quarta-feira, 8 de julho de 2015

O mitológico Deserto do Atacama

Deserto do Atacama

O lugar mais seco da Terra. O deserto mais alto do mundo. O céu mais limpo do planeta. Tudo no Deserto do Atacama parece existir no superlativo e, de fato, esse pedaço de mais de 1000km de extensão entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico resolveu carregar em si todo o exotismo que a natureza pode se permitir ter. E mesmo com essa aridez que lhe é peculiar, o lugar é habitado há milhares de anos por culturas pré-incaicas que desenvolveram ali uma impressionante adaptação às intempéries  desse habitat. A região que até a Guerra do Pacífico era pertencente à Bolívia, hoje é a menina dos olhos do Chile, já que em seu rico solo encontram-se grandes minas de cobre e lítio, sustentáculos de boa parte do PIB atual do país.


Deserto do Atacama
Thiago, a camisa 10 do Sampaio Correia e o Deserto

Chegamos aqui, vindos da Bolívia após três dias de aventuras entre o Salar de Uyuni e o Altiplano Andino. Nosso ponto de apoio, assim como de quase todos os turistas que vem para essa região, foi a vila de San Pedro de Atacama, que logo apelidamos (nada) carinhosamente de "Jericoacoara do deserto" pela quantidade de estrangeiros, agências de turismo e restaurantes internacionais em suas ruas de terra. A cidade é um charme, não nego, mas logo nos incomodou a ausência de nativos morando no centro (todo ocupado por comércio) e a falta de autenticidade do lugar. É muito bacana ver como San Pedro se tornou um grande pólo agregador de viajantes, mas o turismo de massa parece ser o que acabou predominando por aqui, com seus roteiros padronizados e nenhuma preocupação ambiental, nem com culturas locais. Uma triste constatação para nós.

San Pedro de Atacama e o Vulcão Licancabur
A turística San Pedro do Atacama com o imponente Vulcão Licancabur ao fundo

Foi bem difícil fugir disso e só depois de muito pesquisarmos, conseguimos achar uma linda família atacameña, que vive num dos quinze ayllus  (pequenas comunidades, dispostas ao redor do centro de San Pedro, mas com vida independente e com suas próprias associações de moradores), que aceitou nos receber. Lá eles desenvolvem um primoroso trabalho de turismo de base comunitária, onde nos hospedamos e passamos os melhores momentos dos nossos dias no deserto. Claro que essa experiência será esmiuçada num post próprio, pois o que vivemos lá merece um espaço só pra si.

Ayllu de Coyo, no Deserto do Atacama
Ayllu de Coyo com a Cordillera de la Sal ao fundo atrás dela, os Andes

Não deixamos de fazer também os passeios mais tradicionais, como o Vale da Morte e da Lua, que apesar de demasiadamente cheio valeu para entender melhor a geografia do Atacama e, sem dúvida, pelo pôr do Sol fabuloso observado do alto de uma das dunas da Cordilheira de Sal.

A geografia do Deserto do Atacama

Morfologia Atacamenha
fonte: Giorgetta.ch

Falando em geografia, a do Atacama é simples de entender. Espremido entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes, o deserto surgiu junto com essa última, quando houve o encontro das placas tectônicas de Nazca e do continente sul-americano. É evidente que a cordilheira não subiu toda de uma vez e inúmeras cadeias menores de montanhas foram formadas, como um imenso mar de morros  até chegar à gigante cordilheira andina, que na analogia com o mar seria a tsunami das montanhas. Uma dessas pré-cordilheiras é a Cordillera de la Costa, que é uma das responsáveis pela aridez do Deserto do Atacama, já que ela barra a umidade proveniente do mar, que fica todo concentrado em sua face ocidental. Entre esta e os Andes ainda há mais uma cadeia de montanhas, a Cordillera de Domeyko e onde encontram-se as maiores concentrações de cobre da região, sendo, portanto, sede de quase todas as minas do país. É essa a região mais árida do deserto, que pode chegar a ficar milênios sem receber chuva. Entre essas duas cordilheiras que citei acima (a de la Costa e a Domeyko) encontra-se o Plano Central, uma imensa depressão geológica, formada pela erosão dos Andes, que fica aprisionada pelas cordilheiras pré-andinas.

Salar de Atacama visto dos Andes
Lhama na Cordillera de los Andes com o Salar do Atacama em segundo plano e a Cordillera de Domeyko ao fundo

Em continuidade à Cordillera de Domeyko, encontramos uma formação característica do Atacama e única no mundo: a pequena Cordillera de la Sal, formada basicamente por gesso argila e sal, constantemente modelada por ventos e chuvas, formando estruturas exóticas e incríveis. Falarei mais dela, quando escrever sobre o Vale da Morte e da Lua, que foi a parte que conhecemos dessa cordilheira.

Vale da Lua, ou Cordilheira de Sal, no Deserto do Atacama
Cordillera de la Sal no plano de baixo e Cordillera Andina (onde estão os picos nevados) ao fundo

E ainda há uma outra depressão geológica entre a Cordillera de Domeyko e os Andes, chamada Depressão Andina, onde ocorrem, aqui sim, precipitações importantes, que ficam represadas nessa região pela presença das montanhas ao redor, fazendo com que a água evapore no período seco, formando salares e lagunas, como o Salar de Atacama, o maior do Chile, onde ocorre o extrativismo de lítio e bórax no país e onde vivem populações indígenas dispersas. Aqui está, por exemplo, a cidade de San Pedro do Atacama, a maior comunidade dessa região do deserto com cinco mil habitantes.

Depressão Andina, no Deserto do Atacama
Depressão Andina do Atacama com os Andes ao fundo
(foto feita da Cordillera de la Sal)

É só depois de tantas pré-cordilheiras e depressões, que, finalmente, começa a Cordilheira dos Andes propriamente dita, caracterizada por intensa atividade vulcânica, já que quando a Placa de Nazca subiu ao encontrar com a Sul-Americana, boa parte do magma foi junto, levando a formação de inúmeros vulcões. E com toda esse vulcanismo, liberando magma e cinzas, houve o preenchimento dos espaços entre morros, formando um planalto, o Altiplano Andino (ou Puna), que é uma região árida, fria e quase desabitada. Atualmente, a maioria dos vulcões já está extinto, mas muitos ainda são ativos, como o Lascar, cujo última erupção foi em 2006 e causou grandes problemas nos céus de todo o continente.

Vulcão Láscar e Laguna Chaxa, no Salar do Atacama
Vulcão Láscar refletido nas águas da Laguna Chaxa

Mas o vulcão mais famoso do Atacama e também o mais sagrado para os atacamenhos é, sem dúvida alguma o esplendoroso Licancabur com seus 5916 metros de altitude, que domina a paisagem do deserto e também pode ser visto no Altiplano Andino, já que ele fica próximo à famosa Laguna Verde, no lado boliviano. Com seu cume apontando para o céu, foi palco de adoração e devoção dos povos pré-incaicos que viviam no deserto, tanto que nas ruínas encontradas, por exemplo, em Coyo, as casas tinham suas portas e janelas viradas para o vulcão em total reverência à sua presença. Em kunza (a antiga e quase extinta língua atacamenha), Licancabur significa povo do alto e, assim como os outros vulcões, era adorado como divindade. Após a invasão dos incas em território atacamenho, entre os séculos XV e XVI, os vulcões passaram a ser locais de sacrifícios e cultos ao Sol, sendo erguidas várias construções em seus cumes, muitas delas se mantendo intactas até hoje. A chegada ao alto do Licancabur trouxe a descoberta de um imenso lago em seu cume, considerado hoje o mais alto do mundo.

Vulcão Licancabur e Juriques, no Deserto do Atacama
Vulcões Licancbur (à esquerda) e Juriques (à direita),
refletidos na Laguna Tebinquiche

O céu do Atacama e o projeto ALMA

E não só de cordilheiras e vulcões vive o Atacama. Seu céu de limpidez desconcertante atrai não só amantes das estrelas, como a própria NASA montou aqui o famoso Projeto ALMA, o maior projeto astronômico do planeta, com suas 66 potentes antenas instaladas a 5000 metros de altitude, que são capazes de detectar detalhes espaciais que nenhum outro telescópio consegue.
Claro que ver o céu do Atacama era um de nossos objetivos na viagem e até conseguimos admirá-lo (a olho nu) nas primeiras noites do deserto. Mas, em plena maré de azar que nos assolou nesses dias bolivianos e chilenos, o tour astronômico que marcamos com antecedência foi desmarcado pelo mal tempo. Murphy estava mesmo brincando conosco, já que são pouquíssimos os dias do ano que existem nuvens no céu do Atacama. Mas, como prêmio de consolação, nos restou os documentários sobre o ALMA e suas descobertas revolucionárias.

De vingança, quando voltamos ao Brasil, fomos até Cunha num encontro anual de astrônomos amadores e lá pude ver, pela primeira vez, os anéis de Saturno e me emocionei como se estivesse no Atacama. Só que a experiência fez aumentar ainda mais minha vontade de ver os detalhes do céu desse deserto mágico. Quem sabe na próxima vez.


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