segunda-feira, 20 de julho de 2015

Pelo Salar de Atacama: Ojos del Salar


Fim de tarde na Laguna Tebenquiche, no Deserto do Atacama.


Por pura ironia do destino, nossa estadia no Deserto do Atacama caiu justamente num feriado chileno prolongado e foi inevitável, pelo menos nos primeiros dias, dividirmos com uma horda de turistas os lugares que visitamos. Foi assim no Vale da Morte e da Lua e não poderia ser diferente num dos passeios mais famosos das agências de San Pedro: o tour pelas lagunas do Salar de Atacama. Isso porque em uma delas, a Laguna Céjar, é possível banhar-se em suas águas, cuja salinidade é maior que a do mar, permitindo que qualquer um flutue nela. Experiência parecida com a do Mar Morto, porém com um impacto ambiental bem maior, já que estamos no meio de um deserto com ecossistema frágil e num ambiente onde a água é escassa. Mas, apesar dessa experiência pouco ecológica e que eu tenho muitas críticas, não há como negar que a paisagem é simplesmente fenomenal. E é sobre esse dia de sentimentos conflitantes que relato a seguir.


Passeio pela Laguna Céjar, no Deserto do Atacama.
Vegetação atacamenha às margens da Laguna Céjar

O questionável banho na Laguna Céjar


Quase todos os passeios oferecidos por agências começam no meio do tarde, isso porque o calor do meio-dia no deserto não é brincadeira, mesmo no inverno. A vantagem é que quase sempre é incluso o pôr do Sol no pacote (triste esse mundo, onde até o entardecer é produto), o que para nós no contexto que nos encontrávamos (eu com o braço quebrado e sem conseguirmos alugar carro, por causa do feriado chileno, que esgotou a frota da cidade) foi a melhor solução encontrada.
Seguimos, então, numa van lotada para o passeio do dia e a primeira parada já era na famosa Laguna Céjar, onde precisávamos pagar para entrar. Achei o valor absurdamente caro (R$80 por pessoa), ainda mais pra mim que sequer entrei na água. Hoje, sem dúvida que não teria pago, tanto pelo preço, quanto pela atividade bastante questionável de permitir o banho numa laguna, onde deveriam viver flamingos e não seres humanos. Meu único alento nessa estória é pensar que esse dinheiro é pago diretamente para comunidades indígenas atacamenhas e, espero eu que eles façam um bom proveito desse dinheiro tentando preservar o resto de seu patrimônio, já que a laguna eles escolheram destruir.

Laguna Céjar, no Deserto do Atacama.
Laguna Céjar
(ainda sem turistas)

Eu estava bem incomodada ali com aquela situação, mas o Thiago estava animado para experimentar a sensação de não afundar e se deixou levar pela euforia do grupo, caindo também na água. Nós fomos um dos primeiros grupos a chegar ali e, por sorte, ainda consegui fazer algumas fotos da laguna vazia. Logo depois, uma multidão foi chegando e entrando na água e o lugar virou um verdadeiro balneário atacamenho.

Flutuando na Laguna Céjar, no Deserto do Atacama, onde ninguém afunda.
Laguna Céjar já invadida pelos turistas
A mim, totalmente deslocada naquele ambiente, me restou caminhar pelas redondezas da laguna e observar as miudezas que se escondiam em seu entorno. Os animais obviamente que estavam longe dali, fugindo da agitação e balbúrdia dos homo sapiens, diferente das plantas que não tem essa opção da locomoção e estavam ali, ignoradas pelos flutuadores das águas, mas impressionantemente lindas e marrons. Pude observar também outros Ojos del Salar, escondidos e protegidos da multidão que se aglomerava apenas na Céjar, o maior daquela região.

O entorno da Laguna Céjar, no Deserto do Atacama.
Cerro del Quimal (ponto mais alto da Cordillera de Domeyko)
vista da Laguna Céjar
Esses olhos d'água tão comuns nessa parte do Salar de Atacama são denominadas assim, pois em geral são circulares e brotam dos lençóis freáticos, como nascentes. Todas as lagunas podem ser consideradas Ojos del Salar, apesar de apenas as menores terem ficado conhecidas por esse nome. É importante notar que o volume dessas lagunas é pouco influenciado pela água da chuva (diferente dos Lençóis Maranhenses, por exemplo, que enchem e secam dependendo do índice pluviométrico) e são pouco renováveis, já que aqui chove pouco, o que significa que uma vez que alguma laguna seque, ela provavelmente desaparecerá para sempre. E é esse todo o problema de transformar esses locais em balneários. O ecossistema do Atacama é delicado demais para suportar tamanho impacto.
Passeio pela Laguna Céjar, no Deserto do Atacama.
Um Ojo del Salar ao lado da Laguna Céjar 
O banho na Laguna Céjar dura cerca de meia hora, tempo estipulado pelo guia. O Thiago foi um dos que mais ficou dentro da água e, ao sair, estava com a pele inteiramente branca de tanto sal que tinha nele. Foi engraçado ver meu preto virar branco, mas a verdade é que fiquei só imaginando o quanto que cada banhista não deve levar consigo de sal da laguna, que também não será reposto. Eis mais um impacto desnecessário no lugar.
E além de branco, o Thiago ficou com a pele absolutamente ressecada. Passamos os dias subsequentes a esse passando diariamente creme hidratante em suas costas, pernas e braços e se assim não fazíamos, ele começava a sentir coceira. Isso sem contar que ao sair da laguna, a única alternativa para tirar o sal do corpo era um chuveiro a céu aberto, cuja temperatura beirava os zero grau e eu, expectadora que era da cena, fiquei com dó das expressões sofridas do povo que entrava lá. No fim, concluí que esses turistas são mesmo loucos: pagam caro para destruírem a natureza e sofrerem com ressecamento e frio. Vai entender...

Vegetação próxima à Laguna Céjar, no Deserto do Atacama.
A flora do deserto

Depois da sessão de tortura, partimos todos para mais um dos Ojos del Salar, esse bem menor e mais profundo, onde a diversão era os saltos acrobáticos que o povo vazia ao pular nela. A vantagem é que nessa, pelo menos, não era necessário pagar. A desvantagem era que não havia nenhum chuveiro gelado e quem pulou ali teve que ficar com o sal no corpo até chegar em casa.

Ojos del Salar, no Deserto do Atacama.
Um dos tantos Ojos del Salar

O Pôr do Sol na Laguna Tebenquiche

E, por fim, chegamos ao lugar que mais me surpreendeu nesse dia: a Laguna Tebenquiche, onde o guia nos deixa num ponto e fomos percorrendo uma pequena trilha às margens da laguna, enquanto o entardecer ia compondo uma paisagem fabulosa ao redor. Na minha opinião, as fotos mais bonitas que fiz nesses dias atacamenhos, foi aqui nesse lugar, que ia mudando completamente a cada novo ângulo que olhávamos.

Passeio pela Laguna Tebenquiche, no Deserto do Atacama.
Cerro del Quimal refletido nas águas da Laguna Tebenquiche
Essa região do Salar do Atacama é mesmo muito diferente de tudo que já vi. Diferente, inclusive, do próprio Salar de Uyuni, que surgiu a partir da evaporação de um enorme mar interior que deixou como herança uma gigantesca e contínua capa de sal. Aqui no Atacama, a formação do salar foi bem distinta disso, já que surgiu de aportes salinos subterrâneos, que vem ao solo através das inúmeras nascentes, formando lagunas que quando evaporam, deixam o sal para trás. Assim é que passamos por muitas dessas fontes de água, ainda não evaporadas, como a Laguna Céjar, Tebenquiche, Chaxa, entre tantas outras. Além disso, em Uyuni, as chuvas anuais tem importante participação na renovação do salar, enquanto aqui as chuvas são bem mais escassas.

Pôr do Sol na Laguna Tebenquiche, no Deserto do Atacama.
Fim de tarde na Laguna Tebenquiche

Pôr do Sol na Laguna Tebenquiche, no Deserto do Atacama.

A caminhada por aquela região do Salar de Atacama, apesar de curta foi bem didática para entendermos sua formação e até mesmo sua composição, já que até isso é diferente de Uyuni, que fica num piso liso e contínuo. Aqui, o sal forma camadas altas, que podem até machucar quem anda descalço, já que é misturado com outros componentes, como argila e gesso. Aliás, é por isso que sua cor não é tão branquinha quanto em Uyuni. Depois de evidenciada tantas diferenças entre os dois salares não é difícil concluir que conhecer um não é o mesmo que conhecer os dois, como muitas agências de turismo propalam por aí.

Pôr do Sol na Laguna Tebenquiche, no Deserto do Atacama



Pôr do Sol na Laguna Tebenquiche, no Deserto do Atacama

O passeio terminou com um lanchinho servido pelo guia, que foi bem recebido por nós e nos serviu de janta, mas serviu também para curtir ainda mais os últimos raios de Sol daquele fim de tarde fabuloso. Um brinde ao Atacama com a esperança de que o turismo de massa não destrua esse lugar único no mundo.


Mais sobre o Deserto do Atacama:

E, na mesma viagem, a travessia pelo Salar de Uyuni:

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