segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pela Estrada (Real) afora eu vou bem sozinha...


Trechos da Estrada Real: São Luiz do Paraitinga
São Luiz do Paraitinga
Se tudo fosse assim exatamente do jeitinho que a gente quer, a vida seria mais previsível, mas não tenho dúvidas que seria mais entediante, afinal algumas mudanças de planos e desvios no caminho trazem, quase sempre, boas surpresas.
Assim estou tentando pensar depois que minhas tão esperadas férias, planejadas há quase um ano, tiveram seu percurso totalmente modificado por alguns problemas no trabalho do Thiago. Depois de superar a frustração e repensar expectativas, decidi que me permitiria fazer algo que faço pouco e que me faz muito bem: viajar sozinha. Desde que começamos a namorar, minha única aventura solitária foi na Amazônia, quando viajei de barco por dois dias, pelo Rio Solimões. Uma experiência intensa e inesquecível que me marcará pra sempre. Na mesma ocasião, encontrei um casal de amigos em Manaus (e adjacências) e passamos alguns dias por lá sem o Thiago.  Em Presidente Figueiredo (uma cidadezinha deliciosa perto de Manaus), eu me lembrava dele em cada cachoeira que encontrávamos. Ele adora cachoeira e estar lá sem sua presença doeu meu coração.
Apesar de gostar e de me fazer bem estar sozinha, ainda acho esquisito estar sem o Thiago. Viajar é uma das coisas que mais gostamos de fazer juntos e talvez haja algum tipo de fantasia minha de que companheirismo é fazer tudo junto. Uma fantasia ingênua e opressiva, diga-se de passagem.
E foi tentando superar isso que eu decidi pegar a estrada solita por quase uma semana. Primeiro, pensei em ir a algum lugar que o Thi já conhecesse pra não me sentir tão culpada, mas depois pensei: culpada de que? E decidi ir pra algumas cidades históricas mineiras na Estrada Real, mesmo sabendo que ele ainda não conhece. E sem culpa!

Trechos da Estrada Real: Baía de Paraty, vista de Cunha
A baía de Paraty, vista de Cunha
(2009)

E essa escolha não foi à toa. A Estrada Real povoa meu imaginário, desde pequenina, afinal ainda quando morava em Angra dos Reis e sem nem saber ler e escrever (muito menos ter estudo história do Brasil), eu ouvia falar de um caminho que ligava Minas Gerais à Paraty e que era usado pra levar ouro pra Portugal (assim me foi explicado, naquela época, com boa dose de razão). Isso antes mesmo desse percurso ficar famoso entre trilheiros e overlanders, como é atualmente.
Eu mesma já conheci várias das cidades que compõe os marcos da Estrada Real e, nesse post, me permiti compartilhar algumas fotos de diferentes momentos dessas cidades por onde passei ao longo do tempo.

Trechos da Estrada Real: Tiradentes.
Tiradentes/MG
(2010)

Meus caminhos na Estrada Real

Apesar da fama atual, a Estrada Real só surgiu mesmo, na época da mineração.  Antes disso o que existiam eram os Caminhos das Tropas, estradas rudimentares que faziam a ligação entre o litoral e o interior do Brasil, por onde passavam as tropas de carga, lideradas pela folclórica figura do tropeiro. Figura, aliás, que até hoje influencia a cultura de muitas cidades do Sul do país, do Vale do Paraíba e de Minas Gerais. Os tropeiros eram condutores de mula que transportavam mercadorias (alimentos, utensílios e escravos) e abasteciam vários pontos da colônia. Os carreteiros da região Sul ficaram conhecidos por abastecer às minas de ouro com comida (principalmente charque) e deixaram sua marca em cidades como Morretes e Antonina, no Paraná e São Luiz do Paraitinga, em São Paulo.

Vários elementos do nosso cotidiano surgiram com o tropeirismo, como alguns pratos típicos da culinária brasileira, todos ricos em gordura para dar energia para as longas viagens (toucinho, carne-seca, torresmo, feijoada, feijão-tropeiro, arroz-de-carreteiro, vaca-atolada, entre outros).
Além disso, os tropeiro acabaram também se tornando importantes na comunicação, levando notícias de um ponto ao outro e tendo participação ativa na economia e desenvolvimento, nos primeiros anos do Brasil-colônia.

Trechos da Estrada Real: tropeiros de São Luiz do Paraitinga
Desfile de carreteiros (ou tropeiros) em São Luiz do Paraitinga/SP
(2014)

É possível dizer que os tropeiros foram mesmo os desbravadores da Estrada Real, já que foram eles que abriram as primeiras estradas no interior do país, desde a época dos bandeirantes. Acho que deve ser por isso que me identifico tanto essa figura, já que poucas coisas me atraem mais do que descobrir novos caminhos e lugares, ainda mais se no meio disso ainda se mistura música e cultura.

Trechos da Estrada Real: Morretes
Comida tropeira em Morretes/PR
(2013)

Os tropeiros deram origem ao que hoje conhecemos como o caipira com sua cultura da terra e vida simples, com sua música e dança típicas. Uma dos maiores representantes dessa cultura caipira foi, sem dúvida, Teixeirinha, que na música Tropeiro Velho fala justamente desses bravos homens. Além de ser uma homenagem aos carreteiros (como eram também chamados), Tropeiro Velho é também uma música caipira das mais autênticas. Para ouvi-la, clique aqui.

Foi justamente um dos Caminhos das Tropas, conhecido como Caminho do Viamão que passou a ser considerada a Estrada Real, ou seja, caminho oficial da Realeza Portuguesa, único permitido para circulação de pessoas e mercadorias, desde as mais simples até as mais valiosas como o ouro, no século XVII e o café no século XVIII. Qualquer outra via era considerado um descaminho e factível de punição por crime de lesa-majestade. Inicialmente, era considerada apenas a estrada que ligava a Vila Rica (atual Ouro Preto), o principal  ponto de prospecção aurífera da época para Paraty de onde o valioso minério ia direto para Portugal. Percebendo a necessidade de um caminho mais seguro (já que os piratas passaram a cobiçar as embarcações que saíam da baía de Paraty), a Coroa abre, então, um Caminho Novo que ia até o porto do Rio de Janeiro, formando-se assim os dois principais eixos da Estrada Real.

Trechos da Estrada Real: Paraty
Proximidades do Porto de Paraty/RJ
(2015)

São muitas as cidades por onde passa a estrada e o turismo na região cresceu tanto nos últimos anos, que foi criado um instituto para organizar as expedições. O caminho completo só é possível fazer por trekking, ou com carro tracionado, já que muitas estradas de terra e até mesmo trilhas fechadas fazem parte do percurso. A mim, com meu carrinho destracionado, só me resta percorrer os (muitos) trechos asfaltados. E foi assim que nesse começo de férias atribulado, parti sozinha por essas estradas passando (por enquanto) por Tiradentes, Congonhas e Ouro Preto.

Trechos da Estrada Real: São João Del-Rei
Pelas ruas de São João Del-Rei/MG
(2010)

Por enquanto, porque ainda estou na estrada e, pela primeira vez, tentarei escrever ao longo da viagem, o que pra mim é difícil já que essa é uma tarefa que me demanda tempo e, muitas vezes, demoro semanas para preparar apenas um post. Dessa vez, sozinha e com mais tempo livre , estou tentando essa nova experiência, que já começou prazerosa aos meus olhos. Assim espero terminar essa semana de explorações mineiras com postagens mais fresquinhas e, consequentemente, mais reflexiva sobre as experiências vividas (ou será que a reflexão é a mesma da escrita posterior? Ainda não sei, mas pretendo descobrir nos próximos dias).

Trechos da Estrada Real: Tiradentes
Ladeiras de Tiradentes/MG
(no último sábado)


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