e muitas casas abandonadas, mas em Guaraú parece que há uma permissividade maior para a permanência de moradores.

Barra do Rio Guaraú, em Peruíbe
Barra do Rio Guaraú

Chegamos em Guaraú e seguimos direto para a barra do rio. Não resisto à conhecer encontros de rio com mar, sejam aqueles pequeninos, sejam os mais caudalosos. Em Guaraú, o encontro é quase ao lado de um  morro, o que deixa o espetáculo ainda mais belo. Gostamos tanto que ficamos um tempo aqui e, mais tarde ainda voltamos, caminhando pela praia.

Barra do Rio Guaraú, em Peruíbe
Barra do Rio Guaraú
Saímos do rio e resolvemos deixar o carro na única rua asfaltada da vila para, enfim, conhecer a praia e tivemos um fim de tarde esplêndido com um vento delicioso e uma caminhada gostosa até, novamente, encontrarmos o rio. A praia não é grande e facilmente caminhamos por ela de ponta a ponta. O lado esquerdo é delimitado por um paredão rochoso lindo e o direito pelo rio. Uma belezinha.

Praia do Guaraú, em Peruíbe
Lado esquerda da Praia de Guaraú

Lado direito com a Serra do Guaraú ao fundo, onde desemboca o rio

O Thiago logo entrou no mar, enquanto eu preferi apenas ficar curtindo a brisa e fotografando, enquanto caminhávamos. A praia estava vazia e encontramos apenas alguns caiçaras andando de bicicleta, outros indo surfar, o que deixou o passeio ainda mais aprazível.

Estação Ecológica Juréia-Itatins
Encontros no caminho

Fim de tarde em Guaraú
Fim de tarde

Chegamos próximo à barra do rio já próximo ao pôr-do-sol. O dia estava nublado, mas parece que São Pedro resolveu nos dar um presente e o céu abriu, pelo menos parcialmente, bem na hora de nos despedirmos daquele dia, bem ali na barra do Guaraú. Foi inesquecível.

Fim de tarde em Guaraú

Na volta, ainda fomos curtindo um céu pintado de rosa e azul lindo e quando voltamos pro carro já era noite. Consigo sentir até agora o vento gostoso soprando naquela caminhada e era exatamente aquilo que eu precisava naquele dia pra me sentir viva.
Mas ainda precisávamos encontrar um lugar para dormir e decidimos pernoitar ali mesmo em Guaraú, afinal no dia seguinte ainda teríamos a missão de dirigir por quase 20km até nosso destino principal, a Barra do Una.

Finalmente, na Juréia: a Barra do Una

Missão essa, aliás, que quase abortamos, quando ao acordar na manhã seguinte e nos deparamos com uma chuva intensa e chata. Tínhamos informação de que a estrada de asfalto para o Una era perigosa e que poderíamos atolar. Chegamos a cogitar a possibilidade de ficar por Guaraú mesmo, mas nosso espírito aventureiro falou mais alto. Contra tudo e contra todos (até contra o Thiago que estava mais resistente a ir do que eu) nós partimos rumo ao desconhecido. A estrada, de fato, é cansativa, mas não passamos por nenhuma grande dificuldade e com cerca de uma hora de viagem chegamos são e salvos à fabulosa Barra do Una.

Caminho para Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Caminho para Barra do Una

No caminho, o tempo abriu e ainda tivemos lindas paisagens para descansar do mar de lama que encarávamos. Mas confesso que me chamou muito a atenção o fato de passarmos por várias casas abandonadas e algumas até em ruínas. Chegamos a ver placas de desapropriação e pesquisando na internet descobri que agora em julho, acaba o prazo que os caiçaras teriam para sair da região. Situação delicada, já que aquelas pessoas vivem ali em harmonia com a natureza há gerações. Parece que um projeto de lei tenta instituir uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (como a que conhecemos em Mamirauá, na Amazônia), o que permitiria a presença de nativos, mas isso ainda é incerto e, enquanto esperam, os poucos habitantes da região precisam ir pensando em alguma solução. Torcemos para que isso, de fato, ocorra.

Conforme fomos saindo do trecho de serra e chegando à praia, novas paisagens se descortinaram para nós e ainda lá do alto, conseguimos ver a Praia do Caramborê com seu mar de três cores, já que ainda está sob influência das águas barrentas que chegam no mar pelo Rio Una.

Praia do Caramborê, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Praia do Caramborê

Mais alguns quilômetros e eis que nos deparamos com uma paisagem de tirar o fôlego e logo concluímos: é a Barra do Una. Uma vegetação densa esconde o rio, mas a longa boca que se abre, quando ele chega próximo ao mar denuncia sua presença. Isso somado a longa cadeia de morros ao fundo, que formam o Maciço da Juréia dão um ar cenográfico ao lugar, que numa primeiro momento parece nunca ter recebido a presença humana.

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Barra do Una 

Chegamos ansiosos para conhecer o Rio Una e pra lá fomos sem pestanejar. Essa região tem um ecossistema similar ao da Ilha do Mel e, assim como na ilha paranaense, tive a sensação de que o clima aqui emana uma cor azul clarinha, que é difícil explicar em palavras. E as fotos não me deixam mentir, já que todas tem uma saturação azulada, talvez pela intensa umidade do ar somado a um céu sem nenhuma poluição. Aliás, a umidade aqui é intensa. Respiramos água praticamente, o que torna a estada aqui ainda mais deliciosa pelo frescor do tempo.

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
A enorme boca na barra do Rio Una

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Um dos braços do Rio Una ao chegar no mar.

Caminhamos pela imensa boca que se forma na chegada do rio ao mar com vários e lindos bancos de areia e apenas encontramos lá uma simpática família, cujo pai ensinava o pequeno filho a pescar e a mãe observava de longe, sentadinha numa caixa de madeira. Cena poética e nostálgica, ao mesmo tempo.

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Filho de peixe, peixinho é...

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Bancos de areia na boca do Rio Una

Depois da deliciosa caminhada, encontramos um restaurante bem simples, mas do ladinho do rio, que ficava na casa da própria dona e ali comemos ao lado dos filhos da moça que brincavam ao mesmo tempo que ajudavam a mãe. Fiquei imaginando o quão delicioso deve ser crescer longe da internet, podendo brincar livremente e sem preocupação, em tempos atribulados como o nosso. O menino mais novo, brincava com uma corrente de ferro, dizendo ser uma cobra-d'água e fazia todo a encenação dela andando e, depois, sendo morta por ele mesmo. Infância rara e verdadeira essa.

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Visual durante nosso almoço

Alimentados e satisfeitos, seguimos para conhecer a praia propriamente dita e percorremos rapidamente a pequena vila de caiçaras até a ponta oposta a do rio. O lugar estava absolutamente desértico e éramos os únicos por ali. Ou melhor, seríamos os únicos se não fosse a presença de um aloprado cachorro, que foi nossa companhia durante todo o passeio e que estava alucinado para brincar. Ele viu minha câmera fotográfica e tentava abocanhá-la a todo custo, quando o Thiago jogou um pedaço de pau para despistá-lo e ele adorou. A partir dali, ficou levando e trazendo pedaços de tronco de árvore, jogados pelo Thiago e, nos intervalos, cavava enormes buracos na areia atrás dos inocentes sirizinhos. Chegou até mesmo a matar um, sem querer, na tentativa de brincar com o bicho. Deu dó, quando tentou abocanhar o bicho morto, sem entender o motivo dele já não mais se mexer.

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
E lá vem ele pra brincar de novo

A praia, em si, é bem selvagem. Incrível pensar que estamos ali há pouco mais de três horas de São Paulo e, ao mesmo tempo, num dos trechos mais bem preservados do litoral paulista. A restinga intacta e sem construção próxima é coisa rara e mesmo a quantidade de conchas e siris indicam que estamos mesmo num lugar diferente. A cor da água é mesmo barrenta, ainda sob forte influência do Rio Una, que desemboca ali próximo, mas isso não tira a exuberância do lugar.

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Lado esquerdo da Barra do Una

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Thiago e seu fiel escudeiro nas águas marrons da Barra do Una

Sempre nos acompanhando, está o Maciço da Juréia, ao lado da praia e relativamente próximo à boca do rio. A cadeia de morros é impressionantemente linda e compõe harmoniosamente a paisagem, deixando tudo ainda mais perfeito por ali.

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Ao fundo, o maciço da Juréia

Caminhamos até as pedras no fim da praia e de lá ainda é mais belo ver todo aquele cenário. O Thiago ainda subiu mais alto e conseguiu visualizar a praia vizinha e que tínhamos avistado lá do alto, na estrada, a Caramborê.

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Ao alto e avante

Retornamos junto com nosso fiel escudeiro e assim que chegamos de volta ao carro uma chuvinha fina e chata começou a cair. Parece que São Pedro esperou nosso passeio acabar para mandar a chuva, que estava ensaiando cair o dia todo. Decidimos, então, retornar para Peruíbe com medo da condição da estrada, que já não é das melhores sem chuva.

Foi um fim de semana delicioso e revigorante, que só deu mais vontade ainda de voltar com calma pra esse lugar fenomenal, que é a região da Juréia.


Informações Práticas

Como chegar?
A sede administrativa da Estação Ecológica fica no caminho para a Barra do Una e será necessário passar por ela e solicitar autorização para chegar à alguns locais da reserva.
O acesso é a partir de Peruíbe, numa estrada que se inicia no fim do trecho de praias da cidade, no extremo direito da orla. Ali, uma estrada asfaltada leva até Guaraú e de lá uma estrada de terra vai para a Barra do Una, num trecho chato, mas possível de ser feito com cautela num carro de passeio.
Há apenas um ônibus diário para a Barra do Una e ainda com horários incertos e irregulares, que saem de Guaraú.

Sede administrativa da Estação Ecológica Juréia-Itatins:
Estrada do Guaraú, 4164
Tel: (13) 3457-9243/ (13) 3457-9244

Onde ficar?
Nós nos hospedamos na Praia do Guaraú, onde há várias opções de pousada.
Na Barra do Una, a opção mais comum são os campings e apenas uma pousada recebe visitantes interessados em atividades ambientais, que é a Pousada Coati-Juréia.


Mais fotos

Fim de tarde em Guaraú
Guaraú

Corridinha em Guaraú, ao lado da Barra do Una
Corridinha 

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
Boca do Rio Una

A Barra do Una, na Estação Ecológica Juréia-Itatins
O Cão e o Mar


Mais sobre a Serra do Mar:

Nenhum comentário:

Postar um comentário