segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sobre Tiradentes, São João Del-Rei, lembranças e reflexões

"Foi traído e não traiu jamais,
a inconfidência de Minas Gerais..."
(Exaltação a Tiradentes- Chico Buarque)
Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes.

Nessa minha aventura solitária pela Estrada Real, escolhi a charmosa Tiradentes como ponto inicial, justamente por ser uma cidade que eu já conhecia, mas que fazia tempo que queria revisitar. Minha primeira estada aqui foi  num longínquo Corpus Christi, em 2010, com pessoas amadas demais por mim e a quem considero parte da minha família. Foi bem diferente estar na cidade sozinha dessa vez, já que na outra éramos cinco pessoas andando o tempo todo juntas e compartilhando os diferentes olhares. Diferente, mas não pior, pois sozinha consegui experimentar situações que não tinha vivido anteriormente. Tentarei aqui relatar ambas experiências, pelo fato de que na primeira passei mais tempo na cidade, além de ter lembranças muito afetuosas dos momentos vividos com meus amados amigos, sendo impossível para mim não lembrá-las ao escrever sobre Tiradentes.

Peas ruas de Tiradentes
Pelas ruas de Tiradentes

Pelas ruas de Tiradentes

Estar em Tiradentes é sempre uma delícia, pelo charme de seus casarios coloniais e pela possibilidade de andar pacatamente por suas ruas de pedra e vielas. Aliás, essa me parece a atividade mais deliciosa na cidade: caminhar sem grandes pretensões e deixando-se surpreender por cada detalhe novo. A cidade está longe de ter a mesma imponência de Ouro Preto, nem a mesma importância artística que Congonhas, mas isso não faz com que a visita à cidade seja menos interessante. Aliás, justamente por não ter tantos atrativos famosos a serem percorridos, nem roteiros fundamentais a serem seguidos é que flanar livremente pela cidade é tão gostoso. Fiz isso, principalmente, na segunda (e solitária) estada na cidade e consegui observar pequenos detalhes que haviam passados desapercebidos na primeira vez por aqui.

Detalhes da arquitetura colonial de Tiradentes.
S.S.V.D
(o que será que isso significa?)

A cidade já existia antes de ter o nome atual, sendo conhecida como São José dos Rio das Mortes e foi só depois da Proclamação da República, que a cidade foi rebatizada como Tiradentes, já que Joaquim José da Silva Xavier, o único inconfidente executado (mais precisamente, decapitado) pela participação na Inconfidência Mineira passou a ser o herói nacional, carregando em si a marca do homem libertador e mártir. Essa imagem mítica é tamanha que até mesmo sua fisionomia passou a ser representada à semelhança de Jesus Cristo com barba e cabelos compridos, sendo que essas nem eram característica reais de Tiradentes, mas a necessidade de se ter uma figura que representasse os ideais republicamos parece que falou mais alto que a própria realidade factual, como sempre é na história: criam-se heróis e monstros, quando na maioria das vezes nenhum dos dois pólos é o real.

Arquitetura colonial de Tiradentes
Flanando por Tiradentes

Mas ninguém pode duvidar da importância histórica da Inconfidência Mineira para a constituição da nossa República, evidentemente. O contexto da Conjuração se deu em meados do século XVII, quando a produção aurífera colonial começou a diminuir e os colonizadores não entendiam que essa queda se devia ao esgotamento das minas e não (só) pelo contrabando. Várias medidas de austeridade começaram a ser aplicadas, o que incluía, por exemplo, a proibição de atividade industrial e têxtil na colônia, na tentativa de aumentar a dependência dos colonizados. Mas a situação se acirrou mesmo, quando Portugal decretou a Derrama, que seria um imposto aplicado diretamente aos cidadãos, caso a cota anual de arrecadação estipulada por Portugal não fosse alcançada. Na prática, isso dava direito de que a Coroa invadisse casas e extorquisse bens de qualquer pessoa. Isso foi o limite para que diversas insurgências ocorressem em todo território colonial com manifestações de intensa violência e revolta.
Enquanto isso, em Ouro Preto, mineradores, militares, artistas e padres se organizavam para confabular sobre a independência da capitania de Minas Gerais (e não do Brasil inteiro, como se pensa) e a ideia dos inconfidentes era de criar uma República inicialmente presidida pelo escritor e poeta Tomás Antônio Gonzaga e depois seriam convocadas eleições. Esse novo país tinha até bandeira (o famoso triângulo vermelho com os dizeres: libertas que seras tamen), que hoje é a bandeira do estado de Minas Gerais.
O plano iria à cabo, se não houvesse sido delatado por um dos inconfidentes, Joaquim Silvério dos Reis (mais uma semelhança com a história de Cristo- que foi traído por Judas), o que levou a prisão de todos os inconfidentes, na véspera da execução de seu plano, que ocorreria no dia da Derrama.

Centro Histórico de Tiradentes
Com direito à roupas de época...

Todos os participantes negaram o envolvimento na sublevação, inclusive Tiradentes, que só depois assumiu sozinho a culpa e acabou sendo o único executado por isso. Foi decapitado no Rio de Janeiro, sendo enterrado como indigente e sua cabeça levada para Vila Rica, onde ficou exposta publicamente como medida exemplar. Após alguns dias, a cabeça desapareceu e até hoje ninguém sabe onde está. Provavelmente, teve um enterro mais digno que o resto de seu corpo. A medida acabou por fomentar ainda mais o ímpeto libertador na população, que passou a compartilhar das ideias independentistas dos conjurados. É curioso pensar que o único punido era o mais pobre e menos influente de todos os inconfidentes. Não penso que seja uma simples coincidência essa.

Centro Histórico de Tiradentes

Nenhum desses fatos aconteceu efetivamente na cidade que hoje chamamos de Tiradentes, mas é impossível andar em suas ruas sem pensar nesse período de nossa história. De fato, o que marcou mesmo a pequena vila durante o período colonial foi sua rica produção artística barroca, cujo maior exemplar é a Matriz de Santo Antônio, uma das igrejas com maior quantidade de ouro no Brasil (484 kg) e de grande imponência. Fica num dos pontos mais altos da cidade e se destaca em meio aos casarios antigos.

Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes.
Matriz de Santo Antônio

Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes.

A melhor vista da Matriz é, na verdade, do outro lado da cidade, no alto de um morro onde fica outra igrejinha bem mais simples, a Capela São Francisco de Paula. Ali, sem dúvida, é a melhor vista do Centro Histórico de Tiradentes e da linda Serra de São José que compõe a paisagem. Sem contar que o gramado do morro é um convite para a fruição da vista.

Capela São Francisco de Paula, em Tiradentes
Capela São Francisco de Paula
(foto de 2010)

Aliás, a Serra de São José merece um capítulo à parte com seu paredão que corre bem do lado de Tiradentes e faz a paisagem ainda mais bonita. Quase todas as fotos da cidade saem com ela ornando ao fundo. Seu ponto mais alto não passa de 1300 metros de altitude, mas a baixa estatura parece ser exatamente o seu charme pra combinar com a delicadeza de Tiradentes, afinal baixinhas quase sempre são charmosas, eu acho.

Serra de São José, em Tiradentes.
Serra de São José

Centro Histórico de Tiradentes
Vista pra Serra da Matriz de Santo Antônio

E pra melhorar ainda mais, a serra tem uma simpática cachoeirinha de fácil acesso, que apesar de não ser assim sensacional, é bem gostosa. Não fui nela dessa última vez, mas a conheci na primeira visita à cidade, em 2010.

Cachoeira do Bom Despacho, em Tiradentes
Cachoeira do Bom Despacho, na Serra de São José

Nessa atual passagem, me permiti caminhar sem grandes pretensões pelas ladeiras vazias de uma bela manhã de sábado e ainda presenciei uma festinha simpática na escola local. As ruas estavam vazias sem os habituais turistas que lotam as ruas de pedra na alta temporada, afinal poucas pessoas vivem efetivamente nos casarios coloniais. Quase todas as construções históricas são ocupadas por restaurantes, pousadas, lojinhas e atelies de artistas.

Chafariz de São José, em Tiradentes
Chafariz de São José
(foto de 2010)

Dessa vez, me permiti também dar uma rodada nos arredores do Centro Histórico, que tem casas mais simples, onde vivem efetivamente os moradores da cidade. Fiquei tentada a fotografar  as casas com cavalos amarrados na porta e os homens bebendo pinga nos botecos, mas não me senti à vontade, com medo de interferir na privacidade deles, pois a região não é turística.

Arquitetura colonial em Tiradentes.
Nem tudo é luxo em Tiradentes

São João del-Rey

Bem diferente da primeira vez, quando cheguei em pleno feriado religioso com a cidade lotadíssima de turistas e tudo fervilhando. Apesar da muvuca, foi interessante participar de uma das principais festas católicas numa região em que a religião é tão forte. Como passamos os quatro dias lá, conseguimos fazer mais coisas, principalmente aquelas bem turísticos, como a viagem de maria fumaça até São João Del-Rei. O passeio não faz meu estilo e a paisagem não é assim tão diferente do que já vemos em Tiradentes, mas valeu para conhecer a cidade vizinha, que é interessante.

Maria Fumaça que faz o passeio entre Tiradentes e São João Del-Rei
Maria Fumaça

Maria Fumaça que faz o passeio entre Tiradentes e São João Del-Rei
Entre Tiradentes e São João Del-Rei

A viagem durou pouco mais de trinta minutos e logo chegamos à famosa São João Del-Rei, bem maior que Tiradentes, mas sem o mesmo charme. Não andamos muito pela cidade e seguimos direto para a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, onde diversos devotos faziam os famosos tapetes de ferragem coloridos para a procissão de Corpus Christi, que eu particularmente acho lindo (só perde para Páscoa, que é o auge das festas católicas, na minha opinião)

Tapetes de Corpus Christi, em São João Del-Rei
Tapetes de Corpus Christi

Catedral de São João Del-Rei
Catedral de São João Del-Rei

São João Del-Rei não me causou o mesmo impacto que Tiradentes e, por isso, nem cheguei a passar por lá nessa minha atual peregrinação pela Estrada Real, mas sem dúvida que tem preciosidades históricas importantíssimas.
Nessa mesma ocasião (e no mesmo dia do passeio de Maria-fumaça, se não me engano) conhecemos uma gruta da região e confesso que não me lembrava desse passeio até rever as fotos. E, mesmo assim, continuo sem me lembrar dos detalhes, portanto, vou apenas compartilhar uma foto, mas não vou me estender. Por essas (e por outras) razões que é tão bom ter um blog de viagens, mas naquela época ainda nem pensava nisso, infelizmente.

Gruta da Casa da Pedra, em Tiradentes.
Gruta da Casa da Pedra

E foi assim com tantas lembranças que comecei minha viagem solitária e reflexiva, por esses caminhos mineiros da Estrada Real. Agora, estou em Ouro Preto e antes daqui, passei por Congonhas, ou seja, já estou atrasada na minha tentativa de produzir postagens in loco, mas até que estou gostado da experiência. Seguirei tentando.


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