quinta-feira, 28 de maio de 2015

Vila Rica de Ouro Preto


Igreja de Ouro Preto

Impossível não andar pelas ruas da atual Ouro Preto sem se imaginar em pleno século XVIII, quando ainda era chamada de Vila Rica. Muito rica, aliás, desde que fora descoberto ouro em suas terras pelos bandeirantes paulistas que desbravavam os interiores do país atrás de riquezas e escravos. Seus casarios coloridos e bem preservados, suas fontes e, principalmente, suas inúmeras e exuberantes igrejas fazem com que o ar colonial permaneça presente em cada viela, em cada esquina da cidade. Durante minha estadia em Ouro Preto, várias vezes me peguei construindo mentalmente a cena dos inconfidentes caminhando aqui, ou ali (e convenhamos que eles deviam ser atletas para encarar todas aquelas ladeiras), ou Aleijadinho sendo transportado por seus escravos para talhar alguma de suas fabulosas obras. Impossível também não lembrar das centenas de escravos que trabalharam ferozmente nas minas de ouro, trazidos diretamente da África, depois que a tentativa de escravizar os índios foi fracassada. Presença tão forte e marcante, que deixou profundas raízes na cultura mineira (e brasileira).

Centro Histórico de Ouro Preto
Flanando pelas ruas de Ouro Preto

Da antiga Vila Rica à atual Ouro Preto

Vila Rica chegou a ter uma das maiores densidades populacionais da América (talvez, perdendo apenas para as minas de prata de Potosí, na Bolívia), chegando a ter 40 mil habitantes no auge da extração de ouro. Para ali, corriam todos. Alguns, para explorar as minas, outros para usufruírem do ouro extraído, como artistas que esculpiam com o mineral precioso, padres para abençoarem os mineradores, médicos, mercadores trazendo mantimentos, etc. Mas, a verdade é que o crescimento da cidade foi maior do que a capacidade ainda limitada de abastecimento e muitos homens passaram fome com quilos de ouro na mão, já que não havia comida disponível para todos nos primórdios da mineração. E a situação permaneceu assim até o auge da extração do ouro, em meados do século XVII, quando a produção começou a escassear, gerando intensos conflitos, inclusive com a Coroa Portuguesa, que interpretava a diminuição da arrecadação do quinto (imposto que exigia a cobrança de 20% da produção de ouro na colônia), como consequência do tráfico e não como, de fato, a extinção das jazidas. Como já escrevi, quando passei por Tiradentes, isso levou a grande insatisfação, que culminou na organização frustrada da Inconfidência Mineira, o que não deixou de ser uma inspiração para a própria independência do país.
Não é à toa que Vila Rica foi um centro político e artístico tão importante, já que por suas ladeiras passaram homens de visão, muitos deles com formação acadêmica nas grandes escolas europeias. A capital do império continuava sendo o Rio de Janeiro, mas não há dúvidas que era aqui que grande parte da nosso história colonial acontecia com mais intensidade.

Detalhes da arquitetura ouro-pretense
Porque uma cidade é feita dos detalhes

Ouro Preto, a cidade das igrejas

E toda essa movimentação não deixou de ter grande influência também da Igreja Católica e pude observar isso logo na chegada à cidade. Minha primeira parada foi na Igreja São Francisco de Paula, bem na hora da missa dominical. A igreja estava lotada de fiéis e eu nem me arrisquei a entrar, mas logo me impressionei com a paisagem que se descortinou do seu adro: um verdadeiro mar de igrejas e casas coloniais. Meu primeiro pensamento, naquela hora foi: "mas por que tantas igrejas numa cidade só?". Claro que fui atrás de uma resposta e a que mais me convenceu passa, evidentemente, por questões sociais.

Ouro Preto vista do adro da Igreja São Francisco de Paula
Minha primeira visão de Ouro Preto do adro da Igreja São Francisco de Paula
(no detalhe, Museu da Inconfidência à esquerda e Igreja Nossa Senhora do Carmo à direita)

Missão na Igreja São Francisco de Paula, em Ouro Preto
Missa dominical na Igreja São Francisco de Paula
(o respeito contrasta)

Não era permitido a presença de ordens religiosas na região das minas de ouro, mas a Coroa Portuguesa não impedia a formação de irmandades e foi isso que estimulou a construção de tantas igrejas. Cada irmandade representava uma classe social e era dividida também entre brancos, negros e mulatos e quanto mais rica a igreja mais status tinham os integrantes daquele grupo religioso. Evidentemente que numa sociedade oprimida e com grande ambição em suas camadas sociais, a oportunidade de ascensão social era estimulada e cada um queria ter uma igreja mais opulenta que o outro. É ingenuidade pensar que a quantidade de igrejas de Ouro Preto se deve apenas ao fato do povo mineiro ser religioso. A religiosidade trazia, sim, por trás dela muitas questões econômicas e sociais, afinal um branco dono de mina não sentaria ao lado de um escravo para rezar, mesmo que para o mesmo Deus (ou talvez um Deus parecido, já que a religião para os escravos africanos acabou tendo bastante sincretismo de suas origens africanas).

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Ouro Preto
Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

Aliás, quis o destino que eu me hospedasse exatamente ao lado de uma das igrejas erguidas pelos negros, a singela Igreja Nossa Senhora do Rosário, bem mais simples que as demais, mas imponente mesmo assim. É curioso imaginar como aqueles escravos (que obviamente não tinham salário, nem bens próprios) conseguiram construir algo grandioso e incondizente com sua situação econômica. Sabe-se que os próprios membros da irmandade dos negros doavam suas horas de trabalho livre para a construção da igreja, mas mesmo isso não seria suficiente para erigi-la. Creio que boa parte do financiamento dessa construção deva ter vindo do contrabando de ouro das minas em que os escravos eram trabalhadores. Não os condeno em hipótese alguma.

Detalhe da escadaria da Igreja dos Pretos de Ouro Preto
Detalhe da escadaria da Igreja Nossa Senhora do Rosário

Assim passou meus quase três dias em Ouro Preto, em lentas caminhadas pelas ruas e igrejas da cidade, entremeadas por longas pausas para reflexão (ou seria, parada estratégica para respirar depois de estar esbaforida pelas íngremes ladeiras?), muitos momentos de flanagens descompromissadas e deliciosas com momentos de preguiça e ócio, aproveitados no confortável quarto do hotel.
Foram dias de uma solidão autêntica e produtiva, em que me permiti estar em minha própria companhia com toda as consequências (boas e ruins) dessa escolha.

Mais detalhes da arquitetura colonial de Ouro Preto
Dos detalhes que só a solidão nos deixa ver

Dediquei o primeiro dia a visitar o interior das igrejas, já que no dia seguinte, segunda-feira, todas estariam fechadas. Confesso que tive grande dificuldade em me achar nas vielas do centro histórico e mesmo o mapa do meu guia não ajudava muito. A geografia de Ouro Preto é tão óbvia quanto um balaio de gato e para piorar, nem sempre o caminho mais curto é o melhor, já que muitas vezes vale andar mais para fugir de uma ladeira mais apimentada. Os moradores da cidade parecem não saber onde ficam os lugares e, como toda cidade excessivamente turística há uma certa pressão para se contratar um guia a cada esquina. Mas eu insisti e, mesmo caminhando mais e cansando absurdamente, cheguei nas igrejas que me propus conhecer. Logo percebi que quem mais poderia me ajudar seriam os guardas municipais, sempre solícitos, atenciosos e, melhor de tudo, dando as dicas do caminho menos penoso até o meu próximo destino. Assim fui de igreja em igreja em passos lentos para dar conta de caminhar nas ladeiras até as mais lindas e suntuosas igrejas do período barroco brasileiro. Há restrição de fotografias no interior das construções, mas os altares em ouro e as pinturas detalhadas que vi nesse dia ficarão na minha memória sem nenhuma dificuldade.

Fontes de Ouro Preto
Uma das fontes da cidade

Minha primeira parada foi na Igreja Nossa Senhora do Carmo, cujo projeto é do pai do Aleijadinho, o português Manoel Francisco Lisboa. Infelizmente, a igreja está fechada para visitas, mas fiquei encantada com a fachada, uma das mais bonitas que vi em Ouro Preto. E de lá pude observar a linda paisagem ao redor e ainda contemplei lá no alto a Igreja São Francisco de Paula, aquela mesma que eu tinha visitado assim que cheguei à cidade.

Detalhe da porta da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto
Detalhe da porta da Igreja Nossa Senhora do Carmo

Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto
Igreja Nossa Senhora do Carmo

Igreja São Francisco de Paula observada do adro da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto
Igreja São Francisco de Paula observada do adro da Igreja Nossa Senhora do Carmo

Gostei tanto da vista dessa igreja, que voltei mais tarde para assistir o pôr-do-Sol dali, mas antes ainda tinha muitas ladeiras pela frente e meu próximo destino era a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar. Desci uma rua disposta a quase 90 graus de angulação e, a passos curtos, cheguei na igreja que fica numa parte baixa da cidade. No primeiro momento, quis entrar logo nela e fiquei tão maravilhada com que vi lá dentro, que me esqueci completamente de fotografar sua fachada, que aliás é bem simples e não condiz com seu interior totalmente ornado de ouro e carregado de pinturas fabulosas. Essa é considerada uma das igrejas mais requintadas do barroco brasileiro e, de fato, lá dentro pude observar a riqueza do lugar  com seus 400kg de mineral precioso distribuídos em altares, colunas, painéis e etc. Como é a matriz, seu interior possui seis altares, cada um representando uma irmandade da cidade. Nitidamente, as irmandades mais ricas possuíam altares mais imponentes e não é difícil entender o motivo, que já relatei algumas linhas acima.
A única foto que fiz da matriz foi ao acaso, enquanto caminhava pela parte alta da cidade e lá de cima quis enquadrar o Pico do Itacolomi com os casarios antigos e, por pura sorte, a igreja saiu no enquadramento, mesmo que escondidinha e timidamente.

Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto
Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar
(escondidinha entre os casarios)

O Pico do Itacolomi

Aliás, o Pico do Itacolomi merece umas palavrinhas, afinal ele tem uma grande importância histórica por ser considerado o farol dos bandeirantes, pois como era observado desde muito longe, os primeiros desbravadores da região sabiam que quando avistassem duas pedras, sendo uma grande e outra pequena ao seu lado, estariam perto do ouro. O pico faz parte da Serra do Espinhaço e é hoje uma área de proteção ambiental de mais de sete mil hectares de extensão e faz a divisa de território entre os municípios de Ouro Preto e Mariana. Por onde andamos na cidade, avistamos essas pedras, que sempre ornam a paisagem, deixando as fotos ainda mais bonitas.

Pico do Itacolomi, em Ouro Preto
Detalhe do Pico do Itacolomi em dia nublado
(feita no meu segundo dia na cidade)

Igreja Nossa Senhora do Carmo e Pico do Itacolomi, em Ouro Preto
Igreja Nossa Senhora do Carmo e o Pico do Itacolomi
(vista da Igreja São Francisco de Paula, no dia da minha despedida de Ouro Preto)

Mas ainda não tinha terminado meu tour pelas igrejas ouro-pretenses e ainda faltava visitar a que mais eu tinha expectativas, a famosa Igreja São Francisco de Assis, considerada uma das mais importantes obras de Aleijadinho, que elaborou o projeto da fachada e de seus elementos decorativos. E como se não bastasse, o teto foi pintado por Mestre Ataíde, considerado o maior pintor brasileiro do período colonial e que tinha grande coragem ao empregar traços nitidamente mestiços para representar as figuras de anjos, santos e madonas. E, de fato, não me decepcionei. Não só a fachada é deslumbrante, como o seu interior. Vale todo o esforço de andar naquelas ladeiras íngremes para estar ali sem pressa e disposto a observar cada detalhe.

Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto
Igreja São Francisco de Assis

Mário de Andrade, um contumaz admirador de Aleijadinho e grande responsável pelo reconhecimento que é dado hoje ao mestre entalhador, escreveu:
"É certo que elas [as igrejas de Aleijadinho] não possuem majestade, como bem denunciou Saint-Hilaire. Mas a majestade não faz parte do Brasileiro, embora faça parte comum da nossa paisagem. Carece, no entanto, compreender que o sublime não implica exatamente majestade. Não é preciso ser ingente para ser sublime. As igrejas do Aleijadinho não se acomodam com o apelativo 'belo', próprio à São Pedro de Roma, à catedral de Reims, à Batalha , ou à horrível São Marcos de Veneza. Mas são muito lindas, são bonitas como o quê. São dum sublime pequenino, dum equilíbrio, duma pureza tão bem arranjadinha e sossegada, que são feitas pra querer bem ou pra acarinhar, que nem na cantiga nordestina. São barrocas, não tem dúvida, mas a sua lógica e equilíbrio de solução é tão perfeito, que o jesuitismo desaparece, o enfeite se aplica com uma naturalidade tamanha, que si o estilo é barroco, o sentimento é renascente [renascentista]. O Aleijadinho soube ser arquiteto de engenharia. Escapou genialmente da luxuosidade, da superfectação, do movimento inquietador, do dramático, conservando uma clareza, uma claridade é melhor, puramente da Renascença" (trecho do livro: Mário de Andrade em Minas Gerais: e busca das origens históricas e artísticas da nação).
E é isso mesmo que sentimos nessa igreja mágica, onde perdi a noção do tempo (do relógio e do tempo histórico, já que caminhar pelos altares daquele lugar é, sem dúvida, uma retorno ao passado). Quando saí de lá, o Sol já estava baixando, mas ainda tive tempo de conhecer o Museu da Inconfidência, que verdadeiramente não curti. Aliás, dificilmente gosto dos museus históricos brasileiros, que mais me parecem um agregado de quinquilharias bobas e pouco instrutivas. A única coisa que valeu a pena foi conhecer o lindo prédio, onde localizava-se a antiga Casa de Câmara e cadeia da Vila Rica. Ali,encontra-se o Panteão dos Inconfidentes, que reúne os restos mortais dos heróis da Conjuração Mineira, trazidos da África (onde foram degredados depois de condenados pela inconfidência). De resto, não me acrescentou muito a visita.

Praça Tiradentes e Museu da Inconfidência, em Ouro Preto
Praça Tiradentes com o Museu da Inconfidência, ao fundo

Museu da Inconfidência, em Ouro Preto
Detalhe do Museu da Inconfidência com a estátua de Tiradentes- de costas
(foto feita da balaustrada do Museu da Ciência e Técnica)

O museu fica na ilustre Praça Tiradentes, onde foi exposta a cabeça do mais famoso (após sua morte, evidentemente, já que antes era um simples dentista) dos inconfidentes, Joaquim José da Silva Xavier, que havia sido decapitado no Rio de Janeiro. No local, foi erguido uma estátua em sua homenagem, que curiosamente fica de costas para a antiga residência do governador (hoje, Museu da Ciência e Técnica). Um lindo conjunto de casarios coloniais envolve a praça, mas a ausência de árvores e de espaço de convivência e de bancos deixa o lugar com um ar um tanto quanto descampado e desumanizado.

Praça Tiradentes, em Ouro Preto
Detalhe do casario ao redor da Praça Tiradentes

Da antiga residência do governador, do outro lado da praça, há uma deliciosa balaustrada com um refrescante e benfazejo ventinho, que acalma a canseira dos sobes-e-desces da cidade e de onde se tem uma linda vista da antiga Vila Rica. De lá, encontrei um belo ângulo para fotografar a Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões, que também foi erigida pela irmandade dos pretos, mas que não cheguei a entrar, pois era mais afastada do centro histórico.

Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões, vista do museu, em Ouro Preto
Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões observada do Museu de Ciência e Técnica

O Sol já estava quase se pondo, quando desci do museu e decidi, então, assistir o fim do dia, no adro da Igreja Nossa Senhora de Paula, onde havia estado mais cedo e já havia calculado que o Sol se poria em sua frente. Meus cálculos estavam certos e, quando cheguei, o Sol já quase se escondia na montanha em frente. Não foi assim um pôr do Sol espetacular, mas sempre é gostoso assistir o fim de mais um dia, ainda mais cercada de tanta história.

Pôr do Sol do adro da Igreja Nossa Senhora de Paula
Pôr do Sol do adro da Igreja Nossa Senhora de Paula

Assim que o Sol baixou, o frio chegou com força e eu fui obrigada a iniciar o caminho de volta ao hotel, já que estava sem agasalho. Mas, não resisti às belas formas que observei ao longo do caminho, que iam se modificando com a luz do entardecer.  Uma pena que o dia não estivesse tão aberto, pois penso que o pôr do Sol de um dia ensolarado em Ouro Preto deva render fotos fabulosas.

Fim de tarde em Ouro Preto
No caminho de volta ao hotel

Naquela noite, jantei no quarto do hotel mesmo e tentei colocar em prática meu plano de fazer posts ao vivo ao longo da viagem. Consegui adiantar a postagem sobre Tiradentes, mas não consegui terminar, pois escrevo lentamente e sempre me pego a ler ou ver algum vídeo no youtube sobre o local que estou escrevendo, atrasando ainda mais a escrita.  Mas sem dúvida que dormi sonhando com o período colonial e com seus artistas e inconfidentes.

O Centro Histórico e a arquitetura colonial de Ouro Preto

No dia seguinte, acordei sem pressa e reservei o dia para flanar na cidade, afinal era segunda-feira e as igrejas estariam fechadas. Sem a horda de turistas que invade o centro histórico nos finais de semana, pude observar o movimento agitado dos moradores de Ouro Preto, que aproveitavam a manhã de um dia útil para resolver problemas e fazer comprar. A pequena Vila Rica tem crescido numa velocidade considerável após a redescoberta das belezas barrocas pelos turistas, principalmente nas últimas décadas e ainda recebe muitos estudantes da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), que lotam as inúmeras repúblicas (cada uma com um nome mais divertido que a outra) da cidade. Esse crescimento é preocupante, já que traz sérios riscos ao patrimônio histórico. Carros em excesso circulam pelas ruas de pedra sem restrição alguma, encostas são ocupadas de forma desordenada, causando riscos ambientais e moradores se aglomeram pelas apertadas calçadas, construídas para poucos passantes, o que os obriga a andar na rua, correndo risco de atropelamento. Controlar esse crescimento caótico, sem dúvida, que é um desafio aos governantes e aos próprios moradores e amantes da cidade.

Repúblicas ouro-pretenses
República Rebú
(imagina como não devem ser organizados lá dentro)

Nesse segundo dia, conheci algumas igrejinhas mais simples e menos famosas e ainda fiz uma caminhada cansativa até a igreja que via da janela do meu quarto. Fui caminhando em direção à ela e qual não foi minha surpresa, quando descobri ao chegar lá em cima (sim, ela é BEM no alto da cidade), que se tratava da Igreja Nossa Senhora de Paula, que eu já havia visitado na véspera. Mas o esforço não foi em vão, pois no caminho descobri preciosidades e fui encontrando novos ângulos para fotografar a cidade.

Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto.
Dois ângulos da mesma igreja, a Nossa Senhora do Carmo

Ouro Preto


Foi um dia sem grandes compromissos e de bate-papos descontraídos com os mineiros, que eu tanto amo. Depois do almoço, caminhando de volta ao hotel, encontrei um senhor já bem idoso, vestido de calça azul vibrante e camisa da mesma cor colocada por debaixo da calça e atada num enorme cinto de couro marrom, bolsa-carteiro a tira-colo e chapéu da mesma cor do cinto. Tinha quase todos os dentes de ouro e sotaque marcante. Passei por ele, voltei, fiquei olhando e, finalmente, criei coragem de puxar assunto e pedir uma foto. Imediatamente, ele resmungou:
- Foto prequê, sô?! Num tenho mais idade prisso, não, fia.
Pena que foi difícil conseguir um bom enquadramento com o tanto de gente que passava na rua, mas sem dúvida que a imagem daquele senhor humilde e bem aprumado ficará na minha memória. Os mineiros são de uma docilidade encantadora e que eu não me canso de respeitar e apreciar. Não é à toa que tenho tantos amigos das Minas Gerais. Terra boa demais da conta, .

Nativo de Ouro Preto
Mineiro 

E assim passou minha segunda-feira com direito a soneca pós-prandial e preguiça vespertina. Teria que me despedir da cidade no dia seguinte, mas protelei por algumas horas à ida para Mariana e resolvi dar uma última volta pela cidade, que tinha amanhecido com um céu azul fenomenal. Fiz minhas últimas fotos e parti já sentindo saudade dos dias vagarosos que passei nessa cidade tão viva e pulsante. Espero voltar em breve, Vila Rica.

Despedida de Ouro Preto
Fazendo as últimas fotos da cidade e tentando me despedir de Ouro Preto


Mais sobre a Estrada Real:

4 comentários:

  1. Ana, quando visitei Ouro Preto era uma jovem estudante de jornalismo e nem imaginava que um dia teria um blog de viagens. Acho que não aproveitei bem a cidade, até porque fomos numa excursão programada pela faculdade. Hoje, ao ler o seu completíssimo post, deu-me uma vontade louca de voltar. Aliás, a região merecia uma longa exploração, pois só passei por Ouro Preto, Mariana e a Serra do Cipó. Quem sabe um dia volto...
    Muitos beijinhos
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Volte sim, Ruthia. A Estrada Real é uma das maravilhas coloniais que Portugal nos deixou! Vale sempre a visita! :)

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  2. DESCRIÇÃO DA IGREJA DE SÃO FRANCISCO DE OURO PRETO
    Aos guias turísticos de Ouro Preto

    “São Francisco de Assis de Ouro Preto é a obra de arte mais comovente de todo o Brasil”.
    Manuel Bandeira
    As torres da fachada recuadas,
    Logo acima da porta está Maria
    Com anjos, duas janelas não ornadas...
    Acima dela, quem jamais diria?
    O santo que é famoso em humildade
    Os estigmas do Cristo recebendo
    (Cristo com serafina identidade,
    Entre nuvens e raios, estupendo).
    Quando andas pela nave em direção
    Ao altar, o chão treme aos passos teus:
    Tinham aquelas tábuas por missão
    Corpos guardar de quem buscava Deus.
    Eis no altar-mor Francisco, sobranceiro,
    Com um crânio na mão, qual Hamlet mineiro.
    (31-07-2014)
    Poema do meu livro "Ouro Preto e outras viagens", editora Fragmento.

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    1. Que belo poema, Edson! Obrigada mesmo por compartilhar! :)

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