segunda-feira, 13 de julho de 2015

A Cordilheira de Sal do Deserto do Atacama

Vale da Lua, no Deserto do Atacama

Não tínhamos um roteiro pré-definido quando chegamos no Deserto do Atacama. Havíamos pesquisado algumas poucas coisas na internet, o que foi uma grande falha, pois não tínhamos ideia das possibilidades da região e tivemos bastante dificuldade para fugir do turismo de massa de San Pedro do Atacama. Um dos poucos lugares que eu tinha certeza que queria conhecer era o famoso Vale da Lua e da Morte, que já havia me encantado muito antes de pensarmos em fazer essa viagem. Nossa ideia era chegar até lá de bicicleta, mas não conseguimos, pois ainda sentia fortes dores no braço direito, após o acidente que sofri na Laguna Hedionda, ainda quando estávamos na Bolívia. Ainda tentamos fugir das agências procurando um carro para alugar, mas a maré de azar que nos assolou nessa viagem ainda nos perseguia e descobrimos que um feriado prolongado no Chile cairia bem no período de nossa estadia em San Pedro e, por conta disso, todos os carros já estavam alugados. Não tivemos outra opção a não ser nos juntar a horda de turistas que seguiam em inúmeras vans para nosso primeiro contato mais próximo com o deserto, na fabulosa Cordillera de la Sal.

Vale da Lua no Deserto do Atacama
Cordillera de la Sal

Estudando sobre o Salar de Uyuni para escrever meus posts, descobri um primorosa página na internet, escrita por um viajante de nome Mario Giorgetta que desbravou por anos essas paragens, observando os detalhes e ouvindo as histórias do povo da região. O resultado dessa aventura é possível ler no El Silencio, o mais completo material que encontrei sobre o lugares que passamos nessa viagem e com informações pertinentes e cuidadosas, além de lindas fotos.  Com ele aprendi que os Vales da Morte e da Lua surgiram após tentar-se construir túneis para carros nessas duas regiões, que tombaram, pela força dos ventos e das dunas. Com o insucesso da empreitada, ambos os lugares ficaram abandonados e passaram a ser utilizados para fins turísticos. Mas, a verdade é que toda a Cordillera de la Sal, que tem cerca de oitenta quilômetros de extensão apresenta as mesmas características desses dois vales.
Na página que citei acima, o autor compartilha dezenas de fotos deslumbrantes em diversos pontos da cordilheira, todas com a paisagem composta pelo que a domina: argila, gesso e sal. O lindo desse trabalho do Giorgetta é que, justamente para proteger esses lugares e evitar a chegada do turismo de massa, ele não coloca as coordenadas do GPS de onde ele foi, diferente dos outros lugares ao longo do Salar de Uyuni, por exemplo, que assim ele o faz. Achei essa atitude de uma delicadeza e respeito admiráveis, numa tentativa (egoísta com os humanos, mas altruísta com a natureza) de preservar esse lugar único na Terra.

Vale da Lua no Deserto do Atacama
Gesso, sal e argila é o que compõe a paisagem

O Vale da Morte

Mas, ao contrário do Giorgetta, nós não tivemos outra escolha senão entrar na onda do turismo de massa e assim partimos numa linda tarde de céu estupidamente azul e sem nuvem, numa van abarrotada de gente. Nossa primeira parada foi no Vale da Morte, um imenso amontoado de estratos sedimentares verticais, formando quebradas (ravinas, em português), que logam me impactaram pela altura e aparência. O nome foi escolhido por não haver nessa região nenhum indício de vida, pela aridez e excesso de sal na terra, mas fato é que toda a Cordillera de la Sal tem a característica de ter escassa fauna e flora, sendo o único lugar do mundo considerado naturalmente asséptico (ou seja, sem bactérias). É claro que a presença humana tem alterado isso e até mesma o escapamento dos carros libera umidade, que faz crescer plantas que não cresceriam de outra maneira, mas ainda é prevalente a crueza da paisagem.

Vale da Morte no Deserto do Atacama
Turistas passeiam de cavalo na antiga estrada que passava pelo Vale da Morte

Vale da Morte com o Vulcão Licancabur ao fundo

Como todo bom passeio turístico, demos uma olhada, tiramos umas fotos e logo partimos para o próximo destino: um lindo mirante de um dos pontos mais altos da Cordillera de la Sal, onde podíamos ver boa parte da própria cordilheira, assim como a região da Depressão Andina (onde ficam a maioria dos oásis do deserto, como comentei no último post) e ainda as imponentes montanhas dos Andes. Uma visão fenomenal, na minha opinião, mas não na do guia que insistia para que fôssemos num outro ponto onde "a vista era melhor". Para isso, pagamos uma entrada à comunidade que administra esse outro mirante e pudemos ver exatamente a MESMA paisagem. Aliás, eu até achei o primeiro mirante mais bonito, pra ser honesta. Bom, pelo menos, foi barato e ajudamos os atacamenhos (assim quero pensar para não me sentir tão boba).

Deserto do Atacama
Depressão Andina e os Andes, ao fundo

O mais divertido foi que no tal lugar com "melhores vistas" havia uma pedra, cuja paisagem atrás era bonita (em realidade, a cordilheira inteira é fenomenal), mas TODOS os guias levavam TODOS os turistas para fazerem sua foto ali e eles iam, um-a-um numa fila enorme, civilizada e organizada para tirarem sua selfie atacamenha. Com isso, tivemos que esperar o grupo anterior ao nosso terminar sua sessão de fotos e ainda os nossos amiguinhos da van para que eles também pudessem fazer o mesmo. Eu, confesso, adorei esse congestionamento, porque, enquanto eles se exprimiam num canto, eu e Thiago caminhamos pelo lugar, nos afastamos um pouco da multidão e conseguimos aproveitar, pelo menos uns minutinhos, da tranquilidade de estarmos quase sem ninguém por perto.

Vale da Lua no Deserto do Atacama
Parece maquete, mas é de verdade
Vale da Lua no Deserto do Atacama

Todos felizes com suas fotinhos, seguimos para o que foi, na minha opinião, a furada do dia: o passeio por uma gruta de sugestivo nome de CanoSegundo nossos guias, lá dentro haveriam formações de cristais de sal e desenhos geométricos na argila. Lindo, se não fosse o fato de que exatamente na nossa frente entrou nessa mesma gruta de uns 200 metros de extensão (no máximo) e alguns poucos centímetros de largura, um grupo de mais de trinta crianças de uma excursão escolar. Encaramos literalmente um congestionamento gigante para atravessar o lugar e eu, obviamente, que no meio daquela muvuca e gritaria não consegui ver cristal de sal nenhum. Se é que ele sobreviveu àquela multidão ensandecida. 

Vale da Lua no Deserto do Atacama
A única foto que consegui fazer da entrada do Cano, a Gruta Congestionada 

O Vale da Lua

Saí aliviada de lá de dentro e, finalmente, iríamos, agora sim, para o ponto alto do dia: o Vale da Lua. Como falei anteriormente, esse vale nada mais é que um nome turístico a uma pequena parte da Cordillera de La Sal, onde anteriormente havia uma estrada até Calama. 
Primeiro, fomos até uma das inúmeras estátuas de argila formadas pela paciência do vento ao logo de milhares e milhares de anos, esculpindo formas lindas e inacreditáveis. Elas existem aos montes na cordilheira e visitamos apenas uma delas, que recebe o nome de Três Marias, pois eram três estátuas que lembravam a mãe de Jesus. Eram três, mas não são mais, já que um turista irresponsável, num belo dia, resolveu subir em cima de uma delas e a derrubou, restando apenas duas atualmente. Um trabalho de milhares e milhares de anos da natureza foi destruído em segundos para que um imbecil tirasse uma única foto, que provavelmente ele esqueceria numa das postagens do Facebook assim que uma nova viagem com uma nova foto substituísse essa. Pois assim é o turismo de massa. Triste, muito triste.

Vale da Lua no Deserto do Atacama
As Duas Marias (onde antes eram três)

E a partir dali subimos uma das imensas dunas da região, de areia fina e difícil caminhada, para a assistir o momento mais dramático do dia no Atacama: o pôr do Sol. Tentamos achar um cantinho em meio à dezenas de turistas que lá também estavam e ficamos observando, deslumbrados, o nosso entorno. Lá de cima um vento delicioso afastava o barulho e todo o deserto parecia estar ali aos nossos pés. Pura ilusão, já que somos um nada diante daquele lugar, mas pelo menos por segundos conseguimos nos sentir integrados àquilo tudo.

Vale da Lua no Deserto do Atacama
Cordilheira de Sal com os Andes ao fundo

Embaixo da duna em que estávamos, um grande clarão se abria, formando o que os guias chamam aqui de Anfiteatro, já que várias dunas e montanhas envolvem o lugar, como numa espécie de Coliseu Atacamenho, onde o espetáculo é na arena, mas também em todos os seus arredores.

Vale da Lua no Deserto do Atacama
O Anfiteatro

Aliás, as dunas do Atacama merecem toda a atenção. Apesar de bem finas e fofas, elas não se movem com a rapidez das nossas dunas nordestinas, que chegam a invadir comunidades e destruir casas, como aconteceu na Velha Tatajuba, no ceará. Aqui, as dunas são praticamente imóveis, já que sua composição de minúsculos grãos de sal, argila e gesso fazem com que uma crosta finíssima se forme em sua superfície. A areia dessas dunas se forma pela erosão das partes mais sólidas Cordillera de La Sal e são carregadas muito pelos ventos gelados, provenientes do Oceano Pacífico, pela Corrente de Humboldt, cuja pouca umidade não chega até aqui, pois é barrada pela Cordillera de la Costa, como eu já havia comentado no post passado

Pôr do Sol no Vale da Lua do Deserto do Atacama.
Duna invadida pelos turistas para o espetáculo do pôr do Sol

E era no alto de uma dessas dunas que nós (e dezenos de outros turistas) nos posicionamos para o espetáculo que começava. Não há palavras que consigam expressar o que assistimos ali. De um lado, o Sol se escondendo atrás dos montes de sal e do outro lado, não só o céu ia mudando de cor, mas também as montanhas andinas ao nosso redor se transformavam, variando de infinitos tons de laranja e vermelho até chegar ao azul já quando a noite se aproximava. Aquela luz linda do crepúsculo aqui no Atacama chega ao seu esplendor e dura quase meia hora, mesmo depois que o Sol já se pôs. Aprendi também com o Girogetta, que isso se deve pela ionização de partículas na estratosfera, provavelmente pela secura do ar da região. Estar ali naquele momento foi inolvidável, enebriante, hipnotizante e todos os adjetivos possíveis para exprimir um dos mais bonitos ocasos que já assisti. 

Pôr do Sol no Vale da Lua no Deserto do Atacama
O Sol se esconde atrás da Cordilheira de Sal

Pôr do Sol no Vale da Lua no Deserto do Atacama
Tons laranjas e azúis se complementam durante o pôr do Sol
(à esquerda, Vulcão Licancábur e à direita Vulcão Juriques)
Pôr do Sol no Vale da Lua no Deserto do Atacama

É claro que Murphy (mais uma vez, dentre tantas, nessa viagem) resolveu brincar comigo e a bateria da câmera acabou na hora que as montanhas começaram a ficar azuladas. Eu, que sempre ando com uma bateria sobressalente para essas ocasiões, tinha a deixado dentro da mochila, que estava dentro da van alguns quilômetros distantes de nós. Por conta disso, não tenho nenhuma foto azul, mas tenho a memória e ela guardará bem guardadinha a imagem daquelas cores mágicas sendo pintadas na minha frente. Simplesmente, inesquecível.


Mais sobre o Deserto do Atacama:

E, na mesma viagem, a travessia pelo Salar de Uyuni:




Um comentário:

  1. gostei muito do seu relato e a preocupação com a natureza, me deixou mais curiosa ainda,gracias

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