terça-feira, 2 de junho de 2015

Mina da Passagem de Mariana, Chico Rei e meu retorno pra casa


Mina da Passagem, em Mariana

Nesses dias solitários pela Estrada Real, foi inevitável para mim não pensar no trabalho extenuante dos escravos africanos dentro das inúmeras minas de ouro da região. No começo, a extração era feita apenas nos aluviões dos rios, quando as pedras ainda eram superficiais e de fácil acesso. Mas logo esse depósito raso se esgotava e era necessário que os mineiros procurassem outro ponto no leito do rio para continuarem a extração, o que caracterizava sua atividade como predominantemente nômade. Não existia, na colônia de então, tecnologia suficiente para extração subterrânea (como era feito, por exemplo, nas minas de prata de Potosí) e quando uma jazida começava a se esgotar e diminuir de produção, os grandes mineradores a abandonavam deixando espaço para a faiscação (extração de baixa rentabilidade, feita por pequenos mineradores). Uma das poucas exceções a esse nomadismo, foi a Mina da Passagem, já que após o esgotamento dos aluviões, seus donos a transferiram para estrangeiros que possuíam maquinário e conhecimento de extração subterrânea, o que permitiu sua sustentabilidade econômica por mais de um século. E assim nasceu a maior mina de ouro do mundo, que eu visitei na minha passagem por Mariana.

Mina da Passagem, em Mariana

Mina de Chico Rei

Mas claro que também existiam outras minas subterrâneas na região e, talvez, a mais famosa delas seja a Mina de Chico Rei. Conta a estória que essa figura lendária era, de fato, rei numa tribo do Congo, quando todo seu povo e sua família foi capturado e traficado para o Brasil. Em Vila Rica, Galanga Muzinga (seu nome de nascença) teria trabalhado como escravo nas minas e escondia ouro nos seus cabelos, tendo conseguido assim comprar sua alforria e de muitos outros escravos de sua tribo. E ainda conseguiu a posse da antiga mina que trabalhava, que hoje tem seu nome. É de se pensar o motivo que levou esse homem a querer o reconhecimento na sociedade escravocrata e eminentemente branca da época, ao invés de fugir pra um quilombo e viver com sua gente, livres que eram mesmo sem carta de alforria. Enfim, ninguém sabe se esse corajoso negro, de fato, existiu e se essa estória toda é verdadeira, mas fato é que Chico Rei povoa o imaginário ouro-pretense com seus ideais libertários e sua lenda deu origem a um dos nossos principais folguedos folclóricos, o Congado. O Rei do Congo e das Minas já foi tema de um antigo samba-enredo da Salgueiro, em 1964, que diz:

"Vivia no litoral africano
Um régia tribo ordeira
Cujo rei era símbolo
De uma terra laboriosa e hospitaleira.
Um dia, essa tranqüilidade sucumbiu
Quando os portugueses invadiram,
Capturando homens
Para fazê-los escravos no Brasil.

Na viagem agonizante,
Houve gritos alucinantes,
Lamentos de dor
Ô-ô-ô-ô, adeus, Baobá,
Ô-ô-ô-ô-ô, adeus, meu Bengo, eu já vou.
Ao longe Ninas jamais ouvia,
Quando o rei, mais confiante,

Jurou a sua gente que um dia os libertaria.
Chegando ao Rio de Janeiro,
No mercado de escravos
Um rico fidalgo os comprou,
Para Vila Rica os levou.
A idéia do rei foi genial,
Esconder o pó do ouro entre os cabelos,
Assim fez seu pessoal.
Todas as noites quando das minas regressavam
Iam à igreja e suas cabeças lavavam,
Era o ouro depositado na pia
E guardado em outro ligar de garantia
Até completar a importância
Para comprar suas alforrias.
Foram libertos cada um por sua vez
E assim foi que o rei,
Sob o sol da liberdade, trabalhou

E um pouco de terra ele comprou,
Descobrindo ouro enriqueceu.
Escolheu o nome de Francisco,
Ao catolicismo se converteu,
No ponto mais alto da cidade Chico-Rei
Com seu espírito de luz
Mandou construir uma igreja
E a denominou
Santa Efigênia do Alto da Cruz!"

E sua estória (verídica, ou não) virou até filme. Chico Rei foi lançado em 1985 e dirigido por Walter Lima Junior. Consegui achar a gravação original no Youtube, nesse link, mas como todos os filmes brasileiros da década de 80, tem um áudio bem ruim.

Mina da Passagem, em Mariana

Mas a mina que visitei não foi a de Chico Rei, apesar do meu explícito interesse por essa figura. Visitei, isso sim, a Mina da Passagem, bem maior e mais explorada que a do negro alforriado. Cheguei lá numa ensolarada manhã de terça-feira e tive o privilégio de ser a única visitante do lugar. A simpática guia me direcionou até um carrinho um tanto quanto medonho, que desceu conosco pra debaixo da terra e seguiu ainda um bocado (pra exatamente 120m de profundidade), passando por inúmeros túneis laterais, num emaranhado de veios, todos seguindo a direção dos minerais mais escuros, que eram os faróis onde seria achado o ouro. Diferente das outras minas de Ouro Preto, aqui foram usados explosivos e bombas, que foram justamente os facilitadores da expansão da mina.
Quando descemos do carrinho, caminhamos por algumas galerias e fui aprendendo como era feita a extração e como os mineradores sabiam onde encontrar o ouro. Cheguei até mesmo a ver o famoso ouro de tolo, que é em realidade uma pedra de pirita e que por seu brilho e cor enganava muitos que acreditavam ter encontrado ouro verdadeiro. Estima-se que já foram retirados daqui cerca de 35 toneladas do raro mineral, mas hoje sua principal atividade econômica é mesmo o  turismo, já que a extração não é mais tão rentável, como outrora.

Mina da Passagem, em Mariana
Entrada da Mina da Passagem

A visita foi bem agradável e terminou com chave de ouro (com licença pro trocadilho) num lindo lago que se formou com a água dos lençóis freáticos da região, quando a mina foi desativada e as bombas que retiravam a água desligadas. Com isso, acabamos ganhando esse presente de águas cristalinas, que hoje é um dos poucos lugares no Brasil onde é possível fazer mergulho em caverna. Deve ser uma aventura e tanto mergulhar num lugar de onde já saiu tanto ouro. Uma pena que tive dificuldades para fotografar lá dentro, já que a luz não favorecia e eu estava sem tripé, mas acabei apoiando a câmera no chão mesmo pra conseguir fazer algumas fotos. O resultado está longe de ser dos melhores, mas me serve como recordação dessa visita tão especial, carregada de histórias e de memórias.

Mina da Passagem, em Mariana
Belo lago no interior da Mina da Passagem

O centro histórico de Mariana

Após sair da mina, aproveitei para conhecer um pouco de Mariana, que já foi capital das Minas Gerais e visitei sua esplendora catedral, uma das mais ricas do Brasil. Como nas igrejas de Ouro Preto, aqui também não podemos fotografar seu interior, mas tive a sorte de encontrar lá, um grupo da CVC, cujo guia era bem entendido de história e arte e tive uma longa aula sobre o período colonial brasileiro e sobre o barroco. Eu não me imagino viajando nessas excursões, mas entrar em visita guiada alheia, principalmente em museus e igrejas é minha especialidade e não poderia ser diferente aqui.

Cidade mineira de Mariana
Um panorama de Mariana

Pelas ruas de Mariana
Pelas ruas de Mariana

Depois da aula de história, deu mais algumas voltas na cidade e pensando um pouco nos meus próximos passos, decidi que já estava bom de ver tantas igrejas e que iria pra algum lugar que eu pudesse ter mais contato com a natureza. Foi quando me lembrei de São Thomé das Letras, que eu já havia estado em 2012 com Thiago e alguns amigos, numa viagem chuvosa e cheia de aventuras. Rumei para lá, mas depois de quatro horas dirigindo, vi que o GPS tinha minimizado o tempo de viagem (que inicialmente seriam de cinco horas). Quando me dei conta de que passaria, em realidade, quase oito horas na estrada, dirigindo sozinha e no escuro, decidi que era melhor abortar a missão e desisti de continuar viagem aquele dia. Acabei pernoitando numa cidadezinha no meio do nada, num hotel, cuja rua era passagem de gigantescos caminhões que balançavam o quarto inteiro a cada vez que passavam. As seis da manhã, desisti de dormir e segui viagem, dessa vez decidida a voltar pra casa, já que entendi aquela noite insone como um sinal de que já era hora de concluir meus dias solitários. Acho (só acho...) que uma boa pitada de saudade do Thiago também tenha ajudado na decisão de retornar.
Iniciei meu caminho de volta pra casa, mas depois de duas horas na estrada, a noite mal dormida começou a cobrar seu preço e em meio a algumas pestanejadas perigosas no volante, decidi parar num Frango Assado (bendito seja quem criou essa rede com banheiros limpos e estacionamento coberto) para descansar. Dormi no carro por quase duas horas e quando acordei estava mais disposta a encarar os quilômetros restantes até chegar em casa. Dirigir longas distancias é cansativo e passei a admirar ainda mais os caminhoneiros depois desses dias de estrada solitária. Foram momentos de aprendizado e auto-conhecimento bem importantes e que guardarei com carinho na memória. Até a próxima viagem solitária...


Mais sobre a Estrada Real:

Paraty Para Todos
Pela Estrada (Real) afora eu vou bem sozinha...
Sobre Tiradentes, São João del Rey, lembranças e reflexões
A Congonhas do Campo de Aleijadinho
Vila Rica de Ouro Preto
Mina da Passagem de Mariana, Chico Rei e meu retorno pra casa
A Charmosa São Luiz do Paraitinga
Cunha tem Lavandário? Tem sim, senhor!


3 comentários:

  1. Eu fui na Mina de Passagem na minha graduação em Geologia e foi bem legal. Não consegui ir na cidade como vc, estou devendo isso. Agora gps engana mesmo, pq as estradas de Minas não dá para fazer com média de velocidade alta e ir para São Thome de Mariana é bem longinho. Planeje uma viagem com calma para região. É melhor. Rs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, Camila. Mariana é um encanto e eu adorei a Mina da Passagem. Se eu entendesse mais de Geologia acho que ia gostar mais ainda! rs
      Viajar pra Minas é plano pra vida toda! Não canso de ir pra esses lados! Mas da próxima não vou deixar o GPS me enganar mesmo! hehehehe
      Bjo!

      Excluir
  2. Eu fui na Mina de Passagem na minha graduação em Geologia e foi bem legal. Não consegui ir na cidade como vc, estou devendo isso. Agora gps engana mesmo, pq as estradas de Minas não dá para fazer com média de velocidade alta e ir para São Thome de Mariana é bem longinho. Planeje uma viagem com calma para região. É melhor. Rs

    ResponderExcluir