domingo, 7 de junho de 2015

Eu, a Bolívia, o soroche e um punho fraturado

"Não discuto com o destino
o que pintar eu assino."
(Paulo Lemiski)
Perrengues na Bolívia

Quando comecei a escrever esse post, o título era: Eu, a Bolívia, o soroche e um punho QUASE fraturado. Isso foi há uma semana e de lá pra cá, descobri que o quase era mesmo uma fratura inteira e agora cá estou escrevendo com uma mão só (justamente a esquerda, que sou mais lenta e desastrada) e com o braço direito engessado até a axila. E o pior é que esse não foi o único percalço da nossa viagem pelo norte da Bolívia, nem o mais tenso, já que Potosí me reservou a pior noite da minha existência balzaquiana e uma das poucas vezes na vida que fiquei com medo de morrer. Nossa passagem pelo país acabou se caracterizando pela polaridade: paisagens fabulosas e perrengues homéricos, mas apesar de tudo isso, eu não me arrependo de nenhum dos dias que passamos por lá e já pensamos em voltar pra explorar outras regiões que não conhecemos. Também senti falta de um contato mais próximo com o povo boliviano e, sem dúvida, que isso ficou pendente na minha lista para a próxima vez. Mas neste post, em especial, vou me permitir relatar os tantos atropelos que tivemos (mais eu do que o Thiago, na verdade) durante esses dias em terras bolivianas, já que essas também são histórias que fazem parte da viagem, afinal viajar é também se deparar com o inesperado e aprender a lidar com ele.

Perrengues na Bolívia
Pelas estradas da Bolívia

Nossa viagem até que começou bem, com uma salteña deliciosa que comemos no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra, enquanto esperávamos o vôo para Sucre. Vôo, aliás, belíssimo em que conseguimos ver os Andes crescendo em altura, conforme íamos nos aproximando do destino final. Sucre fica a 2800m de altitude e, apesar de não ter sentido nenhum mal-estar, a cidade não me encantou. Talvez, pelo tempo nublado que pegamos, ou por alguma falta de compreensão da minha parte, mas a verdade é que sequer consegui a fotografar com afinco e apenas dediquei um clique ao simpático hostal que nos hospedamos (e curioso que nem costumo fazer isso, geralmente).

Perrengues na Bolívia
Nosso hostal em Sucre

Perrengues na Bolívia: o soroche em Potosí

Logo na manhã seguinte, partimos para Potosí e, talvez, esse tenha sido nosso grande erro na viagem, já que subimos direto desde 2800m para 4100m sem qualquer aclimatação. Eu tinha esperança de que ficaríamos bem, já que em 2012 estivemos no Peru, chegando por Cusco que fica a 3400m e passamos relativamente bem (só cansávamos um pouco mais que o normal pra andar, mas nada que água e folhas de coca não resolvessem). Mas a verdade é que em Potosí foi bem diferente e já na chegada à cidade comecei a me sentir mal e quase não tinha força pra sequer carregar meu mochilão. Passei quase o dia todo na cama do hotel e só no fim do dia tive forças para ir jantar. Quando voltamos, me preparei pra deitar novamente e foi aí que meu inferno começou. Primeiro, comecei a sentir palpitação e parecia que eu tinha acabado de correr uma maratona de tão cansada, mesmo sem ter  feito grande esforço. Não conseguia ficar deitada, já que a falta de ar aumentava e com a luz apagada comecei a ver bolas de luz dançando na minha frente e uma dor de cabeça insuportável parecia que ia me deixar louca. Como se não bastasse, no meio da madrugada, intensas cólicas intestinais me assolaram, mas por mais força que eu fizesse pra evacuar nada saía (e eu ainda estava num banheiro compartilhado, o que me deixava ainda mais desconfortável). O que me dava um pouco mais de alívio era beber água, mas lá pelas seis da manhã a água acabou e quando o Thiago tentou conseguir mais na recepção, descobriu que não havia nenhum funcionário no hotel e tudo estava trancado. Ele quase arrombou a porta pra conseguir sair e, no caminho para o mercado, encontrou um senhor gentil que lhe sugeriu comprar as pílulas pro soroche  e ainda o levou até a farmácia. Quando ele voltou, eu já tinha decidido que sim, tomaria remédio. Eu tinha comigo aspirina (base farmacológica da soroche pill), mas na minha eterna resistência em tomar remédio acabei demorando muito até decidir tomá-lo.
Curioso que o efeito da aspirina foi tão potente, que eu que havia passado à noite só pensando em pegar o primeiro ônibus para uma cidade mais baixa, melhorei tanto que consegui até visitar a Casa de la Moneda, que guarda a história das minas de prata de Potosí.

Perrengues na Bolívia
Cerro Rico de Potosí

Perrengues na Bolívia
Uma das poucas fotos que fiz de Potosi: o centro histórico com o Cerro Rico (onde fica a mina de prata) ao fundo

O soroche (ou mal de altitude) é o temor de todo viajante que vai pros Andes e é resultado da baixa concentração de oxigênio no ar, consequente da diminuição da pressão atmosférica. A maioria das pessoas que vive ao nível do mar sente algum tipo de desconforto, quando sobe rápido à grandes altitudes, mas os sintomas costumam ser leves e benignos, como dor de cabeça, cansaço a pequenos esforços, náusea, ou diarréia. Uma minoria das pessoas tem complicações mais severas, como edema agudo de pulmão, ou cerebral. Pelo que pesquisei na internet, as bolas que vi  (escotomas cintilantes) não são sintomas comuns, mas acredito que minha pressão arterial tenha subido muito naquele dia, mesmo eu não sendo hipertensa. Enfim, só posso agradecer por ter ficado bem e por nada mais grave ter me acontecido. Pra mim, ficou a lição de tentar aclimatar mais gradualmente nas próximas vezes no país.

Perrengues na Bolívia

Mas mesmo com a melhora, nós já estávamos decididos a ir embora naquele mesmo dia e por pura ironia, Uyuni com seus 3750m de altitude me parecia, naquelas circunstâncias, um oásis de oxigênio. A mudança deu certo e eu parecia outra pessoa, quando cheguei em Uyuni: mais disposta, sem falta de ar e sem dor de cabeça. Parece que até o clima resolveu me ajudar, já que em Potosí o céu estava cinza e já na estrada pra Uyuni um solzão apareceu com aquele céu azul tipicamente andino e, enfim, eu pude (literalmente) respirar aliviada e senti que nossa viagem estava começando.

Perrengues na Bolívia
A fabulosa estrada entre Potosí e Uyuni

Perrengues na Bolívia: braço fraturado em Uyuni

Com minha estupenda melhora após a chegada em Uyuni, achei que enfim poderia ficar tranquila para curtir as paisagens magníficas do Salar e do altiplano boliviano, mas a sorte não estava mesmo do meu lado nessa viagem.
No segundo dia no altiplano, entre o nada e o lugar nenhum, mais exatamente às margens da belíssima (e de nome ironicamente peculiar no contexto que se segue) Laguna Hedionda, estava descendo do carro, quando Thiago veio até mim esbaforido pedindo a câmera. Eu me assustei, me precipitei, escorreguei e caí do carro de bunda no chão. Teria sido apenas cômico se eu não tivesse me apoiado com toda força no punho direito e ouvido imediatamente após a queda um cleck que não sairá tão cedo da minha memória. Senti uma dor descomunal e imediatamente minha mão virou um pilão de tão inchada. Meu tênis já estava velho e desgastado antes mesmo de viajarmos e eu tenho me culpado desde então por não ter comprado um par novo aqui no Brasil antes da viagem, mas agora Ines é morta e eu aprendi a lição. No calor da hora, ainda consegui despistar a dor e fiz algumas fotos do lugar, inclusive do coiote que foi o motivo do Thiago ter me pedido a câmera. Mas de volta pro carro e com o corpo mais frio, sofri de verdade com o sacolejo intenso nos caminhos off-road que atravessávamos. E era só o começo do meu sofrimento...

Perrengues na Bolívia
Foto do Thiago no exato momento em que eu me acidentava ao sair do carro

Perrengues na Bolívia
Laguna Hedionda, cenário do meu hediondo acidente

E eu que sou sempre precavida nas viagens, tinha me preocupado em levar aspirina por conta do soroche, mas havia me esquecido completamente de levar um anti-inflamatório. Numa das paradas seguintes, o Thiago ainda conseguiu encontrar um gelo, que havia congelado espontaneamente no balde de um banheiro. Água suja provavelmente, mas como eu não tinha nenhum arranhão, ou lesão aberta achamos que seria melhor que nada. Não havia nenhuma possibilidade de atendimento médico por perto e o máximo que consegui foi 1 (hum) comprimido de diclofenaco com uma brasileira que encontramos no abrigo que nos hospedamos e uma tala da israelense que compartilhava o carro conosco.
Fui dormir com muito medo, já que nesse momento estávamos a 4600m de altitude e as lembranças de Potosí ainda rondavam minha cabeça. Além disso, todos diziam que esse abrigo era muito frio, chegando facilmente a temperaturas negativas e não havia nenhuma calefação. Minha preparação pra dormir foi quase que pra uma guerra: quatro calças, três blusas e o meu casaco mais quente, três meias, duas tocas e duas luvas e ainda com meu saco de dormir e três cobertores. Antes de deitar, tomei uma aspirina e o diclofenaco que ganhei e, dessa maneira, até que consegui dormir razoavelmente bem. O melhor foi não ter vontade de fazer xixi durante a madrugada, já que além do frio que eu teria que enfrentar, ainda precisaria da constrangedora ajuda do Thiago para tirar as quatro calças que eu vestia, já que a dor me impossibilitava de fazê-lo.

Perrengues na Bolívia
Mais uma da paisagem na estrada entre Potosí e Uyuni

Apenas no dia seguinte, já em San Pedro de Atacama, no Chile, consegui atendimento. O médico chileno, muito simpático e atencioso, me examinou e garantiu que eu não precisaria interromper minhas férias por conta do incidente. Disse que era quase certo que não havia fratura e que mesmo que houvesse, ela seria pequena e sem necessidade de cirurgia. Não me pediu nenhum raio-x e me orientou que eu poderia fazê-lo no Brasil, quando voltasse. Ele me prescreveu anti-inflamatório por cinco dias, além de gelo e assim, segundo ele, poderia continuar nosso giro pelo deserto.
De fato, o inchaço melhorou bastante, mas depois de alguns dias minha mão começou a ficar mais escura e a dor melhorava pouco. Tomei dez (ao invés de cinco) dias do remédio e quando parei a medicação, a dor voltou com tudo, quando já havíamos retornado ao Brasil. Foi quando eu achei que era hora de ir ao ortopedista, fiz o raio-x e recebi a triste notícia que, sim, tinha fraturado e que precisaria engessar. Apesar de ficar surpresa com a notícia, o que mais me entristeceu mesmo foi ouvir as piadinhas pouco éticas dos médicos brasileiros, que me perguntavam se o médico que me atendeu no Chile não era cubano. Trabalhando com médicos cubanos há mais de um ano, só cresce minha admiração por esses profissionais humanos e dedicados. O Thiago depois me perguntou se eu não defendi os colegas cubanos. Deveria tê-lo feito, mas confesso que me senti coagida e fragilizada e não consegui falar nada. Mas, exceto por essa brincadeira infame, fui extremamente bem tratada.

Perrengues na Bolívia

Claro que me imaginar quatro semanas com esse gesso (hoje estou apenas no sétimo dia) é horrível para mim. Ainda mais sem poder trabalhar, o que me deixa bem desconfortável e ainda prejudica futuras viagens. Mas mesmo com tudo isso, ainda acho que valeu a viagem, valeu a experiência, valeu todo o aprendizado. E faria tudo de novo, mudando apenas o meu tênis talvez. Penso que viajar também é enfrentar dificuldades e encarar o inesperado, além de ser um exercício constante de simplesmente deixar a vida acontecer. Afinal, se eu não quisesse correr riscos, ficaria bem confortável no sofá de casa, não tenho dúvidas.


Informações Práticas:

1- O que é soroche?
Soroche, ou Mal de Altitude é o conjunto de sinais e sintomas que surgem em resposta à alteração brusca na oxigenação sanguínea de pessoas submetidas a grandes altitudes, em geral, acima de 2400 metros acima do nível do mar. Os sintomas mais comuns são cansaço a pequenos esforços, cefaléia, náuseasvômitos e alterações no sono. Nos casos mais graves (que são a minoria das vezes), os sintomas podem evoluir para edema agudo de pulmão e edema cerebral.

2- Como evitar o soroche?
-O melhor tratamento é a prevenção! Para isso, recomenda-se que a ascensão para grandes altitudes seja lenta e gradual para que o organismo vá aos poucos se aclimatando às condições de baixa pressão de oxigênio. Para isso, o ideal é que a partir de de 2400 metros de altitude, haja subida de, no máximo, 500 metros por dia. 
- Uma vez que não foi possível a subida gradual, recomenda-se repouso e esforço físico nos primeiros dias num local de grande altitude. 
-Os montanhistas tem o seguinte lema, quando o assunto é soroche: "andar alto e dormir baixo" e esse é um bom conselho, já que, se for possível, recomenda-se dormir em altitudes menores dos que as que foram alcançadas durante o dia. 
-E é fundamental que se beba bastante água, já que a desidratação é uma das causas dos sintomas. Além disso, recomenda-se evitar consumo de álcool no período de adaptação à altitude.

3- Como tratar o soroche?
Na maioria dos casos, o soroche é uma condição benigna que melhora espontaneamente após um ou dois dias de aclimatação, porém se os sintomas são desconfortáveis algumas medidas podem ser tomadas.
- Beber água! Mais até do os 2L diários normalmente recomendados. 
- Analgésicos podem ser utilizados para a dor de cabeça.
- E o soroche pill? Sua principal substância é a aspirina, que auxilia nos sintomas de cefaléia e afina o sangue, evitando edema cerebral, mas é importante avaliar as contra-indicações individuais do uso dessa medicação.
- Em caso de sintomas mais graves, como tosse produtiva (com espuma), falta de ar mesmo em repouso, ataxia (desequilíbrio e dificuldade para andar), ou alucinações visuais é importante a descida IMEDIATA para altitudes menores e suporte médico com oxigenação assistida, pelo risco de morte dessas condições. 

Leitura recomendada: Manual MSD e Artigo Médico


Mais sobre a Bolívia e oSalar de Uyuni:

E na mesma viagem, o Deserto do Atacama:


7 comentários:

  1. Faz uma rifa pra comprar seu próximo tênis! ;)
    E ao invés de ficar se preocupando em aclimatar e morrer do coração, toma o diacho do remédio que foi feito pra isso, teimosa!

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    1. Você leu o post!!!!!!! Uau!!!!! :) rsrs
      Tô aceitando tênis de presente! kkkk

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  2. Participo da rifa, ainda mais se o prêmio for um soroche pill.

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  3. po que mal....

    tb tive uma péssima passagem em potosi e olha que fui depois de la paz e de uyuni, nosso organismo não acostuma tão facil ehehe

    melhoras aí !!

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    1. Pois é, Gabriel. Dei azar nessa viagem, mas já estou melhorando! :)
      Abraços!

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  4. Amigos blogueiros, citamos vocês em um post lá no blog! =)
    By the way, beeelas fotos!

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    1. Ah, que lindo, Anna! Muito obrigada! Compartilha aqui com a gente o link pro seu post?
      Abraço!

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